O Deserto

 M. R. Callegaro

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0166]
[Autor: M. R. Callegaro]
[Título: O Deserto]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 1.700]

 

Pela terceira vez em poucos minutos, ela atravessou imprudentemente o sinal fechado. O homem ao seu lado olhou disfarçadamente para o rosto de Black Girl — os músculos faciais dela pareciam mais impassíveis do que nunca. Evitou tecer qualquer comentário por conhecer a reação violenta a mais sutil palavra sobre a forma como ela dirigia. Estendeu a mão para dentro do bolso da calça, puxou um pequeno papel impresso de uma página de computador. Apenas uma curta mensagem: “Precisamos conversar”, nada mais. E lá estava Joseph K., sem ter marcado nem hora nem lugar para que eles se encontrassem. Alguns acontecimentos estranhos com aquela mulher ultrapassavam em muito seu grau de compreensão da realidade objetiva dos fatos. Leu novamente as duas simples palavras: “Precisamos conversar”. E, no entanto, ela permanecia calada, prenunciando, assim, uma das suas atitudes implacáveis que ele tanto temia. Por uma espécie de encantamento, ainda se submetia a essas situações e, no fundo, sentia até um certo prazer nisso tudo (assumidamente masoquista; mas, mesmo assim, ainda considerado prazer).

Pensou em puxar algum outro tipo de conversa. Não, não era conveniente. Conhecia quando Black Girl encontrava-se sob efeito de estresse e as graves conseqüências provenientes da mais singela das perguntas que fosse feita nessa hora. Ela, efetivamente, encontrava-se em um desses dias. Resolveu aguardar por melhor momento e sorte. Tentando descontrair um pouco, observou o veículo que os conduzia; era a segunda vez que dele se utilizavam, porém, somente agora, o analisava com maior precisão. Estranhara muito o veículo: por demais alongado, todo preto. Da frente até o meio, o banco do motorista e do passageiro; na parte de atrás, um grande espaço vazio acarpetado. Parecia mais um desses carros utilizado por empresas funerárias, porém, nenhum sinal nos vidros ou na lataria que confirmasse ser esse o verdadeiro fato. O que mais o incomodava, na realidade, era que, debaixo do banco do motorista, avistava-se a metade de uma coroa funerária; de folhas e flores plásticas, com os tenebrosos dizeres “Aqui Jaz”, e nada mais. No meio da coroa, um espaço em branco aguardando para ser nele acoplado o nome do corpo em questão. “É uma forma bastante prática de se reaproveitar o mesmo material”, pensou. Afinal, no mundo de hoje devemos sempre ser o mais objetivo possível, inclusive em termos de economia.

Pela mudez da motorista, não achava conveniente perguntar pela aguardada conversa ou mesmo puxar qualquer outro tipo de assunto. Olhando através do vidro fechado, distraiu-se um pouco com as luzes coloridas dos luminosos que cortavam a escuridão da avançada madrugada. Observou na calçada ao lado dois andarilhos em busca das latinhas de alumínio, com grandes sacos plásticos pretos às costas. Lembrou-se de já terem passado por eles ainda há pouco, nessa mesma rua. Preferiu nada comentar. Black Girl adorava trafegar pelos caminhos mais tortuosos possíveis. Quando estava em um de seus melhores dias, perguntava por indicações de direção — apesar dessa atitude ser mais uma das suas estratégias, sabidamente oculta, visando gerar atritos devastadores. Desse modo, justificava melhor a descarga imediata, sobre seu acompanhante, das enormes tensões acumuladas.

O cenário externo ia se modificando, os edifícios começaram a rarear. Aos poucos, a dupla de pseudo-interlocutores atingiu as regiões do subúrbio da cidade, e nela se aprofundaram mais e mais. Joseph K. percebeu que se dirigiam aos extremos, ou até mesmo, para fora dos limites da cidade e, nesse momento, temeu pelo porvir. Ainda assim, procurou manter a calma. Sem saber explicar bem o porquê, sempre confiara em Black Girl. Porém, as casas também começavam a rarear e deixavam perceber a vegetação rala e seca que emanava do chão árido. Pelo deserto, temia.

O veículo parou defronte de um grande cavalete pintado com largas faixas pretas e amarelas, estampando dizeres que indicavam ser aquele ponto, o final do caminho. Em um poste de madeira ao lado do cavalete, uma placa de advertência a todos aqueles que ousassem se aventurar pelas areias do deserto, que se iniciava a poucos metros de onde haviam estacionado.

Black Girl apagou o farol, desligou o veículo e, enquanto abria sua porta, ordenou de forma seca (como o deserto que havia à sua frente):

— Desça!

Ele obedeceu. Por um breve momento, Joseph K. olhou a beleza dos primeiros raios amarelados do dia que deixavam se conhecer no horizonte. E permaneceram ali, de pé, parados, por um longo tempo. A negra mulher nada mais ordenara e ele, pacientemente, aguardava por novas instruções que pudessem induzir a aguardada conversa. Um enorme besouro pousou próximo ao seio esquerdo de Black Girl. Era um belo e estranho escaravelho, parecia haver sido colocado um enorme broche junto ao traje negro da sedutora mulher. Joseph K., por um momento, pensou em afastar o intruso com as mãos, mas, antes que o fizesse, Black Girl calmamente acariciou o inseto, após emitir um leve sussurro de ordem. O besouro permaneceu estático, completamente imóvel. Por alguns instantes, esquecera o domínio quase absoluto que ela exercia sobre insetos e animais de pequeno porte. Esboçasse apenas um leve desejo, e centenas, milhares deles, viriam atender ao chamado dela executando as mais estranhas ordens que lhes fossem dadas. Por uma ordem dessas, contra sua integridade física, ele sempre temera. Minutos e minutos se passaram. A manhã foi configurando a sua forma, prenunciando um exaustivo calor para logo mais. Enfim, quando o cansaço foi maior do que o temor, ele arriscou dizer, embora de forma um tanto hesitante: “Precisamos conversar”. Não ousou emitir nem uma palavra a mais. Acreditava que pronunciando apenas as palavras escritas por ela e recebidas pelo e-mail, Black Girl não teria razão alguma que justificasse maiores acessos de estresse.

Aparentemente, a estratégia deu certo. Black Girl estendeu o braço direito apontando o Sol que se apresentava no horizonte:

— Siga sempre em frente, até encontrar um sinal da minha ausência.

Dizendo isso, retornou ao veículo. Já com o motor ligado, jogou ao chão, pela janela, um cantil com água. E partiu.

O predestinado havia esperado por uma conversa mais longa, algo tipo argumento e contra-argumento; porém, pela rudeza das palavras, não ousou questionar a ordem recebida — houvera uma firmeza metálica em sua entonação. Simplesmente pegou o cantil jogado ao chão e, assim sendo, partiu de imediato para dentro do deserto.

O primeiro dia foi o mais longo. O sol causticava seu dorso, seu pescoço, sua testa... e ele caminhava. Transpirava muito, por isso resolveu rasgar a parte mais baixa da calça e, igualmente, a da camisa. Com essa atitude, improvisara uma bermuda e, pela falta da parte baixa da camisa, ocorria melhor ventilação. Com o tecido resultante da operação, improvisou uma proteção para a cabeça, amenizando, assim, um pouco do sol forte do deserto. Eventualmente, quando alguma parte mais elevada da topografia do terreno desenhava uma sombra, ainda que pequena, aproveitava para descansar um pouco. Abria o cantil e molhava os lábios com a água. Procurava economizar, pois não sabia quanto de distância teria ainda de percorrer.

No segundo dia, mudou de estratégia. Deu preferência a caminhar nas primeiras e nas últimas horas do dia, quando o sol se apresentava um pouco mais ameno; nas horas restantes, se recolhia. Durante um desses momentos de descanso, pensamentos mundanos lhe assolaram a mente: “E se eu a desobedecer e retornar, que mal poderia me acontecer? Como saberia ela do meu paradeiro?”. Devido aos pensamentos perniciosos que vagueavam em sua mente, uma cobra negra do deserto se fez presente próxima a Joseph K. Ele assustou-se com a ofídia presença, porém, permaneceu estático diante da aparição. Esconjurou-se pelo pensamento maligno de desobediência. Afinal, Black Girl tinha milhares de olhos que olhavam por ela. Cobras, lagartos, camaleões do deserto, grandes besouros. Um forte sentimento de culpa invadiu sua alma. Penitenciando-se, pediu perdão por pensamentos tão impuros. Prometeu, para si mesmo, expulsá-los imediatamente sempre que tentassem invadir sua mente. Sem mais demora, a negra cobra que, em posição de ataque, mostrava sua língua bipartida, ocultou-se por entre as areias quentes do deserto. O viajante se benzeu, esconjurou caso aquela força viesse por parte do Mal e resolveu seguir em frente, ainda que o sol queimasse como uma fornalha àquela hora. Mais à noite, agora guiado apenas pelas estrelas, seguiu obediente em busca de algum sinal da ausência daquela mulher.

No terceiro dia, outra preocupação começou a lhe assolar a mente. Apesar de toda economia, a água do cantil começara a escassear; prenunciando, assim, um trágico desfecho. Também, os músculos da perna doíam fortemente. Seus pensamentos começavam a variar e sentia a iminência constante do perigo. Ainda nesta tarde, enquanto ondas de calor assolavam o horizonte, avistou uma enorme rocha mais ao longe — um monólito retangular em linhas retas quase que perfeitas. Pressentiu estar ali o sinal que procurava, seus músculos ganharam novo ânimo, seus pés dirigiram-se rápido em busca daquela larga e alta imagem de pedra. Em um espaço de tempo menor do que o normal, alcançou a sombra da inexorável rocha encravada em plena areia do deserto.

Desfrutando um breve e raro momento, sua alma alegrou-se por encontrar, em meio a tamanho deserto, inesperado abrigo — apesar de precário, ainda assim, certamente um abrigo. Sentou-se, alongando um pouco as pernas; abriu o cantil; molhou os lábios, como que em comemoração ao fato. Sabia ser o enigmático monólito, uma enorme rocha cravada em pleno deserto, o sinal que procurava. Estranhara, apenas, que ele expressasse um sinal mais da presença, do que da ausência de Black Girl (conforme por ela ordenado). Enquanto pensava nisso, pôde perceber uma rosa-dos-ventos esculpida levemente na dureza da rocha. Imerso em si mesmo, em um repentino estado de transe, correu os dedos através dos sulcos daquele desenho, a cena parecia fazer parte de um antigo ritual sagrado. Logo abaixo, os seguintes dizeres:

A PARTIR DESSE PONTO, TODOS OS HOMENS SÃO LIVRES PARA SEGUIR POR SEUS PRÓPRIOS CAMINHOS.

O cansado viajante ergueu-se momentaneamente. Pôs a mão espalmada por sobre os olhos, a fim de protegê-los da forte claridade — o sol refletia nos cristais da areia. Fitou o horizonte — ondas de calor distorciam sua visão. Pensou em descansar apenas por alguns segundos. Não podia — era longínquo, tudo era longínquo —, teria de seguir, de certo, por um longo caminho de volta.

 

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