A Sociedade da Certeza Absoluta

 Roderico Reis

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0181]
[Autor: Roderico Reis]
[Título: A Sociedade da Certeza Absoluta]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 3.625]

 

As luzes do letreiro na fachada do prédio da Bjork Medicine Inc brilhavam imponentes, sobrepondo-se sobre o cinzendo do céu poluído. Zero observava-as de longe, enquanto caminhava tranquilamente. Era o prédio mais alto da Avenida Comercial 01 e, sem dúvida nenhuma, o mais moderno. Entre os especialistas da área havia um consenso de que ele estaria entre uma das construções mais seguras do mundo. Zero apenas achava graça desta informação. "Não existem portas criadas pelo homem que podem deter um homem." - sempre dizia para si mesmo.

Zero estava particularmente satisfeito naquele dia. Pela primeira vez em sua carreira de hacker, ele poderia executar um trabalho sem se preocupar com o pagamento. Nada de roubar informações comprometedoras de seus contratantes ou de sequestrar seus familiares, apenas para garantir o cumprimento de um acordo. Finalmente ele tinha um contrato que sabia que seria cumprido. Agora que ele pertencia à Sociedade da Certeza Absoluta, ele tinha certeza que seria pago pelo serviço que estava prestes a executar.

Ao chegar às portas de vidros do edifício, Zero parou por um instante, meditando.

"Agora nós vamos ver se os três anos de planejamento valeram a pena" - pensava.

Enquanto estava parado, divagando, Zero ouviu uma voz melodiosa e metálica que parecia vir das paredes do prédio:

- Seja muito bem vindo às empresas Bjork Medicine, Senhor Edgar Amaranto. O senhor está dois minutos adiantados, conforme o nosso agendamento. Dirija-se a recepção 03, no saguão principal.

As portas se abriram, convidando-o a entrar.

***************

O saguão principal era uma grande abóboda. Suas paredes brancas e seu espaço vazio contribuíram para a sensação de estranheza. Não havia móveis, tapetes, quadros ou qualquer sinal da presença humana; apenas, do outro lado, alguns balcões numerados, uma porta e um elevador.

Enquanto caminhava em direção ao balcão indicado pela voz, Zero sentia os nano-implantes espalhados por seu corpo trabalharem. Sabia que aquela longa extensão que teria que caminhar até a recepção tinha um propósito: dezenas de câmeras e sensores esquadrinhavam cada centímetro quadrado de seu organismo a procura de armas, material explosivo ou químico e, naturalmente, qualquer tipo de cyber-implante, inclusive nano-sensores. Mas Zero era um profissional; e, mais importante, um profissional disposto a investir. Gastara a maior parte das suas economias para este trabalho. Por isso, não estava preocupado: para cada tipo de sensor que o invadia, havia uma contra-medida instalada sob a sua pele preparada e ativa.

"Aqui se justifica parte do que eu gastei com este projeto." - pensou. "Dispositivos bloqueadores de sensores: 70 mil créditos."

- Bom dia, Senhor Amaranto. Esteja bem. Eu sou Desdêmona - a recepcionista esbanjava um sorriso proporcional ao tamanho do saguão.

- Bom dia - repondeu, fazendo esforço para retribuir o sorriso. - Onde fica o terminal principal? Eu estou com um pouco de pressa e...

- Desculpe senhor, mas parece que tem um pequeno problema com o seu chip implantado de identificação - ela o interrompeu, olhando para o monitor em sua frente. Não parecia mais tão amistosa, apesar do sorriso continuar.

"Claro, minha filha... Chip Universal de Identificação falsificado. 15 mil créditos". - Zero pensou.

- E... - disse, seco.

- O senhor terá que me acompanhar. - o mesmo sorriso.

Zero foi acompanhado pela moça até uma sala, atrás da porta, atrás do balcão. Era uma sala extremamente simples, cuja mobiliário se resumia a uma mesa e duas cadeiras, brancas como as paredes. Foi deixado sozinho por uns 5 minutos, até que entrou um homem grande, corpulento, trajando roupas que lembravam algum tipo de militar de alta patente. O tamanho do outro contrastava com a pequenez de Zero.

- Bom dia, Senhor Amaranto, esteja bem - disse. - Sou o responsável pela segurança desta empresa. Meu nome é Powell. Parece que estamos tendo um pequeno problema aqui.

- Parece - respondeu Zero.

- O nosso computador acusa que o Chip de Identificação do senhor foi alterado a menos de seis meses. O chip do senhor está implantando no ante-braço direito?

- Sim mas este está inativo - disse. - Eu implantei outro no braço esquerdo.

- Porque nós não fomos informados? - O homem cruzou os braços, esperando. Zero notou no tamanho daqueles músculos e se perguntou se eles seriam possíveis, mesmo com implantes.

- Fui contratado para dar a manutenção nos seus sistemas a mais de seis meses. Neste período, eu estava viajando. Estive reconstruindo uma rede interna numa comunidade da União dos Estados Independentes da América Latina. Você precisa ver como aqueles primitivos ainda vivem... - disse, sorrindo.

O chefe da segurança apenas fez um movimento com a cabeça, quase imperceptível. Como se não notasse a indiferença do seu ouvinte, Zero continuou:

- Bem, tive que refazer o implante do chip lá, devido a uma doença tropical que eu contraí. Não tive como me comunicar com vocês, já que estava no meio da Selva Amazônica.

- Engraçado um chip de identificação, com uma célula de fissão preparada para durar duzentos anos, estragar por causa de uma doença passageira, não é mesmo?

- Você diz isto porque não viu o tamanho dos pernilongos que têm lá...

Os dois ficaram em silêncio. Estavam se analisando, pensando sobre o que disseram e sobre o que iriam dizer. Depois de alguns momentos, Powell disse:

- Eu comprendo, senhor. Claro que o senhor não se importaria se eu consultasse o seu registro único apenas para me certificar deste seu... infortúnio, não é? - o mesmo sorriso da recepcionista.

- Claro que não. Fique a vontade.

Jonas se aproximou e tirou um pequeno aparelho do bolso. Um identificador retinal. Esta era a forma definitiva de identificação: um computador analisa todos os vasos sanguíneos do globo ocular. Zero olhou dentro do aparelho e quando a luz que ele emitia atingiu a sua retina, a voz do computador surgiu:

- Processando. Por favor, espere - o computador respondeu, e, em seguida - Senhor Edgar Amaranto Invictus, identificação número RR-MGO-110877-040302-200771-200585-161278, classe beta, residido à...

"Transplante de globo ocular: 45 mil créditos." Zero se permitiu um meio sorriso. "Eu sabia que aqueles belos olhos azuis do Edgar um dia me seriam muito úteis..."

Enquanto esperava o fim do enfadonho relatório que o computador emitia, Zero repassava mentalmente os passos do seu plano.

Até aquele momento, tudo corria como previsto. Ele sabia que não poderia cometer nenhum erro pois a Polícia Mundial estava começando a chegar perto demais e ele precisava sumir por uns tempos.

"Para falar a verdade, se tudo der certo, acho que já posso começar a pensar em aposentadoria. Afinal, eu já não sou mais nenhum garotão, e está ficando cada vez mais difícil e caro executar um trabalho bem feito." Zero tinha um contrato de um milhão de créditos. Esta realmente era a oportunidade da sua vida. Na sociedade capitalista do século XXII, as pessoas estavam cada vez mais gananciosas e inexcrupulosas. Ninguém podia confiar em ninguém, principalmente para aqueles que agiam à margem da lei. Promessas eram quebradas, contratos eram destruidos, pactos de sangue eram pagos com a morte. Confiança era para os fracos e despreparados; o mundo pertencia aos espertos.

Era para isso que a Sociedade da Certeza Absoluta servia: para que as duas partes de determinado acordo tivessem certeza absoluta que a palavra dada seria cumprida. Funcionava de uma forma bem simples: o contratante de determinado acordo recebia uma bomba cortical, que era implantada na base do seu cérebro, e o contratado recebia o controle desta bomba. E vice-versa. Se uma das partes não cumprisse com o combinado, bastava um comando mental para que a cabeça do outro literalmente explodisse.

Além disso, Zero tinha como empregador o membro mais antigo e confiável da Sociedade. O seu presidente e criador. Apesar de não saber o nome dele ("Nomes podem ser espionados e eu tenho muito a esconder" - dizia ele), sentia-se seguro com este seu trabalho.

Seus pensamentos foram interrompidos pela voz grave de Powell.

- Desculpe a demora, senhor Edgar, e desculpe pelos transtornos. Parece que está tudo na mais perfeita ordem com o seu registro. O senhor deve compreender as nossas rígidas normas de segurança. Já houve mais tentativas de roubo dos nossos banco de dados do que nós realmente gostaríamos. - A voz de Powell se tornara muito mais amigável.

- Sem problemas, o mundo está mesmo cheio de pilantras ladrões de banco de dados... - ironizou.

- Me acompanhe, por favor.

Saíram da salinha e foram para o elevador. Quatro seguranças armados com rifles laser militares o esperavam na porta e entraram no elevador com eles. Enquanto o elevador descia, Powell falava:

- Nosso sistema foi considerado o mais seguro dos Estados Unidos e o terceiro do mundo - dizia - mas, de alguma forma, ele foi invadido e infectado por um vírus. Não sei como foi possível...

"Não existem portas criadas pelo homem..."

- O nosso Mainframe fica dentro do nosso cofre. O cofre tem uma fechadura automática que se abre durante apenas um minuto. Por isso, o senhor terá que ficar trancado dentro do cofre durante todo o tempo necessário para a execução do trabalho. Nós instalamos recicladores de ar lá dentro e tudo o mais que o senhor possa vir a precisar.

- É, eu já havia sido advertido quanto a isso. - Zero sorriu.

- Então o senhor deve ter sido advertido também que durante todo o tempo necessário para a realização do trabalho o senhor vai ficar acompanhado destes meus... profissionais, não é?

Zero olhou de esguela para os rifles laser.

- Sem problemas - disse afinal.

O elevador chegou. A porta se abriu e seus ocupantes se depararam com um corredor extenso e bem iluminado onde havia apenas uma pesada porta metálica no final. Ela estava aberta.

- Até amanhã, senhor Amaranto. Bom trabalho. - disse Jonas, já se virando, enquanto os outros se dirigiam ao cofre.

- Eu terei - Zero respondeu.

Ao entrarem, Zero notou que havia uma geladeira, uma mesa e uma cama. No centro ficava o terminal do Mainframe e vários armários de vidro cobriam as paredes, com inúmeras amostras de remédios, vacinas e, muito provavelmente, doenças incubadas. O reclicador de ar estava a um canto e produzia um leve zumbido. Fazia frio. A porta se fechou fazendo um baque surdo.

Os quatro seguranças se posicionaram um em cada canto da sala, que era um quadrado.

"Quer dizer que vocês vão ficar em pé, parados, me vigiando?" Zero começava a ligar o seu notebook, sentado diante do terminal. "Melhor para mim! Assim fica muito mais fácil...". Ligou o computador de mão na rede do Mainframe.

Durante as dez horas seguintes, Zero trabalhou no sistema da Bjork Medicine para localizar e apagar o vírus. Na verdade, precisaria apenas de uns três minutos pois fôra ele próprio que invadira e implantara o vírus ("Computador Pessoal Itautec/Microsoft Tomahawk, com acesso não-rastreável à internet e programas específicos de invasão de sistemas: 68 mil créditos"). Mas o fez desta forma pois o próximo passo do seu plano teria mais chances de sucesso se os seus vigias estivessem um pouco mais cansados pela espera.

Zero arriscou uma olhadela para os seguranças: pareciam indiferentes ao tempo, imóveis como estátuas.

"Acho melhor eu começar logo. Não adianta esperar muito mais. Meu tempo está se esgotando."

Abriu no Microsoft Word 2017 XP Whistler Mega Especial Edition um documento técnico sobre redes de computadores. Arrumou-se na cadeira numa posição mais confortável. A mão esquerda sobre o teclado rolava o documento; a direita apoiava o queixo. Começou a ler.

Sem dúvida nenhuma, o maior investimento que Zero tinha feito para esta missão fora a viagem para o Himalaia. Quando foi contratado, lhe foi exigido que deveria fazer tudo de uma forma discreta. Ninguém poderia descobrir que o cofre tinha sido violado. Por isso, ele entrou pela porta da frente. O problema é que ele seria vigiado todo o tempo que estivesse dentro dele. E violência gratuita estava fora de cogitação: quatro seguranças mortos não era bem o que seu contratante considerava como sigilo... Assim, ele passou meses e meses pesquisando, na internet, uma forma de executar o que lhe fora pedido. E descobriu, numa cordilheira perto do Everest, um monastério que parecia ter a solução do seu problema. Passou dois anos estudando, o que lhe custou quase 300 mil créditos. Usaria tudo o que aprendeu no seu exílio neste momento, pela primeira vez.

Zero parou com a sua leitura. Sem mudar a postura, deixou-se relaxar um pouco mais sobre a cadeira e fixou o olhar no cursor do monitor, que piscava intermitentemente. Começou uma contagem mentalmente.

"1, 2, 3, 4, 5..."

Esvaziou sua mente de qualquer pensamento. Meditava. O zumbido do reciclador de ar ajudava-o a se concentrar, apesar da luz forte o atrapalhar. Voltou-se para dentro de si mesmo. O olhar concentrado no cursor.

"...10, 11, 12, 13..."

Em determinado momento, o único trabalho realizado pelo seu cérebro era controlar a sua respiração e os seus batimentos cardíacos. Seu único pensamento racional era a contagem.

"...pulmão, 24, coração, 25, pulmão, 26, coração, 27..."

Lentamente, começou a aumentar a frequencia da sua respiração. Fazia-o de forma cadenciada. Enchia o pulmão com toda a sua capacidade, depois expelia o ar, mas cada vez mais rápido. A concentração era absoluta.

"...pulmão, 44, coração, 45, pulmão, 46, coração..."

Em determinado momento, começou a aumentar também os batimentos cardíacos.

"...pulmão coração 66, pulmão coração 67, pulmão coração 68..."

O cursor começou a piscar de forma mais lenta. O suor começava a brotar da sua fronte. A respiração e os batimentos cardíacos estavam cada vez mais acelerados. Seus pensamentos também aceleravam em ressonância com o organismo.

"...Pulmãocoração96pulmãocoração97pulmãocoração98pulmãocoração99..."

O cursor piscava de forma cada vez mais lenta.

"...cursor, pulmãocoração113pulmãocoração114pulmãocoração115pulmãocoração116pulmãocoração117, sem cursor, pulmãocoração118pulmãocoração119pulmãocoração120pulmãocoração121pulmãocoração122, cursor, pulmãocoração123..."

Quando o cursor sumiu e Zero contou 200 vezes até ele aparecer novamente, resolveu agir.

Levantou-se da cadeira e olhou em volta. Os seguranças continuavam indiferentes ao tempo, imóveis como estátuas. Mas, desta vez, eles estavam imóveis literalmente. Zero não via o movimento do peito da respiração nem o mover dos seus olhos. O tempo passava mais devagar.

Se dirigiu para o armário. Abriu-o de forma extremamente vagarosa, pois na velocidade que estava, quebraria-o em pedaços se não tivesse cuidado.

Seu rosto estava pingando suor. Sua camisa grudada no peito, encharcada. Sentia muito calor. Olhou para as ampolas de vidro todas devidamente etiquetadas.

"Qual... pulmãocoração527... era... pulmãocoração528... a... pulmãocoração529... amostra... pulmãocoração530... mesmo...?"

Zero esforçava-se para lembrar o nome da amostra. A contagem continuava. O controle sobre a respiração e os batimentos cardíacos o afligia. Sua respiração estava ficando irregular. O suor ardia-lhe os olhos.

"Acho... pulmãocoração568... que... pulmãocoração569... é... pulmãocoração570... esta..."

Pegou um pequeno frasco com um líquido incolor. Colocou o frasco na pistola-seringa que estava do lado e injetou no braço. Devolveu tudo para o seu lugar. Sua mão estava tremendo. Sentia que estava perdendo o controle. Sentiu uma certa confusão mental.

"pulmãocoração610... pulmãocoração613... pulmãocoração617..."

Voltou cambeleando para a cadeira. Notou um pequeno movimento no peito do guarda. Os olhos mexiam. Ou era ele que estava tremendo demais?

Puxou a cadeira. Suas pernas tremiam; a pele ardia em febre. Tentou se sentar e tropeçou. Caiu, batendo com a cabeça no chão. A dor que sentiu na queda foi superada por uma grande dor no peito. Tentou gritar mas o ar lhe faltou. Sentindo-se cada vez mais fraco, desmaiou.

.

.

.

..

...

Pulmão...

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.

.

..

...

Coração...

Zero despertou sentindo dores por todo o corpo. Não tinha a menor noção do tempo que transcorrera. Sua mente estava vazia. Estava em uma cama. Olhou em volta e viu a mesa do terminal, a cadeira, os quatro seguranças, o reciclador de ar. Ainda estava no cofre. Olhou por sobre os ombros e viu Desdêmona olhando para ele com aquele sorriso típico. Sua cabeça doía. Enfim, perguntou:

- O que aconteceu?

- Você nos deu o maior susto. - respondeu ela, cordialmente - Os seguranças me ligaram dizendo que você tinha passado mal e que caiu da cadeira. Quando eu cheguei, você estava ardendo em febre. Teve uma parada cardio-respiratória. Nós o reanimamos e você ainda ficou desmaiado por uns 10 minutos. Já íamos chamar um médico.

- Ah... - se limitou a dizer Zero, começando a se lembrar do que aconteceu.

- Isto foi a doença que você falou que pegou no estrangeiro?

- É... foi. - mentiu Zero.

- Isto... - ela hesitou por um momento - é contagioso?

- Não sei - limitou-se a dizer, notando que a mulher dera um discreto passo para trás.

- Bem, acho melhor eu chamar um médico.

- Não! - Zero se exaltou. - De forma nenhuma!

Zero passou um bom tempo tentando convencer a todos que não precisava de médico. Parecia uma atitude inútil até o momento em que disse que o seu serviço já estava terminado. Depois que usou estas palavras mágicas, a atitude de seus ouvintes mudou. Com certeza, toda aquela confusão dentro do cofre da empresa não era bem vinda.

De volta a rua, Zero sentiu o cheiro da poluição, o calor sufocante, o barulho ensurdecedor do trânsito como se fosse um passeio por uma colina verdejante. Estava radiante. Finalmente tinha terminado um trabalho que iniciara três anos atrás. O trabalho definitivo. Sua aposentadoria.

"Acho que agora vou poder conhecer a União dos Estados Independentes da América Latina, afinal. Gurias, me aguardem!"

Apesar de toda a euforia que sentia, seu corpo estava muito ruim. As dores musculares pelo corpo não diminuíram e começou a sentir cãibras nos dedos da mão. Doía-lhe a cabeça e as vistas.

"Bem, acho melhor pegar um aerotáxi".

Como se tivessem lido os seus pensamentos, um veículo de aluguel passou naquele exato momento. Parou o aerotáxi, deu o seu destino ao piloto e adormeceu no banco, exausto.

***************

Zero acordou com uma forte luz sobre a cabeça. Os músculos de todo o seu corpo doíam. A medida que a sua visão acostumava-se gradualmente à iluminação forte, notou que não estava no veículo que tomara. Estava sobre uma maca metálica, em um lugar que parecia um laboratório precário. Seus braços estavam perfurados por sondas e instrumentos de medição que desconhecia. Seus pulsos e tornozelos estavam amarrados. Não estava sozinho. Um velho senhor de cabelos e jaleco branco o encarava.

- Olá, meu jovem Zero Cochrane.

- Quem é você?

- Sou o seu empregador.

Zero não se surpreendeu. Pelo menos, não muito...

- Como eu vim parar aqui?

- A amostra que você me trouxe é muito forte. Eu sabia que você não teria condições de chegar aqui sozinho. Por isso, mandei um veículo para buscá-lo. Mas descanse, meu rapaz. O tratamento já vai começar - O velho virou-se e começou a mexer em uma bancada próxima.

Zero teve que concordar com o velho. Estava cansado e seus músculos doíam cada vez mais. Sua cabeça também. Mas não estava gostando daquela conversa, principalmente por estar amarrado.

- O que é isto que está dentro de mim?

- Um vírus. Extremamente poderoso e letal. A Bjork Medicine pretendia lançá-lo em algum país da África, iniciar uma epidemia e, com isto, ganhar alguns bilhões de créditos com vacinas e remédios - disse sem se virar.

Zero teve um mau pressentimento. Demorou um pouco para perguntar:

- Você não vai tirar esta coisa de mim?

O velho parou o que estava fazendo, ficando imóvel por um tempo. Depois, virou-se e disse:

- Garoto, acho que você não entendeu ainda - o velho puxou uma cadeira e sentou próximo a Zero. - Você está doente e não há cura. A minha intenção é estudar a evolução desta doença, pois quero desenvolver uma cura e ganhar um pouco do dinheiro daquela maldita multinacional. Portanto, mesmo que eu tivesse este antídoto, eu não o usaria.

Zero sentiu uma raiva incontrolável.

- Então, meu prezado velhote, prepare-se pois eu vou explodir esta sua cabeça... e vai SER AGORA!!!

Zero fechou os olhos e se concentrou no cyber implante que tinha na base do seu crânio, ativando o mecanismo. Esperava ouvir um barulho de explosão, ou algo quebrando, ou um corpo inerte caindo ao chão, mas nenhum som lhe veio. Abriu os olhos e viu o velho lá, parado, olhando para ele, com a mesma expressão indiferente de antes.

- A sua doença inibiu o seu implante mental. Você não conseguirá me explodir.

- ENTÃO PORQUE VOCÊ CRIOU ESTA ZICA DE SOCIEDADE? VOCÊ DISSE QUE EU PODERIA CONFIAR EM TI! DESGRAÇADO! vOCÊ ME ENGANOU! - gritou com toda a sua força.

- Quem te disse que eu te enganei?

- Seu desgraçado! - Zero suava e não sabia se era devido a doença ou a raiva.

- Eu acertei contigo que iria te pagar pelos seus serviços, não combinamos nada sobre a sua vida ou se você teria tempo de gastar o seu dinheiro. Inclusive, senhor Cochrane, você já foi pago. O seu dinheiro já está na sua conta.

- Mas... como eu poderei gastá-lo se vou morrer, seu FILHO DE UMA ZICA!!!

- Isto não é problema meu, senhor Cochrane. Mas não se preocupe. Você ainda deve levar algum tempo para definhar totalmente. Alguns dias, talvez. Se, neste período, você quiser gastar o seu dinheiro, pode me falar que eu o ajudarei da melhor forma possível. Claro que eu não permitirei que saia desta sala mas temos a internet para isto. Talvez você queira doar o seu dinheiro para alguma instituição? - enquanto falava, foi se dirigindo à porta.

Zero fechou os olhos, apenas desejando que aquele pesadelo acabasse. Ainda ouviu o velho dizer, antes de fechar a porta atrás de si e apagar a luz:

- Afinal de contas... eu sempre cumpro os meus contratos.

 

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