|
[Nota da Autora: Este conto é um exercício
realizado durante oficina literária com o escritor Charles Kiefer.
Foi dada uma frase MOT (motivacional), enigmática, e a partir dela
criei "Oito Horas". O prazo dado para realização deste
exercício foi de um dia]
O homem foi ao Cassino, apostou na roleta
e ganhou. Ganhou um milhão de dólares. Um milhão de dólares!
Voltou para casa e se matou (MOT).
A polícia encontrou o corpo na banheira,
imerso no próprio sangue. Cortes profundos nos pulsos. O relógio,
parado no ralo, marcava 8 horas. O inspetor apontou no caderninho:
"Homem aparentando 35 anos, 1.90 de altura, porte atlético.
Mais uma morte estúpida".
Depois de virar um martelinho no bar da
esquina (a visão do sangue coagulando na cabeça), o inspetor foi
tomar o depoimento dos amigos e parentes da vítima.
Os depoimentos anotados no caderninho do
inspetor:
1. A Mãe
"Meu filho, Ricardo, converteu-se ao
islamismo há cerca de um ano. Andava muito estranho o meu filho,
apesar de que sempre foi meio diferente mesmo. Comentou qualquer
coisa sobre ir se encontrar com suas setenta virgens no céu e que
ia dar mais do que nunca! Soube que ele ganhou um milhão na
loteria, mas ele deixou algo pra mim, deixou?"
2. A irmã mais velha
"Inspetor, como eu vou lhe dizer...
Conferiram bem se era ele mesmo? Du-vi-do! Pra mim aquele malandro
fugiu pra ficar com a grana toda só pra ele."
3. O amigo íntimo
"Olha cara, o Ricardo tava numas de
muita ira, tá ligado? Tava a fim de se vingar da sociedade
consumista, capitalista, materialista, tá ligado? Eu acho que ele
quis mostrar pros vampiros do mercado financeiro que dinheiro não tá
com nada, tá ligado? - Ele deixou alguma coisa pra mim?"
4. A namorada
"Sabia que a gente ia casar? (lágrimas).
Nós estávamos juntos no hotel, no quarto, quando ele desceu
dizendo que ia dar uma arriscadinha na roleta. Eu fiquei vendo TV,
mas daí alguém bateu à porta e fui ver quem era. Meu Deus! Eu não
pude resistir, doutor. Quando o Ricardo voltou (choro
desenfreado)... Quando o Ricardo voltou nos pegou na cama (eu e o
mordomo), no maior rala e rola. Doutor, eu não tive culpa, eu amava
muito ele, nós íamos casar."
5. O amigo do time de futebol
"Putz, o esporte nacional perdeu um
grande atleta! O cara era um gavião no gol, o melhor goleiro do
Esporte da Vila Pinto. Caçava todas, meu! Mas o que é o poder de
um único frango! Infelizmente ele foi mal pra caramba no último
jogo, aceitou um frango, mas um frango fenomenal, daqueles de entrar
pros anais da história da várzea. Coitado! Pior é que filmaram
tudo, disseram que iam mandar pro Faustão, pras vídeo-cassetadas.
Foi demais pro cara! Eu acho que nem todo o dinheiro do mundo ia
comprar a dignidade dele de volta. Ninguém ia esquecer aquele
frango! Que Deus o perdoe!"
6. A futura sogra
"O Ricardinho era um moço muito
bom, pena que tão indeciso. O noivado já durava 4 anos e ele ainda
não sabia se queria ou se não queria casar. Eu tentava aconselhá-lo
freqüentemente - sabe como é, a gente tem mais experiência de
vida - mas não adiantava nada. Ai, mas o Ricardinho enrolava
demais, Nossa Senhora! Acho que finalmente ele decidiu alguma
coisa."
7. O gerente do banco
"O Sr. Ricardo nos deve muito. Sua
conta sempre esteve negativa, o limite estourando. Pelos meus cálculos,
incluindo os índices inflacionários, ele nos deve mais de 150 mil
reais. Isso sem contabilizar o vencimento do juro desse mês. O
senhor sabe se ele providenciou o pagamento do débito antes de
morrer?"
8. O médico do SUS
"Lamentavelmente a consulta foi
muito rápida, 15 minutos no máximo. Eu tenho muitos pacientes para
atender e não posso me dar ao luxo de muita conversa. Fui obrigado
a ser franco e direto. Eu disse a ele: você tem um tumor no saco,
meu querido. Não tem cura, as metástases já estão subindo o
pico, se é que me entende. Ah, ossos do ofício, inspetor, ossos do
ofício!"
O inspetor fechou o caderninho com os apontamentos e deu o caso por
encerrado.
|