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Era noite sem luar, chuvosa e fria, de
uma segunda-feira qualquer. Talvez melhor dizer, madrugada da terça,
pois passava um pouco da meia-noite. Ela caminhava pelos limites de
uma calçada sombria. Trajava sobretudo e chapéu cáqui, os quais
ocultavam a visibilidade de quase todo o corpo. Apenas um vulto.
Caminhava. Um pálido reflexo da luz de mercúrio refletia no
asfalto molhado. Alguns passos adiante, outro facho de luz — este,
bem definido — cortava a calçada denunciando um bar cujo proprietário
fazia as arrumações para o fechamento do dia. Todo o comércio
restante já havia encerrado o seu expediente. Iniciavam-se as horas
mais sinistras da noite. Uma nostálgica canção saía de uma juke
box:
— We’re caught in a trap... I can’t walk out... because I love you
to much, baby...
O ouvir daquela música provocou uma
pausa momentânea em seus passos. Apresentando sinais de estresse,
prosseguiu caminhando. Estacou em frente ao bar. O proprietário
enxugava e guardava os copos em um ambiente vazio; assoviava distraído
o refrão da canção, Suspicious Mind interpretada por Elvis
Presley:
— We can’t go on together... with suspicious mind... suspicious mind!!!...
Foi o suficiente. Não pensou duas vezes.
Em um lance rápido, a estranha figura entrou no bar pondo a mão
por debaixo do sobretudo, puxou uma semi-automática ponto 45, e, em
direção ao compact disc da juke box, a arma pipocou por três
vezes:
— Pow... pow... pow...
O proprietário do estabelecimento
arregalou os olhos, sem reação. A juke box ainda insistiu, de
forma meio mole:
— Suspi... cious mind...
Ela buscou o extintor de incêndio junto
à parede, arremessou-o contra o painel de vidro da máquina:
— CRASH!!!...
— Fecha a matraca, sua canalha!
E, girando a perna direita sobre o próprio
corpo, desferiu um poderoso golpe à lateral da máquina, que pendeu
sobre si mesma, caindo ao chão com enorme estardalhaço — não
sem antes arrancar o fio da tomada, produzir um estouro e várias faíscas
de curto-circuito.
— Mas... você não pode... — tentou
dizer o proprietário.
Em dois passos largos, ela se aproximou.
Agarrou o homem pelo colarinho, puxando-o por cima do balcão, para
perto do seu rosto. Ele sentiu o hálito doce da mulher:
— Se eu passar por aqui outra vez...
estiver tocando esta música maldita... eu arrebento o bar, e você
todinho!!!
Falou e, em seguida, arremessou o frágil
e atemorizado corpo masculino contra a parede da prateleira de
bebidas. Algumas garrafas caíram ao chão.
Saiu. Meio de esguelha, deu um olhar
ligeiro para a parede frontal do bar. Grafitado em spray preto sobre
pastilhas azuis: “Elvis lives”.
Continuou o trajeto inicial. Agora, seus
passos eram mais rápidos. Olhou para o relógio de pulso, precisava
se apressar. Dentro de minutos, o terminal iria fechar e ela
detestaria perder o encontro marcado. Chegou em tempo. Passou o
bilhete, cruzou o bloqueio, desceu a escada rolante. Seu corpo
demonstrava acentuados sinais de estresse pelo acontecido. Era uma
mulher que não podia ser contrariada, facilmente perdia as
estribeiras, sem consideração a ninguém e com graves conseqüências.
Aguardou junto à estação praticamente
vazia. Não precisou esperar muito, a composição logo se fez
presente. Freou. Abriu as portas a sua frente. Ela permaneceu imóvel.
O alarme sonoro anunciou o fechamento das portas, assim como a
partida. Ela continuou imóvel. Seus pensamentos maquinavam possíveis
surpresas naquele encontro. Tinha por hábito ser precavida,
planejava com antecedência suas possíveis reações. Uma mulher
movida pela razão, há tempo dominara as emoções que, acreditava,
lhe fizeram sofrer tanto.
A composição partiu. Ela, impassível.
Relembrou duas ou três passagens da sua
vida. Olhou para o relógio da estação, mais por costume — sabia
as horas com precisão. Sua mente iniciou alguns cálculos. Não foi
preciso. O alto-falante anunciou a última viagem. Muda, dirigiu-se
ao final da estação. Embarcou, no último vagão.
Passaram duas estações. O cenário do túnel
riscava a janela. Ela gostava de manter o olhar fixo nos desenhos
que se formavam através do vidro. Assim, distraía-se um pouco. O
vagão continuava vazio. Na terceira estação, lá estava ele,
conforme combinado. Sem sombra de dúvida, uma estranha figura: um
negro, de cerca de 1,80m, porte atlético, trajando roupas à Elvis
Presley. De macacão branco, pegado ao corpo, com lantejoulas de
cores variadas, cinturão espalhafatoso, golas e punhos
escandalosamente brega e, acima de tudo, franjas... muitas franjas!
Apesar do cabelo carapinha, ainda assim, puxava uma mecha com gel
tentando formar um topete.
Entrou pela primeira porta do vagão.
Olhou para aquela mulher de pé mais ao fundo, de sobretudo e chapéu
bege. Somente podia ser ela: eram os únicos passageiros daquele vagão.
Foi em sua direção.
— Você que é... — falou, um tanto
atônito.
Ela retirava o sobretudo, o chapéu,
jogando-os sobre o banco. Desfigurou-se uma mulher negra, de máscara
e traje negro colados ao corpo musculoso e sedutor; com as iniciais
“B” e “G” escritas junto à região farta dos seios — sem
falar no inusitado da semi-automática ponto 45 presa à cintura.
— ... Black Girl!!!
— Você é fã do Elvis? — vociferou
a bizarra figura feminina.
— Sou... — respondeu o homem, com voz
frouxa.
— Faz parte do fã-clube dele?
— Faço...
— Acha que ele foi o maior cantor de
rock de todos os tempos?
— Acho...
— Sua música predileta é Suspicious
Mind?
— Como você sabe?
A respiração de Black Girl tornou-se
ofegante, suas veias latejaram. Os olhos denotavam furor; seu corpo,
um estresse imenso...
Com falsa amabilidade, colocou as mãos
por detrás da cabeça do homem negro, iniciando uma carícia na
nuca. De súbito, seu rosto expressou ódio; puxou a cabeça com força,
deu uma portentosa cabeçada junto àquele nariz nada presleyano. Um
fio de sangue escorreu em direção ao queixo.
— O que é isso?!!! — falou abalado,
levando a mão às narinas.
Observou por um curto segundo os dedos
cobertos de sangue, por isso, nem percebeu quando um poderoso soco
de direita lhe atingiu o supercílio. Tombou para trás. Caiu
atordoado. O sangue agora era abundante. O peitoral do macacão
tingiu-se de vermelho. Black Girl chutou-lhe os rins.
Escutou-se um gemido grave, feito o de um
porco velho no matadouro — e o homem negro contorceu-se de dor
pelo chão do vagão.
— Você pensa que pode conquistar
mulheres pela Internet? — falou com raiva Black Girl. — Pensa
que todas elas gostam do Elvis?
— Mas você disse...
— Não interessa o que eu disse, seu
idiota? Não percebeu ainda que foi apenas uma forma de lhe atrair?
— Então, não é fã do Elvis?
— Eu detesto o Elvis!!! Meu ex-marido,
o Vincent, era fã dele. Nunca vi! Alguém que nasce depois que ele
morreu, como pode gostar tanto assim dele?
— Elvis é eterno!
— Eterno, o cacete!!!
E chutou-lhe o escroto.
A vítima da Tenebrosa Mulher dobrou as
pernas e os braços, urrando de dor.
— Nunca, nunca mais um homem negro que
goste do Elvis vai existir sobre a face da terra. Tenho ódio de
todo esse tipo de homem, e ainda, por cima, conquistando uma mulher
pela Internet...
— E o que tem isso? — ainda com
grande dor, esforçou-se o homem caído para perguntar.
— Era desse modo que Vincent conhecia e
marcava encontro com outras mulheres... até me trocar por uma
loira!!!...
Falou com os dentes cerrados. Estava
furiosa.
O trem começara a frear, aproximava-se
da estação. Black Girl observou aquela patética figura humana
dobrada ao chão, em posição fetal. Seu rosto esboçou um sádico
sorriso no canto dos lábios: o homem urinara de dor e a urina
escorria pelo piso do vagão.
— Se ao menos fosse o B. B. King ou o
Chuck Berry... — falou enquanto vestia o sobretudo e o chapéu cáqui.
O trem parou, a porta se abriu. Ela
desceu. Ao chão, a sofrida personagem conseguiu ainda escutar ela
dizer, apesar do ruidoso sinal do fechamento das portas: “Elvis
está morto”.
O trem partiu. Do outro lado da estação, no sentido inverso, outra
composição também partia, em sua última viagem. Quem esteve
naquele trem, através da janela, certamente avistou o vulto daquela
mulher que, estática e de pé, era agora quem riscava os vidros da
nova composição que ganhava velocidade. Com o olhar perdido,
fitava os vagões que passavam, um por um, até o último — pois
era assim que ela se sentia: como se toda a sua vida estivesse
contida no último vagão, de um último metrô.
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