Quarta-feira, Outubro 29, 2003 GABRIELA ANDRADE DA SILVA Di�rio de Campo - Um dia em nove partes PARTE 3 - VIS�ES DIFERENTES Justino levou-me � companhia de C�ntia e disse a ela que eu ia ajud�-la naquele dia. C�ntia era, pelo que percebi, uma das poucas, se n�o fosse a �nica, funcion�ria negra do shopping. Uma jovem bastante animada. Estava trabalhando em frente � entrada principal do shopping, onde havia uma esp�cie de stand onde se alugam ou emprestam, n�o sei bem, carrinhos para beb�s e cadeiras de roda, al�m de darem informa��es, etc. Era cedo e o local ainda n�o tinha entrado em funcionamento. Nossa tarefa era limpar os sof�s, as mesinhas de vidro, os carpetes e tudo o que tinha l�. C�ntia explicou-me que eu deveria passar pano com �lcool em tudo por ali. Comecei a fazer isso enquanto ela cuidava de outros servi�os. Embora eu achasse que sabia passar pano com �lcool em m�veis, pois fazia isso em casa, em poucos minutos fui corrigida. Ela disse para eu passar o pano em um sentido s�, pois se passasse em v�rios sentidos, como estava fazendo, mancharia o tampo de vidro das mesinhas. Limpei com �lcool inclusive a tela do computador (um computador bastante avan�ado que havia l�: a tela era plana e bem grande), o que me provocou uma tremenda afli��o. Perguntei a ela umas duas vezes se realmente podia passar �lcool na tela, se n�o iria estragar. Segundo ela, s� n�o podia passar o pano muito encharcado, porque a� escorre e estraga. Pelo visto, n�o era s� meu esse tipo de preocupa��o. Havia um seguran�a pr�ximo de n�s, e diante da situa��o da limpeza do computador, ele estabeleceu com C�ntia o seguinte di�logo: - Pode passar �lcool na tela do computador, C�ntia? - Pode. � s� n�o passar o pano muito molhado, que sen�o mancha. - V� l�, hem... N�o vai estragar isso a�... Sen�o, acho que voc� vai ter que trabalhar uns dois anos de gra�a, para pagar... - Dois anos?! Dois anos no seu caso, que voc� ganha uns dois mil reais por m�s! No meu caso, acho que teria que trabalhar a vida inteira de gra�a! O seguran�a, atendendo a um aviso pelo r�dio, foi para fora do shopping. C�ntia come�ou a conversar comigo. - Voc� mora perto daqui? - Mais ou menos. Moro perto do shopping Parque Dom Pedro. - Ah, l� � bom que tem �nibus direto, n�? - Sim, tem �nibus direto. Mas ele demora um pouco. (Nesse momento, fiquei pensando na sorte que eu tinha de conhecer a linha de �nibus que faz o trajeto do shopping que fica quase ao lado da minha casa at� o shopping Galleria). - Ah, assim � bom que n�o tem que acordar muito cedo... - � verdade. - Voc� j� trabalhou com faxina, antes? - N�o... S� faxina na minha casa, mesmo. Em lugar assim, � a primeira vez... - Ah, ent�o t� que nem eu... Ca� de p�ra-quedas aqui, tamb�m... Nunca tinha feito faxina, quer dizer, s� em casa, n�... Da� vim pra c� e tive que aprender tudo! - �... - Mas voc�, tamb�m, deu uma sorte, n�... Chegou aqui hoje e amanh� j� vai pegar treinamento! (Percebi um tom de sarcasmo quando ela falou a palavra "sorte".) - Ah, amanh� tem treinamento? (Achei interessante treinamento para faxineiros. Fiquei pensando em como ser� que era, o que ser� que eles ensinavam. Ser� que C�ntia tinha aprendido no treinamento que deveria passar o pano na mesa em um s� sentido? Ser� que quando entrou, algu�m explicou isso para ela, que nem ela estava fazendo comigo? Ou ser� que ela aprendera sozinha?) - Tem. Tem treinamento uma vez por m�s... - E como � treinamento? - Ah, � meio chato... Quer dizer, at� � legalzinho, eles falam sempre as mesmas coisas... Como a gente deve tratar os clientes, que a gente n�o deve conversar com os seguran�as... Mas n�o adianta nada, que a gente conversa mesmo assim! Voc� viu, n�, a gente nem precisa ir l�, eles � que v�m at� aqui falar com a gente... Falam pra gente chegar cedo, n�o atrasar, mas a gente atrasa mesmo assim. A gente fica conversando, n�... At� 5 minutinhos ainda n�o tem problema. Da� de vez em quando eles passam uns v�deos, umas coisas assim... Mas � ruim que demora... No m�s passado a gente ficou aqui at� �s 7 horas da noite... Mais de 12 horas dentro desse shopping, voc� j� pensou? - Nossa, deve ser horr�vel... (Enquanto falava isso, lembrei-me de que j� havia passado mais de 12 horas dentro daquele shopping, e foi bastante divertido. O contexto era totalmente diferente.) - Ainda se o pessoal da tarde � bonzinho com a gente e chega cedo, a gente pode ir embora, mas se eles atrasam, a� demora mesmo... - Nossa... Tomara que eles cheguem cedo, ent�o! Continuamos limpando as coisas. C�ntia mandou-me passar aspirador de p� nos tapetes. Era um aparelho enorme, amarelo, tinha rodinhas para que pud�ssemos pux�-lo facilmente. Perguntou se eu j� havia mexido com aspirador alguma vez. Eu disse que sim. Ela ent�o me mostrou como deveria fazer, e disse para eu aspirar aqueles tapetes enquanto ela ia limpar as pedras, que eram mais dif�ceis. Esse shopping tem uma decora��o muito sofisticada, com v�rias pedras, plantas, quedas d'�gua, fontes, riozinhos artificiais, etc. As pedras que ela foi limpar formam uma das fontes do shopping, que, no momento, estava desligada. Tive uma certa dificuldade com a locomo��o do aspirador, mas n�o muita. Era mais leve do que eu pensava. Mas ela certamente fazia aquilo muito melhor que eu, o que percebi por comparar meus movimentos com os dela no momento em que ensinou-me. Tive uma certa inveja do aspirador... Era t�o f�cil remover as sujeiras do tapete com ele! Bem diferente do aspirador que utilizamos para limpar o apartamento onde moro, que parece que nem faz diferen�a quando a gente passa. E mesmo assim, C�ntia falou: - � ruim esse aspirador, n�? A gente passa e parece que nem faz diferen�a! |
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