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A tarde ia ensolarada quando o menino
agitadiço, pele morena, olhos castanhos e cabelos negros chega à
casa de seu avô. Uma casa simples de madeira, mas bem conservada. O
telhado era novo, havia sido trocado há poucos meses. A garagem de
material, separada da casa, fora construída há pouco mais de um
ano. A cerca, também de madeira, era trocada a cada dois anos pelo
avô. Não podia ver aquelas cercas ficando velhas, não podia ficar
parado esperando a morte chegar, então arrumava qualquer coisa para
fazer, para passar o tempo. O garoto salta do carro ainda em
movimento e corre em direção ao velho. Um senhor de cabelos
grisalhos e bem curtos - não podia com aquele cabelo cutucando atrás
das orelhas - que o recebe nos braços com alegria. A mãe
estacionava o carro lá fora enquanto a avó preparava um café
carregado de delícias, todas compradas da vizinha da esquina, é
claro. Sim, pois o forno não funcionava... A desculpa de sempre
para a preguiça que chegou de mãos dadas com a idade. As visitas
do menino aos avós eram esporádicas pois a mãe não se dava com o
próprio irmão, tio do garoto. Esta rogava que o último não
chegasse enquanto ela se encontrasse por ali. O menino, que já
atacava os doces sobre a mesa posta, volta-se para o avô e
pergunta:
- É verdade que tu levô um tiro vô?
- Que que tua avó já andou te falando
guri? - perguntou o velho em tom áspero.
- Nada, foi a mãe que disse...
A mãe receosa adentra a casa. Morena,
magra, os cabelos negros como a noite. O olhar desgostoso, quase
sincero, dissimula um espírito arredio. Parece não se sentir à
vontade naquele ambiente. Também pudera, faz alguns anos desde sua
última visita. O garoto ainda vinha por vezes trazido pelo pai, mas
ela...
Ela acena com a cabeça para o pai e diz
um "tudo bem" natimorto. O velho apenas meneia a cabeça.
Mãe e filha se abraçam quase sem vontade e dirigem-se para o
quarto para pôr as dores em dia. O menino continua o interrogatório:
- Hein vô? É verdade? Tu levô um tiro?
- É sim. - responde o velho em tom
austero.
- Como foi? Me conta... - insiste o
garoto.
- Conto, mas fica só entre nós... -
responde o velho, um tanto contrariado.
* * *
Acordei naquela manhã nublada... Era verão,
estava muito quente, abafado. Mas não tinha sol. Levantei cedo,
como de costume. Tua avó sempre dorme mais um pouco, então deixei
o quarto no escuro. Tropecei em alguma coisa e caí de joelhos. Tua
avó acordou com o barulho:
- Nossa Senhora! Que é isso véio? -
perguntou, assustada.
Não respondi, levantei e saí do quarto.
As pernas doíam. Seguia, trôpego, até a cozinha, quando fui
detido por um grito:
- Nossa Senhora!
Não dei muita atenção. Tua avó é
meio louca mesmo. Mas ela insistiu, me chamando... Voltei até o
quarto - os joelhos ainda doloridos - ela estava sentada na cama,
olhando fixamente para a janela.
- Olha véio! - disse ela.
Corri até a janela e olhei através do
vidro, para a rua. Uma brisa soprava, prenúncio da chuva que estava
por vir... Nada além disso.
* * *
- Cadê o tiro? - pergunta o moleque.
- Te acalma guri! Presta atenção!
- Mas eu só queria...
- Escuta o resto da história.
O velho prossegue, apesar de o menino que
impaciente embala-se em seu colo.
* * *
- Não é na rua. - disse tua avó.
- Onde então? - retruquei, já irritado.
- Aí no vidro! - ela apontou.
Qual não foi meu espanto quando, no
vidro da janela, avistei uma baita mancha? Sem proferir uma palavra
se quer andei até a despensa em busca de um pano. Retornei ao
quarto e, quando fiz menção de esfregar o vidro, fui interrompido:
- Que tu vai fazê? - perguntou tua avó.
- Vou limpar a mancha ora! - respondi.
- Não! Tu vai apagá a santa... - gritou
ela.
- Santa?! Que santa?
- Ora! Essa aí no vidro...
- Pronto! Caducou de vez a véia!
- Caduquei uma ova! Sai pra lá, não vô
deixá tu apagá a imagem da santa...
Deixei o quarto negaceando e fui me
dedicar a coisas que, no momento, julguei mais importantes, como
comprar a carne para churrasquear. Fui ao açougue de costume, mas
quando retornei, ao contrário do que sempre acontecia, a casa
estava atrolhada de gente. Vizinho de tudo que era canto estava lá.
Gente até que eu nunca tinha visto. Tua vó, orgulhosa, mostrava o
diabo da santa - que Deus me perdoe - para todo mundo. Mal consegui
entrar em casa. Logo tinha até televisão pela volta mostrando notícia
da tal santa. E a vizinhança toda em redor.
* * *
O menino impaciente já saltara do colo
do avô e procurava algo por sobre a mesa. As mulheres da casa ainda
conversavam no quarto. O velho pegou o neto pelo braço:
- Vem cá! Tá com formigueiro é? Senta
aí e deixa eu te contar o resto...
- Mas não tem tiro... - retrucou o
menino, inquieto.
- Espera cria! Parece tua mãe quando era
pequena... Aquele dia que a santa apareceu foi um inferno... Teve
que vir até polícia para conter a multidão. - continuou.
- Foi a polícia que te deu um tiro?
- Puta que o pariu guri... Vê se te
aquieta um pouco... - irritou-se o velho.
- Tá... - respondeu o menino,
contrariado.
* * *
Nem a chuva que o vento trouxera
conseguiu afastar aquela gentalha daqui. Eu rogava por uma
tempestade, talvez assim aquele povo sumisse. Que nada! Chuvinha
boba de verão. Logo passou e o fuzuê continuou. No início da
noite ainda se ouvia o murmúrio do lado de fora. Tua avó nem
conseguiu assistir a novela. Eu fui para o quarto tentar dormir. Só
me virei de um lado para o outro que nem galeto no espeto. De
repente, bem próximo, ouvi um barulho. Abri os olhos. O quarto
estava envolto em uma névoa e uma luz branca brilhava em frente à
janela. Ouvi uma voz suave, quase maternal, que perguntou:
- Conheces os dez Mandamentos da Lei de
Deus?
Nem acreditei. Pulei da cama. Em frente
à janela a imagem translúcida de uma mulher, envolta em um manto
branco, repetiu a pergunta. Apesar da surpresa não senti medo.
Aquela imagem emanava uma aura de serenidade e paz... Respondi:
- Conheço sim senhora...
- Sabes então que o Senhor proibiu todos
os seus filhos de adorarem imagens?
- Sei sim senhora...
- E o que fazem estes tolos na rua a esta
hora da noite? - uma expressão de ira começou a tomar conta
daquele rosto pálido.
- Rezam... - respondi, trêmulo.
- Rezam para quem? - perguntou a figura
translúcida.
- Para a imagem na janela... - respondi,
ainda mais assustado com a máscara de ódio que se formara no rosto
daquela santa mulher.
- Para quem? - ela repetiu e tive a nítida
impressão de que havia se formado um sorriso irônico naquele rosto
outrora belo, e agora transfigurado de raiva.
- Para a imagem... - sussurrei,
apavorado.
O brilho em frente à janela e a imagem
se desfizeram e a janela rebentou num grande estrondo,
arremessando-me contra a parede com estilhaços de vidro espalhados
pelo corpo...
* * *
As damas retornavam do quarto, olhos
vermelhos das lágrimas que choraram na tentativa de anestesiar as
dores do passado. Um choro apaziguador, que às manteria unidas
durante os próximos anos de afastamento. Sentaram-se à mesa,
chamando os homens para o café.
- Bom, é essa a história guri...
- Mas e o tiro? - retrucou o menino,
saltando do colo do avô.
- Que tiro? - indagou o velho, já a
caminho da mesa.
A avó riu da braveza do garoto. Sabia
que o velho nunca contava tudo. Certamente não havia dito o porque
da janela ter estourado. Devia ter contado para o garoto aquela estória
de que havia falado com a santa da janela. Ele sempre dizia isso, e
jurava de pés juntos que era verdade. Tinha vergonha de dizer que
bebeu quase uma garrafa inteira de cachaça para tentar dormir
naquela noite. Tinha vergonha de dizer que um vizinho invejoso havia
dado um tiro na janela ao ver a silhueta da santa. Tinha vergonha de
dizer que passara a noite no hospital após ser atingido pelos
estilhaços de vidro da janela. Tinha vergonha de ter por um dia,
sua casa e sua vida expostas à vizinhança e até nos jornais. E,
acima de tudo, tinha vergonha de não crer, como seus vizinhos, na
santa da janela...
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