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- Gonzáles! – rogou ela.
Ele nada disse, apenas deixou que seus olhos frios e determinados se encontrassem com os dela e explicassem tudo que não podia dizer.
Helena sentou-se na cama, passando os braços pelo joelho, abraçando-se feito menina. O olhar de Gonzáles era familiar demais. Foi sempre assim, nenhuma explicação, apenas aquele olhar.
Estavam casados há 12 anos e nem esse tempo trouxera a cumplicidade do amor, algo dentro dele o tornava inacessível, nem sequer tinha um nome para designar o que era. Era tão íntimo e tão irreconhecível.
Sentia aquele impulso conflitante aflorar nela: Chorar por González ou esbofeteá-lo?
Seguiu-se um silêncio prolongado e, de repente, antes que pudesse impedir, ele a beijou. Ela cerrou os olhos fortemente tentando impedir as lágrimas. Não era uma despedida anunciada, mas o reconhecimento da perda. Se ele tivesse sido ruim, se fosse um cafajeste, se dissesse pelo menos alguma palavra agressiva, ela teria uma razão, mas diante de seu rosto silencioso e de sua doçura não pôde deixar de sussurrar:
— Que Deus esteja contigo.
— É justamente ele que procuro – olhou-a com uma espécie de ternura, gostaria de poder encontrar as palavras exatas para lhe dizer obrigado. * * *
Estava acomodado no ônibus que seguia em direção a Campo Grande. Gonzáles comprou a passagem pela companhia “Viação Cruzeiro do Sul” que tinha o primeiro ônibus, às seis horas da manhã, com destino à Bonito. Olhava pensativo através de sua imagem confusa, refletida na janela do ônibus.
Acabavam de entrar pela Rodovia Castello Branco (Raposo Tavares) e logo estariam na Presidente Epitácio entrando finalmente no Mato Grosso do Sul.
— A que o coração se apega tanto? – perguntava-se.
“O pior é que ela tinha razão. Nunca fiz nada por mim”.
Batizado, primeira comunhão e crisma, tudo certo, no tempo certo, no momento certo. Havia chegado ao mundo da fé, com todos os pormenores possíveis. Ele foi ensinado na infância e em toda adolescência que precisava acreditar em deus e esquecer o milagre que ocorreu em sua vida. Foi preciso fingir desacreditar e isso por tantos anos que acabou abandonando seu mundo, seus sonhos, sua verdade. O deus, a ele exposto, cobrou-lhe o que de mais precioso possuía e por isso, hoje, ele tornara-se um homem que não acreditava em nada do que tinham lhe ensinado, nem mesmo no que tinha presenciado.
“Às vezes nos perdemos tentando provar o impossível”.
Os pais, católicos convictos, nunca aceitaram a sua verdade.
Recordava seus irmãos mais velhos interessados em sua história, querendo os detalhes. Todos eles ficaram muito animados. Havia sido um milagre e ele era a prova disso; era tão certo que milagres existiam para eles que aceitaram facilmente como algo muito interessante e completamente possível, no entanto seus pais não compreenderam. Se tivesse sido um anjo, um santo ou mesmo a própria virgem seria aceitável, possível, correto, porém algo que fugisse ao padrão deles era heresia, puro charlatanismo.
O que a doutrina religiosa ensinou a Gonzáles foi que deveria esquecer tudo o que ele insistia ser a verdade, com isso ele se deu o direito de esquecê-la também.
“Elas por elas”
Desde os 15 anos, ele não usou mais seu primeiro nome, Esteban e passou a usar o segundo: Gonzáles. Parou de orar e não ia mais à igreja; deixou de acreditar em uma religião que o podava tal qual árvores. Decidiu que se não podia ganhar o céu, se tornaria um bonsai, e ficaria retido em si e em tudo que ele conseguisse acreditar e provar.
Um enorme buraco se abriu. Sem os seus ensinamentos da infância e sem suas recordações, ele ficou sem um pedaço. Um espaço em branco ficou na lacuna que sempre os amigos lhe perguntavam:
— Gonzáles, você acredita em Deus?
Ele nunca respondia que sim, nem que não. Apenas se abstinha. Não queria negar deus - mas também não queria afirmar algo que desconhecia. Afogou tudo que restava de seu milagre dentro de si. Já não sentia mais a dor da incompreensão, já aceitara transformar suas memórias em mitos.
Julgando por certas lembranças, atualmente espantava-se por um dia tê-las acreditado seriamente, mas tinha meramente aceitado, por imposição que a realidade era fantasia. Nunca pensou que poderia retornar a tais recordações, pois estavam enterradas em sua meninice, suprimidas e desacreditadas tanto quanto seu nome; tornaram-se imaginação, delírio e sonho.
Sua vida estava tranqüila até aquele domingo à noite, quando o jornal mostrou a reportagem de um menino de 8 anos, perdido há 16 dias numa floresta.
O garoto dizia ter sido salvo e cuidado por uma mulher que desaparecera. A única referência que tinham de tal mulher era que vivia no rio e trajava vestes amarelas. Religiosos afirmavam se tratar da aparição de Oxum, ou Nossa Senhora da Conceição.
Ao olhar o menino na tela com uma tranqüilidade que ninguém podia entender, ele reconheceu o antigo Gonzáles Esteban, um garotinho que fora cuidado e alimentado por uma mulher que tinha os cuidados de mãe e o tratava ternamente por Esteban.
Tinha a mesma idade do garoto, quando se perdeu do grupo de escoteiros “Lobinhos da Serra”. Havia desaparecido por vinte oito dias na floresta, há trinta e seis anos atrás. Foi encontrado curado, alimentado e a salvo, no entanto ninguém acreditou no que ele contava, ninguém acreditava que sua mãe Òsun existia.
Uma placa indicava a esquerda, Rio Brilhante.
Havia chegado a Nova Alvorada do Sul.
Ao lembrar daquele garoto, Gonzáles via claramente que sua fé - sua única fé real – foi impedida de ir além – interromperam a crença que deixou suplantada em si.
Mas era uma criança, de tanto escutar que não era verdade, assim isso se fez. Acostumou-se a rudeza que provinha de todos os tipos de ridicularizações. Tudo que ele considerou ser a perseguição da perfeição, eles riam e zombavam. Foi apenas o começo de tudo para o esquecimento daquela que lhe salvou a vida.
O rompimento de toda a sua fé começou com um preconceito, que acabou por dominá-lo também.
Agora ele não podia deixar de pensar nesses anos sem horror, nojo e vergonha. O caráter geral dos seus pais era o medo, e ao contrário de tudo que ele pensava, foi domado pelo mesmo medo, por não entender o sentido e a necessidade de assumir as próprias verdades.
Ele matou seus sonhos, assassinou o que de mais puro e belo possuía.
“O pecado é que possuía o conhecimento, sabia que era criminoso e vítima”.
Tinha vergonha de confessar ter encontrado um orixá.
Gonzáles estudou tudo que pôde, tudo que a vida colocou no seu caminho; descobriu que no tempo da criação, quando Òsun viera das profundezas do rio, foi-lhe confiado o poder de zelar por cada uma das crianças criadas no mundo e as que estavam por nascer.
Deveria evitar os abortos e contratempos antes dos nascimentos. A tarefa atribuída a Òsun transformara-a naquela que vela e cura todas as crianças, fez-se então guardiã.
Gonzáles era como um homem num veleiro que era guiado por mares desconhecidos, chegando de uma religião mal vista.
Quando perguntavam a ele sobre essas questões, queria explicar todas as sombras que enegreciam a bela história de Òsun. Perguntava-se: até quando elas nos toldarão? Quando teríamos essa natureza totalmente desdemonizada? Nenhuma explicação pôde se dar, a ele ou a quem fosse; só há uma resposta para essas questões, descobertas como novas, redimidas como novas: a pura aceitação.
Ver aquele garoto levou a sua vida a um impasse. Já não podia respirar, amar e valorizar-se porque não havia algo em que acreditasse, o que fazer?
A vida cobrava uma atitude sua, pois negar um fato não significava obter respostas.
Passaram a cidade de Maracajú, chegando a Guia Lopes da Laguna onde uma placa indicava: BONITO, à direita.
Há muito tempo haviam abandonado o asfalto, o ônibus deixava um rastro de poeira para trás, à frente, no horizonte, morros e montanhas ficam cada vez mais próximos.
Após percorrer os 330 quilômetros que separam Campo grande, a capital de Mato Grosso do Sul, não houve perda de tempo. Gonzáles se instalou em uma das pousadas locais, apanhou uma mochila e saiu em direção a Gruta do Logo Azul, que se localizava na Serra da Bodoquena, a 22 km de Bonito.
A recepcionista tentou recomendar-lhe um guia, mas espantou-se quando ele respondeu que era o seu próprio guia. Nem mesmo ele havia prestado atenção na profundidade do que acabara de dizer.
O caminho até a gruta foi uma mistura de tudo que se possa imaginar. Olhando o confuso mapa tudo aquilo parecia simples em relação a sua vida. Ele tinha simplesmente entendido o quanto estava perdido e que, somente ele, sabia o caminho de volta.
A luz daquela tarde estava pálida e conforme ele ia adentrando a floresta, ela ia sendo filtrada pelas folhagens das árvores. “Um ardil da natureza” que a tornava mais escura deixando-o perdido. A falta de iluminação permitia que alguns vaga-lumes iluminassem o local como estrelas num céu terreno e úmido.
Gonzáles não era capaz de definir com exatidão tudo o que sentiu ao pisar numa floresta depois de tanto tempo; sentimentos causados por promessas quebradas o invadiu impelindo uma reação por todo seu corpo. O que temia ou o que o mantinha longe estava a sua espera, talvez a sua espreita em algum lugar, pois tudo naquela atmosfera lhe dizia que chegara a hora. Era como se ele tivesse andado, andado, a sua vida toda e chegado a um precipício e visto que não havia mais como fugir, precisava reagir, pois só o que fez fugindo foi espalhar destroços de suas verdades.
Tinha avançado um pouco mais de uma milha na floresta quando ouviu o som de risos suaves por entre as folhagens.
O vento vespertino soprava frio, vindo da mata na direção dele.
Gonzáles desceu a estrada pedregosa, tentando acompanhar o riso. Era acidentada e danificada. Acabou escorregando numa trilha curva em meio ao limo que se prendia nas rachaduras do solo, caindo numa ribanceira.
Desviou-se do caminho que pretendia fazer por uma interminável queda. Perdeu o mapa em algum momento antes de mergulhar na sombra da floresta virgem.
Estirado no chão, cheio de dores e com os olhos cerrados ele só escutava o farfalhar das copas das árvores.
— Parece que estão rindo de mim. – murmurou ele, mexendo-se com um gemido intenso de dor. —
Se deus amava tanto as pessoas, onde diabos estariam seus anjos para impedir acidentes daquele tipo? E agora? Seria esse o seu fim?
Não podia se contentar com tanta benevolência descuidada é por isso que deixara de acreditar na tamanha bondade indiscriminada de deus.
“Não preciso dele, nunca precisei”.
Não soube contar o tempo que ficou imóvel tentando respirar ao invés de sentir dor, porém há muito o sol se pusera e as estrelas começavam a posicionar-se no céu.
Houve um rápido ondular sob ás árvores frondosas, depois só o silêncio.
Precisou reunir forças para continuar. Gonzáles falava ao léu para suportar a dor, era indubitável que havia verdades nos milagres, mas também era certo que havia mentiras.
— Devo encontrar verdades e mentiras, e devo separar uma da outra.
Escutou a água caindo numa cascata escondida naquelas sombras. Seria mais claro andar com os olhos fechados por dentro daquela escuridão lúgubre. Seus olhos tornaram-se seus ouvidos, podia visualizar a floresta escutando-a. Um pouco mais adiante à direita, em perene murmúrio, escutava a queda d’água das cascatas.
A luz começou a invadir a escuridão, aos poucos ele foi sentindo a felicidade dos que voltam a enxergar, distinguindo contornos e formas, até tudo se romper num lampejo às trevas que o circundava.
A noite veio suave, até as folhas estavam quietas, e as próprias cascatas pareciam ter silenciado, caindo como se os jatos d’ água fizessem parte de um todo. Estava diante de beleza raras, sem maneira de buscar descrições que pudessem fazer jus a tudo o que via, Gonzáles se pôs a caminhar maravilhado.
A lua banhava as águas das cascatas dando-lhe um tom fosforescente esverdeado. A brandura das águas acontecia em três partes distintas, partindo de uma grande rocha, coberta por uma vasta vegetação de urzes e tojos. Os vaga-lumes enfeitavam a paisagem tal qual enfeites de natal.
Era tudo tão perfeito, diáfano que poderia ser uma alucinação, uma cegueira, uma mentira, como deus, que se apresentava como a maior delas.
Por isso precisou apertar um hematoma no braço e sentir a dor no gemido, para somente assim acreditar na desacreditada da paisagem.
Foi quando a viu pela primeira vez, uma sombra encurvada que arrastava os pés por entre as árvores, deixando claro que não tinha pressa alguma.
Gonzáles sentiu uma inquietação que não se explicava, contudo foi em sua direção, desceu escadarias com mais de cem metros e, através de trilhas rochosas seculares, atingiu o estupor da sua imaginação.
Estava diante de uma formação de rochas calcárias, em cujo interior existia um lago de coloração azulada, possivelmente decorrente da incidência da luz na água, que parecia bastante funda. As estalactites dependuram-se nos tetos das grutas eram como lustres de cristais e as estalagmites, com suas formas extravagantes e pontiagudas davam ao solo rochoso uma beleza fecunda.
Mas seu coração acelerou quando, escutou um riso vindo na direção das suas costas.
Quando volveu, descobriu a velha.
Ela não era tão débil como ele havia imaginado, mas seus olhos escuros e grandes, pendiam de uma maneira estranha, inquiridora; suas roupas claras, amareladas pelo tempo eram desleixadas e os cabelos presos desajeitadamente emprestavam-lhe uma aparência alquebrada e soturna.
Gonzáles ainda estava sob a influência do efeito que aquele riso lhe causara desde que entrou na floresta, e sentiu uma certa hesitação em se dirigir a ela, porém a velha não parava de rir e aquilo começou a incomoda-lo.
— Do que está rindo? – toda a dor que sentia saiu nessas palavras, naquele momento ele não pensou de onde ou como ela tinha aparecido, queria apenas responder àquela grosseria. —
Para seu alivio, a pergunta não pareceu tão grosseira quanto imaginou, pois a velha respondeu-a de bom grado.
— Estou sorrindo pra vida. – e deu duas palmadas em seu rosto passando-o à frente. —
Aquela resposta acertou-o em cheio, mas serviu para ele lhe dedicar mais atenção. Apesar de seu terrível desalinho, a mulher tinha um ar de distinção, a igualar-lhe a importância.
Ela foi se arrastando até uma grande pedra e lá depositou uma cesta de alimentos que tirou debaixo de suas vestes.
A sua curiosidade suplantou todos os receios que vinham acumulando desde que ele avistara aquela mulher. O que fazia sozinha na floresta e porque parecia tão tranqüila e serena? Não sabendo ao certo qual seria a melhor forma de indaga-la com suas dúvidas foi-se aproximando e quando parou diante dela, ensaiando uma desculpa, ela disse prontamente:
— As grutas e as florestas inóspitas são os santuários dos homens, sinta-se à vontade.– sorriu-lhe indicando que se sentasse. —
Ele se sentou a seu lado, e a repulsa logo cedeu lugar a admiração, uma vez que a docilidade daquela estranha se manifestou incontinenti. A um olhar ela compreendeu suas necessidades, completando:
— Para falar e para ouvir.
A voz dela, não obstante, tornava-a agradável, a despeito do rosto e do porte. Os olhos negros, contudo ligeiramente ponderado, pareciam inexplicavelmente argutos e complacentes.
— O que busca tão ousado coração? – questionou ela.
“Deixar de querer ser outra pessoa que não eu mesmo” – pensou ele, enquanto a outra parte de sua mente respondia: – Queria apenas sair daqui melhor do que fora até agora.
Suas feições tensas se desanuviaram e, se descobriu a especular o que aquela velha estaria contemplando nele.
Resolveu inventar uma desculpa:
— Me perdi do grupo, estávamos saindo para uma expedição quando...
Ela maneou a cabeça em cumplicidade, piscando um olho.
— Venha, pegue... – deu-lhe um pedaço de pão –...Deve estar faminto.
E estava mesmo. Aquela simples atitude de compartilhar os aproximou. Muitas perguntas poderiam se lidas em ambos os olhos, enquanto comiam lentamente, em silêncio.
Mas a curiosidade dele em relação àquela mulher ultrapassou todos os receios e boa educação que possuía; precisava desesperadamente saber se ela tinha as respostas e, deixando-se levar pelos instintos, confessou-se impulsivamente:
— Quando criança me perdi numa floresta. Quase morri se não fosse por uma mulher ter-me cuidado. – respirou fundo – Recentemente, outra criança foi salva nesta floresta e pelo que falam...
— Poderia ser a mesma mulher. – completou e em seguida presenteou-lhe um sorriso lento e confiante.
Abrir novamente aquela ferida para alguém depois de tanto tempo era muito para Gonzáles. A emoção era muito intensa para se falar.
— E como era ela? – perguntou interessada.
— Faz tanto tempo...
A mulher não respondeu diretamente e sim com outra pergunta:
— O que você pode me dizer sobre ela?
Fez com a cabeça um gesto negativo, como se confessasse perdido. A recordação de tal mulher era quase impossível de se esquecer, estava retida em sua memória, porém descreve-la era impossível de tão extraordinária figura, faltar-lhe-ia vocabulário para descrever tamanha realeza.
Tentou lembrar-se dela, cerrou os olhos por alguns instantes e assim disse:
— Ela usava um lindo vestido, completamente dourado, os cabelos eram de um negro profundo, lisos e escorridos até quase os pés, não se via nenhum sinal da idade em seu rosto belo e sereno.
— Vejo que não fez uma boa troca, meu filho, agora só o que tem é uma velha feia e turrona. – e riu daquela mesma forma, para a vida. – Como se chamas, filho?
— Gonzáles.
— Me chamam de Conceição, e acredite já vaguei muito por essas florestas e se tivesse um Ser assim não passaria despercebido a meus sedentos olhos.
Ele balançou a cabeça afirmativamente.
— Eu já imaginava. Foi tudo fruto da cabeça de uma criança, só e tola.
A velha ficou olhando para o lago que tremeluzia ao luar e começou a falar:
— A solidão vem presentear os fortes, trás benefícios que só os solitários recebem, mas para isso é necessário que se penetre e viva essa solidão.
Aquelas palavras o deixaram emocionado. Só então, Gonzáles compreendeu que a velha estava num mundo de isolamento mais impenetrável que o seu, tão fundo e solitário quanto à escuridão.
Ele se sentia assim, como um homem morando num lugar de onde sabia não haver saída. Vivia desesperado por não ter caminho, sempre correndo para encontrar uma saída, mas só encontrava paredes por todos os lados.
A velha fitou-o, e seus olhos profundos, brilhantes ao luar, pareceram penetrar em todos seus poros.
— Meu filho não tenha medo do sofrimento. Quem sofre aprende a construir fortalezas e olhar a vida com uma assustadora serenidade.
Ele baixou a cabeça, levou um momento para sorver aquelas palavras, depois como se tivesse se desculpando disse:
— Esse sonho de infância, essa mulher que apareceu pra mim e me salvou a vida foi à causa de toda a minha censura e humilhação, não sabe como eu me sentia quando tinha que mentir colhido por intenso e incontável sofrimento.
Ela olhou ao redor, depois chegou mais perto, abaixou a voz para dizer em tom de cumplicidade.
— Mas o que tinha de mais nisso, você foi agraciado por Deus.
— Ou pelo diabo você quer dizer. – replicou ele.
Pela primeira vez, a velha pareceu mostrar certo descontentamento.
— Não! Quero dizer que você se encontrou quando Deus lhe deu outra oportunidade de vida, e mandou um mensageiro Seu para isso, depois você se perdeu na vergonha de seu preconceito, agora é hora de se reencontrar. – disse severamente.
Seguiu-se um silêncio prolongado e apreensivo entre eles. A velha sentiu que ele se empertigava cada vez mais, como se a verdade o apunhalasse para falar.
Sentindo-se acuado ele disse:
— Você não sabe nada da minha vida. Tem idéia do quanto sofri, o quanto fui oprimido e questionado? – inquiriu ele.
A velha apenas o encarava seriamente, fitando-o e atravessando-o com aquele olhar de águia, como se lhe formulasse a mesma pergunta.
Gonzáles estava começando a falar em explosões curtas e exiladas, as feições cada vez mais cheias de emoções.
— A solidão foi minha mãe e amiga.
A velha levantou-se, precisou fazer um enorme esforço para se por de pé. Depois disse firmemente.
— Às vezes precisamos estar sós para percebermos o nosso valor e dimensionar dos que amamos.
As palavras dela eram profundas, vindo quais flechas de verdades em sua consciência. — Você diz isso porque não sabe do que estou falando, se soubesse...
Ela ansiosa por conforta-lo disse:
— O que você acha que eu faria...
Gonzáles estremeceu visualmente, olhou nos olhos da velha e encontrou um conforto nunca imaginado, o conforto que precisava há tanto tempo.
— Achas que eu lhe condenaria? – insistiu ela.
Ele abaixou a cabeça, uma torrente de pensamentos tumultuou dentro dele: Deus, seus pais, a igreja, a esposa, o menino, Òsun.
Gonzáles olhou aquela mulher seriamente postada em sua frente esperando uma resposta. Afrontado daquela forma pela velha, baixou a cabeça. Sentiu-se tão abatido e confuso que mal conseguiu articular um “não”, que só pelo movimento de seus lábios era compreendido. Seus olhos refletiam todo o temor, a angústia, a humilhação e a censura que havia sofrido. Era uma espécie de ódio e rancor, uma raiva que o espatifava por dentro. O brilho de seus olhos não veio da maravilha, da emoção, veio da dor, eram lágrimas que lhe queimavam e de nada aliviavam.
— Já podes ser pai e por isso olhe-me de frente.
Gonzáles começou arquejar, o ar parecia não fazer bem a seu corpo, doía, machucava. Quando levantou os olhos, tremia de raiva. Foi só então que ela disse:
— Perdoe-se! – e acariciou, com a mão velha e calejada sua fronte.
Gentilmente, a velha encostou a cabeça dele em seu ombro, sentindo os soluços sacudirem o seu corpo. Por muito tempo ficou imóvel, deixando-o desaguar de seu passado.
Aos poucos Gonzáles foi parando de chorar, finalmente, afastou a cabeça do ombro da velha fitando-a, calado, sentindo a lucidez trazida pela dor e a obviedade da verdade mascarada do seu passado.
Ela enxugou o que restava de lágrimas nos olhos dele com as pontas dos dedos dizendo:
— Nos tornamos clarividentes de nós mesmos quando estamos sóbrios da dor.
— Eu vi um orixá quando criança. – confessou ele.
Ela não se mostrou surpresa, e como se fosse a coisa mais natural do mundo respondeu:
— Nenhum ser teria sido conservado durante tanto tempo de esquecimento se não fosse obra de Deus. Quantas são as faces da confiança sem fim e, em vista disso, o que é um nome?
— O que é um nome – sorriu ele, depois de uma breve pausa disse – Obrigado!
Ficaram conversando por muito tempo. Enquanto a velha falava havia em seus olhos sabedoria, ternura e fé. Gonzáles gostaria de se ver como ela o via. Seu olhar fazia dele alguém realmente especial.
Teve vontade de falar de seus medos, mas hesitou, pois tinha o hábito de não dizer o que pensava e sentia. Ela sabiamente interpretou a hesitação dele, confessando um medo próprio.
— Eu às vezes saio pela floresta em busca de mim. – apontou a saída da gruta –Gosto de descansar de mim mesma. É preciso sair da gente e se olhar de longe, de cima, de baixo, de uma distância que não possa nos auto-proteger.
Ele escutava embevecido seu ensinamento.
— Somente assim consigo me olhar com arte, rindo de mim, chorando por mim, pois não há nenhum constante vigia que fique a nosso lado nessas horas de solidão.
Ela o Olhava avidamente e ele se sentia em segurança sob aquele olhar. Aquela velha já não lhe inspirava horror e medo, e sim amizade e confiança.
— Acabei fazendo isso, larguei tudo para tentar encontrar um sonho. – despejou ele.
— Não encare o seu milagre como um sonho. É desprezar o que Deus lhe deu, e acabar com toda a chance de recomeço.
— Eu conheço o peso da palavra infelicidade. – admitiu ele.
— O peso da infelicidade é doloroso, e por trás dele, escondido, você encontrará a sua culpa, de igual peso e valor.
Ele assentiu reconhecendo o que ela dizia, então, baixou a cabeça e ficou calado. A velha sentou-se novamente a seu lado perguntando:
— O que te atormentas, filho?
— Meu casamento, minha mulher – a saudade acertou-o, fechou os olhos buscando a companheira em pensamentos. Quando os abriu compreendeu que a velha sabia exatamente onde havia estado.
Gonzáles abriu a carteira e tirou uma foto que sempre trazia de Helena, nunca a serenidade de sua esposa lhe pareceu tão desconcertante.
— A alma desta mulher – disse ela segurando a foto – transborda amor por você. Só o amor é capaz de libertar tão desinteressadamente a ponto de se machucar.
— Quanto de mim tive que sacrificar por mim. – era uma espécie de remorso o que sentia.
— Não pense no que perdeu, pense no que vai reconquistar. Afinal acreditas ou não em seu coração?
— Acredito.
— Cure a sua amargura com doçura. Busque o amor, em especial, para as amarguras da alma e o perdão de si mesmo é o primeiro passo.
— Errei tanto, mas quero tanto começar a acertar. Òsun, minha mãe Òsum, como queria lhe pedir perdão. Dizer-lhe que por vergonha a neguei por tantos anos e sofri o mesmo tanto.
— A vida não é argumentos, entre nossa vida por mais certa que seja, pode se esconder os erros. Quantos são os homens que vêem e reconhecem seus erros? Quantos observam a si próprios dos poucos que o sabem?
Baixou a cabeça, parecia que estava há muito tempo distante de si mesmo.
— Tinha esperança de me encontrar com a minha verdade e, agora, em razão do nosso encontro, de sua misteriosa virtude eu, de certa forma, encontrei Òsun. Não vou mentir dizendo que a não há decepção. A verdade me turva os olhos, pois não pude ver, ainda por poucos segundos, o seu rosto novamente. Experimento o mesmo desassossego, a mesmo abalo, o mesmo fervor que haviam dominado minha meninice.
— Eu te proíbo – disse ela e assim ficou de pé novamente. Ela parecia agora de uma altura incalculável e de uma fé insuportável, terrível e digna de adoração. – Te proíbo de parar diante da última sabedoria, dá última bondade, do último milagre e assim desemparelhar novamente a tua fé.
Seu olhar e suas palavras o despertaram para a vida. Então ele se levantou e pareceu também que aumentara de tamanho, mas ainda estava muito abaixo da velha. E olhando-a disse firmemente:
— Não sei se Deus a colocou no meu caminho, pois das respostas que buscava a senhora as tinha todas. Eu prometo jamais renunciar novamente minhas verdades.
— Filho o prazer está em buscar a nossa verdade e não em encontra-la, você se realiza no caminho, enquanto a persegue.
As palavras soaram a Gonzáles como cura para as suas enfermidades do corpo e da alma. O sol aparecia lá fora indicando um novo dia.
“O nascer de uma nova vida”
Ela começou a rir e seu riso ecoou por toda a gruta, era um riso para vida, tão alto e sereno que o contagiou. Gonzáles riu, riu muito, como a tempo não fazia, entrou num estupor que não conseguia parar. A Sensação era de uma imensa felicidade tomando conta dele. Ficaram por muito tempo ali, sorrindo para a vida. Ele Abraçou-a quebrando mais uma vez os protocolos da boa educação, afinal era uma velha, mas já não desconhecida. Quando o ritual de agradecimento – o riso – havia terminado ele respirou fundo e disse:
— Agradeço por tudo.
— Eu também. Há muito que esperava.
Aquelas palavras soaram-lhe confusas, Enigmáticas para ele. Mas o que não o era naquela floresta? Ele havia saído de casa para encontrar um mito, não poderia querer resultados normais além da morte.
Ele beijou-lhe as calejadas mãos e ela sorriu, apenas sorriu silenciosamente para ele e seus olhos tornaram-se familiar.
— Adeus amada Mestra você me devolveu a fé.
Ela apenas sorriu, sentando na pedra.
Estava quase a sair da gruta quando a voz da velha se fez vigorosa e sustentada, invejável para qualquer soprano.
— Esteban, você esqueceu a foto. – os ecos se repetiam pelas paredes da gruta.
Gonzáles sentiu as pernas tremerem e um frio percorreu toda a sua espinha. Um imediato sorriso apareceu em seu rosto quando sentiu um frêmito tomar-lhe conta.
Em nenhum momento ele havia falado que seu nome era Esteban, somente uma pessoa o chamava assim. Volveu com o coração acelerado dizendo:
— Eu não disse que meu nome era...
Não havia ninguém na gruta. Apenas o eco de suas palavras: meu nome era, nome era, era, era...
A foto estava postada em cima da pedra, no lugar que havia visto a velha pela última vez.
Gonzáles Esteban estava parado a entrada da gruta, com uma expressão radiante. Não tinha palavras para descrever o que sentiu naquele exato momento porque o dicionário não as contém.
Ele apanhou a foto, jogou a mochila nas costas e saiu da gruta, teria muito que andar teria muito que viver.
Esteban, as pessoas estranharam esse nome, parou de duvidar do seu milagre, tornou-o completamente convencido que nem tudo era verdade na religião que acreditava. Anteriormente, cheio de ressentimentos ele havia negado tudo, mas não poderia dizer o mesmo agora. Deus não escrevia por linhas tão tortas assim, dava pra ler.
A maioria das pessoas não possuía o conhecimento da verdade, da verdadeira Bondade Celestial. O bom da doença é a sua cura, quando ela parte só fica a vontade de viver. Só quem sofreu é que sabe o significado do alívio, e mais, aquele conhecimento era acessível a ele agora, por ele ter sentido e vivido tudo em que acreditou. Diziam que ele mentia e por isso cometeu tantos erros.
Tudo que o havia anteriormente repelido de sua fé, agora se apresentava vividamente à sua frente se renovando a cada dia.
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