Espelho se insere no Conjunto da simb�lica francisclariana, que � rica e diversificada, mesmo sendo um s�mbolo pouco conhecido. O resgate deste s�mbolo remete-se a Clara de Assis.
  Os Padres da Igreja e autores medievais usam a simb�lica do espelho para falar do conhecimento, indicado pelo verbo latino Speculare (observar com aten��o, pesquisar, especular). Clara n�o desconhece esse significado, mas privilegia a exemplaridade e a comunh�o, ou seja, como s�mbolo usado para expressar uma rela��o amorosa, para falar de encontro, de identifica��o, de seguimento e testemunho, ao Cristo pobre e crucificado.
  O termo �espelho� aparece doze vezes nos escritos de Santa Clara, concentrando em tr�s textos: 3CtIn 12-13; 4CtIn 9-25 e Test. 19-22. Levando em considera��o n�mero de escritos e a dist�ncia entre eles, se percebe que o termo �espelho� n�o � algo passageiro, pr�prio de um de um momento da vida de Santa Clara, mas um aspecto importante em sua espiritualidade. Em Clara o uso mais freq�ente do termo se remete � pessoa de Jesus Cristo.
  Os textos b�blicos que servem de inspira��o para Clara s�o dois: SB 7,26 e HB 1, 2-3.
� O primeiro refere-se � Sabedoria com �reflexo da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus e imagem de sua bondade�.
� O segundo refere-se diretamente a Jesus Cristo, ou seja, foi constitu�do herdeiro de todas as coisas e por ele foram feitos os s�culos �Ele � o resplendor de sua gl�ria e a express�o do seu ser�.
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Os textos b�blicos inspiraram Clara a se referir a Cristo como espelho, enfatizando o seguimento a Jesus Cristo no discipulado ken�tico numa perspectiva encarnada e din�mica.
  Na Idade M�dia quando se referia a Jesus como espelho, queria ressaltar a sua divindade. �Em Clara, toda �nfase recai sobre o ser humano, na 3CtIn Clara diz que Jesus � o �Espelho da Divindade�, � o Esplendor da Gl�ria�, �a Figura da Subst�ncia Divina�, mas depois acrescenta �falo do Filho do Alt�ssimo que a virgem deu a luz�.
  Na quarta carta o espelho que Clara apresenta a In�s de Praga tem uma hist�ria humana; �foi envolto em panos e colocado no pres�pio; sofreu fadigas e penas sem conta de sua vida; padeceu e morreu no lenho da cruz�.
  In�s convida contemplar a inef�vel caridade do espelho. A pobreza ressalta a op��o do filho de Deus por uma vida humana na condi��o de pobre desde o seu nascimento at� a morte de cruz, ou seja, Jesus se aniquila de sua divindade e se encarna.
  Pobre e pequeno, paga mesmo assim um alto pre�o na cruz para realizar a miss�o que o Pai lhe confiara. A caridade ressalta a raz�o de fundo do mist�rio da encarna��o, que � o amor de Deus pela fam�lia humana, querendo Jesus nascer tamb�m numa fam�lia.
  O simbolismo do espelho n�o forja uma espiritualidade no Senhorio glorioso de Cristo, mas no mist�rio da encarna��o. �O Rei dos anjos repousa numa manjedoura�, �Aquele que o c�u n�o pode conter estava no seio de Maria�, �Aquele que rege o c�u e a terra vem ao mudo como pobre�, �O mais belo entre os filhos dos homens � desprezado, ferido e morre numa cruz�. Este � o Jesus de Clara e In�s, que outros devem seguir. Ao mesmo tempo em que � espelho tamb�m � caminho: �O Filho de Deus se fez caminho�.
  Atrav�s da din�mica do espelho se destaca a dimens�o contemplativa do seguimento, inserida na realidade hist�rica din�mica e transformante.

  A voca��o do ser espelho
Clara coloca em relevo a dimens�o do testemunho da voca��o crist�. Nas cartas de In�s de Praga Clara diz que a contempla��o do espelho transforma a pessoa na imagem contemplada, de acordo com o seu testamento isto n�o � privil�gio, mas uma gra�a e um compromisso mission�rio.
  Ser espelho de Cristo significa �assumir� o mesmo projeto de vida e compartilhar o mesmo destino daquele que foi � frente e que est� � frente. Mesmo sem sair do convento devido �s realidades da �poca Clara evangelizou com o exemplo, ou seja, testemunhar a partir da contempla��o do espelho e mais precisamente no centro do espelho.
�Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da gl�ria, ponha o cora��o na figura da subst�ncia divina e transforme-se, por inteiro, pela contempla��o, na imagem da divindade�.
  Clara diz que a contempla��o da imagem divina, que � vista do centro do espelho implica p�r toda a nossa interioridade em Jesus Cristo, transformando quem contempla na imagem do contemplada. Contemplar Jesus Cristo para Clara � o mesmo que coloc�-lo como centro de toda a sua vida, na dor e na alegria.
  Clara ensina � In�s de Praga, que para contemplar o Cristo no centro do espelho e necess�rio coloc�-lo no centro de tudo n�o � preciso falar, cantar ou refletir; mas colocar a mente, a alma e o cora��o no Evangelho da Eternidade, Esplendor da Gl�ria, Figura da Subst�ncia divina colocando toda capacidade de amar (o cora��o), toda nossa capacidade de viver no mundo de Deus (a alma) e toda capacidade de compreender (a mente).
  A contempla��o n�o � apenas uma considera��o, uma aten��o a Deus, mas uma transforma��o em Jesus Cristo. Se nos entregarmos totalmente a Ele, Ele nos transformar�; mas n�o uma transforma��o do mundo fora de n�s primeiramente, e sim o �meu ser� depois o mundo na sua totalidade.
Espelhar-se em Cristo � uma atitude de vida, concebendo-a como espelho que reflete e transmite fielmente a imagem de Jesus Cristo pobre, nu e crucificado.
 

Texto e Pesquisa: Marcelo dos Santos Silva

*BRUNELLI, Delir. O Espelho Clariano. S�mbolos Franciscanos. [Revista Franciscana]. Petr�polis, Vol. III, n� 4: 73-78, 2003.

*ZAVALLONI, Roberto. A personalidade de Santa Clara de Assis. Estudo psicol�gico. Petr�polis, Edi��es Loyola, 1995.

* PEDROSO, Jos� Carlos Correa. O Cristo de Clara: Santa Clara, Jesus Cristo, e uma recupera��o do feminino no franciscanismo. [Centro Franciscano de Espiritualidade]. Piracicaba, Edi��es Loyola, 1994, p. 74-94.
"N�o perca de vista seu ponto de partida"                                                                2 carta de Clara a In�s
1,2 Clara, serva in�til e indigna das pobres damas, sa�da dona In�s, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores (cfr. Ap 19,16; 1Tm 6,15), esposa dign�ssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobil�ssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza.3 Agrade�o ao Doador da gra�a, do qual cremos que procedem toda d�diva boa e todo dom perfeito (Tg 1,17), pois adornou-a com tantos t�tulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfei��o,4 para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito (cfr. Mt 5,48), mere�a ser t�o perfeita que seus olhos n�o vejam em voc� nada de imperfeito (cfr. Sl 138,16).5 � essa perfei��o que vai uni-la ao pr�prio Rei no t�lamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado.6 Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor � proposta de um casamento imperial,7 voc� se fez seguidora da sant�ssima pobreza em esp�rito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrim�nio.8 Mas eu sei que voc� � rica de virtudes e vou ser breve para n�o a sobrecarregar de palavras sup�rfluas,9 mesmo que n�o lhe pare�a demasiado nada que lhe possa dar alguma consola��o.10 Mas, como uma s� coisa � necess�ria (Lc 10,42), � s� isso que eu confirmo, exortando-a por amor daquele a quem voc� se entregou como oferenda santa (cfr. Rm 12,1) e agrad�vel.11 Lembre-se da sua decis�o como uma segunda Raquel: n�o perca de vista seu ponto de partida, conserve o que voc� tem, fa�a o que est� fazendo e n�o o deixe (cfr. Ct 3,4)
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