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Há poucos instantes estava em casa,
agora sem saber como ali havia chegado, dançava em meio a luzes
coloridas , musica eletrônica e multidão. Em meio a corpos
corcoviantes sentia-se só, solitária , infinitamente só.
É estranho o amor - pensava, como podia
amar alguém como Maikol ? Seriam seus olhos verdes , ou o ar de cão
perdido? Talvez a mancha em seu ombro esquerdo, ou os doze furos na
orelha direita , ou os pêlos nos dedos tortos de seu pequeno pé
que lhe davam aquele caminhar desequilibrado , desajeitado, ou o
dente preto de raiz morta por causa de um soco dado por um
desconhecido - “Alguém forte” pensava ela, pois Maikol não
seria ferido por qualquer um; o corpo esquelético, comprido como
uma taquara talvez a atraísse, o hálito de bebida barata, o cheiro
de falta de banho, a personalidade explosiva, a tendência
auto-destrutiva, isso a atraía? Amava-o por ele ser tão diferente
do pai dela, metódico e perfeccionista? O amor tem um toque de
insanidade, na verdade, pensava ela, o amor é a própria
insanidade.
Sentiu ser agarrada por trás, agarrada
como Maikol a havia agarrado na noite em que se conheceram.
Continuou dançando, o corpo do estranho colado ao seu, imaginava
que era Maikol, imaginava estar naquela noite que parecia tão
distante, porém ao mesmo tempo tão próxima. Dançava e dançava,
não virava para ver seu par, era melhor imaginar, sonhar que era
Maikol. Era melhor dançar e dançar, de olhos fechados, apenas
escutando, balançando, sentindo outro corpo colado ao seu,
sentir-se amada, seria isso o amor?
Por que ela havia ido embora? Queria que
estivesse ali, junto dele, corpo a corpo, mente a mente, uno, únicos,
um só, dois em um, um único ser, um único corpo hermafrodita e
completo, uma única mente, perfeita, sinceramente perfeita,
absolutamente indivisível.
Por que haviam nascido separados? -
pergunta-se Maikol. Por que brigavam tanto? Por que a odiava tanto
quanto a amava? Talvez por não serem apenas um, mas serem dois. Se
Deus existisse e fosse perfeito, seria apenas um, homem e mulher,
indivisível. Por que Raquel havia se separado dele para depois se
encontrarem e depois de finalmente se encontrarem se separarem
novamente? O sexo os tornava apenas um, mas era por pouco tempo, seu
desejo era tornar-se pequeno, entrar na vagina dela, depois chegar
ao útero, tornar-se um óvulo fecundo, renascer como seu filho,
filho de si mesmo e da mulher que amava, talvez nunca nascer, ser
feto eternamente dentro do corpo que deveria ser seu e que agora
seria refúgio, abrigo.
A música não fazia sentido, as luzes
que brilhavam, apagavam e rebrilhavam, faziam sentido? O amor fazia
sentido? O calor, a fome, a dor, o ser, o não ser, importavam
alguma coisa?A música era tão alta, mas não abafava seus
pensamentos, não entorpecia seus sentidos, a cápsula amarela não
havia feito seu trabalho, ainda pensava, ainda refletia, ainda amava
quem deveria odiar e sentia medo disso. Seria ele que a abraçava?
Resolveu virar-se.
O que seria hoje? Enfiar o garfo na
tomada? Giletes? Escrever o nome dela no corpo com cacos de vidro?
Subir na sacada e ameaçar atirar-se? Mergulhar na banheira
segurando o rádio ligado em um sintonia qualquer? O saco plástico,
pensou.
O saco plástico!!!
Coloridas, todas elas coloridas, dentro
do saco plástico, qual delas usar? A amarela, a azul, a vermelha, a
roxa, a lilás, a verde, a rosa, a branquinha, a pretinha, a de cor
estranha? Mas qual servia para esquecer? E qual para a dor aliviar?
E qual o levaria para o mundo dos sonhos? Qual seria a boa morte?
Encheu a mão.
Encheu a boca.
Engoliu, engoliu e engoliu.
Era ele? Era Maikol? Não conseguia ver.
Tentou sentir o cheiro, o cheiro misturou-se a outros. Tentou sentir
o corpo ao toque. O toque não era correto, nada dizia, nada
indicava. A cápsula amarela fazia seu efeito, eficiente como
sempre, embora fosse a primeira vez, embora não parecesse a única.
Os braços se enroscavam pelo corpo, pelo
seu corpo (pelo de Maikol?), as bocas coladas, as línguas
enroscadas (a língua de Maikol?).
Que cara estou? Como sou? Onde vou? Se
vou, se não vou? É minha essa cara? Pareço com meu pai, com meu
cachorro, com meu gato, periquito, ou irmão? A quanto tempo não faço
a barba? Raquel, por que você foi embora? Eu não sou mais o mesmo!
Sou pior! Pior! O chão é tão duro! É tão frio! Mas não há
dor! Raquel! Raquel! Quem é Raquel? Quem sou eu? Eu sou Rachel? Eu
sou Maikol? Eu sou Deus? Ou eu sou o chão?
Não sei! Nãoseiquemsou!
QuemsoueuMaikolRachelouRachelMaikol?
Maikol está me levando para casa? -
pensou ela. Não é mesmo? - perguntou. É! - ele respondeu. Mas ele
é Maikol? - pensa ela, não sei. Se não for, finjo que é, se for,
finjo que não - pensava Raquel.
Abre a porta - diz ela. Me de a chave -
diz ele. Você não a tem? - pergunta a ela e pensa: Não é Maikol?
Ou é Maikol? Pode ser, pode não ser ou não, Maikol às vezes
esquece a chave! Ele é tão esquecido! Eu o amo também pela sua
distração? Oh Maikol! Oh meu, meu, meu Maikol - E lhe dá a chave.
A porta range e se abre. Range e se
fecha.
- Cá estamos! - diz ela, acende a luz, a
cápsula amarela perde seu efeito.
- Ma ... mas ... você ... você não é
Maikol!
- Não, não sou! Eu sou o Júlio! E você,
quem é você?
- Eu sou Raquel!
Quem é essa mulher? Ela é estranha.
Falta algo em seu rosto, falta algo em seu corpo, ela tem um
estranho colar, não consigo ver do que é feito, acho que a
bebedeira está passando. O que é aquela poça? Seria água? Ou ...
- Oh meu Deus! Sangue! Maikol! Maikol! -
gritou Rachel e correu em direção à outra porta. Sangue, pensou Júlio
e esboçou um sorriso, é terrível ser daltônico, confundir sangue
com água.
Caminhou até a porta, atraído pelo
choro e gritos da mulher. “Um banheiro, que cheiro horrível! Que
...”. Não completou seu pensamento, a cena o deixou atônito:
A mulher vestida de negro, os cabelos
pretos e arrepiados, abraçava, como a Pietà de Michelângelo “Ou
seria Rafael? Ou seria Donatelo? Qual das tartarugas ninjas?” -
pensou Júlio sem desviar os olhos do corpo do homem, o corpo nu e
esquelético, o nome Raquel escrito por todo seu corpo, algumas
vezes cicatrizes outras tatuagens, o rosto dela tatuado em seu
peito. Os pés com uma pequena mutilação: um dedo, o lado direito
da cabeça, outra mutilação: uma orelha. Ele tinha apenas um olho
verde e brilhante que girava em órbita.
“A orelha, o dedo e o olho” -
observou Júlio espantado e ao mesmo tempo maravilhado, “Fazem
parte do estranho colar dela”.
- Eu te amo! - ela repetia sem parar,
olhando para o corpo do homem e o beijando várias vezes com carinho
que emocionou Júlio.
O Homem no braços dela tremia em convulsões,
de sua boca corria uma baba branca. De repente ele parou de tremer.
O único olho, verde e brilhante, tornou-se opaco.
“Esses braços, esse cheiro, essa voz,
esse toque, esses lábios, eu sinto, são dela, são de Raquel. Por
quê? Por que tinha que ser assim, Raquel? Por que não podíamos
ser apenas um?”
- Porque assim a vida se torna mais
interessante! - ela respondeu, quando o corpo de Maikol parou de se
movimentar em seus braços.
- O que disse? - perguntou Júlio.
,“O que disse?” - ouviu Raquel, porém
a voz estava longe, tão longe, do outro lado do mundo, no outro
extremo da loucura, na sanidade, talvez.
Júlio ainda ficou ali durante algum
tempo observando aquele estranho casal. Depois saiu do banheiro, do
apartamento.
Na rua vasculhou seu bolso, encontrou uma
pílula amarela para engoli-la buscou também no outro bolso sua
garrafinha de conhaque. Bebeu tudo num só gole. A pílula fez
efeito. Júlio esqueceu tudo que havia visto.
Naquela noite voltou a mesma boate, uma
mulher vestida de preto lhe chamou atenção. Durante alguns
segundos ele a fitou, depois continuou a beber sua cerveja. Buscou
um maço de cigarros no bolso; ao invés deste encontrou um colar,
um estranho colar: uma corrente dourada, um dedo de mulher
mumificado com unha vermelha e verde, uma orelha pequena e delicada,
uma dedicatória escrita:
“Para Maikol, com amor, Rachel”.
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