| Domingo, Agosto 01, 2004 FELIPE HENRIQUE PACHELLI RODRIGUES Ang�stias de um presente sem passado Como sempre, aqui estou eu, em meu ref�gio. Na verdade � simplesmente minha alcova, mas � tamb�m o �nico lugar em que me considero seguro. Sei que a maioria das sombras que sempre enxergo por todos os lados s�o fantasmas da minha pr�pria mente, espectros de um passado t�o pouco long�nquo, mas muito, muuuito distante. Entendo que � mais f�cil para os meus inimigos me capturarem em minha pr�pria moradia, caso eles sejam reais, no entanto s� aqui minha vida � um pouco menos pesarosa. Mesmo assim, passei a crer que aqui ningu�m me procurar�, visto que preferi acreditar que todos os meus inimigos s�o inventados pelo meu subconsciente, ou talvez sejam mem�rias, trazidas por pequenas janelas da minha mente, abertas para a minha vida de outrora, que eu sequer imagino como tenha sido. Meu medo real � esse: que sejam minhas pequenas mem�rias remanescentes que estejam tentando me avisar sobre meus inimigos. Ou esses meus eternos perseguidores seriam reflexos dos meus maiores medos, provavelmente efeitos de um trauma do passado? Que passado? Nunca compreendi as formas de conjugar o passado do indicativo, mas apenas do subjuntivo. Se, se, se... a vida para mim tornou-se um eterno "se". No entanto esse "se" nunca foi part�cula apassivadora, pois nunca me deixou em paz, apenas serviu para me deixar alarmado, preocupado, agitado. Eu estou divagando novamente, o que tem a ver apassivar com pacificar? Por um momento isso me pareceu l�gico. Por v�rios momentos o inadmiss�vel me parece o mais sensato. Eu nem imagino qual seja esse eventual trauma que me assola, ou se chegou a ser algum dia. Talvez como tudo em que acredito atualmente, n�o tenha passado de especula��o. O problema maior � que eu n�o sei no que acreditar. A pr�pria constru��o de meus pensamentos s�o redundantes nessa fixa��o sobre o passado, veja: "n�o tenha passado de especula��o". Eu me tornei irritantemente pleon�stico. O passado virou minha conjuga��o verbal. � o substantivo, o verbo, o adv�rbio, o adjetivo, o sujeito e o predicado da minha vida. N�o entendo por qual motivo eu deveria me fixar a uma gram�tica real se minha vida � toda imagin�ria! Minha vida � um n�mero no campo dos complexos. Ela na teoria existe, mas na pr�tica n�o. Dizem que serve para muita coisa, mas quase ningu�m v� utilidade alguma nela. Esse sou eu, um in�til, um inepto. Devo servir para algo, mas o qu�? Devo ser algu�m, quem? Se n�o sei nem quem sou, como poderei saber se meus inimigos s�o reais? Sempre procuro descobrir o porque de eu ser t�o bom de portugu�s, de matem�tica de biologia, de ci�ncias humanas e de psicologia e n�o lembrar de nada que possa me ajudar. Por que o mais simples eu n�o sei? Quem sou eu? O que aconteceu comigo? Por que esquecemos as mem�rias e os conhecimentos n�s mantemos? Eu preferia perder todo o meu conhecimento, tornar-me um total ignorante, s� para saber quem eu sou de fato. Talvez eu n�o saiba tanto assim sobre biologia e psicologia quanto eu pense, sen�o eu entenderia o c�rebro humano. Eu n�o sei nada, na verdade eu n�o sou nada. Devo ser um sujeito presun�oso e asqueroso, imposs�vel de ser suportado. Por isso devo ter tantos inimigos! Talvez eu seja um grande pensador e tenha enlouquecido com isso. Esse seria o motivo da minha presun��o e petul�ncia! SIM! Por isso me vigiam, eles me querem vivo, precisam que eu me lembre das minhas pesquisas! Eu sou muito valioso! Muitos g�nios da humanidade tiveram como destino final a insanidade. Ser� que � isso que est� afetando minha mem�ria? Eu sou louco?! N���O!!! Se eu fosse louco eu acreditaria em algo absurdo, ou que as pessoas ditas normais v�em como fora do toler�vel. Eu sou totalmente incr�dulo, sou um c�tico rom�ntico. Sou t�o c�tico que o meu n�o crer em nada chega a ser t�o ing�nuo quanto os sonhos de um indiv�duo rom�ntico. Se bem que eu acredito que est�o me vigiando, me perseguindo. � a �nica coisa em que acredito. Pode ser que eu seja apenas complexado... J� sei!!! Apagaram a minha mem�ria pois roubaram o meu projeto e n�o querem que eu me lembre de nada! Tiraram-me o empenho de uma vida! Olha eu aqui, divagando de novo... isso aqui � Brasil, n�o tem CIA, n�o tem Interpol, n�o tem Scotland Yards. Tem apenas Garra e Rota. Talvez os policiais tenham me espancado tanto que eu tenha sofrido amn�sia por isso, por levar tantas pancadas na cabe�a. Preciso parar de assistir esses filmes norte-americanos idiotas, isso � lavagem cerebral e n�o quero perder o pouco de massa encef�lica ativa que ainda tenho. Acho que � isso ent�o. Parece que cheguei a uma conclus�o mais l�gica do que tudo at� hoje. N�o sou g�nio coisa nenhuma. Devo ter sido um marginal, isso sim. Os inimigos que vejo s�o os policiais me perseguindo no passado, passado esse que tanto temo. Pegaram-me, espancaram-me e eu perdi a mem�ria. Acordei num beco escuro e mal-cheiroso, cercado pelos nefastos ratos. Isso faz sentido, uma vez que a primeira coisa de que me lembro dessa minha vida t�trica � de ter acordado nesse m�rbido beco. N�O! Isso � rid�culo, eu sou rid�culo. Se eu fosse um marginal, como teria tanto conhecimento de portugu�s, matem�tica e ci�ncias? Nem que eu fosse um prod�gio. As desigualdades sociais desse pa�s n�o permitem. E eu sou loiro de olhos claros. Por mais que eu evite fazer um julgamento preconceituoso, � pouco prov�vel que eu seja um favelado, ou algo assim. Talvez eu n�o fosse t�o inteligente antes. Fiquei por tantas semanas na biblioteca, lendo livros sobre biologia e psicologia, para tentar descobrir uma cura para meu problema, que eu tenha melhorado muito meu portugu�s e tamb�m adquirido invej�veis conhecimentos sobre as ci�ncias em estudo. O meu "saber" em matem�tica pode ser apenas facilidade com l�gica, um dom. Isso n�o impede de eu ter sido um marginal. Mesmo tendo biotipo n�rdico, n�o � seguran�a de que eu n�o tenha sido muito pobre. Noutro dia assisti num jornal uma reportagem sobre descendentes dos �ndios que s�o fisicamente parecidos comigo, ap�s algumas gera��es miscigenadas! Quem n�o garante que sou um ind�gena marginalizado? Sei l�, talvez minha l�gica n�o seja boa como eu pense, talvez apenas no meu mundinho eu seja inteligente. Eu estou divagando cada vez mais. O que eu devo ter � uma doen�a degenerativa no c�rebro. Pelo que li nos livros, a hip�tese � v�lida e pode ser concreta. Acho que nunca me espancaram e nem bati com a cabe�a. Provavelmente meus neur�nios � que est�o morrendo. O setor do meu c�rebro respons�vel pela mem�ria deve ter sido destru�do... Se pelo menos eu tivesse coragem de tentar levar uma vida social, ao inv�s de me trancar nesse quartinho escuro e velho, com uma televis�o branca e preta de 14 polegadas e sendo alimentado por uma nobre idosa, que s� me d� comida por d�, talvez eu pudesse descobrir algo. J� SEI! Vou ao ambulat�rio, inventarei uma enxaqueca e a� far�o exames na minha caixa craniana. � poss�vel que descubram se h� algo mutilado no meu enc�falo! Se � alguma doen�a ou se eu sofri alguma pancada que tenha, por ventura, o afetado. Sei l�! � uma esperan�a. Dizem que a esperan�a � a �ltima que morre. Pelo visto eu morrerei primeiro, alimentando essa esperan�a est�pida. Crer em algo � para os tolos que preferem erguer as m�os para o c�u e aguardar uma d�diva divina. � desculpa para os fracos cr�dulos. Os espertos lutam pelo que querem. Eu j� tentei ser esperto. Hoje me classifico como tolo. E nenhuma das op��es me fez descobrir nada sobre o meu passado. E acho que em breve tamb�m n�o terei mais dedos, pois minhas m�os j� est�o ficando deformadas de tanto socar as paredes de �dio. Por que eu? O que eu fiz para merecer tal puni��o? Isso � besteira, eu n�o acredito em destino. Tamb�m n�o acredito em Deus. Se ele existisse, me daria a resposta que eu tanto anseio. Eu devo ser um b�rbaro, para ser tomado constantemente por uma c�lera autodestrutiva como essa que nada me traz de respostas aos meus incans�veis questionamentos. � como se eu sentisse necessidade de me flagelar, por isso soco as paredes e me rem�o em tanto sofrimento. N�o, mesmo os b�rbaros cr�em em deuses. Talvez fosse ao contr�rio, eu teria sido um fan�tico religioso na minha outra vida, pois � assim que chamo o meu passado, minha outra vida. Hoje vejo que o caos parece conspirar contra mim, se � que isso � poss�vel. Eu tenho certeza que at� o caos tem uma certa ordem. Eu devo ser um acidente da natureza que precisa ser eliminado, um tipo de aberra��o. Mas isso soa como destino. Como se meu sofrimento j� estivesse escrito. Eu acredito somente em livre-arb�trio, pois � a �nica op��o existente para um c�tico como eu. Se eu conseguisse deixar de ser t�o paradoxal, � prov�vel que tudo ficaria mais f�cil. Uma coisa � certa: eu tenho mania de persegui��o. Exatamente por isso o problema maior s�o os meus inimigos... e se eles me capturarem, me matarem. Bom, pelo menos assim esse eterno mart�rio acabar�. Quem sou eu para dizer mart�rio? Devo mesmo ser muito presun�oso... nunca fui um m�rtir. Sou apenas um desmemoriado que se tornou um mendigo. Tenho um teto gra�as a essa excelente vi�va de 68 anos que me alimenta com o sal�rio m�nimo que recebe do INSS de pens�o do falecido marido. Ela sim � um m�rtir! Conseguir viver com uma quantidade t�o �nfima de dinheiro num mundo capitalista selvagem como esse e ainda sustentar um vagabundo como eu. Mas o que posso fazer se ningu�m me aceita num emprego. Nem como lixeiro posso trabalhar, j� que n�o posso provar minha escolaridade. Mesmo tendo tentado me mostrar ao menos um pouco culto, eles querem que eu prove que estudei e onde estudei. Eu sei que � injusto, mas como um cara que sequer sabe quem � vai poder mudar o mundo? Eu sou mesmo � um patife inepto. Sempre serei. Talvez sempre tenha sido. Talvez, talvez, talvez... n�o posso mais suportar tantas incertezas! AHHHHHHHH!!! Desculpe dona Maria, pelo grito, n�o queria incomod�-la! N�o farei isso de novo, � que, a senhora sabe, ando meio angustiado. Volte a dormir e, por favor, perdoe-me novamente... Boa mulher, repito, boa mulher, gigantesca alma!!! Se n�o fosse a dona Maria n�o sei o que seria de mim. Temo que meus inimigos venham atr�s de mim e ponham em risco a vida dessa mulher, que considero como minha fam�lia. Tenho que sair logo daqui, n�o posso mais oferecer-lhe perigo. Mas preciso de um emprego antes... e tenho que parar de falar sozinho e principalmente de gritar de tempos em tempos, j� a assustei algumas vezes com isso. Dizem que quem fala sozinho � insano. Devo mesmo ser um doido varrido. Acho que falo comigo mesmo para suprir minha necessidade por di�logo, j� que sou um anti-social suburbano. Eu penso que falo comigo mesmo na tentativa do "eu" de antes responder �s minhas d�vidas do "eu" de agora. Como sou trouxa. N�o sei quem sou, na verdade n�o sei que fui, mas com certeza, a minha maior caracter�stica, uma palavra que me definiria perfeitamente � "pat�tico"! Ai, ai, Murphy. A cada dia que passa acredito mais nas suas leis do que na Lei da Gravidade. Tudo sempre dar� errado para mim. N�o ag�ento mais... Sei l�, hoje j� acordei tarde e de ressaca, pois s� gasto os trocados que a pobre dona Maria me d� em cacha�a; j� procurei emprego no jornal e nada como sempre, ao menos para mim; j� almocei; j� passeei � procura de espairecimento, n�o deu certo, as pessoas olham para mim com desprezo, quando olham; j� fui � biblioteca, para tentar sanar minha curiosidade e minha sede infind�vel por conhecimento, � como se tivesse que preencher o vazio das minhas lembran�as com outras coisas, com sabedoria dos outros; j� jantei; j� divaguei demais e est� muito tarde. Preciso dormir. Que droga, esqueci novamente de tomar banho. Tamb�m, para qu�? Se sou um mendigo na alma, devo me tornar um mendigo no corpo. As roupas, ou melhor, os trapos j� fazem jus. E ainda por cima tenho me tornado um alco�latra. Ser� que eu j� era um viciado na minha outra vida? Parece que o �lcool me ajuda. Entretanto, depois que o efeito passa, � cada vez pior. Mergulho cada vez mais fundo nesse abismo que parece n�o ter fim. Vou dormir e ter pesadelos como sempre. Quem sabe algum deles me diga algo da minha vida anterior � amn�sia que eu possa aproveitar. Vou ver se tomo coragem para ir ao ambulat�rio amanh�... no fundo n�o passo de um covarde. Mesmo querendo saber a verdade sobre mim, tenho muito medo. E se eu tiver sido abduzido por alien�genas e eles tiverem apagado minha mem�ria ap�s terem feito experi�ncias comigo? Que droga, quantas divaga��es sem sentido. Estou delirando. N�o sei mais quando divago acordado ou dormindo. � um pesadelo intermin�vel. Ah, isso tem que acabar, essa tortura tem que acabar... tem que acabar... tem que acabarr... tem quee acaabarrr... teem queee acaaabb... zzzzzzzzzzZZZZZZZZZZ... |
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