Cápsulas

 Maurício Wojciekowski

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0168]
[Autor: Maurício Wojciekowski]
[Título: Cápsulas ]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 1.430]

 

Há poucos instantes estava em casa, agora sem saber como ali havia chegado, dançava em meio a luzes coloridas , musica eletrônica e multidão. Em meio a corpos corcoviantes sentia-se só, solitária , infinitamente só.

É estranho o amor - pensava, como podia amar alguém como Maikol ? Seriam seus olhos verdes , ou o ar de cão perdido? Talvez a mancha em seu ombro esquerdo, ou os doze furos na orelha direita , ou os pêlos nos dedos tortos de seu pequeno pé que lhe davam aquele caminhar desequilibrado , desajeitado, ou o dente preto de raiz morta por causa de um soco dado por um desconhecido - “Alguém forte” pensava ela, pois Maikol não seria ferido por qualquer um; o corpo esquelético, comprido como uma taquara talvez a atraísse, o hálito de bebida barata, o cheiro de falta de banho, a personalidade explosiva, a tendência auto-destrutiva, isso a atraía? Amava-o por ele ser tão diferente do pai dela, metódico e perfeccionista? O amor tem um toque de insanidade, na verdade, pensava ela, o amor é a própria insanidade.

Sentiu ser agarrada por trás, agarrada como Maikol a havia agarrado na noite em que se conheceram. Continuou dançando, o corpo do estranho colado ao seu, imaginava que era Maikol, imaginava estar naquela noite que parecia tão distante, porém ao mesmo tempo tão próxima. Dançava e dançava, não virava para ver seu par, era melhor imaginar, sonhar que era Maikol. Era melhor dançar e dançar, de olhos fechados, apenas escutando, balançando, sentindo outro corpo colado ao seu, sentir-se amada, seria isso o amor?

Por que ela havia ido embora? Queria que estivesse ali, junto dele, corpo a corpo, mente a mente, uno, únicos, um só, dois em um, um único ser, um único corpo hermafrodita e completo, uma única mente, perfeita, sinceramente perfeita, absolutamente indivisível.

Por que haviam nascido separados? - pergunta-se Maikol. Por que brigavam tanto? Por que a odiava tanto quanto a amava? Talvez por não serem apenas um, mas serem dois. Se Deus existisse e fosse perfeito, seria apenas um, homem e mulher, indivisível. Por que Raquel havia se separado dele para depois se encontrarem e depois de finalmente se encontrarem se separarem novamente? O sexo os tornava apenas um, mas era por pouco tempo, seu desejo era tornar-se pequeno, entrar na vagina dela, depois chegar ao útero, tornar-se um óvulo fecundo, renascer como seu filho, filho de si mesmo e da mulher que amava, talvez nunca nascer, ser feto eternamente dentro do corpo que deveria ser seu e que agora seria refúgio, abrigo.

A música não fazia sentido, as luzes que brilhavam, apagavam e rebrilhavam, faziam sentido? O amor fazia sentido? O calor, a fome, a dor, o ser, o não ser, importavam alguma coisa?A música era tão alta, mas não abafava seus pensamentos, não entorpecia seus sentidos, a cápsula amarela não havia feito seu trabalho, ainda pensava, ainda refletia, ainda amava quem deveria odiar e sentia medo disso. Seria ele que a abraçava?

Resolveu virar-se.

O que seria hoje? Enfiar o garfo na tomada? Giletes? Escrever o nome dela no corpo com cacos de vidro? Subir na sacada e ameaçar atirar-se? Mergulhar na banheira segurando o rádio ligado em um sintonia qualquer? O saco plástico, pensou.

O saco plástico!!!

Coloridas, todas elas coloridas, dentro do saco plástico, qual delas usar? A amarela, a azul, a vermelha, a roxa, a lilás, a verde, a rosa, a branquinha, a pretinha, a de cor estranha? Mas qual servia para esquecer? E qual para a dor aliviar? E qual o levaria para o mundo dos sonhos? Qual seria a boa morte?

Encheu a mão.

Encheu a boca.

Engoliu, engoliu e engoliu.

Era ele? Era Maikol? Não conseguia ver. Tentou sentir o cheiro, o cheiro misturou-se a outros. Tentou sentir o corpo ao toque. O toque não era correto, nada dizia, nada indicava. A cápsula amarela fazia seu efeito, eficiente como sempre, embora fosse a primeira vez, embora não parecesse a única.

Os braços se enroscavam pelo corpo, pelo seu corpo (pelo de Maikol?), as bocas coladas, as línguas enroscadas (a língua de Maikol?).

Que cara estou? Como sou? Onde vou? Se vou, se não vou? É minha essa cara? Pareço com meu pai, com meu cachorro, com meu gato, periquito, ou irmão? A quanto tempo não faço a barba? Raquel, por que você foi embora? Eu não sou mais o mesmo! Sou pior! Pior! O chão é tão duro! É tão frio! Mas não há dor! Raquel! Raquel! Quem é Raquel? Quem sou eu? Eu sou Rachel? Eu sou Maikol? Eu sou Deus? Ou eu sou o chão?

Não sei! Nãoseiquemsou! QuemsoueuMaikolRachelouRachelMaikol?

Maikol está me levando para casa? - pensou ela. Não é mesmo? - perguntou. É! - ele respondeu. Mas ele é Maikol? - pensa ela, não sei. Se não for, finjo que é, se for, finjo que não - pensava Raquel.

Abre a porta - diz ela. Me de a chave - diz ele. Você não a tem? - pergunta a ela e pensa: Não é Maikol? Ou é Maikol? Pode ser, pode não ser ou não, Maikol às vezes esquece a chave! Ele é tão esquecido! Eu o amo também pela sua distração? Oh Maikol! Oh meu, meu, meu Maikol - E lhe dá a chave.

A porta range e se abre. Range e se fecha.

- Cá estamos! - diz ela, acende a luz, a cápsula amarela perde seu efeito.

- Ma ... mas ... você ... você não é Maikol!

- Não, não sou! Eu sou o Júlio! E você, quem é você?

- Eu sou Raquel!

Quem é essa mulher? Ela é estranha. Falta algo em seu rosto, falta algo em seu corpo, ela tem um estranho colar, não consigo ver do que é feito, acho que a bebedeira está passando. O que é aquela poça? Seria água? Ou ...

- Oh meu Deus! Sangue! Maikol! Maikol! - gritou Rachel e correu em direção à outra porta. Sangue, pensou Júlio e esboçou um sorriso, é terrível ser daltônico, confundir sangue com água.

Caminhou até a porta, atraído pelo choro e gritos da mulher. “Um banheiro, que cheiro horrível! Que ...”. Não completou seu pensamento, a cena o deixou atônito:

A mulher vestida de negro, os cabelos pretos e arrepiados, abraçava, como a Pietà de Michelângelo “Ou seria Rafael? Ou seria Donatelo? Qual das tartarugas ninjas?” - pensou Júlio sem desviar os olhos do corpo do homem, o corpo nu e esquelético, o nome Raquel escrito por todo seu corpo, algumas vezes cicatrizes outras tatuagens, o rosto dela tatuado em seu peito. Os pés com uma pequena mutilação: um dedo, o lado direito da cabeça, outra mutilação: uma orelha. Ele tinha apenas um olho verde e brilhante que girava em órbita.

“A orelha, o dedo e o olho” - observou Júlio espantado e ao mesmo tempo maravilhado, “Fazem parte do estranho colar dela”.

- Eu te amo! - ela repetia sem parar, olhando para o corpo do homem e o beijando várias vezes com carinho que emocionou Júlio.

O Homem no braços dela tremia em convulsões, de sua boca corria uma baba branca. De repente ele parou de tremer. O único olho, verde e brilhante, tornou-se opaco.

“Esses braços, esse cheiro, essa voz, esse toque, esses lábios, eu sinto, são dela, são de Raquel. Por quê? Por que tinha que ser assim, Raquel? Por que não podíamos ser apenas um?”

- Porque assim a vida se torna mais interessante! - ela respondeu, quando o corpo de Maikol parou de se movimentar em seus braços.

- O que disse? - perguntou Júlio.

,“O que disse?” - ouviu Raquel, porém a voz estava longe, tão longe, do outro lado do mundo, no outro extremo da loucura, na sanidade, talvez.

Júlio ainda ficou ali durante algum tempo observando aquele estranho casal. Depois saiu do banheiro, do apartamento.

Na rua vasculhou seu bolso, encontrou uma pílula amarela para engoli-la buscou também no outro bolso sua garrafinha de conhaque. Bebeu tudo num só gole. A pílula fez efeito. Júlio esqueceu tudo que havia visto.

Naquela noite voltou a mesma boate, uma mulher vestida de preto lhe chamou atenção. Durante alguns segundos ele a fitou, depois continuou a beber sua cerveja. Buscou um maço de cigarros no bolso; ao invés deste encontrou um colar, um estranho colar: uma corrente dourada, um dedo de mulher mumificado com unha vermelha e verde, uma orelha pequena e delicada, uma dedicatória escrita:

“Para Maikol, com amor, Rachel”.

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