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Pela terceira vez em poucos minutos, ela
atravessou imprudentemente o sinal fechado. O homem ao seu lado
olhou disfarçadamente para o rosto de Black Girl — os músculos
faciais dela pareciam mais impassíveis do que nunca. Evitou tecer
qualquer comentário por conhecer a reação violenta a mais sutil
palavra sobre a forma como ela dirigia. Estendeu a mão para dentro
do bolso da calça, puxou um pequeno papel impresso de uma página
de computador. Apenas uma curta mensagem: “Precisamos
conversar”, nada mais. E lá estava Joseph K., sem ter marcado nem
hora nem lugar para que eles se encontrassem. Alguns acontecimentos
estranhos com aquela mulher ultrapassavam em muito seu grau de
compreensão da realidade objetiva dos fatos. Leu novamente as duas
simples palavras: “Precisamos conversar”. E, no entanto, ela
permanecia calada, prenunciando, assim, uma das suas atitudes implacáveis
que ele tanto temia. Por uma espécie de encantamento, ainda se
submetia a essas situações e, no fundo, sentia até um certo
prazer nisso tudo (assumidamente masoquista; mas, mesmo assim, ainda
considerado prazer).
Pensou em puxar algum outro tipo de
conversa. Não, não era conveniente. Conhecia quando Black Girl
encontrava-se sob efeito de estresse e as graves conseqüências
provenientes da mais singela das perguntas que fosse feita nessa
hora. Ela, efetivamente, encontrava-se em um desses dias. Resolveu
aguardar por melhor momento e sorte. Tentando descontrair um pouco,
observou o veículo que os conduzia; era a segunda vez que dele se
utilizavam, porém, somente agora, o analisava com maior precisão.
Estranhara muito o veículo: por demais alongado, todo preto. Da
frente até o meio, o banco do motorista e do passageiro; na parte
de atrás, um grande espaço vazio acarpetado. Parecia mais um
desses carros utilizado por empresas funerárias, porém, nenhum
sinal nos vidros ou na lataria que confirmasse ser esse o verdadeiro
fato. O que mais o incomodava, na realidade, era que, debaixo do
banco do motorista, avistava-se a metade de uma coroa funerária; de
folhas e flores plásticas, com os tenebrosos dizeres “Aqui
Jaz”, e nada mais. No meio da coroa, um espaço em branco
aguardando para ser nele acoplado o nome do corpo em questão. “É
uma forma bastante prática de se reaproveitar o mesmo material”,
pensou. Afinal, no mundo de hoje devemos sempre ser o mais objetivo
possível, inclusive em termos de economia.
Pela mudez da motorista, não achava
conveniente perguntar pela aguardada conversa ou mesmo puxar
qualquer outro tipo de assunto. Olhando através do vidro fechado,
distraiu-se um pouco com as luzes coloridas dos luminosos que
cortavam a escuridão da avançada madrugada. Observou na calçada
ao lado dois andarilhos em busca das latinhas de alumínio, com
grandes sacos plásticos pretos às costas. Lembrou-se de já terem
passado por eles ainda há pouco, nessa mesma rua. Preferiu nada
comentar. Black Girl adorava trafegar pelos caminhos mais tortuosos
possíveis. Quando estava em um de seus melhores dias, perguntava
por indicações de direção — apesar dessa atitude ser mais uma
das suas estratégias, sabidamente oculta, visando gerar atritos
devastadores. Desse modo, justificava melhor a descarga imediata,
sobre seu acompanhante, das enormes tensões acumuladas.
O cenário externo ia se modificando, os
edifícios começaram a rarear. Aos poucos, a dupla de
pseudo-interlocutores atingiu as regiões do subúrbio da cidade, e
nela se aprofundaram mais e mais. Joseph K. percebeu que se dirigiam
aos extremos, ou até mesmo, para fora dos limites da cidade e,
nesse momento, temeu pelo porvir. Ainda assim, procurou manter a
calma. Sem saber explicar bem o porquê, sempre confiara em Black
Girl. Porém, as casas também começavam a rarear e deixavam
perceber a vegetação rala e seca que emanava do chão árido. Pelo
deserto, temia.
O veículo parou defronte de um grande
cavalete pintado com largas faixas pretas e amarelas, estampando
dizeres que indicavam ser aquele ponto, o final do caminho. Em um
poste de madeira ao lado do cavalete, uma placa de advertência a
todos aqueles que ousassem se aventurar pelas areias do deserto, que
se iniciava a poucos metros de onde haviam estacionado.
Black Girl apagou o farol, desligou o veículo
e, enquanto abria sua porta, ordenou de forma seca (como o deserto
que havia à sua frente):
— Desça!
Ele obedeceu. Por um breve momento,
Joseph K. olhou a beleza dos primeiros raios amarelados do dia que
deixavam se conhecer no horizonte. E permaneceram ali, de pé,
parados, por um longo tempo. A negra mulher nada mais ordenara e
ele, pacientemente, aguardava por novas instruções que pudessem
induzir a aguardada conversa. Um enorme besouro pousou próximo ao
seio esquerdo de Black Girl. Era um belo e estranho escaravelho,
parecia haver sido colocado um enorme broche junto ao traje negro da
sedutora mulher. Joseph K., por um momento, pensou em afastar o
intruso com as mãos, mas, antes que o fizesse, Black Girl
calmamente acariciou o inseto, após emitir um leve sussurro de
ordem. O besouro permaneceu estático, completamente imóvel. Por
alguns instantes, esquecera o domínio quase absoluto que ela
exercia sobre insetos e animais de pequeno porte. Esboçasse apenas
um leve desejo, e centenas, milhares deles, viriam atender ao
chamado dela executando as mais estranhas ordens que lhes fossem
dadas. Por uma ordem dessas, contra sua integridade física, ele
sempre temera. Minutos e minutos se passaram. A manhã foi
configurando a sua forma, prenunciando um exaustivo calor para logo
mais. Enfim, quando o cansaço foi maior do que o temor, ele
arriscou dizer, embora de forma um tanto hesitante: “Precisamos
conversar”. Não ousou emitir nem uma palavra a mais. Acreditava
que pronunciando apenas as palavras escritas por ela e recebidas
pelo e-mail, Black Girl não teria razão alguma que justificasse
maiores acessos de estresse.
Aparentemente, a estratégia deu certo.
Black Girl estendeu o braço direito apontando o Sol que se
apresentava no horizonte:
— Siga sempre em frente, até encontrar
um sinal da minha ausência.
Dizendo isso, retornou ao veículo. Já
com o motor ligado, jogou ao chão, pela janela, um cantil com água.
E partiu.
O predestinado havia esperado por uma
conversa mais longa, algo tipo argumento e contra-argumento; porém,
pela rudeza das palavras, não ousou questionar a ordem recebida —
houvera uma firmeza metálica em sua entonação. Simplesmente pegou
o cantil jogado ao chão e, assim sendo, partiu de imediato para
dentro do deserto.
O primeiro dia foi o mais longo. O sol
causticava seu dorso, seu pescoço, sua testa... e ele caminhava.
Transpirava muito, por isso resolveu rasgar a parte mais baixa da
calça e, igualmente, a da camisa. Com essa atitude, improvisara uma
bermuda e, pela falta da parte baixa da camisa, ocorria melhor
ventilação. Com o tecido resultante da operação, improvisou uma
proteção para a cabeça, amenizando, assim, um pouco do sol forte
do deserto. Eventualmente, quando alguma parte mais elevada da
topografia do terreno desenhava uma sombra, ainda que pequena,
aproveitava para descansar um pouco. Abria o cantil e molhava os lábios
com a água. Procurava economizar, pois não sabia quanto de distância
teria ainda de percorrer.
No segundo dia, mudou de estratégia. Deu
preferência a caminhar nas primeiras e nas últimas horas do dia,
quando o sol se apresentava um pouco mais ameno; nas horas
restantes, se recolhia. Durante um desses momentos de descanso,
pensamentos mundanos lhe assolaram a mente: “E se eu a desobedecer
e retornar, que mal poderia me acontecer? Como saberia ela do meu
paradeiro?”. Devido aos pensamentos perniciosos que vagueavam em
sua mente, uma cobra negra do deserto se fez presente próxima a
Joseph K. Ele assustou-se com a ofídia presença, porém,
permaneceu estático diante da aparição. Esconjurou-se pelo
pensamento maligno de desobediência. Afinal, Black Girl tinha
milhares de olhos que olhavam por ela. Cobras, lagartos, camaleões
do deserto, grandes besouros. Um forte sentimento de culpa invadiu
sua alma. Penitenciando-se, pediu perdão por pensamentos tão
impuros. Prometeu, para si mesmo, expulsá-los imediatamente sempre
que tentassem invadir sua mente. Sem mais demora, a negra cobra que,
em posição de ataque, mostrava sua língua bipartida, ocultou-se
por entre as areias quentes do deserto. O viajante se benzeu,
esconjurou caso aquela força viesse por parte do Mal e resolveu
seguir em frente, ainda que o sol queimasse como uma fornalha àquela
hora. Mais à noite, agora guiado apenas pelas estrelas, seguiu
obediente em busca de algum sinal da ausência daquela mulher.
No terceiro dia, outra preocupação começou
a lhe assolar a mente. Apesar de toda economia, a água do cantil
começara a escassear; prenunciando, assim, um trágico desfecho.
Também, os músculos da perna doíam fortemente. Seus pensamentos
começavam a variar e sentia a iminência constante do perigo. Ainda
nesta tarde, enquanto ondas de calor assolavam o horizonte, avistou
uma enorme rocha mais ao longe — um monólito retangular em linhas
retas quase que perfeitas. Pressentiu estar ali o sinal que
procurava, seus músculos ganharam novo ânimo, seus pés
dirigiram-se rápido em busca daquela larga e alta imagem de pedra.
Em um espaço de tempo menor do que o normal, alcançou a sombra da
inexorável rocha encravada em plena areia do deserto.
Desfrutando um breve e raro momento, sua
alma alegrou-se por encontrar, em meio a tamanho deserto, inesperado
abrigo — apesar de precário, ainda assim, certamente um abrigo.
Sentou-se, alongando um pouco as pernas; abriu o cantil; molhou os lábios,
como que em comemoração ao fato. Sabia ser o enigmático monólito,
uma enorme rocha cravada em pleno deserto, o sinal que procurava.
Estranhara, apenas, que ele expressasse um sinal mais da presença,
do que da ausência de Black Girl (conforme por ela ordenado).
Enquanto pensava nisso, pôde perceber uma rosa-dos-ventos esculpida
levemente na dureza da rocha. Imerso em si mesmo, em um repentino
estado de transe, correu os dedos através dos sulcos daquele
desenho, a cena parecia fazer parte de um antigo ritual sagrado.
Logo abaixo, os seguintes dizeres:
A PARTIR DESSE PONTO, TODOS OS HOMENS SÃO
LIVRES PARA SEGUIR POR SEUS PRÓPRIOS CAMINHOS.
O cansado viajante ergueu-se
momentaneamente. Pôs a mão espalmada por sobre os olhos, a fim de
protegê-los da forte claridade — o sol refletia nos cristais da
areia. Fitou o horizonte — ondas de calor distorciam sua visão.
Pensou em descansar apenas por alguns segundos. Não podia — era
longínquo, tudo era longínquo —, teria de seguir, de certo, por
um longo caminho de volta.
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