Sexta-feira, Outubro 24, 2003

GABRIELA ANDRADE DA SILVA

Di�rio de Campo - Um dia em nove partes

PARTE 2 - Metalinguagem da faxina



A sala em que est�vamos n�o era muito grande e estava cheia de aparelhos de limpeza (aspirador de p�, enceradeiras, etc.) enormes. Havia tamb�m uma mesa com uma garrafa t�rmica cheia de caf�. Uma divis�ria de madeira separava essa parte da sala de uma outra que tinha um arm�rio com chaves, onde eram guardados uniformes, luvas, toucas e alguns materiais de limpeza. Marilene entrou l� e ouvi-a conversar com Justino, reclamando que n�o encontrava uniformes novos para n�s. Enquanto ela procurava, fiquei observando a sala, e a vis�o de todas aquelas m�quinas e aparelhos (alguns eu nem sabia para que serviam) deixava-me ansiosa. Ser� que eu conseguiria aprender a us�-los? Na parede, algumas tabelas indicavam os hor�rios de cada funcion�rio. Uma palavra chamou-me a aten��o: "banheirista". Certamente, esse era um neologismo cuja inven��o foi uma exig�ncia daquele tipo de trabalho... Estavam escritos os nomes dos banheiristas de cada dia: Andr�ia, Valdir, Amadeu... Havia tamb�m alguns cartazes que continham avisos, como por exemplo "N�o colocar sacos de sanito nas lixeiras externas do shopping". Ao meu lado, estava uma t�bua e um ferro de passar roupas. Fiquei curiosa pensando em para que serviriam... Para que se passam roupas em um shopping?

Logo descobri. Marilene voltou com os uniformes e come�amos o servi�o passando-os para podermos us�-los. Quando ela nos mandou fazer isso, fiquei um pouco apreensiva, pois eu raras vezes havia passado alguma coisa em minha vida. Geralmente, quando eu tinha que passar alguma pe�a, pedia para minha m�e faz�-lo para mim. Deixei a Adriana passar o uniforme dela primeiro, fiquei olhando bem como ela fazia, e conclu� que n�o havia grandes mist�rios, era s� passar o ferro por cima de onde estava amarrotado, tomando cuidado para n�o queimar o dedo nem a roupa. Adriana terminou e foi ao vesti�rio trocar-se. Passei meu uniforme tamb�m, e percebi que a falta de pr�tica fez com que ele ainda ficasse um pouco amarrotado. Decidi que iria treinar em casa, pois cheguei � conclus�o de que era uma absurdo eu ter 19 anos e n�o saber passar uma roupa! Algo que ainda n�o sei � se os funcion�rios sempre passam seus uniformes antes de trabalhar. Afinal, h� apenas uma t�bua e um ferro, e se todos tiverem que passar seus uniformes, a fila deve ser grande e eles devem perder bastante tempo. Por�m, se eles levam o uniforme para passar em casa, por que tem uma t�bua e um ferro l�? Ap�s terminar de passar o uniforme, fui ao vesti�rio trocar-me. Estava vazio, Adriana j� tinha ido trabalhar. Ningu�m, al�m de mim, estava l�. Veio-me novamente a preocupa��o de estar atrasada. Mais tarde, descobri que o hor�rio de entrada dos funcion�rios � �s 6:40, mas Marilene pediu-nos que cheg�ssemos �s 7 horas.

O vesti�rio era bastante limpo, e ent�o pensei em algo que nunca havia pensado: que as faxineiras t�m que limpar n�o s� o shopping, em si, mas tamb�m os "bastidores" do shopping: as salas de limpeza, o almoxerifado, os corredores, o refeit�rio, o pr�prio banheiro e vesti�rio que elas usam. Isso pareceu-me uma esp�cie de metalinguagem... Faxineiras faxinando a ala de faxina. E quando termina o expediente, elas t�m que limpar a pr�pria casa. Ou seja, elas trabalham o dia inteiro, seja no shopping ou em casa...

O uniforme ficou grande para mim, o que eu j� esperava que acontecesse. A cal�a ficou sobrando nos p�s, seria necess�rio fazer barra, caso eu fosse trabalhar por mais dias. Dobrei-a. Dif�cil mesmo foi enfiar os cabelos na touca... Meu cabelo � muito liso, e eu, inadvertidamente, n�o levara nada para prend�-lo... Fiz como fa�o com toucas de banho, quando n�o quero lavar a cabe�a: enrolei todo o cabelo, pus a touca, depois fiquei colocando um a um os fiozinhos para dentro. Estava pronta. As luvas amarelas de borracha deram o toque final. Dobrei minhas roupas e olhei-me no espelho. Tive vontade de rir. N�o parecia que eu estava uniformizada para o trabalho. Parecia, isso sim, que eu estava vestindo uma fantasia ou um figurino. Sim, parecia muito um figurino para o papel social que eu representaria naquele dia.

Sa� do vesti�rio e fui procurar Marilene. Ela guardou minhas roupas e minha bolsa no arm�rio dentro da sala da faxina e arrumou minha touca, pois ela tinha que ser virada para cima em uma parte, coisa que eu n�o sabia. Deu ordens ao Justino para que ele me mostrasse tudo: eu deveria trabalhar com a C�ntia, e deveria ver a abertura dos banheiros com a Andr�ia, o recolhimento do lixo com o Nei, a pra�a de alimenta��o com a Iracy...
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