O Último Vagão

 M. R. Callegaro

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0174]
[Autor: M. R. Callegaro]
[Título: O Último Vagão]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 1.370]

 

Era noite sem luar, chuvosa e fria, de uma segunda-feira qualquer. Talvez melhor dizer, madrugada da terça, pois passava um pouco da meia-noite. Ela caminhava pelos limites de uma calçada sombria. Trajava sobretudo e chapéu cáqui, os quais ocultavam a visibilidade de quase todo o corpo. Apenas um vulto. Caminhava. Um pálido reflexo da luz de mercúrio refletia no asfalto molhado. Alguns passos adiante, outro facho de luz — este, bem definido — cortava a calçada denunciando um bar cujo proprietário fazia as arrumações para o fechamento do dia. Todo o comércio restante já havia encerrado o seu expediente. Iniciavam-se as horas mais sinistras da noite. Uma nostálgica canção saía de uma juke box:

— We’re caught in a trap... I can’t walk out... because I love you to much, baby...

O ouvir daquela música provocou uma pausa momentânea em seus passos. Apresentando sinais de estresse, prosseguiu caminhando. Estacou em frente ao bar. O proprietário enxugava e guardava os copos em um ambiente vazio; assoviava distraído o refrão da canção, Suspicious Mind interpretada por Elvis Presley:

— We can’t go on together... with suspicious mind... suspicious mind!!!...

Foi o suficiente. Não pensou duas vezes. Em um lance rápido, a estranha figura entrou no bar pondo a mão por debaixo do sobretudo, puxou uma semi-automática ponto 45, e, em direção ao compact disc da juke box, a arma pipocou por três vezes:

— Pow... pow... pow...

O proprietário do estabelecimento arregalou os olhos, sem reação. A juke box ainda insistiu, de forma meio mole:

— Suspi... cious mind...

Ela buscou o extintor de incêndio junto à parede, arremessou-o contra o painel de vidro da máquina:

— CRASH!!!...

— Fecha a matraca, sua canalha!

E, girando a perna direita sobre o próprio corpo, desferiu um poderoso golpe à lateral da máquina, que pendeu sobre si mesma, caindo ao chão com enorme estardalhaço — não sem antes arrancar o fio da tomada, produzir um estouro e várias faíscas de curto-circuito.

— Mas... você não pode... — tentou dizer o proprietário.

Em dois passos largos, ela se aproximou. Agarrou o homem pelo colarinho, puxando-o por cima do balcão, para perto do seu rosto. Ele sentiu o hálito doce da mulher:

— Se eu passar por aqui outra vez... estiver tocando esta música maldita... eu arrebento o bar, e você todinho!!!

Falou e, em seguida, arremessou o frágil e atemorizado corpo masculino contra a parede da prateleira de bebidas. Algumas garrafas caíram ao chão.

Saiu. Meio de esguelha, deu um olhar ligeiro para a parede frontal do bar. Grafitado em spray preto sobre pastilhas azuis: “Elvis lives”.

Continuou o trajeto inicial. Agora, seus passos eram mais rápidos. Olhou para o relógio de pulso, precisava se apressar. Dentro de minutos, o terminal iria fechar e ela detestaria perder o encontro marcado. Chegou em tempo. Passou o bilhete, cruzou o bloqueio, desceu a escada rolante. Seu corpo demonstrava acentuados sinais de estresse pelo acontecido. Era uma mulher que não podia ser contrariada, facilmente perdia as estribeiras, sem consideração a ninguém e com graves conseqüências.

Aguardou junto à estação praticamente vazia. Não precisou esperar muito, a composição logo se fez presente. Freou. Abriu as portas a sua frente. Ela permaneceu imóvel. O alarme sonoro anunciou o fechamento das portas, assim como a partida. Ela continuou imóvel. Seus pensamentos maquinavam possíveis surpresas naquele encontro. Tinha por hábito ser precavida, planejava com antecedência suas possíveis reações. Uma mulher movida pela razão, há tempo dominara as emoções que, acreditava, lhe fizeram sofrer tanto.

A composição partiu. Ela, impassível.

Relembrou duas ou três passagens da sua vida. Olhou para o relógio da estação, mais por costume — sabia as horas com precisão. Sua mente iniciou alguns cálculos. Não foi preciso. O alto-falante anunciou a última viagem. Muda, dirigiu-se ao final da estação. Embarcou, no último vagão.

Passaram duas estações. O cenário do túnel riscava a janela. Ela gostava de manter o olhar fixo nos desenhos que se formavam através do vidro. Assim, distraía-se um pouco. O vagão continuava vazio. Na terceira estação, lá estava ele, conforme combinado. Sem sombra de dúvida, uma estranha figura: um negro, de cerca de 1,80m, porte atlético, trajando roupas à Elvis Presley. De macacão branco, pegado ao corpo, com lantejoulas de cores variadas, cinturão espalhafatoso, golas e punhos escandalosamente brega e, acima de tudo, franjas... muitas franjas! Apesar do cabelo carapinha, ainda assim, puxava uma mecha com gel tentando formar um topete.

Entrou pela primeira porta do vagão. Olhou para aquela mulher de pé mais ao fundo, de sobretudo e chapéu bege. Somente podia ser ela: eram os únicos passageiros daquele vagão. Foi em sua direção.

— Você que é... — falou, um tanto atônito.

Ela retirava o sobretudo, o chapéu, jogando-os sobre o banco. Desfigurou-se uma mulher negra, de máscara e traje negro colados ao corpo musculoso e sedutor; com as iniciais “B” e “G” escritas junto à região farta dos seios — sem falar no inusitado da semi-automática ponto 45 presa à cintura.

— ... Black Girl!!!

— Você é fã do Elvis? — vociferou a bizarra figura feminina.

— Sou... — respondeu o homem, com voz frouxa.

— Faz parte do fã-clube dele?

— Faço...

— Acha que ele foi o maior cantor de rock de todos os tempos?

— Acho...

— Sua música predileta é Suspicious Mind?

— Como você sabe?

A respiração de Black Girl tornou-se ofegante, suas veias latejaram. Os olhos denotavam furor; seu corpo, um estresse imenso...

Com falsa amabilidade, colocou as mãos por detrás da cabeça do homem negro, iniciando uma carícia na nuca. De súbito, seu rosto expressou ódio; puxou a cabeça com força, deu uma portentosa cabeçada junto àquele nariz nada presleyano. Um fio de sangue escorreu em direção ao queixo.

— O que é isso?!!! — falou abalado, levando a mão às narinas.

Observou por um curto segundo os dedos cobertos de sangue, por isso, nem percebeu quando um poderoso soco de direita lhe atingiu o supercílio. Tombou para trás. Caiu atordoado. O sangue agora era abundante. O peitoral do macacão tingiu-se de vermelho. Black Girl chutou-lhe os rins.

Escutou-se um gemido grave, feito o de um porco velho no matadouro — e o homem negro contorceu-se de dor pelo chão do vagão.

— Você pensa que pode conquistar mulheres pela Internet? — falou com raiva Black Girl. — Pensa que todas elas gostam do Elvis?

— Mas você disse...

— Não interessa o que eu disse, seu idiota? Não percebeu ainda que foi apenas uma forma de lhe atrair?

— Então, não é fã do Elvis?

— Eu detesto o Elvis!!! Meu ex-marido, o Vincent, era fã dele. Nunca vi! Alguém que nasce depois que ele morreu, como pode gostar tanto assim dele?

— Elvis é eterno!

— Eterno, o cacete!!!

E chutou-lhe o escroto.

A vítima da Tenebrosa Mulher dobrou as pernas e os braços, urrando de dor.

— Nunca, nunca mais um homem negro que goste do Elvis vai existir sobre a face da terra. Tenho ódio de todo esse tipo de homem, e ainda, por cima, conquistando uma mulher pela Internet...

— E o que tem isso? — ainda com grande dor, esforçou-se o homem caído para perguntar.

— Era desse modo que Vincent conhecia e marcava encontro com outras mulheres... até me trocar por uma loira!!!...

Falou com os dentes cerrados. Estava furiosa.

O trem começara a frear, aproximava-se da estação. Black Girl observou aquela patética figura humana dobrada ao chão, em posição fetal. Seu rosto esboçou um sádico sorriso no canto dos lábios: o homem urinara de dor e a urina escorria pelo piso do vagão.

— Se ao menos fosse o B. B. King ou o Chuck Berry... — falou enquanto vestia o sobretudo e o chapéu cáqui.

O trem parou, a porta se abriu. Ela desceu. Ao chão, a sofrida personagem conseguiu ainda escutar ela dizer, apesar do ruidoso sinal do fechamento das portas: “Elvis está morto”.

O trem partiu. Do outro lado da estação, no sentido inverso, outra composição também partia, em sua última viagem. Quem esteve naquele trem, através da janela, certamente avistou o vulto daquela mulher que, estática e de pé, era agora quem riscava os vidros da nova composição que ganhava velocidade. Com o olhar perdido, fitava os vagões que passavam, um por um, até o último — pois era assim que ela se sentia: como se toda a sua vida estivesse contida no último vagão, de um último metrô.

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