|
[O processo criativo é algo muito
interessante. Desde que eu entrei na OE, tenho trabalhado em um
conto de fantasia. Tem algumas semanas que estou escrevendo,
reescrevendo, formatando... De repente, me veio uma idéia, e
escrevi esta história em uma tarde. Que coisa, não? Espero que
gostem.]
01:38 da manhã. A noite estava muito
escura e apenas o motor do carro se fazia ouvir.
- Põe um som aí, Rodrigo.
- Qual cd?
- Qualquer um.
Rodrigo abriu o porta luvas e pegou um cd
ao acaso, dentre os vários que lá estavam jogados, sem se
descuidar da direção do veículo.
"The Best of Guns N´Roses".
Introduziu o disco no player e apertou a
tecla random.
Faixa 02. Welcome to the Jungle.
Apesar da única iluminação existente
ser o farol do Vectra, Rodrigo não pensava em diminuir a
velocidade. Sentia o controle do carro difícil, a direção dura,
os pneus cantando a cada curva. O vento soprava anunciando chuva.
"Será que eu chego lá antes que
comece a chover?"
Rodrigo olhou para o lado. Seu irmão
fitava a janela, distraído, calado. Somente o motor do carro e a música
no rádio se faziam ouvir. O velocímetro indicava 90 km por hora.
"Devemos estar a uns 15 minutos de lá.
Viajando a 90 km por hora..."
Desistiu de fazer as contas. Não tinha
como saber quando a chuva ia cair, independente do tempo que
levassem para chegar ao seu destino. Além disso, nunca fora bom em
matemática. Principalmente neste último ano, que suas notas foram
um verdadeiro desastre. A expressão de raiva no rosto de seu pai
ainda estava gravada na mente de Rodrigo, como ferro em brasa,
quando disse que não dava mais para passar de ano.
- Ricardo?
Ele não respondeu. Apenas o motor do
carro e o rádio alto, que agora tocava November Rain, se faziam
ouvir dentro do carro. Os primeiros pingos de água batiam no
parabrisa. Chamou mais uma vez.
- Ricardo?
Mais uma vez não obteve resposta. Seu
irmão estava compenetrado, olhando pela janela do carro, a procura
de algo que ele não sabia bem o que era.
"Nós não deveríamos estar
aqui".
Seu pai o proibira de sair de casa até o
final do ano. Mas não era só por causa das notas baixas. Nos últimos
meses, Rodrigo e seu irmão, Ricardo, aprontaram poucas e boas.
Olhou para Ricardo e tentou mais uma vez.
- Ricardo?
Este se virou.
- Você... tem certeza?
- É o único jeito.
Um frio percorreu-lhe a barriga.
Faixa 07. Patience.
"Papai vai ficar furioso... Bem,
mais furioso ainda..."
Um outro carro vinha na pista oposta em
alta velocidade. O primeiro em meia hora. Uma sensação de deja vu
tomou lhe o corpo.
"Ai que saudades dos velhos
tempos..."
Lembrou-se da época de escola. Os
colegas, os professores. As brincadeiras. Ricardo sempre foi mais
despojado. Era grande e forte. O valentão da turma. Ele não. Baixo
e gordinho, ele era apenas o irmão do Ricardo. Nada mais. Mas não
ligava. Achava legal. E quando as brincadeiras começaram, todos
achavam graça, e Rodrigo também.
A chuva começou a bater mais forte. A
estrada estava molhada. Rodrigo diminuiu o ritmo. O velocímetro
indicava 60 km.
Faixa 09. Live and Let Die.
- Diminuiu porquê?
A voz do seu irmão mais velho parecia
mais grave que o normal e o tirou dos seus devaneios com um susto.
Rodrigo queria olhá-lo no rosto mas estava em um trecho
sensivelmente mais perigoso da estrada e não queria se distrair.
Ele não era tão bom motorista como seu irmão ou seu pai. Apesar
disso, aumentou a velocidade. Viu pelo canto do olho Ricardo
virar-se para fora mais uma vez.
"Mala sem alça."
As brincadeiras começaram inocentes.
Ricardo era o mandão, o fodão. Começou a botar banca de valentão
e juntou a sua turma. Colocava medo em todos e isso lhe dava uma
sensação muito boa. Rodrigo foi na onda. Gostava da sensação de
poder também.
Soco inglês. Taco de beisebol. Álcool.
Cigarro.
Outro carro na mão contrária de direção.
Piscando o farol insistentemente.
"Será que tem algo de errado com a
estrada?"
Depois notou. O velocímetro mostrava 150
km por hora. Estava muito rápido. Desacelerou.
O velocímetro indicava 90 km.
Outro carro. A chuva caía cada vez mais
forte. O barulho do motor não podia mais ser ouvido, sufocado pela
chuva. Apenas o cd player, tocando Bad Apples, se fazia ouvir.
Seu pai fora até compreensível com as
primeiras brincadeiras. Estava muito ocupado no escritório. Apenas
quando teve que ir até a delegacia para pagar-lhes a fiança, falou
que não queria mais saber daquilo. Passou-lhes um sermão.
- Falta muito? Não dá para ver nada com
esta chuva...
- Pode deixar que já estamos chegando.
Rodrigo sentiu novamente o frio na
barriga.
"Será que esta é a única solução
mesmo?"
Ele e Ricardo já tinha pensado em tudo.
Não havia outra solução. Teriam que tomar medidas drásticas.
Depois do episódio da delegacia, acharam que seu pai ia engrossar.
Mas depois de algumas semanas, ele já tinha esquecido, afundado em
seu mundinho de negócios. As brincadeiras recomeçaram.
Soco Inglês. Taco de Beisebol. Álcool.
Cigarro. Maconha. 38. Cocaína. Automática.
"Será que é a única solução
mesmo?"
Faixa 15. Perfect Crime.
As coisas realmente mudaram depois da última
brincadeira. Rodrigo lembra-se muito bem da expressão de seu pai
quando entrou no quarto e viu Ricardo com a arma na mão. Gritou com
os dois. Como nunca tinha gritado. Sua voz ainda podia ser ouvida,
nos seus pesadelos.
- Com medo?
A voz de seu irmão lhe arrancou mais uma
vez de seus pensamentos.
"Esta é a única solução. Eu sei
que é."
- Não.
O carro saltou, rangeu, guinchou, quando
saiu da estrada. A curva foi deixada para trás e, a frente, o rio
se aproximava.
- Solte o cinto, Rodrigo. Como você vai
nadar se não soltar o cinto?
Nervosamente, Rodrigo levou a mão ao
banco. A mão trêmula, suada, não conseguia achar o botão.
Faixa 13. Don't Cry.
O carro voou. Não se ouvia mais a chuva,
o cd player, o motor. Os segundos passaram. E passaram. E passaram.
Até um grande estrondo se fazer ouvir. O carro mergulhou nas águas
turvas e nervosas do rio.
Dias depois, Rodrigo foi enterrado, ao lado de seu irmão, morto durante uma brincadeira de
roleta russa, com a arma de seu pai, ao som de "Knockin' On
Heaven's Door", sua música preferida.
|