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O amor tem dessas coisas. Em uma fria
noite de um outubro qualquer estou eu a me revirar no sofá. Deveria
dormir aqui hoje.
Assim disse ela após uma pequena briga.
Uma discussão banal cuja causa nem consigo mais lembrar. Eu me viro
de um lado para o outro. O sofá não é dos mais confortáveis e o
frio me congela até a alma. Posto para fora de meu próprio quarto,
de minha própria cama.
Deveria dar-lhe uma lição. Deveria
faze-la pagar.
Não, isso nunca. Eu a amo. Faria
qualquer coisa para protege-la.
Não consigo dormir. Que horas são? Já
estou cansado de me virar de um lado para o outro. Sinto minha
barriga roncar. Levanto-me e ando em direção à cozinha. Enxergo a
porta entreaberta do nosso quarto. Aproximo-me. Lá está ela. Tão
confortável. Tão indefesa. Tão vulnerável.
Deveria dar-lhe uma lição. Deveria
faze-la pagar.
Sinto fome. Continuo meu caminho até a
cozinha. Procuro algo de bom para comer. Encontro um pedaço de
bolo. Abro a gaveta em busca de uma faca. Ah, uma faca! Não poderia
haver nada mais oportuno. Deveria faze-la pagar.
Não, isso nunca. Eu a amo.
Faria qualquer coisa para protege-la.
Corto uma fatia de bolo e me dirijo de volta à sala. Passo
novamente pela porta entreaberta do nosso quarto. Ela continua lá,
dormindo.
Tão indefesa. Tão vulnerável.
Esqueci de largar a faca sobre a pia.
Adentro o quarto com a faca em mãos. Paro ao lado da cama e a
observo. Ah, como ela é linda! Oh, céus! O que foi que eu fiz?
Agora é tarde... Só me resta esperar. Sento-me ao seu lado na cama
e espero. Espero.Espero. Já se passaram longas horas. Os primeiros
raios de sol invadem o quarto e acariciam seu corpo inerte. Espero.
Apenas mais alguns instantes.
Ela acorda. Abre os olhos, boceja, estica
os braços. Ela esta tão linda.
Tão viva. Com a
satisfação do dever cumprido levanto-me e dirijo-me à porta do
quarto. Sou detido por um grito aterrador. Volto-me para a cama e a
vejo, ajoelhada sobre um chão escarlate. Abraçada ao meu corpo sem
vida ela chora. As lágrimas que correm de seus tristes olhos
castanhos são a prova de seu amor. O sangue que corre de meus
pulsos cortados é a prova de que eu faria qualquer coisa para
protege-la.
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