| Sexta-feira, Outubro 31, 2003 GABRIELA ANDRADE DA SILVA Di�rio de Campo - Um dia em nove partes PARTE 4 - FIM DA IDENTIDADE SECRETA Eu estava achando estranho o fato de C�ntia n�o ter percebido, at� aquele momento, que eu n�o era uma faxineira "de verdade". Afinal, ela j� tivera uma experi�ncia assim h� dois dias, e eu estava t�o desajeitada... Mas minha identidade durou pouco tempo. Logo ela perguntou: - Voc� mandou curr�culo para c�? - N�o, n�o... Eu... Uma amiga minha conhece a Marilene. - Ah... Mas voc� j� entrou sabendo que vai ficar, ou voc� s� t� vendo, ainda? - N�o... Eu ainda estou vendo. Talvez eu fique s� hoje... - Voc� n�o � estudante, que nem os outros dois que vieram aqui s�bado, n�o, n�? - Bem... J� que voc� perguntou... Sim, eu sou estudante. Estou fazendo um trabalho, e venho s� hoje. - Ah, t�... Eu estava estranhando, mesmo... Voc�s s�o estudantes daonde, mesmo? Da USP, n�? L� em S�o Paulo... - �. Somos da USP. - E que curso voc�s fazem, mesmo? - Psicologia. - E por que voc�s vieram trabalhar aqui, em vez de ficar l� em S�o Paulo? - Porque na verdade, eu moro aqui. Quero dizer, eu moro em S�o Paulo e aqui ao mesmo tempo. Tenho um apartamento em S�o Paulo, que divido com outras meninas, mas sou daqui de Campinas, e venho passar os fins de semana aqui, com meus pais. � verdade que moro perto do shopping Parque Dom Pedro. - Ah, t�... E est� s� voc�, aqui, ou tem mais um, que nem da outra vez? - Uma amiga minha tamb�m est� aqui. Percebi que, a partir da�, a rela��o mudou. Ela j� n�o me tratava como uma funcion�ria, como uma companheira de trabalho, mas como uma aprendiz, uma estagi�ria. O pr�ximo trabalho era encerar corrim�es. Esse shopping, como eu j� disse, tem uma decora��o sofisticada. Ele � mais ou menos oval, e o centro dele � ocupado por pedras, plantas e �guas. Tem o piso t�rreo, o subsolo, onde se localiza uma parte do estacionamento e algumas lojas que abriram h� relativamente pouco tempo (a chamada alameda de servi�os) e um andar superior. Esse andar superior tamb�m � aberto no centro, em forma de mezanino, para que os freq�entadores possam ver, l� de cima, a decora��o. � claro que h� uma esp�cie de cerca de vidro para que ningu�m caia de l�, e sobre essa cerca, que d� a volta em todo o shopping, h� um corrim�o prateado. N�s t�nhamos que encerar todo esse corrim�o, e mais os das escadarias dos pisos de baixo... Antes de eu come�ar, por�m, C�ntia pediu-me que devolvesse o aspirador de p�. Fui at� a sala de limpeza, onde havia encontrado com Marilene, e me perdi no caminho. Eu realmente n�o estava acostumada a andar nos "bastidores" do shopping. Os outros funcion�rios novamente me ajudaram, parecendo achar divertida minha desorienta��o. Depois disso, C�ntia deu-me um pano �mido de �lcool e vaselina, o qual eu deveria passar para polir os corrim�es. Enquanto isso, ela "fazia a pedra preta", como ela dizia. A tal pedra preta � uma pedra polida que fica no ch�o, por baixo da cerca. "Fazer a pedra preta" era passar um esfreg�o �mido na pedra, para limp�-la. Esses foram servi�os que eu nunca em minha vida tinha pensado que pudessem existir! Eu nunca imaginei antes que aqueles corrim�es e pedras pretas tivessem que ser polidos daquela forma e com aquela freq��ncia. Eu passava o pano e n�o via a menor diferen�a do corrim�o antes e depois da limpeza: parecia-me que aquele servi�o era uma mera formalidade. |
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