O Caso do Contrabandista de Areia

 Carlos Abreu

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0186]
[Autor: Carlos Abreu]
[Título: O Caso do Contrabandista de Areia]
[Gênero: Ficção Científica]
[Número de Palavras: 3.190]

 

Em um passado, hoje para mim irrelevante, sempre fui criticado por me deter demais em detalhes, e isto me fazia de imediato desqualificado para diversas atividades e foram muitas as decepções colecionadas.

Como se não bastasse, era visto como uma aberração, por conseguir me lembrar com facilidade de fatos que para outros era considerado impossível, não importando quanto tempo se passasse. 

O que no inicio parecia ser um problema, uma doença, com o tempo provou que poderia ser uma vantagem e por caminhos tortos acabei encontrando minha profissão e minha identidade enfim.

O sinal sonoro no saguão indicava para ouvidos treinados que um acontecimento especial estava ocorrendo.

Gostava do meu atual trabalho no Porto e após seis anos como vigia em um centro de compras, este era consideravelmente bem melhor.

-Wash! Responda!

Wash era meu nome e a voz que parecia vir de dentro da minha cabeça partia do minúsculo aparelho preso ao ouvido direito.

-Na escuta, prossiga, disse pressionando o interruptor do aparelho suspenso na frente dos lábios.

-Visitantes chegando. Vamos fazer uma triagem seletiva nos vôos de número

ímpar. Fique com o Seis!

-Estou indo! Respondi me descolando do balcão onde estivera nos últimos dez minutos, observando o mundo exterior pelas gigantescas janelas do multiporto.

Era um trabalho bem remunerado, em um lugar tranqüilo, bom para criar os filhos, mesmo sabendo que em breve eles nos deixariam em busca de novas experiências, provavelmente em um dos mundos superpovoados, mas até lá,

dava para vê-los crescer sem o perigo da radioatividade ou das superpragas.

Por uma das lentes do visor negro que cobria inteiramente meu rosto, rolava uma lista luminosa contendo nomes de passageiros.

Quando desci do turbo-elevador já tinha escolhido uma lista de ‘suspeitos’.

A política da empresa se tornara bem mais rígida nos últimos cinco meses, desde que alguns movimentos revolucionários surgiram nas colônias exteriores mais povoadas.

Já colocado ao portal de saída, indiquei aos atendentes quais seriam os escolhidos para a entrevista de sempre.

De onde veio, qual o motivo da ‘visita’, quanto tempo permaneceria, se possuía parentes ou conhecidos, onde ficaria, etc, etc.

No vôo um, conversei dez minutos com um padre de longa e cuidada barba. Tinha um sotaque interessante, salivava muito, temperatura normal e uma ficha bem variada de atividades, mas nada que o colocasse sob vigília. No vôo três conversei com duas meninas que viajavam sozinhas, o que era bem incomum por aqui. Foram bem receptivas, embora uma delas estivesse com a temperatura acima do normal. No sensor biomédico ambas passaram sem

qualquer recomendação. Comuniquei ao setor medico e repassei os dados.

O homem escolhido no vôo cinco estava morto pelas minhas leituras iniciais.

Pelo biomédico passara incólume. Me fez o gesto de saudação característico,

indicando que conhecia os costumes locais, mesmo não sendo um ser humano.

O mecano sorriu ao colocar suas duas malas sobre o balcão. Dois atendentes

a varreram com seus bastões digitais. Não precisei abrir-las para saber que estavam vazias, devido ao peso registrado.

Bentley, J. Mecano. Endereço confirmado, dono de uma pequena industria com escritório no centro.

-Motivo da visita? Perguntei checando a validade de seu cartão.

A sua ficha indicava um titulo de cidadão benemérito classe ouro, o que significava nas entrelinhas que doava grandes quantias de dinheiro para eventos governamentais, e por isto, apesar de mecano, tinha livre acesso e direito a requisitar moradia. Um privilégio para poucos.

-Tenho negócios aqui e possuo um escritório e duas residências também.

-De acordo.

Seus cabelos ralos quase não se mexiam, colados como uma touca dourada.

A pele bronzeada irradiava uma imagem saudável e espontânea, apesar do

físico nada atlético.

- Algum problema? Sorriu o mecano com dentes perfeitos na minha direção.  

Exercendo de treinada polidez, respondi de imediato que se tratava apenas de um procedimento padrão. E ainda disse:

-Após os últimos atentados, a vigilância foi aperfeiçoada.

-Não quer dizer que um mecano poderia estar envolvido...

Percebi meu erro só então. Por trás do visor negro que escondia meu rosto, ele não poderia ter mesmo percebido que estava apenas querendo ser cordial.

-De maneira alguma, eu apenas fiz menção... e não foi minha intenção...

-Mas entre trinta passageiros, você me escolheu.

Sorria ainda, não parecia contrariado, pelo contrario, até divertido.

Assim como meu visor funcional negro e agressivo, seu rosto era uma sofisticada máscara, dissimulando qualquer reação.

Sinalizei aos ajudantes que devolvessem os pertences.

-Suas malas estão vazias.

-Não são minhas, estou devolvendo-as ao verdadeiro dono.

Fechei a sua ficha com um piscar de olho sobre o indicador de envio.

A sala contígua se enchia de visitantes impacientes do vôo Sete.

-As iniciais na mala... são suas.

O mecano já distava uma boa dezena de passos, mas mesmo assim me ouviu

e se virou nas bases dos calcanhares.

-Parece que nada lhe escapa...Wash, não é?

O distintivo e o nome eram bem evidentes. Acenei de leve.

Os primeiros visitantes do vôo seguinte já atravessavam o portal e seus dados jorravam em dois visores gêmeos.

Nada de muito interessante, na sua maioria ricaços que voltavam para suas

mansões, seus ranchos e sítios que possuíam alguns o tamanho de um pequeno país.

Detive por alguns minutos uma senhora que não constava como residente mas alegava ser nativa. O visto estava vencido e suava em excesso.

Parecia esconder alguma coisa, era quase tátil a sensação de incômodo.

A respiração acelerada.

Apertava entre as mãos um lenço e dava respostas que terminavam com indagações. Além disso, trazia quase 600 quilos extras.

Alegou também ter um emprego de decoradora.

Não constava.

Enquanto ajudava a fechar sua maleta, acionei discretamente a segurança.

Havia sempre aqueles que desejavam se infiltrar entre a população controlada.

 

Não importava se fossem sempre flagrados, estavam sempre voltando.

Sentia uma flutuação sensível na fila de visitantes, enquanto a senhora era carregada para a sala da carceragem e investigação.

-Próximo!

 

                                                                 

 

Labaredas azuis e amarelas pintavam o céu com fúria descabida.

Gostava particularmente dos painéis transparentes do último andar,

sentia-os tremer sob as mãos.

Entre uma obrigação e outra, vinha aqui para excitar os sentidos.

Era um espetáculo de causar estupefato a qualquer um, embora poucos estivessem no saguão àquelas horas da madrugada.

Alguns mecânicos, com seus uniformes vermelhos sentados na Cafeteria,

uma moça com olhos muito vermelhos de tanto chorar e sapatos gastos nas

laterais, sentada aos bancos de espera e um autômato de faxina, girando e varrendo junto às lojas de souvenires fechadas.

Um alarme programado me pegou desprevenido.

Fora ativado devido a uma congruência relacional.

Não lembrava de tê-lo feito, mas devia ter um motivo para tal.

No vôo recém-desembarcado, Bentley J., sem bagagens, descia pela passarela

de conexão número 1109.

Apressei o passo para alcançar o ascensor privado mais próximo enquanto

fazia contato com a recepção, avisando ao vigilante do posto, que “segurasse” temporariamente o passageiro Bentley J.

Enquanto manuseava o cartão de acesso privado, elaborava um motivo para

justificar a retenção do passageiro, mesmo sem existisse algum.

Encontrei-o quase no mesmo lugar de antes, no mesmo portão e posição.

Usava de um casaco verde comprido, aparentemente muito confortável e caro.

-Senhor Bentley, sinto muito fazê-lo esperar!

Lancer, o outro vigia, me passou os documentos do mecano e fez um sinal que

significava ‘amasse-o’, mas sendo apenas de nosso conhecimento.

-Encontrou o dono das suas maletas? Perguntei examinando a documentação. Tudo estava perfeito, nenhuma vírgula fora do local.

-Não sei do que se trata! Fiz uma péssima viagem e sou esperado longe daqui à quase uma hora. Portanto se puder me liberar, providenciarei um justo agradecimento especial ao seu superior, vigia...

-Wash! Não é necessário, nos encontramos aqui dias atrás e quis apenar saber se o senhor encontrou o dono das suas maletas.

Nenhuma temperatura, nenhum batimento cardíaco, nem emissão de qualquer corpúsculo detectável. Mas sem duvida estava indignado.

-Sinto não tê-lo reconhecido, tenho viajado muito, estou muito atarefado estes dias. Posso ir embora?

-Gostaria que chamássemos um carro?

Fez um gesto negativo com a mão já se afastando.

Sua retirada apressada foi a única coisa curiosa, em todo aquele dia.

Até nos revermos dois dias depois.

Desembarcava com um engradado. Pagou antecipada a retirada, mas não o fez na prática, foi embora como se nada de importante se tratasse.

Pensei bastante nisso em casa enquanto fazia a barba.

Por que pagara se não iria retirar já?

A regularidade de seus vôos passou a ser de minha atenção.

Outros vigias caçoavam e faziam piadas a meu respeito.

Montei um quadro de suas chegadas, sempre com diferença de um dia, e o

afixei no espelho da sala.

Se intensificaram faz dois meses e o ponto de partida era sempre o mesmo. Logo tinha seus registros semanais de quase um semestre inteiro.

Nunca pedira um autocarro nem alugara, embora constasse licença de direção e posse de diversos veículos.

Aguava o rosto ao lavabo quando me foi comunicado que Bentley J. estava na Carceragem e Investigação.

O Supervisor me esperava em seu escritório.

No silêncio de sua ampla sala, Pontiac pediu que esperasse enquanto assistia uma teleconferência passiva.

Ao fim, desligou a pequena tela e olhou-me sem compaixão ou condescendência,

jogando o corpanzil contra o amplo encosto da poltrona.

Era óbvio que não me suportava, embora fizesse um bom trabalho e tinha até pelos colegas um reconhecimento. As muitas vezes que comparecera ao seu escritório deixava claro que meu comportamento era dos mais notados.

-Meteu os pés pelas mãos, não foi? Temos algumas lâmpadas recém adquiridas no almoxarifado... porque não vai testá-las pessoalmente e deixa nossos cidadãos em paz?

-Recebeu uma queixa contra mim?

-Boletim 54-I, preenchido. Invasão de privacidade! Imagine! Quem pode esperar mantê-la seriamente? É um dos maiores pilares de nossa sociedade. TODOS SOMOS ESCRUTÁVEIS!

Fora registrar um queixa por invasão de privacidade...para alguém tão bem ambientado, parecia uma falha no mínimo curiosa.

-Ele alega perseguição, e isto já é outro caso. Se tem alguma denúncia contra o sujeito, faça-o imediatamente ou serei obrigado a te afastar para que não perca seu emprego, mas só desta vez! Compreendido Wash?

-Quanto tempo tenho para apresentar?

-Uma prova concreta? Detrás de sua mesa, Pontiac iniciou uma risada escarnecedora, tirando o eterno charuto dos lábios grossos. Você é mais louco do que falam por ai! Vá embora, vá trabalhar, ou melhor, vá para casa! Descontarei este dia das suas férias!

-O senhor Bentley ainda se encontra aqui? Perguntei devolvendo a cadeira ao lugar exato.

-Não! Estava tão agitado que encostou-se a um aquecedor e colocou fogo na própria roupa. Tivemos que leva-lo para ser atendido no setor medico. Propus pagarmos pelos danos, mas recusou-se a aceitar. Sujeito irascível aquele!

 

                                                                                -

 

Nas semanas seguintes assisti pacificamente nosso visitante mais constante, ir e vir sem que ninguém o importunasse.

Enquanto isso pegamos dois sujeitos tentando entrar com aves exóticas e uma mulher que escondera uma espécie de fuinha dentro da roupa.

O tráfico de espécies animais dos mundos exteriores era um negócio muito lucrativo e punível pela lei com rigor.

A entrada de um organismo em um ambiente controlado como o nosso, poderia despertar aquilo que mais temíamos e lutávamos para evitar.

Um desequilíbrio.

Além disto um ministro que chegava de uma lua interna para consagrar o matrimônio da filha de um rico agricultor, desembarcara com suspeita de

ser portador de um perigoso vírus e fora deportado imediatamente, depois

de selado à vácuo, despido e espargido com material anti-propagação.

Fora isso admirava a simetria das minhas botas lustradas, aprendia a estratégia do jogo de GO, com o dono da Cafeteria e assistia aos foguetes chegando ruidosamente, de tempos em tempos.

Um antigo conhecido que trabalhava na vigilância do Porto Oceânico, de onde partiam as grandes naves, me enviara um arquivo de centenas de vôos e alguns vídeos gravados na garagem com senhor Bentley J. que se mostrou ser também bastante conhecido por aquelas bandas. Passei e repassei tudo aquilo durante alguns dias.

Em casa assistia as gravações após o banho e só parava para jantar ou pôr os gêmeos na cama.

                                                                           

 

De uma forma para mim inexplicável, achei bastante importante durante

o almoço na cantina dias depois, separar as ervilhas do resto da comida.

Não comia coisas verdes, nunca, em hipótese alguma!

Com o garfo, recolhia as pequenas bolotas e as depositava em um guardanapo.

Eu já me queixara disto antes, mas parecia não ter recebido a atenção devida.

O garfo arando o purê de batatas, retirando do molho cada pequena bandida

verde e depois depositando à parte.

O mesmo garfo, indo e vindo, até não haver mais sinal das ervilhas.

Ervilhas. Garfos. Fazia sentido e era tão simples que gritava!

Como eu não reparara? Eu era mesmo muito tonto!   

Terminei meu bife processado com renovado interesse e fui procurar Pontiac.

 

                                                                               

 

 

 

 

 

Aguardava mastigando uma barra de proteínas.

Coloquei o que restou no bolso ao ouvir o sinal da chamada.

Bentley J. esperava na sala de interrogatório, sala esta igual a qualquer outra que já existira. Uma mesa, duas cadeiras que obrigavam as pessoas sentadas a ficarem face a face, uma lâmpada no teto e mais nada que servisse para desviar os olhos.

Ele havia retirado o casaco imitação de couro animal.

Usava colar de ossos minúsculos e óculos cor-de-rosa.

Fez um som com a boca, um muxoxo, ao me ver entrar.

Saudei-o e me sentei bem à sua frente.

A única lâmpada iluminava o bastante para fazer seu cabelo brilhar como ouro líquido.

-Estou preso? Murmurou ajeitando a haste transparente dos óculos ao nariz.

-Por que pergunta? O senhor fez alguma coisa da qual se arrepende?

Sorriu. Reconheceu que eu era treinado para aquela situação. Não um sorriso generoso, mas cínico, estreito.

-Estamos então sendo gravados? Perguntou olhando a volta, adivinhando os

mecanismos camuflados que geravam imagens e sons para o escritório central.

-Quando não estamos senhor Bentley? São as regras do Paraíso.

-Por que fui trazido aqui? Estou sendo acusado?

Cada cotovelo seu apoiado na mesa parecia ter uma relação geométrica perfeita com o tórax arqueado à frente, do tipo ser possível ser medido e encontrado um resultado como uma fórmula ou algo parecido.

-Provavelmente o senhor nunca me viu antes, embora eu tenha lhe encontrado dezenas de vezes.

-Poderia explicar melhor? É alguma charada?

-Mecanos são criaturas fascinantes. Tão complexas e tão evoluídas. Acho que deve sentir-se orgulhoso.

-Não sei a que se refere, mas me parece que está se complicando cada vez mais, pois desde a Revolução de 112, temos condições igualitárias em diversas colônias. Creio que sabe que desrespeitá-las é um crime sério.

-Crime igual a poucos, se me lembro. Como por exemplo, a entrada de mecanos entre as colônias exteriores, sem permissão.

-Do que está me acusando, não seja ridículo vigilante! Viu meus documentos, sabe quem eu sou!

-Sei apenas o que você é, mas não quem você é, pois o senhor Bentley, se é que existe um, não está nesta sala.

-Que ficção! Continue, vamos, divirta-me! Faça papel de bobo!

-Não preciso me prolongar muito, na verdade já vi o bastante. Você, seja lá quem for, está preso por fazer-se passar por outra pessoa, preso por enganar um órgão do Estado, preso por fazer parte de um esquema para infiltrar mecanos em nosso mundo sem permissão.

O mecano não disse mais nada.

Parecia enxergar incredibilidade através das lentes coloridas.

Continuei:

-A primeira vez que encontrei um de vocês, ele foi amável. A segunda vez, ele

não me reconheceu, pois houve uma falha no esquema, só consertada posteriormente. O outro Bentley era um sujeito estourado... como vocês são formidáveis em suas particularidades! É uma condição natural, se é que a palavra possa ser empregada. Cada qual de vocês, um ser, um indivíduo único, apesar da aparência similar.

-Esta me acusando apenas por ter um comportamento múltiplo? Você é mesmo um louco! Estou perdendo tempo aqui!

-As suas malas não eram suas, mas do Bentley J. original.

O mecano fez um gesto para se levantar, porem o detive antes disto, segurando com certa força seu braço.

-Peguei o registro do incidente com o queimador. Você sequer está ferido e aquela cicatriz deve estar por aí, em outro igual a você. Tenho fotos suas na garagem, adivinhe, dentro do carro que ainda espera você chegar. Passei todo este tempo esperando encontrar contrabando com você, mas o verdadeiro contrabando era você mesmo!

A porta se abriu. Dois agentes do Estado o detiveram, cada qual segurando um dos braços e mais homens esperavam do lado de fora.

Algemaram-no em seguida.

O pretenso Bentley virou-se e disse em voz declamatória, encarando-me:

-Imagino por que você não tira este visor negro do rosto. Deve ser decepcionante para vocês, não fazerem parte de algo tão especial. Serem apenas organismos biológicos. Este visor deve lhe conferir a idéia pervertida de que é algo bem melhor do que é na verdade.

Fiz um sinal para que se apressassem.

Seu óculos cor-de-rosa permaneceu partido ao chão.

 

Quinze laudas de um relatório depois, eu atravessava a garagem só tendo em mente uma xícara de algo quente e depois de regar o jardim, deitar-me.

Pontiac encontrou-me procurando o cartão do carro nos bolsos do casaco.

Ainda não gostava de mim. Não me entendia e não fazia questão também.

-O que você é? Aqui entre nós... algum tipo de cérebro ciborgue de seis milhões?

-Vou pra casa, boa noite!

-Não vai me dizer como faz estas coisas? Qual é o abracadabra?

Sorri. Ele tinha exagerado no Bourbon. Fazia gestos exagerados com as mãos imensas. Provavelmente morava sozinho, num flat à beira do rio, cuspia da janela e ouvia música antiga até tarde. Comprava roupas por encomenda em catálogos e comia apenas daquela refeição que fica pronta em cinco minutos, tempo exato dos intervalos da tv.

-Não tem mistério... mas quer ouvir uma piada que ouvi dezoito anos atrás, em uma parada de caminhões, bem longe daqui?

-Aposto que se lembra até do que comeu o seu vizinho!

-De qual lado?

-Esquerdo, disse sentando-se ao capo do meu carro velho.

-Ovos, costeleta e torradas, bebeu limonada e gim. Eu comi espetinhos de carnes mistas e bebi gasosa e gelo.

Fez um muxoxo surdo, igual ao do mecano ao me ver.

-Qual é a droga da piada afinal?

-Dois guardas de fronteira se encontram depois de aposentados. Começam a lembrar e contar dos velhos tempos, das coisas loucas que viveram naquele emprego. Um deles diz:- Você se lembra do Zé da areia? Que Zé? indaga o outro fazendo um esforço de memória. Aquele Zé da areia, que todo dia passava na fronteira com um carrinho de mão cheio de areia. Todo dia eu fazia ele peneirar a droga da areia, todo dia. Ele estava certo de que um dia eu diria, vá em frente, passe, é só areia mesmo, e a partir daí ele me pegaria, mas não, todo dia lá vinha o Zé da areia com seu carrinho de mão e eu PUM, fazia ele peneirar a areia, o coitado! Nunca teve vida fácil comigo! Ai o outro se ilumina e diz, mas, o Zé da areia é rico hoje! Tem uma casa enorme, vários carros e terrenos, ficou milionário! Mas como? Era só areia! Ao que o outro responde, na verdade ele contrabandeava carrinho de mão!

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