Brincadeiras de Criança

 Roderico Reis

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0162]
[Autor: Roderico Reis]
[Título: Brincadeiras de Criança]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 1.086]

 

[O processo criativo é algo muito interessante. Desde que eu entrei na OE, tenho trabalhado em um conto de fantasia. Tem algumas semanas que estou escrevendo, reescrevendo, formatando... De repente, me veio uma idéia, e escrevi esta história em uma tarde. Que coisa, não? Espero que gostem.]

01:38 da manhã. A noite estava muito escura e apenas o motor do carro se fazia ouvir.

- Põe um som aí, Rodrigo.

- Qual cd?

- Qualquer um.

Rodrigo abriu o porta luvas e pegou um cd ao acaso, dentre os vários que lá estavam jogados, sem se descuidar da direção do veículo.

"The Best of Guns N´Roses".

Introduziu o disco no player e apertou a tecla random.

Faixa 02. Welcome to the Jungle.

Apesar da única iluminação existente ser o farol do Vectra, Rodrigo não pensava em diminuir a velocidade. Sentia o controle do carro difícil, a direção dura, os pneus cantando a cada curva. O vento soprava anunciando chuva.

"Será que eu chego lá antes que comece a chover?"

Rodrigo olhou para o lado. Seu irmão fitava a janela, distraído, calado. Somente o motor do carro e a música no rádio se faziam ouvir. O velocímetro indicava 90 km por hora.

"Devemos estar a uns 15 minutos de lá. Viajando a 90 km por hora..."

Desistiu de fazer as contas. Não tinha como saber quando a chuva ia cair, independente do tempo que levassem para chegar ao seu destino. Além disso, nunca fora bom em matemática. Principalmente neste último ano, que suas notas foram um verdadeiro desastre. A expressão de raiva no rosto de seu pai ainda estava gravada na mente de Rodrigo, como ferro em brasa, quando disse que não dava mais para passar de ano.

- Ricardo?

Ele não respondeu. Apenas o motor do carro e o rádio alto, que agora tocava November Rain, se faziam ouvir dentro do carro. Os primeiros pingos de água batiam no parabrisa. Chamou mais uma vez.

- Ricardo?

Mais uma vez não obteve resposta. Seu irmão estava compenetrado, olhando pela janela do carro, a procura de algo que ele não sabia bem o que era.

"Nós não deveríamos estar aqui".

Seu pai o proibira de sair de casa até o final do ano. Mas não era só por causa das notas baixas. Nos últimos meses, Rodrigo e seu irmão, Ricardo, aprontaram poucas e boas. Olhou para Ricardo e tentou mais uma vez.

- Ricardo?

Este se virou.

- Você... tem certeza?

- É o único jeito.

Um frio percorreu-lhe a barriga.

Faixa 07. Patience.

"Papai vai ficar furioso... Bem, mais furioso ainda..."

Um outro carro vinha na pista oposta em alta velocidade. O primeiro em meia hora. Uma sensação de deja vu tomou lhe o corpo.

"Ai que saudades dos velhos tempos..."

Lembrou-se da época de escola. Os colegas, os professores. As brincadeiras. Ricardo sempre foi mais despojado. Era grande e forte. O valentão da turma. Ele não. Baixo e gordinho, ele era apenas o irmão do Ricardo. Nada mais. Mas não ligava. Achava legal. E quando as brincadeiras começaram, todos achavam graça, e Rodrigo também.

A chuva começou a bater mais forte. A estrada estava molhada. Rodrigo diminuiu o ritmo. O velocímetro indicava 60 km.

Faixa 09. Live and Let Die.

- Diminuiu porquê?

A voz do seu irmão mais velho parecia mais grave que o normal e o tirou dos seus devaneios com um susto. Rodrigo queria olhá-lo no rosto mas estava em um trecho sensivelmente mais perigoso da estrada e não queria se distrair. Ele não era tão bom motorista como seu irmão ou seu pai. Apesar disso, aumentou a velocidade. Viu pelo canto do olho Ricardo virar-se para fora mais uma vez.

"Mala sem alça."

As brincadeiras começaram inocentes. Ricardo era o mandão, o fodão. Começou a botar banca de valentão e juntou a sua turma. Colocava medo em todos e isso lhe dava uma sensação muito boa. Rodrigo foi na onda. Gostava da sensação de poder também.

Soco inglês. Taco de beisebol. Álcool. Cigarro.

Outro carro na mão contrária de direção. Piscando o farol insistentemente.

"Será que tem algo de errado com a estrada?"

Depois notou. O velocímetro mostrava 150 km por hora. Estava muito rápido. Desacelerou.

O velocímetro indicava 90 km.

Outro carro. A chuva caía cada vez mais forte. O barulho do motor não podia mais ser ouvido, sufocado pela chuva. Apenas o cd player, tocando Bad Apples, se fazia ouvir.

Seu pai fora até compreensível com as primeiras brincadeiras. Estava muito ocupado no escritório. Apenas quando teve que ir até a delegacia para pagar-lhes a fiança, falou que não queria mais saber daquilo. Passou-lhes um sermão.

- Falta muito? Não dá para ver nada com esta chuva...

- Pode deixar que já estamos chegando.

Rodrigo sentiu novamente o frio na barriga.

"Será que esta é a única solução mesmo?"

Ele e Ricardo já tinha pensado em tudo. Não havia outra solução. Teriam que tomar medidas drásticas. Depois do episódio da delegacia, acharam que seu pai ia engrossar. Mas depois de algumas semanas, ele já tinha esquecido, afundado em seu mundinho de negócios. As brincadeiras recomeçaram.

Soco Inglês. Taco de Beisebol. Álcool. Cigarro. Maconha. 38. Cocaína. Automática.

"Será que é a única solução mesmo?"

Faixa 15. Perfect Crime.

As coisas realmente mudaram depois da última brincadeira. Rodrigo lembra-se muito bem da expressão de seu pai quando entrou no quarto e viu Ricardo com a arma na mão. Gritou com os dois. Como nunca tinha gritado. Sua voz ainda podia ser ouvida, nos seus pesadelos.

- Com medo?

A voz de seu irmão lhe arrancou mais uma vez de seus pensamentos.

"Esta é a única solução. Eu sei que é."

- Não.

O carro saltou, rangeu, guinchou, quando saiu da estrada. A curva foi deixada para trás e, a frente, o rio se aproximava.

- Solte o cinto, Rodrigo. Como você vai nadar se não soltar o cinto?

Nervosamente, Rodrigo levou a mão ao banco. A mão trêmula, suada, não conseguia achar o botão.

Faixa 13. Don't Cry.

O carro voou. Não se ouvia mais a chuva, o cd player, o motor. Os segundos passaram. E passaram. E passaram. Até um grande estrondo se fazer ouvir. O carro mergulhou nas águas turvas e nervosas do rio.

Dias depois, Rodrigo foi enterrado, ao lado de seu irmão, morto durante uma brincadeira de roleta russa, com a arma de seu pai, ao som de "Knockin' On Heaven's Door", sua música preferida.

   

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