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Devo andar colado às paredes cinzentas,
assim é mais fácil passar desapercebido. Não posso mudar de cor
diante dos outros, há sempre Errantes surgindo das sombras, figuras
perdidas no meio da névoa suja que cobre a cidade. Poucos usam máscaras
contra gases, a maioria dos que visitam a noite, já se habituou à
poluição, são os primeiros da nova raça que irá me gerar. E eu
estou de novo aqui, mais uma vez, tentando.
Malditos!...
Resisto ao impulso de me atirar sobre
eles e estraçalhá-los com meus dentes. Respiro fundo e me encosto
na parede suja do beco que vai dar na Grande Avenida onde Ele mora.
A respiração se acelera ao pensar Nele
e as feridas coçam dentro da pele protetora. Por mais peles novas
que coloquem em mim, sinto esta ardência que nunca passa. Aqueles
psicólogos do Centro são uns idiotas, alguma coisa em mim foi mal
ajustada, não consigo me adaptar a minha condição. Outros
mutantes se acham privilegiados, podem rir e participar das Orgias.
Eu não. Minha única obsessão é acabar com Ele.
As feridas que ninguém vê coçam agora
insuportavelmente e preciso parar para esfolar a pele cinzenta que
escolhi. Gotas de sangue aparecem na superfície lisa de meus braços
e isto me alivia um pouco.
Um Errante se aproxima e me olha
surpreso. Faço a transformação para gato antes que ele tenha
tempo de terminar a respiração. O homem esfrega os olhos
assustado. Pulo na carcomida marquise do prédio em frente. Ele se
abaixa pensando em me jogar uma das pedras da calçada esburacada,
mas desiste e continua seu caminho olhando desconfiado para mim,
Não deveria ter usado a mutação
estupidamente, sabendo que talvez precise delas, e dos minutos que
consomem, para minha missão. Mas não suporto humanos me olhando de
perto.
Já que escolhi o gato, manterei esta
forma enquanto for possível. As mutações gastam muito do tempo
que me resta e trocar de cor me faria perder preciosos segundos.
Tenho ainda cinqüenta minutos para cumprir a tarefa que me impus.
Desta vez não falharei. Por todas as tentativas anteriores, sei que
este é o melhor momento para pegá-lo desprevenido. Está dormindo
e já aprendi todos os códigos de segurança de sua rede de proteção
noturna.Para alguma coisa serviram os fracassos anteriores. O
problema são os Errantes que já apresentam visão e audição
superior. Alguns têm poderes extra-sensoriais desenvolvidos como
pude constatar em outras tentativas. Mas, a esta hora, os melhores,
como Ele, estão guardando as forças para o dia. Apenas marginais
encaram a escuridão e os gases venenosos.
Luzes brilhantes indicam o fim do beco.
Agora vem a parte mais perigosa. A
avenida é muito iluminada e, mesmo através da névoa tóxica, é
possível me enxergar. Gatos são proibidos na cidade há muitos
anos, desde a disseminação da peste felina, a maioria foi
exterminada, os remanescentes são caçados impiedosamente pela
guarda volante. Há policiais aéreos nas Grandes Avenidas. Tenho
que pensar rapidamente em como me transformar para gastar o mínimo
de tempo e chamar menos atenção. Jogo minha última cartada e
assumo a aparência humana. Com as roupas que trouxe do futuro,
posso ser confundido com um passante qualquer, a capa espessa e o
capuz impermeável, que protegem a todos da chuva ácida, me
guardando de olhares indiscretos, desde que me mantenha próximo à
parede e longe das luzes ofuscantes que incidem sobre a rua úmida.
Não há ninguém aqui a esta hora.
Apenas os policiais volantes sobrevoam silenciosamente a avenida
deserta. Caminho apressado e um deles acende um facho luminoso sobre
mim. Por sorte, já estava bem próximo à entrada do prédio Dele e
apenas me inclinei para que o identificador de cheiros me aceitasse,
esgueirando-me em direção a proteção do saguão. Imitar cheiros
é fácil para um mutante.. mas no passado não sabiam disso, para
minha sorte. Perdi uns vinte minutos em toda esta caminhada e ainda
me restam trinta. Será mais do que suficiente.
As portas de kristal abrem-se docemente e
eu piso o tapete de relva fresca do vestíbulo. Há canteiros de
flores por toda parte, artificiais e preservadas, raríssimas, prova
da situação invejável dos moradores e também daquele que é
responsável por meu infeliz destino. Holopainéis nas paredes
simulam colinas verdejantes e céu azul. Há uma sensação de paraíso
perdido neste lugar.
Uma angústia me aperta o peito, como em
todas as outras vezes em que entrei neste ambiente de falsa paz. Sei
que houve paisagens assim no passado, vi registros. Humanos, como
Ele, viveram entre campos e árvores e não sabiam que estavam
condenados, que tudo estava caminhando para desaparecer, que
destruiriam seu próprio paraíso. Idiotas! Mereceram a sorte que o
tempo lhes reservou.
Eu não. Sou apenas a construção da
mente doentia do meu pai, o único mutante não-adaptado, o único
capaz de raciocinar sobre minha condição. Se tivesse podido
escolher, seria como os outros, vivendo por viver, participando das
orgias, caçando humanos fugitivos pra me divertir, gozando o privilégio
de ser imortal.
Entro no tubo volante que suavemente
desliza sobre o campo artificial em direção aos patamares
superiores. Pouso no terraço, onde a paisagem campestre continua,
protegida pela semi-esfera que encima a maioria dos edifícios de
luxo, padrão arquitetônico da época.
Livro-me rapidamente dos códigos de
segurança que conheço de cor depois de tantas tentativas, ao longo
das milhares de vezes em que voltei do futuro para matá-lo.
O quarto Dele tem holopainéis com
constelações. É como estar solto no meio do universo, como estar
numa daquelas naves antigas, navegando no meio da galáxia. È
bonito e assustador. Não percebo o chão, nem paredes ou teto, dá
vertigem no corpo humano que escolhi, tenho que parar e respirar.
A mente doentia de meu Pai aprecia a
beleza sobre todas as coisas e me concebeu belo como sou. Apenas não
imaginava o que os anos iam fazer sobre esta beleza. O que a terrível
angústia colocou nos meus olhos e dentes. Como a mutação iria me
transformar. Em algo assustadoramente belo e horrível, impossível
de ser contemplado, menos ainda amado.
Não há amor entre os outros mutantes,
mas eu amo.
Amo a impossibilidade humana numa mulher,
a fragilidade que nunca terei, a beleza que envelhece e sofre, a
beleza que perece e nunca será minha.
Afasto estes pensamentos que ainda me
fazem sofrer e me aproximo do leito erguido no meio do Universo. Ele
dorme suspenso por uma invisível bolsa de ar que o mantém confortável,
encharcado de narcóticos compradores de sonhos bons. Há um meio
sorriso no seu rosto e a face, remodelada pelo laser cosmético, está
relaxada.
Tenho ainda dez minutos.
Empunho a arma desintegradora, suficiente
para destruir uns trinta humanos.
O imprevisto acontece mais uma vez, ele
acorda, como sempre, não se altera com minha presença. Apenas me
fita com tranqüilidade e diz:
“Dark, quantas vezes achou que me
enganaria? “
Tentou se levantar, mas fui mais rápido.
Antes que pudesse fazer um outro movimento, imobilizei-o sobre a
bolsa de ar.
Ele me olhou, talvez um pouco triste, mas
confiante:
“ Sabe que é impossível me matar.”
Eu sei , ah como sei, mas mesmo assim eu
tento. Jogo fora a arma e aperto aquela garganta monstruosa, até
que a vida miserável tenha escorrido inteira do seu corpo. Então,
visto que matei meu criador antes da criação, começo a
desaparecer maravilhosamente e me torno mistério.
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Estou de novo aqui, colado às paredes,
mais uma vez tentando. Preso ao paradoxo circular de que não
existindo, não posso destruir quem me criou e então eu volto.
Volto outra vez no tempo para matá-lo, e mata-lo e mata-lo. Até
que a cadeia infinita se complete, até que um instante fugaz se
perca no impossível, até que eu possa, enfim, me libertar da roda
inexorável.
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