| Sexta-feira, Abril 23, 2004 CARLA CHAUBET Sauda��es para todos! C� estou eu, finalmente, postanto pela primeira vez. Este texto foi a minha nota de "Roteiro" deste bimestre, n�s dever�amos criar uma personagem e apresentar sua biografia. A minha � uma Lata de Ervilhas. Acabou ficando com alguns errinhos, mas como foi assim que eu entreguei, foi assim que eu resolvi postar. Espero que gostem... Lembrando que cr�ticas construtivas s�o sempre bem vindas! Lata de Ervilhas Vinda de f�brica desconhecida, a Lata de Ervilhas foi feita com alum�nio e pouca porcentagem de outros metais. A princ�pio, n�o tinha uma identidade, era apenas mais uma lata de alum�nio em meio a tantas outras, sem tampa, sem conte�do, sem r�tulo, ou seja, ainda privada do conv�vio social. Chegou � fabrica de Ervilhas no dia 11 de janeiro de 2003, �s 4h30 da manh�. Tr�s horas depois, sentiu a �gua e as ervilhas penetrarem o seu interior, acordando para o mundo. Cerca de 2 minutos mais tarde, recebeu sua primeira roupa, o r�tulo da marca que deu � luz esta personagem: Ela n�o era apenas uma lata, era a Lata de Ervilha de uma marca renomada. Tinha como fun��o guardar um alimento em conserva, provido de data de validade. Dez segundos depois, foi tampada e condenada � escurid�o. Levada para um supermercado de rede, ela conheceu outras de sua classe. O conv�vio social, de reconhecimento e troca de repert�rio, s� n�o foi mais rico pelo inconveniente da tampa impedir o seu olhar de ir mais longe. Al�m de outras latas de ervilha, ela tamb�m entrou em contato com as de milho verde, seleta de legumes, salsicha, entre outras de marcas variadas. A estadia no estoque perdurou por algumas horas, sendo levada, em seguida, � prateleira da sess�o de enlatados. Segundos depois, recebeu mais um adorno em seu exterior: o pre�o. Este foi acess�vel e coerente para uma lata de ervilha. Nada que pudesse envergonh�-la, mas tamb�m n�o chegaria aos p�s da lata de atum. Contudo, estava feliz assim. A Lata de Ervilha permaneceu na prateleira por seis semanas, at� ser retirada por uma dona de casa da classe m�dia baixa, que a jogou no carrinho junto com outros produtos, na sua maioria, embalados em pl�stico. A Lata, ent�o, mudou de lugar de forma brusca pelo menos sete vezes seguidas: da prateleira para o carrinho; do carrinho para a sacola; de dentro da sacola para um porta malas; depois carregada at� a casa; da sacola para a mesa; da mesa para a despensa; e da despensa, finalmente, para a pia da cozinha, lugar que viria a ser o marco de mudan�a dr�stica em sua vida. A maneira com que foi colocada na pia foi, quase, violenta. A Lata ainda se recuperava da vertigem e da leve sensa��o de n�usea, quando sentiu a l�mina afiada do abridor lhe rasgar a tampa, em movimentos repetitivos que seguiam uma linha circular, vinda de cima para baixo. O abridor continuou o processo at� retirar, praticamente, a tampa inteira, deixando-a presa, apenas, por um pedacinho �nfimo de alum�nio. A claridade, vinda de fora, provocou uma tontura dolorida e ofuscante. Antes que pudesse esbo�ar qualquer tipo de rea��o, a Lata sentiu, ainda, as m�os da cozinheira lhe puxarem a tampa. Estas viraram-na de ponta cabe�a, jogando todo o seu conte�do numa peneira, repousada dentro da pia. Humilhada, violentamente exposta, e roubada da �nica consci�ncia que conhecia, a lata foi arremessada na lata de lixo. L�, conheceu a realidade das embalagens e dos restos de comida. Todos facilmente descartados, rejeitados pela sociedade culin�ria. A imagem do abridor, arrancado-lhe toda a prote��o que tinha, quase a fez enferrujar. Ap�s um tempo, ap�tica, chorando as �ltimas gotas da �gua de ervilha que havia restado no seu fundo, sentindo as dores de suas laterais amassadas, ela percebeu a exist�ncia dos outros produtos. Viu que os outros habitantes do lixo tinham passado por situa��es parecidas; a caixinha de leite enfrentou a faca, e seu sofrimento foi dado em pequenas doses: o leite era retirado de pouco em pouco, e ela era colocada de volta na geladeira, tremendo a cada vez que a porta era aberta, por n�o saber se seria ou n�o sua vez de sofrer. A Lata de Ervilhas sentiu vergonha e raiva de si mesma, por n�o ter pensado em escapar antes da trag�dia. Enquanto a caixa de leite era quadrada e mole, a Lata poderia ter rolado para fora da sacola, numa tentativa de escapar, por�m sua ignor�ncia a impediu de faz�-lo. O nojo por seu pr�prio ser era tanto que ela nem se importou quando o �ltimo peda�o umedecido do r�tulo, ainda pregado em seu corpo, soltou-se por completo. No dia seguinte, ela ajeitava-se em cima do pacote de bolacha, no momento em que o saco de lixo foi fechado, carregado para fora da casa, e arremessado na lixeira. Dentro de poucas horas, o lixeiro o recolheu e o jogou dentro do caminh�o. Como o homem n�o havia sido nem um pouco delicado, o saco abriu-se, derrubando alguns de seus pertences no ch�o. Entre eles, estava a Lata de Ervilhas, que mal se deu conta do impacto no asfalto quente da rua, e logo depois na guia amarela da cal�ada. Ela estava inerte, vazia, amassada, suja, e sem a menor vontade de rolar como deveria ter feito outrora. Sua perspectiva era t�o escura quanto o bueiro em que quase caiu. L�, ficou por horas, e teria sido chutada por uma crian�a, se o catador de latinhas n�o tivesse sido mais r�pido ao encaixar seu espeto dentro da Lata e depositado-a em seu carrinho, cheio dos mais variados tipos de latas, em principal, de refrigerante, menos maltratadas pelo mundo. Devido � identifica��o, ainda que superficial, com os outros passageiros, a Lata de Ervilhas sentiu-se menos pior, e p�de dormir um pouco. Acordou com o carrinho sendo virado no ch�o de um centro de reciclagem. Ela era vendida novamente, entretanto por um pre�o bem mais baixo que aquele que havia recebido no supermercado. A Lata foi carregada at� uma loja de artesanato regida por quatro m�os ecologistas, duas delas, cuidadosas, por�m inexperientes, responsabilizaram-se pela Lata de Ervilhas. Foi um grande choque sentir a �gua gelada, sa�da da torneira, encher seu espa�o interior, segundos atr�s vazio. Em menos de dez minutos, a Lata estava limpa e totalmente desamassada. Apesar da melhora provedora de certa dignidade, a Lata de Ervilhas ainda se apresentava como um continente vazio, e um continente sem conte�do n�o � mais que in�til, pois n�o cumpre sua fun��o. As m�os continuaram a toilet, encapando a Lata com papel reciclado e pintando-a de verde musgo. Dentro de uma semana, a Lata reconheceu o lugar em que foi posta como sendo outra prateleira. Recebeu um pre�o pela terceira vez, desta vez maior do que uma lata de atum sonharia, pois � bem sabido o alto custo de objetos reciclados em lojas do g�nero. Ela sentiu-se renovada, este seria, por certo, o n�vel mais alto que uma lata de ervilha poderia chegar, e l� estava ela, e sem ervilhas, ainda por cima. Deveria ser muito especial para tanto, e logo, deu-se por satisfeita, embora sonhasse com abridores de lata devoradores de ervilhas quase todas as noites. Um m�s depois, foi comprada por um ativista que a depositou na estante de papel�o pr�xima � escrivaninha, bem ao lado de um saco de salgadinho de soja. Assim que acomodada, a Lata foi, artificialmente, preenchida com enumeras canetas do Greenpeace, e com elas passou a conviver. �s vezes, ela sentia um certo desconforto, n�o tinha ervilhas, tinha canetas, mas conformava-se com o fato de ter um status t�o visado entre as latas. Ela, inclusive, n�o cumprimentava mais as que, eventualmente, vinham do supermercado para a cozinha do ecologista, pois n�o chegavam aos seus p�s. No dia 1� de novembro do seu ano de nascimento, enquanto dormia, a Lata de Ervilhas, agora com canetas, sonhava com as m�os da Dona de Casa. Estas a sacudiam de um lado, enquanto mostravam o abridor no outro. A tortura foi interrompida pelas m�os do ecologista, que foram confundidas por aquelas presentes no pesadelo. O resultado foi um corte no polegar inocente, provocado uma farpa de alum�nio, resqu�cio da viol�ncia sofrida no passado, que passara desapercebida pelas m�os, inexperientes, da loja de artesanato. A Lata percebeu o que havia feito imediatamente, todavia n�o p�de fazer nada para concert�-lo. O ecologista, tomado pela dor e pelo sangue que jorrava do corte profundo de seu dedo, partiu para o pronto socorro, deixando para tr�s uma chaleira de �gua no fogo. A Lata de Ervilhas ainda sofria de remorsos quando percebeu a fuma�a entrando pela porta. N�o foi dif�cil perceber que a casa do ecologista estava pegando fogo. Como a maioria do material que revestia a casa era feita de material inflam�vel, as chamas espalharam-se rapidamente, logo atingindo o quarto da pobre Lata. Assim que se deu conta do acontecimento, a Lata jogou-se no ch�o, afim de rolar apartamento a fora e salvar-se da morte. Por�m, a fuma�a cegaria qualquer um, era imposs�vel enxergar qualquer ponto de fuga, mesmo em sua perspectiva arredondada, e a tentativa foi ineficaz. O fogo consumiu o quarto em exatamente 30 minutos, levando consigo a Lata de Ervilhas, derretida, disforme, e permanentemente inconsciente. Ainda assim, fez-se ouvir a difama��o p�stuma, pelo ecologista, que perdeu o apartamento por causa do maldito corte. |
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