O Menino da Lua

 M. R. Callegaro

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0190]
[Autor: M. R. Callegaro]
[Título: O Menino da Lua]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 3.175]


I

As chuvas daquele final de verão vieram mais fortes do que o normal. Em uma delas, depois de um dia de muito calor e forte abafamento, mais ao final da tarde, tingindo-se de negro, o céu fechou-se todo. Os estratos e os nimbos-cúmulos — se forem esses mesmos os nomes; que o leitor me perdoe, mas não entendo nada de meteorologia — acumularam-se todos. Uma cena impressionante! Nininha, que caminhava de mãos dadas com sua mãe, olhou para o céu e explicou: “Papai do Céu tá brabo!”. Começou a ventania. A menina estava certa, preparava-se um temível cenário, de acordo com todos aqueles que conhecem e respeitam a natureza.



As águas do rio que circundava a cidade se encresparam. Junto ao ancoradouro, de última hora, os pescadores mais cuidadosos reforçavam as amarras de seus barcos.



Não muito longe dali, na praça da matriz, a velha mangueira balançava como nunca; as folhas se chocando fortemente faziam um ruído assustador. Um galho se estalou, ameaçando se quebrar e, de uma vez por todas, cair por cima dos transeuntes. Haviam se interrompido os jogos de baralho; depois, os de dominó. Alguns senhores de cabelos brancos, que tranqüilamente ocupavam os bancos e as mesinhas da praça, foram saindo antes do esperado.



Era chapéu que rolava, placa que tombava, gente que corria. Grandes folhas, enrugadas e tingidas de amarelo pelo tempo, voavam alto. Tresloucadas, em subidas e descidas imprevisíveis. O pipoqueiro partiu ligeiro empurrando seu carrinho. A poucos metros, logo atrás dele, o vendedor de algodão doce. Mais ao fundo, junto ao adro da Matriz, o sacristão fechou por dentro a porta principal da igreja. Sem nem reclamarem do reumatismo, os últimos velhinhos aposentados aceleraram seus passos, segurando os poucos chapéus que ainda habitavam cabeças — por fora das calças, a parte baixa das camisas esvoaçavam. O vestido da moça bonita foi levantado pelo vento, mas, desta vez, não houve moço galante que ficasse a reparar: todos fugiam tentando se proteger da tempestade, que para breve se anunciava. Ao redor da praça, as portas do comércio foram baixadas.



           Brummm!!!... Ouviram-se vários e repetidos estrondos, o eco de graves trovões — como se um velho ser místico, irritado, fizesse seu reclamo. Uma velha senhora de rosto cavado e fino, que se apressava segurando com a mão esquerda as pontas do xale preto por debaixo do queixo ossudo, foi se afastando, a benzer-se seguidamente. A chuva lançou seus primeiros pingos, preguiçosos e esparsos. Depois, igual aos derradeiros transeuntes que tardiamente buscavam abrigo, também acelerou seus passos. A chuva caiu torrencialmente. Tempestade. Trovões, relâmpagos e raios. Água do Céu: Deus é quem sabe, é quem manda!

           Foi assim por um longo período de tempo, até a chuva forte ir se acalmando. Ainda desse modo, persistiu até depois da meia-noite. Não se conseguia avistar no céu nenhum pedaço de lua, então cheia no período. Somente nuvens negras e aquela garoa fininha. Não se via uma viva alma, que fosse, andando pelas ruas. Como diriam os mais velhos: “Numa noite dessas, só se for assombração!”.



           Quando o dia amanheceu, por um desses inexplicáveis encantos da natureza, surgiu um sol bonito que só vendo! Certamente, para que ficasse sequinho tudo aquilo o que Deus antes molhara — talvez seja esse mais um dos grandes mistérios da natureza. Porém, para o que cabe de concreto nessa história, o fato estranho que ocorreu foi o seguinte: depois do dia amanhecer, das pessoas saírem de suas casas, umas para comprarem pão, outras para irem de bicicleta ao trabalho, eis que um menino bastante branquinho, muito branquinho mesmo, surgiu se espreguiçando todo, vagarosamente, da parte baixa da sebe que rodeia um dos principais jardins da praça.



           Mas, espreguiçando-se de fato, como naquelas noites em que se dorme pesado e dá uma moleza danada assim que se acaba de levantar. A mão esquerda foi em direção da boca redonda e escancarada; a direita, cobriu os olhinhos claros para que o sol não os atingisse. Em seguida, alongou os braços por completo, afugentando de vez a preguiça.



           Ao desenrolar do inusitado fato, as pessoas que transitavam pelo local foram reduzindo seus passos, parando para olhar com estranheza aquela figura. Sem dúvida, tratava-se de uma criança, mas com características que fugiam muito ao costumeiro. A pele, branquinha, branquinha, de uma alvura nunca antes vista; a ponto de parecer que existia alguma luzinha por debaixo da pele do menino, ou seja, dentro dele algo reluzia. A cabeça redonda que só vendo; os olhos azuis como o céu; os cabelos, em curtos cachos, dourados; nenhuma sobrancelha e cílios bastante claros.  Mais do que um menino, parecia um anjo caído do céu.



           Nininha, que se aproximava acompanhada da mãe, apontou o dedo e declarou:



           — Olha, mamãe! O menino da Lua!

           Agora, maior número de pessoas começava a parar no local, mas ninguém ousou lhe dirigir a palavra, porque, além de estranho e calado, o menino trajava uniforme azul, com galões nos ombros, dourados como os botões da jaqueta de aparência militar. Calças brancas e justas, botas pretas.



           — Parece filho de um dos Dragões da Independência! — alguém comentou em tom de brincadeira.



           Por estarem acostumados com a citada figura, as pessoas riram — pois a mofa, de certo modo, fazia algum sentido.



           — Não é, não! — retrucou Nininha — É o menino da Lua!

           Seu Osório, um velho sapateiro italiano, curvou-se em direção ao menino e perguntou:



           — Mas, cáspita, de onde veio você assim tão branquinho?!            

           Não houve resposta. Retraídos, os dois olhinhos azuis observaram o sapateiro e, em seguida, o grupo de pessoas que se aglomerava ao seu redor.



           — Deve ter se perdido da família!

           — Ontem à noite, na estrada, com a chuva!

           — Que nada, a família devia estar em algum barco que afundou e morreram todos afogados. Só salvou ele!



           — Cruz-credo! — algumas velhas carolas se benzeram todas.

           Todos pareciam querer saber a origem de tão inusitada figura. Os olhinhos azuis a tudo assistiam, assustados.



           Repentinamente, quando menos se esperava, afastando as pontas dos dedos, o menino fez um brum de trovão, como se fosse uma pequena explosão. Todos se calaram instantaneamente. Fechou-se a roda. Ninguém parecia querer perder o menor gesto da explicação.

Em seguida, o menino da jaqueta azul espalmou a mão direita, ziguezagueando seguidamente, de um lado para o outro — emitiu um longo zzz entre os lábios finos, simulando um aviãozinho desgovernado. Como envoltos por uma espécie de encantamento, os olhares seguiam o movimento do aviãozinho que agora se apresentava em plena queda livre. E despencava, fundo, mais e mais, com o respectivo som da queda. Quando o aeroplano atingiu o hipotético solo, emitiu um “Pummm!...”, chocalhando a cabeça.



Dava por terminada a explicação. Ergueu novamente a cabeça; calados, rostos atônitos expressavam perplexidade. Com os frágeis dedinhos da mão direita, empurrou para o lado um cachinho loiro que lhe caíra na testa. Aguardou por novo pronunciamento da multidão.

           O silêncio permeava a praça. Os mais conhecidos trocavam olhares furtivos, Nininha foi a primeira que ousou pronunciar algo:

           — Não falei, é o menino da Lua! Com a trovoada de ontem, caiu lá do Céu!



           Os olhares que haviam se concentrado em Nininha, voltaram a se procurar em busca de melhor explicação. Agora, mais atordoados ainda, pois o menino da pele clarinha meneava a cabeça confirmando a versão da menina.



           — Da lua ou non da lua, o que ele precisa mesmo é de roupa seca e de barriga cheia. Deve estar com fome o coitadinho! — falou Osório, o sapateiro. — Deixa que minha mulher Genoveva vai dar um jeito nisso!



           Em seguida, estendeu a mão para que o menino o acompanhasse.

           Os braços da criatura da jaqueta dos galões dourado permaneceram parados junto ao corpo. Erguendo a cabeça, os olhinhos azuis fitaram Vovô Osório por um longo momento. Porém, contrário ao que se esperava, o menino estendeu o braço, indicando um ponto mais à frente, além do círculo de pessoas. Correndo os olhos, a pequena multidão buscou o alvo onde o frágil indicador do menino apontava: o carrinho de algodão doce. Retornaram a atenção ao menino: ele, estático; impassível em sua decisão, uma perfeita estátua.

           — Dá logo um algodão doce pra ele! — alguém sugeriu.

           Todos concordaram. Se fosse essa a vontade dele, que assim se fizesse. Para não perder os hábitos de bom vendedor, o ambulante lhe ofereceu primeiro o algodão azul, depois o vermelho, para que o novo freguês fizesse a sua escolha. Recebeu um sim com a cabeça ao da cor azul. Estendeu o confeito ao menino que, sem mais demora, deu uma gostosa mordida na doce iguaria. Em seguida, concentrado nos fiapos azuis que habilmente envolvia com a língua, segurou a mão de vovô Osório e sem que ninguém esperasse, e por mais incrível que possa parecer, foi puxando o velho sapateiro na direção correta, a abrir caminho em meio à multidão. Vovô Osório, surpreso pelo acontecido, apenas o acompanhava.



Nininha lembrou-se de falar apenas quando aquela criatura branca já se afastara um bom pedaço; teve, então, de gritar:

           — Menino da Lua! Posso ir te visitar?



Ele apenas virou o rosto e sorriu. Um brilho enorme iluminou a praça.





II

Enquanto vovô Osório consertava os sapatos com um toc-toc insistente do martelo, vovó Genoveva preparava um chá quente que trazia sempre junto com umas rosquinhas fritas na hora e passadas no açúcar. Por não terem filhos, e, portanto, nenhum netinho que viesse alegrar a casa, o menino da Lua passou a ser cuidado como alguém da família.

           Ganhou roupinha nova, porém exigiu que fosse farda ou fardão. Alguns diziam que poderia ser filho de militar, outros, que o menino tocava em alguma fanfarra quando se perdera. Não se sabe ao certo. Porém, de uma forma ou de outra, apenas admitia vestir aquele tipo de roupa. Por assim querer, e os vovós não verem nenhum mal nisso, satisfizeram a vontade do menino. Na realidade, até que aquele tipo de roupa lhe caia bem.



           Aprendeu a comer toda espécie de comida que vovó Genoveva punha-lhe à mesa. Fosse salada, uma canja de galinha gorda, ou até mesmo macarrão com molho e almôndega. Tinha um prazer especial nos longos canudos de espaguete, quando fazia um biquinho no meio da boca e chupava o longo fio do macarrão repleto de molho de tomate fazendo alto ruído, até que ele desaparecesse para o fundo de sua boca. Lógico que se lambuzava todo; então, o vermelho do molho contrastava muito com a alvura da pele. Em seguida, dava sempre uma grande e alegre gargalhada — quando uma luz dentro dele se acendia e se apagava, de acordo com o subir e descer daquela barriguinha, agora, repleta de comidas gostosas e de guloseimas da vovó Genoveva.

           Porém, os bons velhinhos continuavam procurando pela família do menino. Aliás, não somente eles. Muitas outras pessoas na cidade se empenhavam nessa tarefa. Perguntaram pelo município afora, pela redondeza, puseram anúncio na rádio, no jornal. E nada! Até o prefeito da cidade um dia veio visitar o menino, tamanha a fama e notoriedade que a personagem obtivera. Nessa visita, aproveitou a presença de um jornalista para fazer a seguinte declaração: envidaria todos os esforços para ver o tal “menino da Lua” junto aos pais e, enquanto isso, que o pobre garoto tivesse as melhores acomodações possíveis na cidade por ele governada. Quando falou em levar a criança aos cuidados dos órgãos da prefeitura, o vovô Osório e toda a vizinhança se revoltaram; o que fez com que o prefeito, temendo perder importantes votos na próxima eleição, deixasse tudo ficar do jeito mesmo que estava.

           De toda a história até agora contada, do que o menino mais gostava era quando Nininha vinha visitá-lo. Brincavam pelo quintal, sempre em busca de algum pé com jabuticaba madura, daquelas bem doces e gordinhas, a qual apreciavam muito. Tanto quanto a elas, apreciava as frutas-de-conde. Todos os amigos gostavam de ver quando ele velozmente chupava a polpa deixando o caroço com grande limpeza. E o cuspia com tamanha precisão que esta se tornou uma das características mais marcantes do novo amiguinho da cidade. Chupava fruta-de-conde e brincava de cuspir o carocinho dentro de um pote velho de vidro, sem tampa.

 

           Nininha falava que ele somente comia o branquinho porque esse se parecia com as nuvens e a brancura da lua; e que o pretinho, pelo seu corpo lunar ser todo alvo, não conseguia engolir, portanto, cuspia fora. O menino sempre ria da explicação da amiga, por quantas fossem as vezes que ela repetisse a mesma estória.



           Em um final de tarde, a criança apareceu adoentada em casa, com a tez puxando para o amarelo e gemendo muito; o que deixou os vovós preocupados. O menino apertava a barriga com as mãos e gemia, gemia, que só vendo. Por não saber se expressar direito, os vovós tentaram repetidas vezes descobrir o que ele estava sentindo. Tentativa inútil, por mais que tentassem, não conseguiram. Passaram óleo canforado na barriga, e nada! Deram um chá caseiro, e nada! Não vendo o que resolvesse o problema, mandaram chamar Nininha, que parecia ser a única pessoa capaz de entender a estranha linguagem.

           Às perguntas que ela fazia, o adoentado respondia entre sinais e palavras infantis incompreensíveis para os adultos normais.



           — Assim como?



           — Quequim!



           — Bolinha?



           O menino abanou a cabeça, confirmando:



           — Quequinha, quequinha!



           — Doce ou azedinha?



           — Docim, docim!



           — E de onde você pegou elas?



           Respondeu fazendo com as mãos um desenho que somente outra criança era capaz de compreender. Nininha balançou afirmativamente a cabeça.



           — E você comeu muitas?



           Apontou os cinco dedinhos da mão esquerda mais três da mão direita.

           — Oito delas? — perguntou Nininha espantada, com ar de médico quando chega a alguma importante conclusão sobre o estado de saúde de seu paciente.



           O menino meneou a cabeça afirmativamente, porém, com ar ressabiado: era sabedor de ter feito algo indevido. Vovô Osório e vovó Genoveva acompanhavam interessados o diálogo. Voltaram-se para a menina em busca de alguma explicação sobre tão importante conversa.

           — Bom, Vovô Osório e Vovó Genoveva, acho que cheguei a uma conclusão. Por favor, me acompanhem!



           Levou os velhinhos até o quintal, atravessando o pomar. Parou próxima ao pé de goiaba, cujas frutas estavam bastante maduras a ponto da vovó as estar colhendo para preparar um tacho de goiabada, por sinal, bastante grande. Vovó deu por falta, de um número considerável delas, certamente, mais do que oito.

           — Entalado, vovó! Entalado com os caroços, de tanto comer goiaba!

           Tiro e queda. Nada que um supositório de glicerina e um bom laxante natural não resolvessem. Uma massagem especial na barriga — na realidade, mais um carinho —, um chazinho medicinal e pronto! No dia seguinte, lá estava o menino pulando pelo quintal afora, correndo atrás das borboletas — gostava mais das azuis — e brincando de enrolar com o tatuzinho-bola.



           E assim foram passando os dias: alegres e descontraídos, do modo como deveria mesmo ser a vida. Todos estavam felizes com a presença do menino da Lua. Porém, para a tristeza geral, essa situação em breve se transformaria. É o que veremos em seguida.



III

Haviam passado mais três fases completas da lua e, agora, retornava o período da cheia, aquela mesma na qual o menino fora encontrado na Praça da Matriz.  Talvez por isso fora tomado de imensa nostalgia.

           Permanecia horas e horas sentado na soleira da porta, com os braços encolhidos, mãozinhas presas entre os joelhos; o olhar perdido lá no alto do céu, fitando a lua que se apresentava linda e radiante.

           Vovó Genoveva teve de insistir muito para que o menino fosse se deitar e, nesse momento, percebeu um tiquinho de febre que lhe assolava a fronte. Preocupada, deu-lhe um remédio caseiro e o pôs para dormir. Na manhã seguinte, porém, o anjinho se mostrava tristonho e nem saiu para fazer das suas traquinagens; assim também ficou no decorrer da tarde. Quando caiu a noite, grande melancolia novamente tomou-lhe a alma. Sentou-se na soleira da porta e, tristonho, ficou a fitar a Lua. A febre agora aumentara e a vovó comunicou ao vovô Osório que notara algo estranho junto às costas do menino: duas protuberâncias, ou seja, elevados carocinhos que começavam a crescer, um de cada lado, junto à asinha do braço.



           Posto de resguardo, na cama, chamaram Nininha, a consultora para assuntos quanto ao menino. Após avaliar o amigo, esta saiu chorando da casa sem falar nada, nem para se despedir dos velhinhos. Esses, não tiverem escolha, mandaram chamar o Dr. Pedrosa, velho médico de família, nascido e crescido naquela pacata cidade.

           O médico da família pediu que a criança abrisse bem a boca; com um daqueles palitinhos, imobilizou a língua; olhou a garganta do menino; achou as amídalas um tanto inflamadas.  Receitou um antiflamatório e um antitérmico. Quanto aos carocinhos, não soube dar melhor diagnóstico, apenas achara estranho tais protuberâncias. Ficou de consultar seu manual de ortopedia e pediu algumas radiografias a serem feitas no hospital da cidade assim que ele melhorasse. E com essas palavras, foi-se embora.



           Na terceira noite, temendo por nova febre, os vovós orientaram ao menino que não saísse do quarto. Vestiram-no com um pijama azul, de motivos celestes, e o cobriram com um edredom bem fofinho. Como sempre, fizeram uma oração e, de despedida, deram um beijinho na testa do menino com indisfarçável gosto de saudade. Apagaram a luz e o Vovô e a Vovó saíram lento do quarto, de mão dadas — ao fecharem a porta, uma gotinha de lágrima rolou do canto dos olhos de cada um deles. Pela fresta da janela, avistava-se uma lua-cheia, bela e plena.

           Assim que o deixaram a sós, o menino da Lua, sem dizer nada, levantou-se. Vestiu o chinelo que vovó sempre deixava junto ao tapete, aos pés da cama, e foi saindo lentamente; atravessou o quarto e a cozinha. No momento em que começou a abrir a porta que dava acesso ao quintal, notou uma cestinha de vime, que tanto gostava, junto à porta de saída. Nela, algumas goiabas vermelhas, gordas jabuticabas maduras e frutas-de-conde; um pote de doce de leite, cocadas cortadas em losango, com precisão, e uma dúzia de pés-de-moleque. Ao lado das iguarias, uma flor de maracujá e um bilhetinho: “Vá com Deus, e cuide-se bem, netinho do coração. Vovô Osório e Vovó Genoveva”.

           Por um momento, o menino hesitou. Olhou em direção à porta do quarto dos velhinhos. Pensou em ficar, mas não podia — todo o corpo cobrava sua origem. Com a mão esquerda, o menino abriu a porta; a direita, portava a cestinha — o brilho da lua se espalhou porta adentro. Os pezinhos desceram o primeiro degrau; tentou expandir suas asinhas, só aí percebeu as duas aberturas que a vovó cuidadosamente costurara no paletó do pijama. Novamente, olhou para trás, dando um sorriso de agradecimento. Desceu mais um degrau… e, devagarzinho, com um bater suave de asas, foi erguendo vôo.



           Primeiro, em espiral, fez algumas manobras no próprio quintal para testar a qualidade das novas asinhas. Apesar de serem curtas, funcionavam perfeitamente bem. Depois, um ou dois loopings. Em seguida, experimentou alguns rasantes. Agora, sentindo-se mais seguro, com grande precisão, deu meia volta em torno da jabuticabeira e cruzou a cerca, em direção à rua, saindo, em seguida, pela cidade afora. No céu limpo, infinitas estrelas brilhavam.



           Alguns quarteirões adiante, defronte a uma casa bastante simples, Nininha olhava tristonha para a Lua e percebeu já de longe quando o menino vinha a voar em sua direção. Ao aproximar-se dela, foi reduzindo a velocidade do vôo. Pairou no ar feito um beija-flor, a uns cinco ou seis metros da amiga, esboçou seu sorriso redondo. Apesar de tratar-se de uma despedida, Nininha sorriu em resposta. Então, falou:

           — Vai, menino da Lua, volta pra sua casa! Sua mamãe e seu papai devem estar preocupados!



           — Nininha! — respondeu ele com certa dificuldade.

           A menina sorriu e, em retribuição, o pequenino ser branco iluminou-se todo mostrando o coração vermelho dentro de um círculo de luz que ia da barriga até o peito.



           E assim, iluminado e com um sorriso no rosto, foi se distanciando até ficar nada mais do um pequenino ponto no céu, feito um balão. Ao chegar bem alto, já próximo às nuvens, agitou rapidamente suas asinhas, pegou velocidade e aquele ponto luminoso foi se perdendo, perdendo, cada vez mais longe, bem distante, voltando alegre pra casa...



           Quando pela primeira vez Helena me contou essa história, não acreditei! E quem acreditaria? Ainda que ela sempre me afirmasse ser verdade tudo o que se passara, e a repetisse sempre da mesma forma, sem pôr nem tirar uma única vírgula. E assim foi, até o dia em que estivemos visitando sua cidade natal, para onde não retornava há quase vinte anos. Só aí percebi que essa mesma narrativa não era contada somente por ela, mas por todos os habitantes da cidade, principalmente os mais velhos. Vovô Osório e vovó Genoveva são falecidos, mas na casa onde eles moravam funciona hoje uma fábrica de doces caseiros das mais variadas qualidades. Chama-se “Chácara do Menino da Lua”. É um local bastante freqüentado pelos turistas, não somente para experimentarem os deliciosos doces, mas principalmente pela inigualável qualidade do licor de jabuticaba.



           Quando Helena me apresentou o velho vendedor de algodão-doce e o lambe-lambe da praça da matriz, agora substituído pelo filho, comecei a achar que havia, realmente, algum fundo de verdade nessa história toda.



Mas, para sanar minha dúvida, eu perguntei por que, então, não tiraram nem um retrato, que fosse, do menino.



— Pra quê? — respondeu Nininha. — Quando lá no céu a lua estiver bem cheia, tão cheinha que nem caiba mais em si de tanta brancura, basta olhar pra ela e observar. Está lá, estampado pra quem quiser ver: é ou não é a cara do menino da Lua?



Bom, prezado leitor, você não precisa acreditar nesta última parte da nossa história, mas existem diversos relatos sobre o acontecido e as fontes que consultei são igualmente fidedignas. Ou você também vai querer duvidar delas?

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