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Em um passado,
hoje para mim irrelevante, sempre fui criticado por me deter demais
em detalhes, e isto me fazia de imediato desqualificado para
diversas atividades e foram muitas as decepções colecionadas.
Como se não
bastasse, era visto como uma aberração, por conseguir me lembrar
com facilidade de fatos que para outros era considerado impossível,
não importando quanto tempo se passasse.
O que no inicio
parecia ser um problema, uma doença, com o tempo provou que poderia
ser uma vantagem e por caminhos tortos acabei encontrando minha
profissão e minha identidade enfim.
O sinal sonoro
no saguão indicava para ouvidos treinados que um acontecimento
especial estava ocorrendo.
Gostava do meu
atual trabalho no Porto e após seis anos como vigia em um centro de
compras, este era consideravelmente bem melhor.
-Wash!
Responda!
Wash era meu
nome e a voz que parecia vir de dentro da minha cabeça partia do
minúsculo aparelho preso ao ouvido direito.
-Na escuta,
prossiga, disse pressionando o interruptor do aparelho suspenso na
frente dos lábios.
-Visitantes
chegando. Vamos fazer uma triagem seletiva nos vôos de número
ímpar. Fique
com o Seis!
-Estou indo!
Respondi me descolando do balcão onde estivera nos últimos dez
minutos, observando o mundo exterior pelas gigantescas janelas do
multiporto.
Era um trabalho
bem remunerado, em um lugar tranqüilo, bom para criar os filhos,
mesmo sabendo que em breve eles nos deixariam em busca de novas
experiências, provavelmente em um dos mundos superpovoados, mas até
lá,
dava para vê-los
crescer sem o perigo da radioatividade ou das superpragas.
Por uma das
lentes do visor negro que cobria inteiramente meu rosto, rolava uma
lista luminosa contendo nomes de passageiros.
Quando desci do
turbo-elevador já tinha escolhido uma lista de ‘suspeitos’.
A política da
empresa se tornara bem mais rígida nos últimos cinco meses, desde
que alguns movimentos revolucionários surgiram nas colônias
exteriores mais povoadas.
Já colocado ao
portal de saída, indiquei aos atendentes quais seriam os escolhidos
para a entrevista de sempre.
De onde veio,
qual o motivo da ‘visita’, quanto tempo permaneceria, se possuía
parentes ou conhecidos, onde ficaria, etc, etc.
No vôo um,
conversei dez minutos com um padre de longa e cuidada barba. Tinha
um sotaque interessante, salivava muito, temperatura normal e uma
ficha bem variada de atividades, mas nada que o colocasse sob vigília.
No vôo três conversei com duas meninas que viajavam sozinhas, o
que era bem incomum por aqui. Foram bem receptivas, embora uma delas
estivesse com a temperatura acima do normal. No sensor biomédico
ambas passaram sem
qualquer
recomendação. Comuniquei ao setor medico e repassei os dados.
O homem
escolhido no vôo cinco estava morto pelas minhas leituras iniciais.
Pelo biomédico
passara incólume. Me fez o gesto de saudação característico,
indicando que
conhecia os costumes locais, mesmo não sendo um ser humano.
O mecano sorriu
ao colocar suas duas malas sobre o balcão. Dois atendentes
a varreram com
seus bastões digitais. Não precisei abrir-las para saber que
estavam vazias, devido ao peso registrado.
Bentley, J. Mecano. Endereço confirmado, dono de uma pequena industria com escritório
no centro.
-Motivo da
visita? Perguntei checando a validade de seu cartão.
A sua ficha
indicava um titulo de cidadão benemérito classe ouro, o que
significava nas entrelinhas que doava grandes quantias de dinheiro
para eventos governamentais, e por isto, apesar de mecano, tinha
livre acesso e direito a requisitar moradia. Um privilégio para
poucos.
-Tenho negócios
aqui e possuo um escritório e duas residências também.
-De acordo.
Seus cabelos
ralos quase não se mexiam, colados como uma touca dourada.
A pele
bronzeada irradiava uma imagem saudável e espontânea, apesar do
físico nada
atlético.
- Algum
problema? Sorriu o mecano com dentes perfeitos na minha direção.
Exercendo de
treinada polidez, respondi de imediato que se tratava apenas de um
procedimento padrão. E ainda disse:
-Após os últimos
atentados, a vigilância foi aperfeiçoada.
-Não quer
dizer que um mecano poderia estar envolvido...
Percebi meu
erro só então. Por trás do visor negro que escondia meu rosto,
ele não poderia ter mesmo percebido que estava apenas querendo ser
cordial.
-De maneira
alguma, eu apenas fiz menção... e não foi minha intenção...
-Mas entre
trinta passageiros, você me escolheu.
Sorria ainda, não
parecia contrariado, pelo contrario, até divertido.
Assim como meu
visor funcional negro e agressivo, seu rosto era uma sofisticada máscara,
dissimulando qualquer reação.
Sinalizei aos
ajudantes que devolvessem os pertences.
-Suas malas estão
vazias.
-Não são
minhas, estou devolvendo-as ao verdadeiro dono.
Fechei a sua
ficha com um piscar de olho sobre o indicador de envio.
A sala contígua
se enchia de visitantes impacientes do vôo Sete.
-As iniciais na
mala... são suas.
O mecano já
distava uma boa dezena de passos, mas mesmo assim me ouviu
e se virou nas
bases dos calcanhares.
-Parece que
nada lhe escapa...Wash, não é?
O distintivo e
o nome eram bem evidentes. Acenei de leve.
Os primeiros
visitantes do vôo seguinte já atravessavam o portal e seus dados
jorravam em dois visores gêmeos.
Nada de muito
interessante, na sua maioria ricaços que voltavam para suas
mansões, seus
ranchos e sítios que possuíam alguns o tamanho de um pequeno país.
Detive por
alguns minutos uma senhora que não constava como residente mas
alegava ser nativa. O visto estava vencido e suava em excesso.
Parecia
esconder alguma coisa, era quase tátil a sensação de incômodo.
A respiração
acelerada.
Apertava entre
as mãos um lenço e dava respostas que terminavam com indagações.
Além disso, trazia quase 600 quilos extras.
Alegou também
ter um emprego de decoradora.
Não constava.
Enquanto
ajudava a fechar sua maleta, acionei discretamente a segurança.
Havia sempre
aqueles que desejavam se infiltrar entre a população controlada.
Não importava
se fossem sempre flagrados, estavam sempre voltando.
Sentia uma
flutuação sensível na fila de visitantes, enquanto a senhora era
carregada para a sala da carceragem e investigação.
-Próximo!
Labaredas azuis
e amarelas pintavam o céu com fúria descabida.
Gostava
particularmente dos painéis transparentes do último andar,
sentia-os
tremer sob as mãos.
Entre uma
obrigação e outra, vinha aqui para excitar os sentidos.
Era um espetáculo
de causar estupefato a qualquer um, embora poucos estivessem no saguão
àquelas horas da madrugada.
Alguns mecânicos,
com seus uniformes vermelhos sentados na Cafeteria,
uma moça com
olhos muito vermelhos de tanto chorar e sapatos gastos nas
laterais,
sentada aos bancos de espera e um autômato de faxina, girando e
varrendo junto às lojas de souvenires fechadas.
Um alarme
programado me pegou desprevenido.
Fora ativado
devido a uma congruência relacional.
Não lembrava
de tê-lo feito, mas devia ter um motivo para tal.
No vôo recém-desembarcado,
Bentley J., sem bagagens, descia pela passarela
de conexão número
1109.
Apressei o
passo para alcançar o ascensor privado mais próximo enquanto
fazia contato
com a recepção, avisando ao vigilante do posto, que
“segurasse” temporariamente o passageiro Bentley J.
Enquanto
manuseava o cartão de acesso privado, elaborava um motivo para
justificar a
retenção do passageiro, mesmo sem existisse algum.
Encontrei-o
quase no mesmo lugar de antes, no mesmo portão e posição.
Usava de um
casaco verde comprido, aparentemente muito confortável e caro.
-Senhor
Bentley, sinto muito fazê-lo esperar!
Lancer, o outro
vigia, me passou os documentos do mecano e fez um sinal que
significava
‘amasse-o’, mas sendo apenas de nosso conhecimento.
-Encontrou o
dono das suas maletas? Perguntei examinando a documentação. Tudo
estava perfeito, nenhuma vírgula fora do local.
-Não sei do
que se trata! Fiz uma péssima viagem e sou esperado longe daqui à
quase uma hora. Portanto se puder me liberar, providenciarei um
justo agradecimento especial ao seu superior, vigia...
-Wash! Não é
necessário, nos encontramos aqui dias atrás e quis apenar saber se
o senhor encontrou o dono das suas maletas.
Nenhuma
temperatura, nenhum batimento cardíaco, nem emissão de qualquer
corpúsculo detectável. Mas sem duvida estava indignado.
-Sinto não tê-lo
reconhecido, tenho viajado muito, estou muito atarefado estes dias.
Posso ir embora?
-Gostaria que
chamássemos um carro?
Fez um gesto
negativo com a mão já se afastando.
Sua retirada
apressada foi a única coisa curiosa, em todo aquele dia.
Até nos
revermos dois dias depois.
Desembarcava
com um engradado. Pagou antecipada a retirada, mas não o fez na prática,
foi embora como se nada de importante se tratasse.
Pensei bastante
nisso em casa enquanto fazia a barba.
Por que pagara
se não iria retirar já?
A regularidade
de seus vôos passou a ser de minha atenção.
Outros vigias
caçoavam e faziam piadas a meu respeito.
Montei um
quadro de suas chegadas, sempre com diferença de um dia, e o
afixei no
espelho da sala.
Se
intensificaram faz dois meses e o ponto de partida era sempre o
mesmo. Logo tinha seus registros semanais de quase um semestre
inteiro.
Nunca pedira um
autocarro nem alugara, embora constasse licença de direção e
posse de diversos veículos.
Aguava o rosto
ao lavabo quando me foi comunicado que Bentley J. estava na
Carceragem e Investigação.
O Supervisor me
esperava em seu escritório.
No silêncio de
sua ampla sala, Pontiac pediu que esperasse enquanto assistia uma
teleconferência passiva.
Ao fim,
desligou a pequena tela e olhou-me sem compaixão ou condescendência,
jogando o
corpanzil contra o amplo encosto da poltrona.
Era óbvio que
não me suportava, embora fizesse um bom trabalho e tinha até pelos
colegas um reconhecimento. As muitas vezes que comparecera ao seu
escritório deixava claro que meu comportamento era dos mais
notados.
-Meteu os pés
pelas mãos, não foi? Temos algumas lâmpadas recém adquiridas no
almoxarifado... porque não vai testá-las pessoalmente e deixa
nossos cidadãos em paz?
-Recebeu uma
queixa contra mim?
-Boletim 54-I,
preenchido. Invasão de privacidade! Imagine! Quem pode esperar mantê-la
seriamente? É um dos maiores pilares de nossa sociedade. TODOS
SOMOS ESCRUTÁVEIS!
Fora registrar
um queixa por invasão de privacidade...para alguém tão bem
ambientado, parecia uma falha no mínimo curiosa.
-Ele alega
perseguição, e isto já é outro caso. Se tem alguma denúncia
contra o sujeito, faça-o imediatamente ou serei obrigado a te
afastar para que não perca seu emprego, mas só desta vez!
Compreendido Wash?
-Quanto tempo
tenho para apresentar?
-Uma prova
concreta? Detrás de sua mesa, Pontiac iniciou uma risada
escarnecedora, tirando o eterno charuto dos lábios grossos. Você
é mais louco do que falam por ai! Vá embora, vá trabalhar, ou
melhor, vá para casa! Descontarei este dia das suas férias!
-O senhor
Bentley ainda se encontra aqui? Perguntei devolvendo a cadeira ao
lugar exato.
-Não! Estava tão
agitado que encostou-se a um aquecedor e colocou fogo na própria
roupa. Tivemos que leva-lo para ser atendido no setor medico. Propus
pagarmos pelos danos, mas recusou-se a aceitar. Sujeito irascível
aquele!
-
Nas semanas
seguintes assisti pacificamente nosso visitante mais constante, ir e
vir sem que ninguém o importunasse.
Enquanto isso
pegamos dois sujeitos tentando entrar com aves exóticas e uma
mulher que escondera uma espécie de fuinha dentro da roupa.
O tráfico de
espécies animais dos mundos exteriores era um negócio muito
lucrativo e punível pela lei com rigor.
A entrada de um
organismo em um ambiente controlado como o nosso, poderia despertar
aquilo que mais temíamos e lutávamos para evitar.
Um desequilíbrio.
Além disto um
ministro que chegava de uma lua interna para consagrar o matrimônio
da filha de um rico agricultor, desembarcara com suspeita de
ser portador de
um perigoso vírus e fora deportado imediatamente, depois
de selado à vácuo,
despido e espargido com material anti-propagação.
Fora isso
admirava a simetria das minhas botas lustradas, aprendia a estratégia
do jogo de GO, com o dono da Cafeteria e assistia aos foguetes
chegando ruidosamente, de tempos em tempos.
Um antigo
conhecido que trabalhava na vigilância do Porto Oceânico, de onde
partiam as grandes naves, me enviara um arquivo de centenas de vôos
e alguns vídeos gravados na garagem com senhor Bentley J. que se
mostrou ser também bastante conhecido por aquelas bandas. Passei e
repassei tudo aquilo durante alguns dias.
Em casa
assistia as gravações após o banho e só parava para jantar ou pôr
os gêmeos na cama.
De uma forma
para mim inexplicável, achei bastante importante durante
o almoço na
cantina dias depois, separar as ervilhas do resto da comida.
Não comia
coisas verdes, nunca, em hipótese alguma!
Com o garfo,
recolhia as pequenas bolotas e as depositava em um guardanapo.
Eu já me
queixara disto antes, mas parecia não ter recebido a atenção
devida.
O garfo arando
o purê de batatas, retirando do molho cada pequena bandida
verde e depois
depositando à parte.
O mesmo garfo,
indo e vindo, até não haver mais sinal das ervilhas.
Ervilhas.
Garfos. Fazia sentido e era tão simples que gritava!
Como eu não
reparara? Eu era mesmo muito tonto!
Terminei meu
bife processado com renovado interesse e fui procurar Pontiac.
Aguardava
mastigando uma barra de proteínas.
Coloquei o que
restou no bolso ao ouvir o sinal da chamada.
Bentley J.
esperava na sala de interrogatório, sala esta igual a qualquer
outra que já existira. Uma mesa, duas cadeiras que obrigavam as
pessoas sentadas a ficarem face a face, uma lâmpada no teto e mais
nada que servisse para desviar os olhos.
Ele havia
retirado o casaco imitação de couro animal.
Usava colar de
ossos minúsculos e óculos cor-de-rosa.
Fez um som com
a boca, um muxoxo, ao me ver entrar.
Saudei-o e me
sentei bem à sua frente.
A única lâmpada
iluminava o bastante para fazer seu cabelo brilhar como ouro líquido.
-Estou preso?
Murmurou ajeitando a haste transparente dos óculos ao nariz.
-Por que
pergunta? O senhor fez alguma coisa da qual se arrepende?
Sorriu.
Reconheceu que eu era treinado para aquela situação. Não um
sorriso generoso, mas cínico, estreito.
-Estamos então
sendo gravados? Perguntou olhando a volta, adivinhando os
mecanismos
camuflados que geravam imagens e sons para o escritório central.
-Quando não
estamos senhor Bentley? São as regras do Paraíso.
-Por que fui
trazido aqui? Estou sendo acusado?
Cada cotovelo
seu apoiado na mesa parecia ter uma relação geométrica perfeita
com o tórax arqueado à frente, do tipo ser possível ser medido e
encontrado um resultado como uma fórmula ou algo parecido.
-Provavelmente
o senhor nunca me viu antes, embora eu tenha lhe encontrado dezenas
de vezes.
-Poderia
explicar melhor? É alguma charada?
-Mecanos são
criaturas fascinantes. Tão complexas e tão evoluídas. Acho que
deve sentir-se orgulhoso.
-Não sei a que
se refere, mas me parece que está se complicando cada vez mais,
pois desde a Revolução de 112, temos condições igualitárias em
diversas colônias. Creio que sabe que desrespeitá-las é um crime
sério.
-Crime igual a
poucos, se me lembro. Como por exemplo, a entrada de mecanos entre
as colônias exteriores, sem permissão.
-Do que está
me acusando, não seja ridículo vigilante! Viu meus documentos,
sabe quem eu sou!
-Sei apenas o
que você é, mas não quem você é, pois o senhor Bentley, se é
que existe um, não está nesta sala.
-Que ficção!
Continue, vamos, divirta-me! Faça papel de bobo!
-Não preciso
me prolongar muito, na verdade já vi o bastante. Você, seja lá
quem for, está preso por fazer-se passar por outra pessoa, preso
por enganar um órgão do Estado, preso por fazer parte de um
esquema para infiltrar mecanos em nosso mundo sem permissão.
O mecano não
disse mais nada.
Parecia
enxergar incredibilidade através das lentes coloridas.
Continuei:
-A primeira vez
que encontrei um de vocês, ele foi amável. A segunda vez, ele
não me
reconheceu, pois houve uma falha no esquema, só consertada
posteriormente. O outro Bentley era um sujeito estourado... como vocês
são formidáveis em suas particularidades! É uma condição
natural, se é que a palavra possa ser empregada. Cada qual de vocês,
um ser, um indivíduo único, apesar da aparência similar.
-Esta me
acusando apenas por ter um comportamento múltiplo? Você é mesmo
um louco! Estou perdendo tempo aqui!
-As suas malas
não eram suas, mas do Bentley J. original.
O mecano fez um
gesto para se levantar, porem o detive antes disto, segurando com
certa força seu braço.
-Peguei o
registro do incidente com o queimador. Você sequer está ferido e
aquela cicatriz deve estar por aí, em outro igual a você. Tenho
fotos suas na garagem, adivinhe, dentro do carro que ainda espera
você chegar. Passei todo este tempo esperando encontrar contrabando
com você, mas o verdadeiro contrabando era você mesmo!
A porta se
abriu. Dois agentes do Estado o detiveram, cada qual segurando um
dos braços e mais homens esperavam do lado de fora.
Algemaram-no em
seguida.
O pretenso
Bentley virou-se e disse em voz declamatória, encarando-me:
-Imagino por
que você não tira este visor negro do rosto. Deve ser
decepcionante para vocês, não fazerem parte de algo tão especial.
Serem apenas organismos biológicos. Este visor deve lhe conferir a
idéia pervertida de que é algo bem melhor do que é na verdade.
Fiz um sinal
para que se apressassem.
Seu óculos
cor-de-rosa permaneceu partido ao chão.
Quinze laudas
de um relatório depois, eu atravessava a garagem só tendo em mente
uma xícara de algo quente e depois de regar o jardim, deitar-me.
Pontiac
encontrou-me procurando o cartão do carro nos bolsos do casaco.
Ainda não
gostava de mim. Não me entendia e não fazia questão também.
-O que você é?
Aqui entre nós... algum tipo de cérebro ciborgue de seis milhões?
-Vou pra casa,
boa noite!
-Não vai me
dizer como faz estas coisas? Qual é o abracadabra?
Sorri. Ele
tinha exagerado no Bourbon. Fazia gestos exagerados com as mãos
imensas. Provavelmente morava sozinho, num flat à beira do rio,
cuspia da janela e ouvia música antiga até tarde. Comprava roupas
por encomenda em catálogos e comia apenas daquela refeição que
fica pronta em cinco minutos, tempo exato dos intervalos da tv.
-Não tem mistério...
mas quer ouvir uma piada que ouvi dezoito anos atrás, em uma parada
de caminhões, bem longe daqui?
-Aposto que se
lembra até do que comeu o seu vizinho!
-De qual lado?
-Esquerdo,
disse sentando-se ao capo do meu carro velho.
-Ovos,
costeleta e torradas, bebeu limonada e gim. Eu comi espetinhos de
carnes mistas e bebi gasosa e gelo.
Fez um muxoxo
surdo, igual ao do mecano ao me ver.
-Qual é a
droga da piada afinal?
-Dois guardas
de fronteira se encontram depois de aposentados. Começam a lembrar
e contar dos velhos tempos, das coisas loucas que viveram naquele
emprego. Um deles diz:- Você se lembra do Zé da areia? Que Zé?
indaga o outro fazendo um esforço de memória. Aquele Zé da areia,
que todo dia passava na fronteira com um carrinho de mão cheio de
areia. Todo dia eu fazia ele peneirar a droga da areia, todo dia.
Ele estava certo de que um dia eu diria, vá em frente, passe, é só
areia mesmo, e a partir daí ele me pegaria, mas não, todo dia lá
vinha o Zé da areia com seu carrinho de mão e eu PUM, fazia ele
peneirar a areia, o coitado! Nunca teve vida fácil comigo! Ai o
outro se ilumina e diz, mas, o Zé da areia é rico hoje! Tem uma
casa enorme, vários carros e terrenos, ficou milionário! Mas como?
Era só areia! Ao que o outro responde, na verdade ele
contrabandeava carrinho de mão!
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