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Prometera enviar uma foto.
Já se correspondiam há algum tempo na
Internet, meio desconfiados no princípio, depois ousados, revelando
uma intensidade da parte dela que o deixava excitado e ao mesmo
tempo arredio. Fôra cativado pelo humor, a inteligência e esta
paixão que revelara em algumas madrugadas insones.
Mas que invólucro conteria esta pessoa?
Não havia como imaginar, por suas descrições sumárias: morena,
olhos verdes ( adorava olhos verdes ) nem gorda, nem magra (
gordinha, com certeza ) baixinha ( Meu Deus, será anã? ). Isto
presumindo que todas estas informações fossem verdadeiras.
Então, começou com as inevitáveis
cobranças: fotos, telefone, endereço. Ela se esquivou das últimas,
mas o retrato prometera para a próxima segunda-feira.
Nervoso, logo ao abrir o computador,
procurou a mensagem, entre curioso e assustado - medo de uma decepção
com a musa das madrugadas. Mas a realidade se mostrou melhor do que
a ficção: a mulher que o olhava no retrato era bem jovem, longos
cabelos castanhos e luminosos olhos verdes (excelente fotógrafo ).
Além de um corpo escultural.
Não acreditava na sua sorte ou não
acreditava no retrato. Seria ela mesmo? A duvida se insinuava no
interesse. Preferiu aceitar. O dia inteiro imaginou tê-la nos braços
em noites de paixão. Queria pegar um avião e ir direto a São
Paulo só para se perder naqueles olhos de oceano. Uma incerteza o
conteve.
A semana transcorreu ardente. Noites
virtuais se transformaram em orgias a dois, cada um no seu planeta
solitário, mãos nervosas agarrando mouses, dedos trêmulos
maltratando teclados, até consumarem uma relação estranha, vício
solitário em que o objeto do desejo consente e participa. Nos seus
delírios, via-se percorrendo com os lábios o corpo perfeito dela,
mordendo os seios entrevistos na blusa generosa, perdendo-se na
floresta de pelos imaginados. Mas na outra segunda-feira, para sua
surpresa, havia outra mensagem com o assunto Foto.
Abriu ansioso, esperando que contivesse
alguma parte inesperada do corpo da amante, mas teve uma surpresa -
era ela, sem dúvida nenhuma - os mesmos cabelos castanhos agora
cortados na altura dos ombros, os mesmos olhos verdes intensos, só
que não mais tão jovem.
Uma esplendorosa mulher de seus trinta
anos, o olhar já machucado pela vida, a boca começando a exibir os
vincos de expressão, rugas perceptíveis ao redor dos olhos
apaixonados e sorria para ele com uma sofreguidão que a outra não
tinha.
Amou-a mais ainda.
Não via a virgem ansiosa, a jovem
inexperiente a quem imaginara ensinar os prazeres da carne, mas uma
mulher mais velha, em plena exuberância da maturidade recém
conquistada.
E a semana foi ainda mais ardente, as
relações virtuais mais intensas, o teclado mais maltratado, os
gemidos mais fortes. Sonhava com ela todos os dias, distraia-se no
trabalho, os colegas percebiam e ironizavam sua condição de
apaixonado - “ cuidado... este negócio de fotografia é
roubada... vai ver a mulher é um jaburú de 220 quilos, mandando
foto da amiga...” - mas ele sabia que não. Do fundo do coração
apaixonado tinha certeza de que eram mesmo os olhos verdes dela que
estavam lá, do outro lado da cadeia de bites, em São Paulo,
recebendo seu carinho.
Viveu em estado de paixão até a próxima
segunda-feira.
Foto - dizia outra vez o assunto da
mensagem.
Meio desconfiado, abriu o arquivo e teve
nova surpresa: era ela, agora uma mulher de uns quarenta anos, bela
sem dúvida nenhuma, a pele queimada de sol, os dentes muito brancos
num sorriso lascivo que não tinha aos trinta, pequena camada de
gordura já esbatendo a linha angulosa do queixo. Dois vincos leves
desciam ao lado do nariz perfeito. Também o corpo parecia mais
cheio, o busto crescera, os quadris se acentuaram. O cabelo agora
era curto, na altura do queixo e toda ela respirava uma eficiência
e plenitude ao lado de uma sensualidade mais explícita nos
maravilhosos olhos verdes de volúpia.
Ficou um longo tempo parado, contemplando
a foto.
Que mulher era aquela que o atraíra com
um retrato antigo, para ir , aos poucos, se revelando, na
feminilidade amadurecida, em imagens reveladores de uma fome de
viver sempre mais intensa, o sorriso largo, os olhos mais febris?
A paixão se acentuou.
Desejou, então, mulher madura como não
desejara as outras. Cada vez mais enlouquecido, não conseguia
dormir, preso ao delírio que o consumia, que consumia os dois,
varando madrugadas nos embates amorosos, perdendo encontros,
chegando atrasado ao trabalho para divertimento dos colegas e caras
pouco amigáveis do chefe da seção. Como conseguia fazer seu serviço
naqueles dias é coisa que só os deuses do amor podiam explicar.
Era movido à paixão que lia relatórios e exercia, no corpo de
outro, uma vida apenas maquinal.
A verdadeira vida experimentava em outras
esferas, preso àqueles olhos de luxuria e àquele sorriso de
pecado.
Resolveu que precisava ir a São Paulo.
Tinha que consumar em carne verdadeira o
desejo que o devastava. Comprou a passagem, arrumou a mala.
Mas uma estranha hesitação travava o
impulso.
E se não gostasse da sua aparência?
Tudo bem, mandara retratos, ela também o conhecia, mas a presença
física é diferente. E se aquela coisa de pele, cheiro - a química
- não combinasse?
Impossível - não podia, não queria
acreditar.
Mas perdeu a hora e o avião.
Só ficou a passagem, aguardando a
certeza de um momento exato que talvez nunca chegasse.
Segunda feira foi direto à mensagem dela
- Foto. Inconscientemente, sempre soubera que estaria lá.
Cinqüenta anos, ainda esplendorosa, o
mesmo sorriso aberto, a lascívia, mais contida pela experiência, o
olhar febril que rugas meio fundas circundavam. Ao lado do nariz, um
pouco menos fino talvez, sulcos maiores de mulher madura, A curva
aguda do queixo, agora arredondada. Gordura se depositara em vários
pontos do rosto e do corpo dela. Adquirira um ar amatronado, ancas
mais do que generosas, cintura mais grossa. As pernas continuavam
morenas e lindas, assim como os olhos verdes luminosos e o sorriso
de volúpia.
Tudo isto ele avaliara em um minuto, mas
seu amor não arrefeceu.
Havia uma feminilidade tão intensa
naquela mulher mais velha que o desejo se tornou ainda mais forte.
Amou aqueles quadris generosos, as pernas morenas, que haviam vivido
mais do que ele, os olhos que continuavam acesos para o amor
As noites virtuais continuaram quentes.
Nada perguntavam. Apenas se amavam como convivas refinados que, já
conhecendo todo o cardápio, saboreavam agora o detalhe
E ele cada vez mais preso ao vício da
madrugada, insone, apaixonado, desvairado, faltando algumas vezes ao
trabalho, cambaleante, envelhecido, cansado.
Na semana seguinte a foto trouxe a
sexagenária. Bela mulher, no início da velhice, os cabelos
castanhos bem grisalhos, contrastando com a morenice do rosto.
Emagrecera bastante. A curva da face voltara, imperceptivelmente à
forma antiga e agora mais rugas e vincos apareciam ao redor dos
olhos e do nariz, se espalhando pelo pescoço que não tinha mais o
frescor de antes. As ancas estavam menos cheias, os seios pareciam
flácidos. Só o olhar continuava luminoso, sugando a energia
ambiente com uma vontade de viver que a tudo contagiava e os dentes,
lindos, com o mesmo sorriso branco apaixonado.
Ficou horas perdidas contemplando a foto.
Que importavam as rugas, os vincos, a
flacidez? Era ela na sua vitalidade animal, o olhar felino, o
sorriso de luxuria. Amava uma mulher que, para ele, envelhecera uma
vida em poucas semanas e este amor se tornara seu vício secreto,
sua perversão.
Qualquer problema que afetasse o
computador o deixava em desespero, telefonava para o técnico a todo
momento, já não ia ao trabalho, arrumara uma licença. Na verdade
adoecera um pouco, não conseguia dormir, comer, gastava os dias
esperando a hora de se encontrar com ela e viver aquela paixão cada
vez mais absorvente.
Na semana seguinte - setenta anos e
grande mudança no aspecto geral - uma senhora simpática, de
cabelos brancos, corpo desabando
. Mas ele não via nada disto. Só os
olhos, luminosos, varando as lentes dos óculos, que não conseguiam
conter sua força incomparável. E o mesmo sorriso de pecado, o
mesmo ar atrevido e insaciável, contrastando com a velha que a
continha
Nesta mensagem anunciava, em palavras
breves, que na próxima segunda-feira viria ao Rio para conhecê-lo.
Sentiu um misto de alegria louca e terror
profundo.
Toda aquela vida condensada que viveram
juntos ia, finalmente, se expandir em realidade talvez amarga.
Tinha medo deste encontro. Medo e volúpia.
Medo e tesão. Desejo e incerteza se misturavam. Sonhava com a jovem
inocente, a mulher de trinta anos, a avó lasciva, todas elas num
turbilhão em que reinavam, sobranceiros, os olhos verdes intensos e
o sorriso de amante insaciável.
No dia marcado, ela chegou. Anunciou por
e-mail que estava no Rio. Chegaria às oito horas na sua casa.
Nervoso, tentou se arrumar - comprara uma
camisa e calças novas. Suas roupas estavam tão largas que já não
serviam nele, emagrecera bastante. Fios de cabelo ficavam no pente
aos novelos, tinha que pentear com cuidado, estava ficando careca.
E tinha só vinte e sete anos .
As mãos trêmulas seguravam com força
as fotos que imprimira - presente de última hora.
Quando a campainha soou, levantou-se trôpego,
nervoso, arquejante, quase não conseguiu alcançar a porta, o ar
faltava, as pernas não obedeciam.
A campainha insistia, febril, como o
sorriso dela nos retratos, lascivo, cruel talvez, os olhos agora
parecendo ligeiramente malévolos na sua ânsia de vida.
Arrastou-se penosamente até à cômoda,
a campainha torturando seus ouvidos, aguda como os olhos verdes
dela, verdes como o oceano, as coisas se misturando em sua cabeça,
a visão turva, apoiou-se no móvel, aspirou penosamente o ar, com
esforço chegou até à porta... abriu.
E caiu pesadamente no chão. Morto.
As fotos resvalaram de sua mão e se
espalharam pelo chão empoeirado.
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