O Amor tem Dessas Coisas

 Rodrigo Igansi Gonçalves

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0163]
[Autor: Rodrigo Igansi Gonçalves]
[Título: O Amor tem Dessas Coisas]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 410]

 

O amor tem dessas coisas. Em uma fria noite de um outubro qualquer estou eu a me revirar no sofá. Deveria dormir aqui hoje.

Assim disse ela após uma pequena briga. Uma discussão banal cuja causa nem consigo mais lembrar. Eu me viro de um lado para o outro. O sofá não é dos mais confortáveis e o frio me congela até a alma. Posto para fora de meu próprio quarto, de minha própria cama.

Deveria dar-lhe uma lição. Deveria faze-la pagar.

Não, isso nunca. Eu a amo. Faria qualquer coisa para protege-la.

Não consigo dormir. Que horas são? Já estou cansado de me virar de um lado para o outro. Sinto minha barriga roncar. Levanto-me e ando em direção à cozinha. Enxergo a porta entreaberta do nosso quarto. Aproximo-me. Lá está ela. Tão confortável. Tão indefesa. Tão vulnerável.

Deveria dar-lhe uma lição. Deveria faze-la pagar.

Sinto fome. Continuo meu caminho até a cozinha. Procuro algo de bom para comer. Encontro um pedaço de bolo. Abro a gaveta em busca de uma faca. Ah, uma faca! Não poderia haver nada mais oportuno. Deveria faze-la pagar.

Não, isso nunca. Eu a amo.

Faria qualquer coisa para protege-la. Corto uma fatia de bolo e me dirijo de volta à sala. Passo novamente pela porta entreaberta do nosso quarto. Ela continua lá, dormindo.

Tão indefesa. Tão vulnerável.

Esqueci de largar a faca sobre a pia. Adentro o quarto com a faca em mãos. Paro ao lado da cama e a observo. Ah, como ela é linda! Oh, céus! O que foi que eu fiz? Agora é tarde... Só me resta esperar. Sento-me ao seu lado na cama e espero. Espero.Espero. Já se passaram longas horas. Os primeiros raios de sol invadem o quarto e acariciam seu corpo inerte. Espero. Apenas mais alguns instantes.

Ela acorda. Abre os olhos, boceja, estica os braços. Ela esta tão linda.

Tão viva. Com a satisfação do dever cumprido levanto-me e dirijo-me à porta do quarto. Sou detido por um grito aterrador. Volto-me para a cama e a vejo, ajoelhada sobre um chão escarlate. Abraçada ao meu corpo sem vida ela chora. As lágrimas que correm de seus tristes olhos castanhos são a prova de seu amor. O sangue que corre de meus pulsos cortados é a prova de que eu faria qualquer coisa para protege-la.

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