O Círculo Imperfeito

 Maria Helena Bandeira

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0172]
[Autora: Maria Helena Bandeira]
[Título: O Círculo Imperfeito]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 1.310]

 

Devo andar colado às paredes cinzentas, assim é mais fácil passar desapercebido. Não posso mudar de cor diante dos outros, há sempre Errantes surgindo das sombras, figuras perdidas no meio da névoa suja que cobre a cidade. Poucos usam máscaras contra gases, a maioria dos que visitam a noite, já se habituou à poluição, são os primeiros da nova raça que irá me gerar. E eu estou de novo aqui, mais uma vez, tentando.

Malditos!...

Resisto ao impulso de me atirar sobre eles e estraçalhá-los com meus dentes. Respiro fundo e me encosto na parede suja do beco que vai dar na Grande Avenida onde Ele mora.

A respiração se acelera ao pensar Nele e as feridas coçam dentro da pele protetora. Por mais peles novas que coloquem em mim, sinto esta ardência que nunca passa. Aqueles psicólogos do Centro são uns idiotas, alguma coisa em mim foi mal ajustada, não consigo me adaptar a minha condição. Outros mutantes se acham privilegiados, podem rir e participar das Orgias. Eu não. Minha única obsessão é acabar com Ele.

As feridas que ninguém vê coçam agora insuportavelmente e preciso parar para esfolar a pele cinzenta que escolhi. Gotas de sangue aparecem na superfície lisa de meus braços e isto me alivia um pouco.

Um Errante se aproxima e me olha surpreso. Faço a transformação para gato antes que ele tenha tempo de terminar a respiração. O homem esfrega os olhos assustado. Pulo na carcomida marquise do prédio em frente. Ele se abaixa pensando em me jogar uma das pedras da calçada esburacada, mas desiste e continua seu caminho olhando desconfiado para mim,

Não deveria ter usado a mutação estupidamente, sabendo que talvez precise delas, e dos minutos que consomem, para minha missão. Mas não suporto humanos me olhando de perto.

Já que escolhi o gato, manterei esta forma enquanto for possível. As mutações gastam muito do tempo que me resta e trocar de cor me faria perder preciosos segundos. Tenho ainda cinqüenta minutos para cumprir a tarefa que me impus. Desta vez não falharei. Por todas as tentativas anteriores, sei que este é o melhor momento para pegá-lo desprevenido. Está dormindo e já aprendi todos os códigos de segurança de sua rede de proteção noturna.Para alguma coisa serviram os fracassos anteriores. O problema são os Errantes que já apresentam visão e audição superior. Alguns têm poderes extra-sensoriais desenvolvidos como pude constatar em outras tentativas. Mas, a esta hora, os melhores, como Ele, estão guardando as forças para o dia. Apenas marginais encaram a escuridão e os gases venenosos.

Luzes brilhantes indicam o fim do beco.

Agora vem a parte mais perigosa. A avenida é muito iluminada e, mesmo através da névoa tóxica, é possível me enxergar. Gatos são proibidos na cidade há muitos anos, desde a disseminação da peste felina, a maioria foi exterminada, os remanescentes são caçados impiedosamente pela guarda volante. Há policiais aéreos nas Grandes Avenidas. Tenho que pensar rapidamente em como me transformar para gastar o mínimo de tempo e chamar menos atenção. Jogo minha última cartada e assumo a aparência humana. Com as roupas que trouxe do futuro, posso ser confundido com um passante qualquer, a capa espessa e o capuz impermeável, que protegem a todos da chuva ácida, me guardando de olhares indiscretos, desde que me mantenha próximo à parede e longe das luzes ofuscantes que incidem sobre a rua úmida.

Não há ninguém aqui a esta hora. Apenas os policiais volantes sobrevoam silenciosamente a avenida deserta. Caminho apressado e um deles acende um facho luminoso sobre mim. Por sorte, já estava bem próximo à entrada do prédio Dele e apenas me inclinei para que o identificador de cheiros me aceitasse, esgueirando-me em direção a proteção do saguão. Imitar cheiros é fácil para um mutante.. mas no passado não sabiam disso, para minha sorte. Perdi uns vinte minutos em toda esta caminhada e ainda me restam trinta. Será mais do que suficiente.

As portas de kristal abrem-se docemente e eu piso o tapete de relva fresca do vestíbulo. Há canteiros de flores por toda parte, artificiais e preservadas, raríssimas, prova da situação invejável dos moradores e também daquele que é responsável por meu infeliz destino. Holopainéis nas paredes simulam colinas verdejantes e céu azul. Há uma sensação de paraíso perdido neste lugar.

Uma angústia me aperta o peito, como em todas as outras vezes em que entrei neste ambiente de falsa paz. Sei que houve paisagens assim no passado, vi registros. Humanos, como Ele, viveram entre campos e árvores e não sabiam que estavam condenados, que tudo estava caminhando para desaparecer, que destruiriam seu próprio paraíso. Idiotas! Mereceram a sorte que o tempo lhes reservou.

Eu não. Sou apenas a construção da mente doentia do meu pai, o único mutante não-adaptado, o único capaz de raciocinar sobre minha condição. Se tivesse podido escolher, seria como os outros, vivendo por viver, participando das orgias, caçando humanos fugitivos pra me divertir, gozando o privilégio de ser imortal.

Entro no tubo volante que suavemente desliza sobre o campo artificial em direção aos patamares superiores. Pouso no terraço, onde a paisagem campestre continua, protegida pela semi-esfera que encima a maioria dos edifícios de luxo, padrão arquitetônico da época.

Livro-me rapidamente dos códigos de segurança que conheço de cor depois de tantas tentativas, ao longo das milhares de vezes em que voltei do futuro para matá-lo.

O quarto Dele tem holopainéis com constelações. É como estar solto no meio do universo, como estar numa daquelas naves antigas, navegando no meio da galáxia. È bonito e assustador. Não percebo o chão, nem paredes ou teto, dá vertigem no corpo humano que escolhi, tenho que parar e respirar.

A mente doentia de meu Pai aprecia a beleza sobre todas as coisas e me concebeu belo como sou. Apenas não imaginava o que os anos iam fazer sobre esta beleza. O que a terrível angústia colocou nos meus olhos e dentes. Como a mutação iria me transformar. Em algo assustadoramente belo e horrível, impossível de ser contemplado, menos ainda amado.

Não há amor entre os outros mutantes, mas eu amo.

Amo a impossibilidade humana numa mulher, a fragilidade que nunca terei, a beleza que envelhece e sofre, a beleza que perece e nunca será minha.

Afasto estes pensamentos que ainda me fazem sofrer e me aproximo do leito erguido no meio do Universo. Ele dorme suspenso por uma invisível bolsa de ar que o mantém confortável, encharcado de narcóticos compradores de sonhos bons. Há um meio sorriso no seu rosto e a face, remodelada pelo laser cosmético, está relaxada.

Tenho ainda dez minutos.

Empunho a arma desintegradora, suficiente para destruir uns trinta humanos.

O imprevisto acontece mais uma vez, ele acorda, como sempre, não se altera com minha presença. Apenas me fita com tranqüilidade e diz:

“Dark, quantas vezes achou que me enganaria? “

Tentou se levantar, mas fui mais rápido. Antes que pudesse fazer um outro movimento, imobilizei-o sobre a bolsa de ar.

Ele me olhou, talvez um pouco triste, mas confiante:

“ Sabe que é impossível me matar.”

Eu sei , ah como sei, mas mesmo assim eu tento. Jogo fora a arma e aperto aquela garganta monstruosa, até que a vida miserável tenha escorrido inteira do seu corpo. Então, visto que matei meu criador antes da criação, começo a desaparecer maravilhosamente e me torno mistério.

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Estou de novo aqui, colado às paredes, mais uma vez tentando. Preso ao paradoxo circular de que não existindo, não posso destruir quem me criou e então eu volto. Volto outra vez no tempo para matá-lo, e mata-lo e mata-lo. Até que a cadeia infinita se complete, até que um instante fugaz se perca no impossível, até que eu possa, enfim, me libertar da roda inexorável.

 

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