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I
As chuvas daquele final de verão vieram mais fortes do que o
normal. Em uma delas, depois de um dia de muito calor e forte
abafamento, mais ao final da tarde, tingindo-se de negro, o céu
fechou-se todo. Os estratos e os nimbos-cúmulos — se forem esses
mesmos os nomes; que o leitor me perdoe, mas não entendo nada de
meteorologia — acumularam-se todos. Uma cena impressionante!
Nininha, que caminhava de mãos dadas com sua mãe, olhou para o céu
e explicou: “Papai do Céu tá brabo!”. Começou a ventania. A
menina estava certa, preparava-se um temível cenário, de acordo
com todos aqueles que conhecem e respeitam a natureza.
As águas do rio que circundava a cidade se encresparam. Junto ao
ancoradouro, de última hora, os pescadores mais cuidadosos reforçavam
as amarras de seus barcos.
Não muito longe dali, na praça da matriz, a velha mangueira balançava
como nunca; as folhas se chocando fortemente faziam um ruído
assustador. Um galho se estalou, ameaçando se quebrar e, de uma vez
por todas, cair por cima dos transeuntes. Haviam se interrompido os
jogos de baralho; depois, os de dominó. Alguns senhores de cabelos
brancos, que tranqüilamente ocupavam os bancos e as mesinhas da praça,
foram saindo antes do esperado.
Era chapéu que rolava, placa que tombava, gente que corria. Grandes
folhas, enrugadas e tingidas de amarelo pelo tempo, voavam alto.
Tresloucadas, em subidas e descidas imprevisíveis. O pipoqueiro
partiu ligeiro empurrando seu carrinho. A poucos metros, logo atrás
dele, o vendedor de algodão doce. Mais ao fundo, junto ao adro da
Matriz, o sacristão fechou por dentro a porta principal da igreja.
Sem nem reclamarem do reumatismo, os últimos velhinhos aposentados
aceleraram seus passos, segurando os poucos chapéus que ainda
habitavam cabeças — por fora das calças, a parte baixa das
camisas esvoaçavam. O vestido da moça bonita foi levantado pelo
vento, mas, desta vez, não houve moço galante que ficasse a
reparar: todos fugiam tentando se proteger da tempestade, que para
breve se anunciava. Ao redor da praça, as portas do comércio foram
baixadas.
Brummm!!!...
Ouviram-se vários e repetidos estrondos, o eco de graves trovões
— como se um velho ser místico, irritado, fizesse seu reclamo.
Uma velha senhora de rosto cavado e fino, que se apressava segurando
com a mão esquerda as pontas do xale preto por debaixo do queixo
ossudo, foi se afastando, a benzer-se seguidamente. A chuva lançou
seus primeiros pingos, preguiçosos e esparsos. Depois, igual aos
derradeiros transeuntes que tardiamente buscavam abrigo, também
acelerou seus passos. A chuva caiu torrencialmente. Tempestade. Trovões,
relâmpagos e raios. Água do Céu: Deus é quem sabe, é quem
manda!
Foi
assim por um longo período de tempo, até a chuva forte ir se
acalmando. Ainda desse modo, persistiu até depois da meia-noite. Não
se conseguia avistar no céu nenhum pedaço de lua, então cheia no
período. Somente nuvens negras e aquela garoa fininha. Não se via
uma viva alma, que fosse, andando pelas ruas. Como diriam os mais
velhos: “Numa noite dessas, só se for assombração!”.
Quando
o dia amanheceu, por um desses inexplicáveis encantos da natureza,
surgiu um sol bonito que só vendo! Certamente, para que ficasse
sequinho tudo aquilo o que Deus antes molhara — talvez seja esse
mais um dos grandes mistérios da natureza. Porém, para o que cabe
de concreto nessa história, o fato estranho que ocorreu foi o
seguinte: depois do dia amanhecer, das pessoas saírem de suas
casas, umas para comprarem pão, outras para irem de bicicleta ao
trabalho, eis que um menino bastante branquinho, muito branquinho
mesmo, surgiu se espreguiçando todo, vagarosamente, da parte baixa
da sebe que rodeia um dos principais jardins da praça.
Mas,
espreguiçando-se de fato, como naquelas noites em que se dorme
pesado e dá uma moleza danada assim que se acaba de levantar. A mão
esquerda foi em direção da boca redonda e escancarada; a direita,
cobriu os olhinhos claros para que o sol não os atingisse. Em
seguida, alongou os braços por completo, afugentando de vez a
preguiça.
Ao
desenrolar do inusitado fato, as pessoas que transitavam pelo local
foram reduzindo seus passos, parando para olhar com estranheza
aquela figura. Sem dúvida, tratava-se de uma criança, mas com
características que fugiam muito ao costumeiro. A pele, branquinha,
branquinha, de uma alvura nunca antes vista; a ponto de parecer que
existia alguma luzinha por debaixo da pele do menino, ou seja,
dentro dele algo reluzia. A cabeça redonda que só vendo; os olhos
azuis como o céu; os cabelos, em curtos cachos, dourados; nenhuma
sobrancelha e cílios bastante claros. Mais do que um menino,
parecia um anjo caído do céu.
Nininha,
que se aproximava acompanhada da mãe, apontou o dedo e declarou:
—
Olha, mamãe! O menino da Lua!
Agora,
maior número de pessoas começava a parar no local, mas ninguém
ousou lhe dirigir a palavra, porque, além de estranho e calado, o
menino trajava uniforme azul, com galões nos ombros, dourados como
os botões da jaqueta de aparência militar. Calças brancas e
justas, botas pretas.
—
Parece filho de um dos Dragões da Independência! — alguém
comentou em tom de brincadeira.
Por
estarem acostumados com a citada figura, as pessoas riram — pois a
mofa, de certo modo, fazia algum sentido.
— Não
é, não! — retrucou Nininha — É o menino da Lua!
Seu Osório,
um velho sapateiro italiano, curvou-se em direção ao menino e
perguntou:
—
Mas, cáspita, de onde veio você assim tão branquinho?!
Não
houve resposta. Retraídos, os dois olhinhos azuis observaram o
sapateiro e, em seguida, o grupo de pessoas que se aglomerava ao seu
redor.
—
Deve ter se perdido da família!
—
Ontem à noite, na estrada, com a chuva!
— Que
nada, a família devia estar em algum barco que afundou e morreram
todos afogados. Só salvou ele!
—
Cruz-credo! — algumas velhas carolas se benzeram todas.
Todos
pareciam querer saber a origem de tão inusitada figura. Os olhinhos
azuis a tudo assistiam, assustados.
Repentinamente,
quando menos se esperava, afastando as pontas dos dedos, o menino
fez um brum de trovão, como se fosse uma pequena explosão. Todos
se calaram instantaneamente. Fechou-se a roda. Ninguém parecia
querer perder o menor gesto da explicação.
Em seguida, o menino da jaqueta azul espalmou a mão direita,
ziguezagueando seguidamente, de um lado para o outro — emitiu um
longo zzz entre os lábios finos, simulando um aviãozinho
desgovernado. Como envoltos por uma espécie de encantamento, os
olhares seguiam o movimento do aviãozinho que agora se apresentava
em plena queda livre. E despencava, fundo, mais e mais, com o
respectivo som da queda. Quando o aeroplano atingiu o hipotético
solo, emitiu um “Pummm!...”, chocalhando a cabeça.
Dava por terminada a explicação. Ergueu novamente a cabeça;
calados, rostos atônitos expressavam perplexidade. Com os frágeis
dedinhos da mão direita, empurrou para o lado um cachinho loiro que
lhe caíra na testa. Aguardou por novo pronunciamento da multidão.
O silêncio
permeava a praça. Os mais conhecidos trocavam olhares furtivos,
Nininha foi a primeira que ousou pronunciar algo:
— Não
falei, é o menino da Lua! Com a trovoada de ontem, caiu lá do Céu!
Os
olhares que haviam se concentrado em Nininha, voltaram a se procurar
em busca de melhor explicação. Agora, mais atordoados ainda, pois
o menino da pele clarinha meneava a cabeça confirmando a versão da
menina.
— Da
lua ou non da lua, o que ele precisa mesmo é de roupa seca e de
barriga cheia. Deve estar com fome o coitadinho! — falou Osório,
o sapateiro. — Deixa que minha mulher Genoveva vai dar um jeito
nisso!
Em
seguida, estendeu a mão para que o menino o acompanhasse.
Os braços
da criatura da jaqueta dos galões dourado permaneceram parados
junto ao corpo. Erguendo a cabeça, os olhinhos azuis fitaram Vovô
Osório por um longo momento. Porém, contrário ao que se esperava,
o menino estendeu o braço, indicando um ponto mais à frente, além
do círculo de pessoas. Correndo os olhos, a pequena multidão
buscou o alvo onde o frágil indicador do menino apontava: o
carrinho de algodão doce. Retornaram a atenção ao menino: ele,
estático; impassível em sua decisão, uma perfeita estátua.
— Dá
logo um algodão doce pra ele! — alguém sugeriu.
Todos
concordaram. Se fosse essa a vontade dele, que assim se fizesse.
Para não perder os hábitos de bom vendedor, o ambulante lhe
ofereceu primeiro o algodão azul, depois o vermelho, para que o
novo freguês fizesse a sua escolha. Recebeu um sim com a cabeça ao
da cor azul. Estendeu o confeito ao menino que, sem mais demora, deu
uma gostosa mordida na doce iguaria. Em seguida, concentrado nos
fiapos azuis que habilmente envolvia com a língua, segurou a mão
de vovô Osório e sem que ninguém esperasse, e por mais incrível
que possa parecer, foi puxando o velho sapateiro na direção
correta, a abrir caminho em meio à multidão. Vovô Osório,
surpreso pelo acontecido, apenas o acompanhava.
Nininha lembrou-se de falar apenas quando aquela criatura branca já
se afastara um bom pedaço; teve, então, de gritar:
—
Menino da Lua! Posso ir te visitar?
Ele apenas virou o rosto e sorriu. Um brilho enorme iluminou a praça.
II
Enquanto vovô Osório consertava os sapatos com um toc-toc
insistente do martelo, vovó Genoveva preparava um chá quente que
trazia sempre junto com umas rosquinhas fritas na hora e passadas no
açúcar. Por não terem filhos, e, portanto, nenhum netinho que
viesse alegrar a casa, o menino da Lua passou a ser cuidado como
alguém da família.
Ganhou
roupinha nova, porém exigiu que fosse farda ou fardão. Alguns
diziam que poderia ser filho de militar, outros, que o menino tocava
em alguma fanfarra quando se perdera. Não se sabe ao certo. Porém,
de uma forma ou de outra, apenas admitia vestir aquele tipo de
roupa. Por assim querer, e os vovós não verem nenhum mal nisso,
satisfizeram a vontade do menino. Na realidade, até que aquele tipo
de roupa lhe caia bem.
Aprendeu
a comer toda espécie de comida que vovó Genoveva punha-lhe à
mesa. Fosse salada, uma canja de galinha gorda, ou até mesmo macarrão
com molho e almôndega. Tinha um prazer especial nos longos canudos
de espaguete, quando fazia um biquinho no meio da boca e chupava o
longo fio do macarrão repleto de molho de tomate fazendo alto ruído,
até que ele desaparecesse para o fundo de sua boca. Lógico que se
lambuzava todo; então, o vermelho do molho contrastava muito com a
alvura da pele. Em seguida, dava sempre uma grande e alegre
gargalhada — quando uma luz dentro dele se acendia e se apagava,
de acordo com o subir e descer daquela barriguinha, agora, repleta
de comidas gostosas e de guloseimas da vovó Genoveva.
Porém,
os bons velhinhos continuavam procurando pela família do menino.
Aliás, não somente eles. Muitas outras pessoas na cidade se
empenhavam nessa tarefa. Perguntaram pelo município afora, pela
redondeza, puseram anúncio na rádio, no jornal. E nada! Até o
prefeito da cidade um dia veio visitar o menino, tamanha a fama e
notoriedade que a personagem obtivera. Nessa visita, aproveitou a
presença de um jornalista para fazer a seguinte declaração:
envidaria todos os esforços para ver o tal “menino da Lua”
junto aos pais e, enquanto isso, que o pobre garoto tivesse as
melhores acomodações possíveis na cidade por ele governada.
Quando falou em levar a criança aos cuidados dos órgãos da
prefeitura, o vovô Osório e toda a vizinhança se revoltaram; o
que fez com que o prefeito, temendo perder importantes votos na próxima
eleição, deixasse tudo ficar do jeito mesmo que estava.
De toda
a história até agora contada, do que o menino mais gostava era
quando Nininha vinha visitá-lo. Brincavam pelo quintal, sempre em
busca de algum pé com jabuticaba madura, daquelas bem doces e
gordinhas, a qual apreciavam muito. Tanto quanto a elas, apreciava
as frutas-de-conde. Todos os amigos gostavam de ver quando ele
velozmente chupava a polpa deixando o caroço com grande limpeza. E
o cuspia com tamanha precisão que esta se tornou uma das características
mais marcantes do novo amiguinho da cidade. Chupava fruta-de-conde e
brincava de cuspir o carocinho dentro de um pote velho de vidro, sem
tampa.
Nininha
falava que ele somente comia o branquinho porque esse se parecia com
as nuvens e a brancura da lua; e que o pretinho, pelo seu corpo
lunar ser todo alvo, não conseguia engolir, portanto, cuspia fora.
O menino sempre ria da explicação da amiga, por quantas fossem as
vezes que ela repetisse a mesma estória.
Em um
final de tarde, a criança apareceu adoentada em casa, com a tez
puxando para o amarelo e gemendo muito; o que deixou os vovós
preocupados. O menino apertava a barriga com as mãos e gemia,
gemia, que só vendo. Por não saber se expressar direito, os vovós
tentaram repetidas vezes descobrir o que ele estava sentindo.
Tentativa inútil, por mais que tentassem, não conseguiram.
Passaram óleo canforado na barriga, e nada! Deram um chá caseiro,
e nada! Não vendo o que resolvesse o problema, mandaram chamar
Nininha, que parecia ser a única pessoa capaz de entender a
estranha linguagem.
Às
perguntas que ela fazia, o adoentado respondia entre sinais e
palavras infantis incompreensíveis para os adultos normais.
—
Assim como?
—
Quequim!
—
Bolinha?
O
menino abanou a cabeça, confirmando:
—
Quequinha, quequinha!
—
Doce ou azedinha?
—
Docim, docim!
— E
de onde você pegou elas?
Respondeu
fazendo com as mãos um desenho que somente outra criança era capaz
de compreender. Nininha balançou afirmativamente a cabeça.
— E
você comeu muitas?
Apontou
os cinco dedinhos da mão esquerda mais três da mão direita.
—
Oito delas? — perguntou Nininha espantada, com ar de médico
quando chega a alguma importante conclusão sobre o estado de saúde
de seu paciente.
O
menino meneou a cabeça afirmativamente, porém, com ar ressabiado:
era sabedor de ter feito algo indevido. Vovô Osório e vovó
Genoveva acompanhavam interessados o diálogo. Voltaram-se para a
menina em busca de alguma explicação sobre tão importante
conversa.
—
Bom, Vovô Osório e Vovó Genoveva, acho que cheguei a uma conclusão.
Por favor, me acompanhem!
Levou
os velhinhos até o quintal, atravessando o pomar. Parou próxima ao
pé de goiaba, cujas frutas estavam bastante maduras a ponto da vovó
as estar colhendo para preparar um tacho de goiabada, por sinal,
bastante grande. Vovó deu por falta, de um número considerável
delas, certamente, mais do que oito.
—
Entalado, vovó! Entalado com os caroços, de tanto comer goiaba!
Tiro e
queda. Nada que um supositório de glicerina e um bom laxante
natural não resolvessem. Uma massagem especial na barriga — na
realidade, mais um carinho —, um chazinho medicinal e pronto! No
dia seguinte, lá estava o menino pulando pelo quintal afora,
correndo atrás das borboletas — gostava mais das azuis — e
brincando de enrolar com o tatuzinho-bola.
E assim
foram passando os dias: alegres e descontraídos, do modo como
deveria mesmo ser a vida. Todos estavam felizes com a presença do
menino da Lua. Porém, para a tristeza geral, essa situação em
breve se transformaria. É o que veremos em seguida.
III
Haviam passado mais três fases completas da lua e, agora, retornava
o período da cheia, aquela mesma na qual o menino fora encontrado
na Praça da Matriz. Talvez por isso fora tomado de imensa
nostalgia.
Permanecia
horas e horas sentado na soleira da porta, com os braços
encolhidos, mãozinhas presas entre os joelhos; o olhar perdido lá
no alto do céu, fitando a lua que se apresentava linda e radiante.
Vovó
Genoveva teve de insistir muito para que o menino fosse se deitar e,
nesse momento, percebeu um tiquinho de febre que lhe assolava a
fronte. Preocupada, deu-lhe um remédio caseiro e o pôs para
dormir. Na manhã seguinte, porém, o anjinho se mostrava tristonho
e nem saiu para fazer das suas traquinagens; assim também ficou no
decorrer da tarde. Quando caiu a noite, grande melancolia novamente
tomou-lhe a alma. Sentou-se na soleira da porta e, tristonho, ficou
a fitar a Lua. A febre agora aumentara e a vovó comunicou ao vovô
Osório que notara algo estranho junto às costas do menino: duas
protuberâncias, ou seja, elevados carocinhos que começavam a
crescer, um de cada lado, junto à asinha do braço.
Posto
de resguardo, na cama, chamaram Nininha, a consultora para assuntos
quanto ao menino. Após avaliar o amigo, esta saiu chorando da casa
sem falar nada, nem para se despedir dos velhinhos. Esses, não
tiverem escolha, mandaram chamar o Dr. Pedrosa, velho médico de família,
nascido e crescido naquela pacata cidade.
O médico
da família pediu que a criança abrisse bem a boca; com um daqueles
palitinhos, imobilizou a língua; olhou a garganta do menino; achou
as amídalas um tanto inflamadas. Receitou um antiflamatório
e um antitérmico. Quanto aos carocinhos, não soube dar melhor
diagnóstico, apenas achara estranho tais protuberâncias. Ficou de
consultar seu manual de ortopedia e pediu algumas radiografias a
serem feitas no hospital da cidade assim que ele melhorasse. E com
essas palavras, foi-se embora.
Na
terceira noite, temendo por nova febre, os vovós orientaram ao
menino que não saísse do quarto. Vestiram-no com um pijama azul,
de motivos celestes, e o cobriram com um edredom bem fofinho. Como
sempre, fizeram uma oração e, de despedida, deram um beijinho na
testa do menino com indisfarçável gosto de saudade. Apagaram a luz
e o Vovô e a Vovó saíram lento do quarto, de mão dadas — ao
fecharem a porta, uma gotinha de lágrima rolou do canto dos olhos
de cada um deles. Pela fresta da janela, avistava-se uma lua-cheia,
bela e plena.
Assim
que o deixaram a sós, o menino da Lua, sem dizer nada, levantou-se.
Vestiu o chinelo que vovó sempre deixava junto ao tapete, aos pés
da cama, e foi saindo lentamente; atravessou o quarto e a cozinha.
No momento em que começou a abrir a porta que dava acesso ao
quintal, notou uma cestinha de vime, que tanto gostava, junto à
porta de saída. Nela, algumas goiabas vermelhas, gordas jabuticabas
maduras e frutas-de-conde; um pote de doce de leite, cocadas
cortadas em losango, com precisão, e uma dúzia de pés-de-moleque.
Ao lado das iguarias, uma flor de maracujá e um bilhetinho: “Vá
com Deus, e cuide-se bem, netinho do coração. Vovô Osório e Vovó
Genoveva”.
Por um
momento, o menino hesitou. Olhou em direção à porta do quarto dos
velhinhos. Pensou em ficar, mas não podia — todo o corpo cobrava
sua origem. Com a mão esquerda, o menino abriu a porta; a direita,
portava a cestinha — o brilho da lua se espalhou porta adentro. Os
pezinhos desceram o primeiro degrau; tentou expandir suas asinhas, só
aí percebeu as duas aberturas que a vovó cuidadosamente costurara
no paletó do pijama. Novamente, olhou para trás, dando um sorriso
de agradecimento. Desceu mais um degrau… e, devagarzinho, com um
bater suave de asas, foi erguendo vôo.
Primeiro,
em espiral, fez algumas manobras no próprio quintal para testar a
qualidade das novas asinhas. Apesar de serem curtas, funcionavam
perfeitamente bem. Depois, um ou dois loopings. Em seguida,
experimentou alguns rasantes. Agora, sentindo-se mais seguro, com
grande precisão, deu meia volta em torno da jabuticabeira e cruzou
a cerca, em direção à rua, saindo, em seguida, pela cidade afora.
No céu limpo, infinitas estrelas brilhavam.
Alguns
quarteirões adiante, defronte a uma casa bastante simples, Nininha
olhava tristonha para a Lua e percebeu já de longe quando o menino
vinha a voar em sua direção. Ao aproximar-se dela, foi reduzindo a
velocidade do vôo. Pairou no ar feito um beija-flor, a uns cinco ou
seis metros da amiga, esboçou seu sorriso redondo. Apesar de
tratar-se de uma despedida, Nininha sorriu em resposta. Então,
falou:
—
Vai, menino da Lua, volta pra sua casa! Sua mamãe e seu papai devem
estar preocupados!
—
Nininha! — respondeu ele com certa dificuldade.
A
menina sorriu e, em retribuição, o pequenino ser branco
iluminou-se todo mostrando o coração vermelho dentro de um círculo
de luz que ia da barriga até o peito.
E
assim, iluminado e com um sorriso no rosto, foi se distanciando até
ficar nada mais do um pequenino ponto no céu, feito um balão. Ao
chegar bem alto, já próximo às nuvens, agitou rapidamente suas
asinhas, pegou velocidade e aquele ponto luminoso foi se perdendo,
perdendo, cada vez mais longe, bem distante, voltando alegre pra
casa...
Quando
pela primeira vez Helena me contou essa história, não acreditei! E
quem acreditaria? Ainda que ela sempre me afirmasse ser verdade tudo
o que se passara, e a repetisse sempre da mesma forma, sem pôr nem
tirar uma única vírgula. E assim foi, até o dia em que estivemos
visitando sua cidade natal, para onde não retornava há quase vinte
anos. Só aí percebi que essa mesma narrativa não era contada
somente por ela, mas por todos os habitantes da cidade,
principalmente os mais velhos. Vovô Osório e vovó Genoveva são
falecidos, mas na casa onde eles moravam funciona hoje uma fábrica
de doces caseiros das mais variadas qualidades. Chama-se “Chácara
do Menino da Lua”. É um local bastante freqüentado pelos
turistas, não somente para experimentarem os deliciosos doces, mas
principalmente pela inigualável qualidade do licor de jabuticaba.
Quando
Helena me apresentou o velho vendedor de algodão-doce e o
lambe-lambe da praça da matriz, agora substituído pelo filho,
comecei a achar que havia, realmente, algum fundo de verdade nessa
história toda.
Mas, para sanar minha dúvida, eu perguntei por que, então, não
tiraram nem um retrato, que fosse, do menino.
— Pra quê? — respondeu Nininha. — Quando lá no céu a lua
estiver bem cheia, tão cheinha que nem caiba mais em si de tanta
brancura, basta olhar pra ela e observar. Está lá, estampado pra
quem quiser ver: é ou não é a cara do menino da Lua?
Bom, prezado leitor, você não precisa acreditar nesta última
parte da nossa história, mas existem diversos relatos sobre o
acontecido e as fontes que consultei são igualmente fidedignas. Ou
você também vai querer duvidar delas?
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