103344

 Marta Rolim

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0159]
[Autora: Marta Rolim
]
[Título: 103344]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 460]

 

[Nota da autora: este conto foi escrito como exercício rápido numa oficina literária ministrada pelo escritor Charles Kiefer. A frase MOT é "Quando João acordou o dinossauro ainda estava lá".]

Quando João acordou o dinossauro ainda estava lá. Rondando... Trinta metros abaixo, rondando o tronco da velha conífera, olhando ininterruptamente para cima. Vigiando. Incansável. Talvez fosse um utahraptor. As garras longas e curvas, o corpo ágil, delgado; os olhos miúdos e atentos, sempre buscando um elemento novo no meio, algo que pudesse mudar as coisas de lugar (você quer descer desse galho meu bem?).

Predador.

Um utahraptor (como era mesmo?): da família dos cordados, saurisquianos, terópodes. Um dromeossauro! Um maldito lagarto bípede, membros anteriores curtos (como as vítimas de malformação), cabeça de crocodilo, mandíbulas poderosas que partiam ossos.

Não fosse a fera, João apreciaria a vista. A floresta de palmeiras no horizonte, margeando um oceano azul, lindíssimo; à oeste uma cadeia de vulcões exalando vapor branco; um vale de samambaias exuberantes logo à frente; e o cúmulo da beleza: flores. Rosas e magnólias aqui e acolá, como mimos no meio das bestas.

Cretáceo, sem dúvida. Cretáceo. Se tivesse sorte, talvez estivesse no final do período e muitos dos lagartos iriam morrer (tomara que não demore, tomara que não demore).

Deixou o zunido soando.

Resolveu desligar o aparelho quando viu as cabeças afuniladas dos crocodilos. Meia dúzia de utahraptors rondava agora a conífera (com seus bracinhos atorados, como os de suas vítimas). Mordiam uns aos outros, disputando um lugar ao sol (queriam estar logo abaixo de mim, logo abaixo de mim).

O zunido os atraíra.

Súbito, João riu. Gargalhou frouxamente no alto da copa. Estremeceu em gozo. Hilário, tudo era tão hilário! A idiotice da vida, de repente sem nenhum rumo nobre (o que pensa um homem na boca dos alligators?).

Acionou o transmissor novamente, agora com dedos trêmulos. O zumbido. O zumbido alto. João apressou-se em mudar a freqüência, palmilhando cada centímetro de possibilidade (aqui Sigma 103344, repito, Sigma 103344, emergência!).

Silêncio.

As bestas subiam umas sobre as outras, ganhavam um pouco de altura no tronco liso. As garras enterradas na madeira grossa.

Consultou o relógio: 10 minutos. Pelo menos seria indolor (como era aquela antiga canção dos Beatles?). Examinou a rouba branca que trajava. O traje em perfeitas condições. Nenhuma gota de suor em contato com a pele, nenhum calafrio o incomodaria à noite. Os equipamentos de orientação piscando suas luzes verdes, reluzentes; os mini compartimentos intactos, abastecidos; os instrumentos de auxílio disponíveis. Tudo em perfeitas condições. E os dinos dentados lá embaixo, esperando que ele tombasse.

Como fora cair naquele planetinha estúpido e cheio de enxofre irrespirável? (Error, falha geral, error!). 1 minuto. O ar acabaria em 1 minuto. Não, 5 minutos! Olhou o relógio de novo, os números retorcidos formavam um 5, não formavam? (submarino amarelo, submarino amarelo!). Ei, muita coisa pode acontecer em 5 minutos (yellow submarine, yellow submarine!).

   

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