|
As luzes do
letreiro na fachada do prédio da Bjork Medicine Inc brilhavam
imponentes, sobrepondo-se sobre o cinzendo do céu poluído. Zero
observava-as de longe, enquanto caminhava tranquilamente. Era o prédio
mais alto da Avenida Comercial 01 e, sem dúvida nenhuma, o mais
moderno. Entre os especialistas da área havia um consenso de que ele
estaria entre uma das construções mais seguras do mundo. Zero apenas
achava graça desta informação. "Não existem portas criadas
pelo homem que podem deter um homem." - sempre dizia para si
mesmo.
Zero estava
particularmente satisfeito naquele dia. Pela primeira vez em sua
carreira de hacker, ele poderia executar um trabalho sem se preocupar
com o pagamento. Nada de roubar informações comprometedoras de seus
contratantes ou de sequestrar seus familiares, apenas para garantir o
cumprimento de um acordo. Finalmente ele tinha um contrato que sabia
que seria cumprido. Agora que ele pertencia à Sociedade da Certeza
Absoluta, ele tinha certeza que seria pago pelo serviço que estava
prestes a executar.
Ao chegar às
portas de vidros do edifício, Zero parou por um instante, meditando.
"Agora nós
vamos ver se os três anos de planejamento valeram a pena" -
pensava.
Enquanto estava
parado, divagando, Zero ouviu uma voz melodiosa e metálica que
parecia vir das paredes do prédio:
- Seja muito bem
vindo às empresas Bjork Medicine, Senhor Edgar Amaranto. O senhor está
dois minutos adiantados, conforme o nosso agendamento. Dirija-se a
recepção 03, no saguão principal.
As portas se
abriram, convidando-o a entrar.
***************
O saguão
principal era uma grande abóboda. Suas paredes brancas e seu espaço
vazio contribuíram para a sensação de estranheza. Não havia móveis,
tapetes, quadros ou qualquer sinal da presença humana; apenas, do
outro lado, alguns balcões numerados, uma porta e um elevador.
Enquanto caminhava
em direção ao balcão indicado pela voz, Zero sentia os
nano-implantes espalhados por seu corpo trabalharem. Sabia que aquela
longa extensão que teria que caminhar até a recepção tinha um propósito:
dezenas de câmeras e sensores esquadrinhavam cada centímetro
quadrado de seu organismo a procura de armas, material explosivo ou químico
e, naturalmente, qualquer tipo de cyber-implante, inclusive
nano-sensores. Mas Zero era um profissional; e, mais importante, um
profissional disposto a investir. Gastara a maior parte das suas
economias para este trabalho. Por isso, não estava preocupado: para
cada tipo de sensor que o invadia, havia uma contra-medida instalada
sob a sua pele preparada e ativa.
"Aqui se
justifica parte do que eu gastei com este projeto." - pensou.
"Dispositivos bloqueadores de sensores: 70 mil créditos."
- Bom dia, Senhor
Amaranto. Esteja bem. Eu sou Desdêmona - a recepcionista esbanjava um
sorriso proporcional ao tamanho do saguão.
- Bom dia -
repondeu, fazendo esforço para retribuir o sorriso. - Onde fica o
terminal principal? Eu estou com um pouco de pressa e...
- Desculpe senhor,
mas parece que tem um pequeno problema com o seu chip implantado de
identificação - ela o interrompeu, olhando para o monitor em sua
frente. Não parecia mais tão amistosa, apesar do sorriso continuar.
"Claro, minha
filha... Chip Universal de Identificação falsificado. 15 mil créditos".
- Zero pensou.
- E... - disse,
seco.
- O senhor terá
que me acompanhar. - o mesmo sorriso.
Zero foi
acompanhado pela moça até uma sala, atrás da porta, atrás do balcão.
Era uma sala extremamente simples, cuja mobiliário se resumia a uma
mesa e duas cadeiras, brancas como as paredes. Foi deixado sozinho por
uns 5 minutos, até que entrou um homem grande, corpulento, trajando
roupas que lembravam algum tipo de militar de alta patente. O tamanho
do outro contrastava com a pequenez de Zero.
- Bom dia, Senhor
Amaranto, esteja bem - disse. - Sou o responsável pela segurança
desta empresa. Meu nome é Powell. Parece que estamos tendo um pequeno
problema aqui.
- Parece -
respondeu Zero.
- O nosso
computador acusa que o Chip de Identificação do senhor foi alterado
a menos de seis meses. O chip do senhor está implantando no ante-braço
direito?
- Sim mas este está
inativo - disse. - Eu implantei outro no braço esquerdo.
- Porque nós não
fomos informados? - O homem cruzou os braços, esperando. Zero notou
no tamanho daqueles músculos e se perguntou se eles seriam possíveis,
mesmo com implantes.
- Fui contratado
para dar a manutenção nos seus sistemas a mais de seis meses. Neste
período, eu estava viajando. Estive reconstruindo uma rede interna
numa comunidade da União dos Estados Independentes da América
Latina. Você precisa ver como aqueles primitivos ainda vivem... -
disse, sorrindo.
O chefe da segurança
apenas fez um movimento com a cabeça, quase imperceptível. Como se não
notasse a indiferença do seu ouvinte, Zero continuou:
- Bem, tive que
refazer o implante do chip lá, devido a uma doença tropical que eu
contraí. Não tive como me comunicar com vocês, já que estava no
meio da Selva Amazônica.
- Engraçado um
chip de identificação, com uma célula de fissão preparada para
durar duzentos anos, estragar por causa de uma doença passageira, não
é mesmo?
- Você diz isto
porque não viu o tamanho dos pernilongos que têm lá...
Os dois ficaram em
silêncio. Estavam se analisando, pensando sobre o que disseram e
sobre o que iriam dizer. Depois de alguns momentos, Powell disse:
- Eu comprendo,
senhor. Claro que o senhor não se importaria se eu consultasse o seu
registro único apenas para me certificar deste seu... infortúnio, não
é? - o mesmo sorriso da recepcionista.
- Claro que não.
Fique a vontade.
Jonas se aproximou
e tirou um pequeno aparelho do bolso. Um identificador retinal. Esta
era a forma definitiva de identificação: um computador analisa todos
os vasos sanguíneos do globo ocular. Zero olhou dentro do aparelho e
quando a luz que ele emitia atingiu a sua retina, a voz do computador
surgiu:
- Processando. Por
favor, espere - o computador respondeu, e, em seguida - Senhor Edgar
Amaranto Invictus, identificação número RR-MGO-110877-040302-200771-200585-161278,
classe beta, residido à...
"Transplante
de globo ocular: 45 mil créditos." Zero se permitiu um meio
sorriso. "Eu sabia que aqueles belos olhos azuis do Edgar um dia
me seriam muito úteis..."
Enquanto esperava
o fim do enfadonho relatório que o computador emitia, Zero repassava
mentalmente os passos do seu plano.
Até aquele
momento, tudo corria como previsto. Ele sabia que não poderia cometer
nenhum erro pois a Polícia Mundial estava começando a chegar perto
demais e ele precisava sumir por uns tempos.
"Para falar a
verdade, se tudo der certo, acho que já posso começar a pensar em
aposentadoria. Afinal, eu já não sou mais nenhum garotão, e está
ficando cada vez mais difícil e caro executar um trabalho bem
feito." Zero tinha um contrato de um milhão de créditos. Esta
realmente era a oportunidade da sua vida. Na sociedade capitalista do
século XXII, as pessoas estavam cada vez mais gananciosas e
inexcrupulosas. Ninguém podia confiar em ninguém, principalmente
para aqueles que agiam à margem da lei. Promessas eram quebradas,
contratos eram destruidos, pactos de sangue eram pagos com a morte.
Confiança era para os fracos e despreparados; o mundo pertencia aos
espertos.
Era para isso que
a Sociedade da Certeza Absoluta servia: para que as duas partes de
determinado acordo tivessem certeza absoluta que a palavra dada seria
cumprida. Funcionava de uma forma bem simples: o contratante de
determinado acordo recebia uma bomba cortical, que era implantada na
base do seu cérebro, e o contratado recebia o controle desta bomba. E
vice-versa. Se uma das partes não cumprisse com o combinado, bastava
um comando mental para que a cabeça do outro literalmente explodisse.
Além disso, Zero
tinha como empregador o membro mais antigo e confiável da Sociedade.
O seu presidente e criador. Apesar de não saber o nome dele
("Nomes podem ser espionados e eu tenho muito a esconder" -
dizia ele), sentia-se seguro com este seu trabalho.
Seus pensamentos
foram interrompidos pela voz grave de Powell.
- Desculpe a
demora, senhor Edgar, e desculpe pelos transtornos. Parece que está
tudo na mais perfeita ordem com o seu registro. O senhor deve
compreender as nossas rígidas normas de segurança. Já houve mais
tentativas de roubo dos nossos banco de dados do que nós realmente
gostaríamos. - A voz de Powell se tornara muito mais amigável.
- Sem problemas, o
mundo está mesmo cheio de pilantras ladrões de banco de dados... -
ironizou.
- Me acompanhe,
por favor.
Saíram da salinha
e foram para o elevador. Quatro seguranças armados com rifles laser
militares o esperavam na porta e entraram no elevador com eles.
Enquanto o elevador descia, Powell falava:
- Nosso sistema
foi considerado o mais seguro dos Estados Unidos e o terceiro do mundo
- dizia - mas, de alguma forma, ele foi invadido e infectado por um vírus.
Não sei como foi possível...
"Não existem
portas criadas pelo homem..."
- O nosso
Mainframe fica dentro do nosso cofre. O cofre tem uma fechadura automática
que se abre durante apenas um minuto. Por isso, o senhor terá que
ficar trancado dentro do cofre durante todo o tempo necessário para a
execução do trabalho. Nós instalamos recicladores de ar lá dentro
e tudo o mais que o senhor possa vir a precisar.
- É, eu já havia
sido advertido quanto a isso. - Zero sorriu.
- Então o senhor
deve ter sido advertido também que durante todo o tempo necessário
para a realização do trabalho o senhor vai ficar acompanhado destes
meus... profissionais, não é?
Zero olhou de
esguela para os rifles laser.
- Sem problemas -
disse afinal.
O elevador chegou.
A porta se abriu e seus ocupantes se depararam com um corredor extenso
e bem iluminado onde havia apenas uma pesada porta metálica no final.
Ela estava aberta.
- Até amanhã,
senhor Amaranto. Bom trabalho. - disse Jonas, já se virando, enquanto
os outros se dirigiam ao cofre.
- Eu terei - Zero
respondeu.
Ao entrarem, Zero
notou que havia uma geladeira, uma mesa e uma cama. No centro ficava o
terminal do Mainframe e vários armários de vidro cobriam as paredes,
com inúmeras amostras de remédios, vacinas e, muito provavelmente,
doenças incubadas. O reclicador de ar estava a um canto e produzia um
leve zumbido. Fazia frio. A porta se fechou fazendo um baque surdo.
Os quatro seguranças
se posicionaram um em cada canto da sala, que era um quadrado.
"Quer dizer
que vocês vão ficar em pé, parados, me vigiando?" Zero começava
a ligar o seu notebook, sentado diante do terminal. "Melhor para
mim! Assim fica muito mais fácil...". Ligou o computador de mão
na rede do Mainframe.
Durante as dez
horas seguintes, Zero trabalhou no sistema da Bjork Medicine para
localizar e apagar o vírus. Na verdade, precisaria apenas de uns três
minutos pois fôra ele próprio que invadira e implantara o vírus
("Computador Pessoal Itautec/Microsoft Tomahawk, com acesso não-rastreável
à internet e programas específicos de invasão de sistemas: 68 mil
créditos"). Mas o fez desta forma pois o próximo passo do seu
plano teria mais chances de sucesso se os seus vigias estivessem um
pouco mais cansados pela espera.
Zero arriscou uma
olhadela para os seguranças: pareciam indiferentes ao tempo, imóveis
como estátuas.
"Acho melhor
eu começar logo. Não adianta esperar muito mais. Meu tempo está se
esgotando."
Abriu no Microsoft
Word 2017 XP Whistler Mega Especial Edition um documento técnico
sobre redes de computadores. Arrumou-se na cadeira numa posição mais
confortável. A mão esquerda sobre o teclado rolava o documento; a
direita apoiava o queixo. Começou a ler.
Sem dúvida
nenhuma, o maior investimento que Zero tinha feito para esta missão
fora a viagem para o Himalaia. Quando foi contratado, lhe foi exigido
que deveria fazer tudo de uma forma discreta. Ninguém poderia
descobrir que o cofre tinha sido violado. Por isso, ele entrou pela
porta da frente. O problema é que ele seria vigiado todo o tempo que
estivesse dentro dele. E violência gratuita estava fora de cogitação:
quatro seguranças mortos não era bem o que seu contratante
considerava como sigilo... Assim, ele passou meses e meses
pesquisando, na internet, uma forma de executar o que lhe fora pedido.
E descobriu, numa cordilheira perto do Everest, um monastério que
parecia ter a solução do seu problema. Passou dois anos estudando, o
que lhe custou quase 300 mil créditos. Usaria tudo o que aprendeu no
seu exílio neste momento, pela primeira vez.
Zero parou com a
sua leitura. Sem mudar a postura, deixou-se relaxar um pouco mais
sobre a cadeira e fixou o olhar no cursor do monitor, que piscava
intermitentemente. Começou uma contagem mentalmente.
"1, 2, 3, 4,
5..."
Esvaziou sua mente
de qualquer pensamento. Meditava. O zumbido do reciclador de ar
ajudava-o a se concentrar, apesar da luz forte o atrapalhar. Voltou-se
para dentro de si mesmo. O olhar concentrado no cursor.
"...10, 11,
12, 13..."
Em determinado
momento, o único trabalho realizado pelo seu cérebro era controlar a
sua respiração e os seus batimentos cardíacos. Seu único
pensamento racional era a contagem.
"...pulmão,
24, coração, 25, pulmão, 26, coração, 27..."
Lentamente, começou
a aumentar a frequencia da sua respiração. Fazia-o de forma
cadenciada. Enchia o pulmão com toda a sua capacidade, depois expelia
o ar, mas cada vez mais rápido. A concentração era absoluta.
"...pulmão,
44, coração, 45, pulmão, 46, coração..."
Em determinado
momento, começou a aumentar também os batimentos cardíacos.
"...pulmão
coração 66, pulmão coração 67, pulmão coração 68..."
O cursor começou
a piscar de forma mais lenta. O suor começava a brotar da sua fronte.
A respiração e os batimentos cardíacos estavam cada vez mais
acelerados. Seus pensamentos também aceleravam em ressonância com o
organismo.
"...Pulmãocoração96pulmãocoração97pulmãocoração98pulmãocoração99..."
O cursor piscava
de forma cada vez mais lenta.
"...cursor,
pulmãocoração113pulmãocoração114pulmãocoração115pulmãocoração116pulmãocoração117,
sem cursor, pulmãocoração118pulmãocoração119pulmãocoração120pulmãocoração121pulmãocoração122,
cursor, pulmãocoração123..."
Quando o cursor
sumiu e Zero contou 200 vezes até ele aparecer novamente, resolveu
agir.
Levantou-se da
cadeira e olhou em volta. Os seguranças continuavam indiferentes ao
tempo, imóveis como estátuas. Mas, desta vez, eles estavam imóveis
literalmente. Zero não via o movimento do peito da respiração nem o
mover dos seus olhos. O tempo passava mais devagar.
Se dirigiu para o
armário. Abriu-o de forma extremamente vagarosa, pois na velocidade
que estava, quebraria-o em pedaços se não tivesse cuidado.
Seu rosto estava
pingando suor. Sua camisa grudada no peito, encharcada. Sentia muito
calor. Olhou para as ampolas de vidro todas devidamente etiquetadas.
"Qual... pulmãocoração527...
era... pulmãocoração528... a... pulmãocoração529... amostra...
pulmãocoração530... mesmo...?"
Zero esforçava-se
para lembrar o nome da amostra. A contagem continuava. O controle
sobre a respiração e os batimentos cardíacos o afligia. Sua respiração
estava ficando irregular. O suor ardia-lhe os olhos.
"Acho... pulmãocoração568...
que... pulmãocoração569... é... pulmãocoração570...
esta..."
Pegou um pequeno
frasco com um líquido incolor. Colocou o frasco na pistola-seringa
que estava do lado e injetou no braço. Devolveu tudo para o seu
lugar. Sua mão estava tremendo. Sentia que estava perdendo o
controle. Sentiu uma certa confusão mental.
"pulmãocoração610...
pulmãocoração613... pulmãocoração617..."
Voltou cambeleando
para a cadeira. Notou um pequeno movimento no peito do guarda. Os
olhos mexiam. Ou era ele que estava tremendo demais?
Puxou a cadeira.
Suas pernas tremiam; a pele ardia em febre. Tentou se sentar e tropeçou.
Caiu, batendo com a cabeça no chão. A dor que sentiu na queda foi
superada por uma grande dor no peito. Tentou gritar mas o ar lhe
faltou. Sentindo-se cada vez mais fraco, desmaiou.
.
.
.
..
...
Pulmão...
.
.
.
.
.
.
..
...
Coração...
Zero despertou
sentindo dores por todo o corpo. Não tinha a menor noção do tempo
que transcorrera. Sua mente estava vazia. Estava em uma cama. Olhou em
volta e viu a mesa do terminal, a cadeira, os quatro seguranças, o
reciclador de ar. Ainda estava no cofre. Olhou por sobre os ombros e
viu Desdêmona olhando para ele com aquele sorriso típico. Sua cabeça
doía. Enfim, perguntou:
- O que aconteceu?
- Você nos deu o
maior susto. - respondeu ela, cordialmente - Os seguranças me ligaram
dizendo que você tinha passado mal e que caiu da cadeira. Quando eu
cheguei, você estava ardendo em febre. Teve uma parada
cardio-respiratória. Nós o reanimamos e você ainda ficou desmaiado
por uns 10 minutos. Já íamos chamar um médico.
- Ah... - se
limitou a dizer Zero, começando a se lembrar do que aconteceu.
- Isto foi a doença
que você falou que pegou no estrangeiro?
- É... foi. -
mentiu Zero.
- Isto... - ela
hesitou por um momento - é contagioso?
- Não sei -
limitou-se a dizer, notando que a mulher dera um discreto passo para
trás.
- Bem, acho melhor
eu chamar um médico.
- Não! - Zero se
exaltou. - De forma nenhuma!
Zero passou um bom
tempo tentando convencer a todos que não precisava de médico.
Parecia uma atitude inútil até o momento em que disse que o seu
serviço já estava terminado. Depois que usou estas palavras mágicas,
a atitude de seus ouvintes mudou. Com certeza, toda aquela confusão
dentro do cofre da empresa não era bem vinda.
De volta a rua,
Zero sentiu o cheiro da poluição, o calor sufocante, o barulho
ensurdecedor do trânsito como se fosse um passeio por uma colina
verdejante. Estava radiante. Finalmente tinha terminado um trabalho
que iniciara três anos atrás. O trabalho definitivo. Sua
aposentadoria.
"Acho que
agora vou poder conhecer a União dos Estados Independentes da América
Latina, afinal. Gurias, me aguardem!"
Apesar de toda a
euforia que sentia, seu corpo estava muito ruim. As dores musculares
pelo corpo não diminuíram e começou a sentir cãibras nos dedos da
mão. Doía-lhe a cabeça e as vistas.
"Bem, acho
melhor pegar um aerotáxi".
Como se tivessem
lido os seus pensamentos, um veículo de aluguel passou naquele exato
momento. Parou o aerotáxi, deu o seu destino ao piloto e adormeceu no
banco, exausto.
***************
Zero acordou com
uma forte luz sobre a cabeça. Os músculos de todo o seu corpo doíam.
A medida que a sua visão acostumava-se gradualmente à iluminação
forte, notou que não estava no veículo que tomara. Estava sobre uma
maca metálica, em um lugar que parecia um laboratório precário.
Seus braços estavam perfurados por sondas e instrumentos de medição
que desconhecia. Seus pulsos e tornozelos estavam amarrados. Não
estava sozinho. Um velho senhor de cabelos e jaleco branco o encarava.
- Olá, meu jovem
Zero Cochrane.
- Quem é você?
- Sou o seu
empregador.
Zero não se
surpreendeu. Pelo menos, não muito...
- Como eu vim
parar aqui?
- A amostra que
você me trouxe é muito forte. Eu sabia que você não teria condições
de chegar aqui sozinho. Por isso, mandei um veículo para buscá-lo.
Mas descanse, meu rapaz. O tratamento já vai começar - O velho
virou-se e começou a mexer em uma bancada próxima.
Zero teve que
concordar com o velho. Estava cansado e seus músculos doíam cada vez
mais. Sua cabeça também. Mas não estava gostando daquela conversa,
principalmente por estar amarrado.
- O que é isto
que está dentro de mim?
- Um vírus.
Extremamente poderoso e letal. A Bjork Medicine pretendia lançá-lo
em algum país da África, iniciar uma epidemia e, com isto, ganhar
alguns bilhões de créditos com vacinas e remédios - disse sem se
virar.
Zero teve um mau
pressentimento. Demorou um pouco para perguntar:
- Você não vai
tirar esta coisa de mim?
O velho parou o
que estava fazendo, ficando imóvel por um tempo. Depois, virou-se e
disse:
- Garoto, acho que
você não entendeu ainda - o velho puxou uma cadeira e sentou próximo
a Zero. - Você está doente e não há cura. A minha intenção é
estudar a evolução desta doença, pois quero desenvolver uma cura e
ganhar um pouco do dinheiro daquela maldita multinacional. Portanto,
mesmo que eu tivesse este antídoto, eu não o usaria.
Zero sentiu uma
raiva incontrolável.
- Então, meu
prezado velhote, prepare-se pois eu vou explodir esta sua cabeça... e
vai SER AGORA!!!
Zero fechou os
olhos e se concentrou no cyber implante que tinha na base do seu crânio,
ativando o mecanismo. Esperava ouvir um barulho de explosão, ou algo
quebrando, ou um corpo inerte caindo ao chão, mas nenhum som lhe
veio. Abriu os olhos e viu o velho lá, parado, olhando para ele, com
a mesma expressão indiferente de antes.
- A sua doença
inibiu o seu implante mental. Você não conseguirá me explodir.
- ENTÃO PORQUE
VOCÊ CRIOU ESTA ZICA DE SOCIEDADE? VOCÊ DISSE QUE EU PODERIA CONFIAR
EM TI! DESGRAÇADO! vOCÊ ME ENGANOU! - gritou com toda a sua força.
- Quem te disse
que eu te enganei?
- Seu desgraçado!
- Zero suava e não sabia se era devido a doença ou a raiva.
- Eu acertei
contigo que iria te pagar pelos seus serviços, não combinamos nada
sobre a sua vida ou se você teria tempo de gastar o seu dinheiro.
Inclusive, senhor Cochrane, você já foi pago. O seu dinheiro já está
na sua conta.
-
Mas... como eu poderei gastá-lo se vou morrer, seu FILHO DE UMA ZICA!!!
-
Isto não é problema meu, senhor Cochrane. Mas não se preocupe. Você
ainda deve levar algum tempo para definhar totalmente. Alguns dias,
talvez. Se, neste período, você quiser gastar o seu dinheiro, pode
me falar que eu o ajudarei da melhor forma possível. Claro que eu não
permitirei que saia desta sala mas temos a internet para isto. Talvez
você queira doar o seu dinheiro para alguma instituição? - enquanto
falava, foi se dirigindo à porta.
Zero
fechou os olhos, apenas desejando que aquele pesadelo acabasse. Ainda
ouviu o velho dizer, antes de fechar a porta atrás de si e apagar a
luz:
-
Afinal de contas... eu sempre cumpro os meus contratos.
|