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"Programa compilado com
sucesso" - brilhou a mensagem na tela do microcomputador,
enquanto uma onda de relaxamento percorria meu corpo.
- Este deu trabalho, mas agora é só
fazer uma requisição de processamento autorizando a execução
durante a madrugada. Um a menos na lista.
Estava eu novamente a falar sozinho, mas
quem se importa afinal. Agora já posso dar uma relaxada, pois o
corpo solicita uma parada. Uma conferida no relógio e levo um susto
ao verificar que é fim de expediente. Um dia cheio e as horas
passaram como se fossem minutos. Não deu nem para tirar a bunda da
cadeira e ainda sobrou muito trabalho. Tenho que equilibrar esta
conta, pois estou com um superávit de tarefas recebidas enquanto
aumenta o déficit nas realizadas, será que existe empréstimo de
tempo? O pior é ter que encarar o feitor que se oculta atrás da
porta com a placa de gerente.
Vou à janela dar uma espiada, não que
fosse possível ver algo além de uma parede lisa cinco metros à
frente, ou um pedaço de céu tristonho. Sinto um arrepio ao
imaginar o frio que deve estar lá fora, dessa vez o pessoal da
previsão do tempo acertou e a frente fria chegou gelada mesmo. Para
quem gosta do inverno é um prato cheio. Olho para minha mesa
dominada por papéis em confusão. Amanhã vou pôr em ordem essa
bagunça, mas agora é desligar o microcomputador e fechar bem a
sala antes de sair, para deixar o trabalho bem preso, pois num
descuido e ele me acompanha até em casa.
O elevador não demora a chegar, a porta
abre com aquele som metálico, não gosto de elevadores, deve ser
claustrofobia. Minha imagem refletida no espelho parece estranha,
acho que está na hora de alguém limpar essas marcas de dedos aí.
O elevador não demora a chegar, a porta
abre com aquele som metálico, não gosto de elevadores, deve ser
claustrofobia. Minha imagem refletida no espelho parece estranha,
acho que está na hora de alguém limpar essas marcas de dedos aí.
Ao sair do edifício sou recebido pelo vento gelado. Apresso o passo
pensando em chegar o mais rápido possível em casa, já é noite
mas o relógio marca apenas 18:40 horas. É só na esquina que
percebo como a rua está vazia. Coisa estranha parece domingo.
Lembro que só a mulher do cafezinho entrou na sala esta tarde e foi
a última pessoa que vi e até o telefone, por incrível que pareça,
manteve-se calado.
Continuo a caminhada agora mais atento e
minha estranheza segue aumentando, pois não encontro pedestres ou
automóveis circulando nas ruas e as portas das lojas estão
abertas, porém com seus interiores vazios, algumas mesmo às
escuras como que abandonadas ha muito. Parece que até os cães
vagabundos sumiram e o único som é o do vento assobiando pelos
cantos dos edifícios.
Na praça o busto de bronze, mudo como
sempre, mantém seu olhar perdido e a expressão metálica, sujeito
sem graça que até os pombos desprezam e os namorados ignoram. Por
falar nisso, onde estão os namorados? Estes bancos estão sempre
cheios a esta hora, com alguns casais bem empolgados em suas trocas
de carinho. Dizem que é para se manterem aquecidos, o que não
deixa de ser verdadeiro. Mas neste momento o ruído de meus passos
sobre o pedrisco de alamedas tão desérticas não é boa companhia.
No cruzamento o único movimento é o das
luzes do semáforo, mudando de verde para amarelo, depois para o
vermelho e novamente para o verde, iniciando um novo ciclo. Cruzo
pela faixa de segurança e quase sou atropelado por uma folha de
jornal, que passa voando sem respeitar o sinal fechado. Deve ser a página
policial.
Todos os dias sigo por essas mesmas calçadas,
ao longo dos mesmos muros, atravessando ruas nervosas. Mas hoje
tento ver o que nunca foi preocupação. Qualquer movimento ou som
atrai minha atenção, detalhes na paisagem são alvo de meu olhar,
na busca pelos fantasmas do caminho. Sim, todas aquelas pessoas que
encontramos, mas que encaramos como parte da paisagem e que ficam
para trás, sem deixar qualquer marca, após nossa passagem. Onde
estão todos?
Em frente ao edifício em que moro, sinto
uma onda de tranqüilidade, como se fosse um marinheiro ao chegar em
um porto seguro, durante uma tempestade. Olho mais uma vez em ambas
as direções da rua, tudo parado, até mesmo o vento cessou. Sinto
um pingo de água e instintivamente volto o rosto para o céu.
Nuvens de chumbo iluminadas pela poluição luminosa, que é a praga
que afugentou as estrelas e nos tirou parte da beleza das noites.
Somos pobres seres urbanos, presos no concreto, envoltos numa redoma
de fumaça e luz.
Atravesso a portaria, mas nem sinal de
seu Luís - o porteiro. Aqui também está tudo entregue às
baratas, que por falar nisto, elas também não estão em seu posto.
Isso começa a dar nos nervos, parecendo um filme "B" de
terror, onde os personagens sempre fogem por lugares vazios e insólitos,
perseguidos por maníacos pouco convincentes.
Mas chego são e salvo a meu apartamento,
abro a porta e a sensação familiar me devolve o ânimo, ao menos
os peixinhos do aquário ainda estão lá, nem tudo está perdido.
Ainda estou curioso sobre o que pode estar acontecendo, mas já
posso voltar à tranqüilidade da rotina.
Esparramado no sofá, banho tomado,
lanche feito, pego o controle remoto e ligo a televisão, para ver o
jornal das oito e possivelmente matar a charada.
Surge a imagem do âncora do jornal,
dando a última manchete antes do seu inicio.
- Hoje às 15:00 horas ocorreu um fato
extraordinário, o mundo acabou.
Fico boquiaberto,
enquanto na tela surge a vinheta de abertura do noticiário,
acompanhada do rolar de caracteres trazendo o nome da equipe jornalística.
Ainda bem que vi o jornal, já pensou se amanhã levanto cedo e vou
para o trabalho! Boa Noite.
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