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Escrito na tua mão: teu destino é curto. Breve será o dia de tua
morte. Olho para a cigana em busca de um sorriso desmentindo: estou
brincado, tua vida será feliz. Não encontro nada. A expressão trágica
de uma mulher que pode ler o futuro escrito nas mãos. A expressão
tirânica de uma mulher que sabe seu próprio futuro e não tem
medo. Saio correndo. Dentro da cabeça martelam-me as palavras:
"breve será o dia de tua morte". Como pode minha mão ser
livro para o destino? Por que o destino escreveu tão pouco em mim?
Sou feliz. Tenho filhos. Jovem ainda, trinta e dois anos. O amor
compareceu na minha vida muito cedo e completo. Tenho casa, amigos,
carro, emprego bom, família: os artefatos para a felicidade. Por
que agora me descubro morto em breve? Sei que não deveria acreditar
em uma mulher maltrapilha que me parou na rua, pegou minhas mãos e
sem hesitar arremessou-me num calvário. Olho os hieróglifos que me
escreveram nas mãos. Nada vejo, sulcos, como se fossem cicatrizes
das vidas que dizem eu tive. Chego em casa, os filhos abraçam-me.
Beija-me a esposa, contam-me o dia. Escuto pouco. Escuto o martelo:
breve será o dia de tua morte. A esposa estranha, pergunta o motivo
da distância. Disfarço-me em proximidades. Olho para as mãos dos
filhos. Estão lá as linhas, o que está escrito nelas? o que o
destino cometeu para estas crianças? Saio um pouco de casa. Vou
andar por aí. Não tenho sono. São palavras para satisfazer a
mulher. Tenho que achar a cigana, ela vai reler minhas palmas, vai
dizer que errou a leitura, desacostumada com o mistério,
enganou-se. Ela vai ler vida longa em mim. Vou procurar a cigana. Não
tenho coragem para a morte. Na verdade nunca penso nisso. Próximos
de mim já morreram: o pai, os avós, alguns conhecidos. Sempre
olhei para eles com piedade. Cortados. Súbito não respiram,
recebem terra por sobre o corpo e desaparecem. Não tenho coragem
para enfrentar a arma que o estar vivo nos aponta. O irremediável
que puxará o gatilho e tombaremos árvore imprecisa. Saber é o que
magoa. Tenho que achar a cigana, desfazer o dito, retornar suas
palavras à garganta. Tenho que viver sem saber que logo morro.
Continuo olhando
para as mãos. Analfabeto. A cigana deve ainda estar na cidade.
Ciganos são errantes, não posso perder tempo, tenho que achar a
mulher para que seja desfeito o presságio. Volto tarde, a esposa na
sala manifesta preocupação: cidade violenta, andar por aí é
perigoso, o que aconteceu hoje? Digo evasivas, trabalho muito. Insônia.
Não fui longe. Vamos dormir. Amo a esposa para silencia-la. Mecânico.
Um pouco de culpa atravessa meus movimentos. Quase não posso.
Termino. O beijo do foi bom. Nas mãos as linhas escritas anunciando
minha brevidade. Dorme a mulher. Dormem os filhos. Em mim gritam os
escritos lidos pela cigana. Falto ao trabalho. Doente, não posso
ir, amanhã estou melhor. Entendem, sempre fui exemplar. Passo o dia
atrás da cigana, cada canto, cada miséria da cidade foi visitada
por mim, não viram ciganos por estes dias: enganado o senhor, eles
sempre acampam aqui, faz mais de ano que não aparecem. Tem certeza?
Sou revestido de toda a certeza que há. Ontem uma mulher me parou
na rua, pegou minha mão e disse: escrito na tua mão: teu destino
é curto. Breve será o dia de tua morte. Como pôde sumir assim?
passo o fim do dia no lugar onde me soube morto. Observo cada
pedestre. Nenhum é a cigana. Volto para casa. Finjo melhoras. Tento
me lembrar do que eu era antes de ontem. Do que dizia aos filhos, do
que a esposa gostava de ouvir. Rememoro os gestos, o sentar-se na
poltrona, o interesse no dia dos pequenos, suas tarefas, suas
travessuras, o lugar à mesa, o jantar, algum olhar malicioso para a
mulher. Faço tudo dentro do estabelecido. Na cabeça os martelos
continuam ressoando. Nas palmas, as linhas continuam escritas. Falto
ao trabalho novamente. Preocupam-se. Gripe forte. Febre. Vou a um médico
hoje. Dizem que eu me cuide. Quase a pergunta foge da boca:
como? Se uma mulher previu minha morte? e não tenho outro fazer que
não caça-la. Quase que digo, só retorno ao trabalho depois que a
cigana desfizer o dito. Antes não. Minto é claro, se estiver
melhor amanhã vou. Compreendem, sempre fui exemplar. Minto para
esposa também: hoje nem me procure, estarei em reunião o dia todo.
Durante a manhã percorro o centro da cidade, vejo todo tipo de
gente. Nas mãos de todos: Linhas semelhantes as que tenho. Mas o
que revelam estas palmas? Por certo, não o mesmo infortúnio que
carrego. Não digo que não há vida mais trágica que a minha.
Sofrem mais do que eu muito desses passantes. Mas por acaso sabem o
que lhes aguarda? Por que acredito tanto naquela mulher? Por que ela
impingiu em mim este fracasso da vida curta? Finda a segunda tarde
depois que me soube morto. Entro num bar. Café. Não, para comer não
quero nada. O atendente me observa como se me conhecesse: O senhor
teve aqui ontem procurando uma cigana, não é mesmo? Sim. Antes que
a boca se apresente os olhos perguntam: você a viu? Anda por aqui
uma cigana que lê as mãos? Seria aquela ali parada na porta?
Viro-me para trás. Estática, submersa em sabedorias a mulher me
olha entre a piedade e a soberba. Procura-me? O que fizeste comigo:
desfaça. Nada daquilo que disseste está escrito aqui. Vamos, desfaça
o presságio. Diga-me que serei longo na vida, que terei netos,
bisnetos, que ultrapassarei a barreira da idade humana, diga-me que
minha vida não tem fim. Que é isto que escreveram nestas linhas
que carrego. Minto se é o que queres, tua vida será longa, envolta
em felicidade, a morte não atingirá teus dias, muito menos tuas
noites, dormirás tranqüilo e acordarás disposto ao trabalho por
muitos e muitos anos. Pronto. Menti, estás contente? Fala-me a
verdade. Teu destino é curto. Breve será o dia de tua morte. É
isto que conténs nas linhas. Não há escapatória. Breve, muito
breve não viverás mais. Como sabes? Como podes me sentenciar desta
forma? Te fiz algo? Machuquei alguns dos teus? Como me escolhes ao
acaso e condena-me à morte? Meu caminho é cruzado por aqueles que
foram escritos pelo destino com as letras originais da morte. Olha
este rebanho que atravessa a cidade, sabes quantos iguais a ti? Um
ou dois. Todo o resto cópia, rascunho, esboço do texto real que tu
carregas. O destino escreveu em ti o texto final. Sem erros ou borrões.
Em ti o livro definitivo. E estou aqui para ler-te. Posso mentir,
enganar tua consciência, incorporar nos teus dias a esperança de
vida longa, no entanto o que contemplas nas mãos, quanta
perfeição. Porque eu nunca soube disto? Sempre indiquei à minha
vida o metódico, o correto, o que não se insinua entre desvios e
escuridões. Sou homem claro, estruturado para a felicidade. Não há
em mim ranços de morto. Por que então fui escolhido? Não sei, sei
que breve será o dia de tua morte, é o que carregas. Saio em
desespero, ainda ouço o grito: Pode correr, nada afetará a
verdade, breve será o dia de tua morte. Por que caí nesta teia?
movido por uma curiosidade estúpida, estendi a mão à cigana. O
que era uma consulta de brincadeira se tornou este amontoado de
absurdos. Ecoam os martelos, agora em dobro: duas vezes vi a
cigana, duas vezes ela previu meu destino curto. Volto caminhando
para casa,na cabeça os martelos, nem quase ouço a mulher: Por que
veio a pé? onde está o carro, te roubaram? Roubaram minha ignorância,
foi o quase grito que dei. Digo a esposa nova mentira, não se
preocupe o carro está guardado na empresa, vim de carona e um pouco
andando, precisava disto. Vem jantar, está tarde, as crianças já
dormem. Invisto-me de esforço e engulo a comida, o resto é
perfurado num silêncio de velório, meu velório. Agora já
assalta-me a idéia de como vou morrer em breve. Ataque do coração?
atropelado? Serei vítima de um assassino? Desfaleço na
simplicidade do sono. Durmo e não mais acordo? Não durmo. Caminho
pelos corredores da casa, todos se distanciam ressonando, a mulher,
os filhos. No quarto das crianças: despeço-me. Os filhos estão
aqui seguros, envoltos em felicidade familiar e eu carregando nas mãos
os escritos do destino. Traí meus filhos. Não deveriam ter
nascido, aprendido em mim um pai, se em breve será o dia de minha
morte. O que farão estas crianças? são rascunhos como disse a
cigana, ou deixei para os filhos o legado de morrer em breve? Choro,
escondo os soluços para que não ouçam. Sou todo medo. O que vou
fazer diante desta peste que me dizima a esperança? a mulher põe
as mãos no meu ombro: O que te atingiu nestes dias? Nada, talvez
cansaço, precisamos de férias, vai dormir, amanhã o dia é cheio.
Afasto de mim esta que me ama. O quanto deste amor resistirá quando
souber que é véspera da sua viuvez? Por que acredito numa cigana?
em qualquer outro a premonição provocaria risos, chacotas de
despreocupação. A razão me pede que esqueça, desconsidere o
presságio, mas lá no fundo eu sei que morro em breve. Eu sei.
Trinta e dois anos. É o que tenho, filhos, esposa, carro, casa: é
o que tenho. Eu sei que não vou abandonar o que construí, o que
sustenta minha vida sem sobressaltos. O destino fez de minhas mãos
um livro. É o que tenho. Não vou sucumbir a isso. Precisam de mim.
A mulher, os filhos, os muitos amigos, gostam de mim. Não vou
morrer. Vou reescrever estas linhas, desdizer estes traços, livrar
de mim este prognóstico macabro. Tenho trinta e dois anos, mulher,
filhos, felicidade, não sou homem apto a carregar este livro. Não
quero aprender a ler o que me escreveram os demônios, deus, ou
outras invisibilidades mórbidas, travestidas em destino. Na pia do
banheiro esfrego o quanto posso, até ter as palmas lisas. Brota o
sangue e as linhas estão lá, parecem agora rios minúsculos
desaguando em sangue os escritos do destino. Saio pela rua, esfregar
as palmas até arrancar a pele, até que seja somente a carne, não
adianta, vem de dentro as letras, estão enraizadas aos ossos das mãos.
Arrancar a pele é paliar o inevitável: breve será o dia da minha
morte. O que estou dizendo? Assumindo o que a boca da cigana me
maldisse? Não, não chegará o dia em que aceitarei morrer jovem.
Tenho filhos. Trinta e dois anos. Mulher. Família. Sou Feliz, está
tudo lá dependendo do meu trabalho, do meu amor, da felicidade que
lhes dou. Como agora encho o pensamento de aceitações? Nunca, não
está em mim o perdedor. Manhã do terceiro dia, ainda estou vivo,
ainda tenho tempo para desescrever o destino. Falto ao
trabalho, gripe pior, atingiu meu filho, peço mais um dia. Dizem:
tudo bem. Não se preocupe, seguramos as pontas, saúde é
importante. Sempre fui exemplar. Não será agora na necessidade que
me faltarão. Tenho a solução, vou apagar em mim os escritos do
destino. Viverei muito, muitos anos e não morrerei breve. A cigana,
crivada de enganos virá ver o quanto eu posso enganar o destino.
Todos se admirarão de minha coragem, do meu amor pelos
filhos, pela esposa, pela vida amiga de perfeição e felicidade que
eu levo. Tenho trinta e dois anos. Muito futuro, muito a dar a
todos, sou feliz, não sou compatível com os escritos do destino.
Volto para casa meio-dia, comprei o necessário para erradicar de
mim o que carrego. A casa está vazia, crianças na escola, mulher
no trabalho, poderiam se assustar se vissem, não contei nada para
eles, não sabem que morrerei em breve se não apagar em mim o que
me escreveram. Tudo vazio, a garagem, a casa, a vida, o futuro, tudo
vazio para que eu possa preencher de felicidade, depois que eu
apagar o que o destino escreveu em mim. Na cabeça os martelos ainda
soam: breve será o dia de tua morte. Ligo a serra comprada em uma
loja de materiais para açougueiros. Estico os braços em direção
a lâmina. Na altura dos cotovelos. Primeiro o esquerdo, depois o
direito. Mortas as linhas que me diziam morto. Nunca mais soarão
os martelos. Nunca mais cigana alguma me lerá as mãos.
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