Via Aqua

 Marta Rolim

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0177]
[Autora: Marta Rolim]
[Título: Via Aqua]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 545]

 

O rio ficara para trás, perdido na mata. O pequeno Cristo atravessava cautelosamente a senda estreita, ainda ouvindo o ciciar distante das águas. A senda que conduzia ao jardim, encoberta por um espesso véu de aranhas, se estendia, emaranhada e obscura.

Não demorou para que encontrasse a serpente, a Guardiã: os três chifres ancestrais despontavam no alto de sua cabeça triangular, voltados diretamente para o rosto do menino. Ela o mirava, imóvel, espreitando com os olhos de pupilas verticais, absolutamente quieta, quase invisível entre as folhas secas, mas o menino Jesus podia ver a ponta curva de seu rabo, que ostentava um poderoso espinho. Um espinho mortífero suspenso no ar. Rabo de escorpião — pensou o pequeno, assustando-se - uma víbora com rabo de escorpião.

A face do menino, morena e lustrosa, contrastava com a face medonha do ofídio. A serpente e a criança miraram-se por uma fração de tempo, que pareceu longa demais.

Finalmente Jesus falou. Perguntou - voz aflita - como andava o paraíso. A cobra retorceu-se e sibilou, exibindo a língua bipartida, mas nada disse.

Não era à toa que a serpente guardava o paraíso! Tinha fama de ser a mais astuta das bestas.

O rapazinho, não se dando por vencido, com eloqüência inesperada, explicou à serpente que havia humanos que gostariam de voltar ao jardim de delícias (percorrendo a senda proibida) e que ele fora incumbido de guiá-los.

A víbora sorriu e gargalhou, maliciosa, e foi rindo cada vez mais. Gargalhou alto, a boca escancarando-se, as duas presas pontiagudas resvalando para fora, a língua comprida cintilando no ar. Os olhos estranhamente fixos, enquanto o ferrão negro da calda dançava loucamente, acompanhando os movimentos espasmódicos do ventre longo. A cobra inteira sacudia-se de tanto rir, mas aos poucos, como se algo a tivesse chamado, foi estancando o riso e assumiu novamente sua postura vigilante.

"Cara Luzzzz — disse a peçonhenta para o tenro Cristo — o paraísssssso sssempre essteve aberto, diga aosss humanosssss que elessss podem voltar quando quisssssserem."

O menino achou estranha a mensagem da Guardiã, mas intuía que não deveria contestar sua palavra. Agradeceu à víbora e virou-se para atravessar a senda novamente, tomar o caminho de volta, que a esta altura já se encontrava quase totalmente oculto pelo véu de teias que as aranhas teciam sem parar. Foi quando viu - no espelho dos diminutos olhos das aracnídeas — a serpente se movimentando em total silêncio às suas costas, elevando bem alto seu ferrão escorpiônico.

Um milésimo, um salto preciso para o lado, e o ferrão negro cravou-se no solo. A traiçoeira, mais que depressa, tentou armar novo bote para fulminar o filho de Deus, mas ele escapuliu, rápido, atravessando o véu de teias com vigoroso impulso.

Os humanos o esperavam à beira d'água.

Os humanos, os descendentes dos primeiros. O menino veio lhes contar o que havia acontecido. Descreveu como a Guardiã quase o matara e que as possibilidades de voltar ao jardim de delícias eram remotas.

Assim que o rapazinho findou o relato, os homens ficaram irados. Revoltaram-se contra a sorte de vida que Jesus lhes revelava. Foi a primeira vez.

O rio caudaloso refletia as faces furiosas, enquanto o rosto do pequeno afundava. Nunca conseguiu ficar muito tempo na Terra.

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