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[Nota
da autora: este conto foi escrito como exercício rápido numa
oficina literária ministrada pelo escritor Charles Kiefer. A frase
MOT é "Quando João acordou o dinossauro ainda estava
lá".]
Quando João acordou o dinossauro ainda
estava lá. Rondando... Trinta metros abaixo, rondando o tronco da
velha conífera, olhando ininterruptamente para cima. Vigiando.
Incansável. Talvez fosse um utahraptor. As garras longas e curvas,
o corpo ágil, delgado; os olhos miúdos e atentos, sempre buscando
um elemento novo no meio, algo que pudesse mudar as coisas de lugar
(você quer descer desse galho meu bem?).
Predador.
Um utahraptor (como era mesmo?): da família
dos cordados, saurisquianos, terópodes. Um dromeossauro! Um maldito
lagarto bípede, membros anteriores curtos (como as vítimas de
malformação), cabeça de crocodilo, mandíbulas poderosas que
partiam ossos.
Não fosse a fera, João apreciaria a
vista. A floresta de palmeiras no horizonte, margeando um oceano
azul, lindíssimo; à oeste uma cadeia de vulcões exalando vapor
branco; um vale de samambaias exuberantes logo à frente; e o cúmulo
da beleza: flores. Rosas e magnólias aqui e acolá, como mimos no
meio das bestas.
Cretáceo, sem dúvida. Cretáceo. Se
tivesse sorte, talvez estivesse no final do período e muitos dos
lagartos iriam morrer (tomara que não demore, tomara que não
demore).
Deixou o zunido soando.
Resolveu desligar o aparelho quando viu
as cabeças afuniladas dos crocodilos. Meia dúzia de utahraptors
rondava agora a conífera (com seus bracinhos atorados, como os de
suas vítimas). Mordiam uns aos outros, disputando um lugar ao sol
(queriam estar logo abaixo de mim, logo abaixo de mim).
O zunido os atraíra.
Súbito, João riu. Gargalhou frouxamente
no alto da copa. Estremeceu em gozo. Hilário, tudo era tão hilário!
A idiotice da vida, de repente sem nenhum rumo nobre (o que pensa um
homem na boca dos alligators?).
Acionou o transmissor novamente, agora
com dedos trêmulos. O zumbido. O zumbido alto. João apressou-se em
mudar a freqüência, palmilhando cada centímetro de possibilidade
(aqui Sigma 103344, repito, Sigma 103344, emergência!).
Silêncio.
As bestas subiam umas sobre as outras,
ganhavam um pouco de altura no tronco liso. As garras enterradas na
madeira grossa.
Consultou o relógio: 10 minutos. Pelo
menos seria indolor (como era aquela antiga canção dos Beatles?).
Examinou a rouba branca que trajava. O traje em perfeitas condições.
Nenhuma gota de suor em contato com a pele, nenhum calafrio o
incomodaria à noite. Os equipamentos de orientação piscando suas
luzes verdes, reluzentes; os mini compartimentos intactos,
abastecidos; os instrumentos de auxílio disponíveis. Tudo em
perfeitas condições. E os dinos dentados lá embaixo, esperando
que ele tombasse.
Como fora cair naquele
planetinha estúpido e cheio de enxofre irrespirável? (Error, falha geral, error!). 1 minuto. O ar acabaria em 1 minuto. Não, 5 minutos! Olhou o relógio
de novo, os números retorcidos formavam um 5, não formavam?
(submarino amarelo, submarino amarelo!). Ei, muita coisa pode
acontecer em 5 minutos (yellow submarine, yellow submarine!).
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