Black Girl, o Conto

 M. R. Callegaro

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0158]
[Autor: M. R. Callegaro]
[Título: Black Girl, o Conto]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 2.660]

 

Era uma dessas noites de lua cheia, céu nublado e chuva intermitente. Em uma rua próxima ao centro, debaixo de uma marquise, ele consultou as horas. Com a mão direita, enxugou alguns respingos sobre o vidro do relógio: 21h 12min. Após erguer a gola do paletó, posicionou-se melhor para se proteger da chuva fina. Deu uma última tragada no cigarro e o lançou para o meio-fio. Nesse mesmo instante, os faróis de um carro, que transitava meio sem pressa, iluminaram o cruzamento entre as ruas quase desertas. Apenas um facho de luz, e o ruído da borracha dos pneus cortando o asfalto molhado. Nada além disso. Nenhum sinal dela.

Não a conhecia, nem uma fotografia digital que fosse, apenas contatos escritos pela rede de computadores. Algumas mensagens iniciais mais comedidas, outras um pouco mais ousadas. Nenhum contato por telefone, nenhuma voz, nada que pudesse insinuar algo mais pessoal. Tentava criar na mente uma imagem feminina, mas ela logo se esvaia. Era como se faltasse algum elemento, um catalisador, para que a imagem dela se cristalizasse; por mais que tentasse, não conseguia. Próximo a ele, um casal de jovens saiu pela porta de um bar. O ruídos dos sinos mensageiros misturaram-se com as risadas etílicas do casal que, com gestos sensuais, dirigia-se ao carro — decerto em busca de algum local mais confortável, ainda mais em uma noite chuvosa como aquela. Seus olhos fitaram o casal por um momento, a luz néon do letreiro emprestou uma cor azulada ao seu rosto. Estaria ela também disposta a passar aquela noite chuvosa longe do murmurinho de um bar? Algum motel aconchegante, por exemplo? Não, acreditava que não. Ela mostrara-se comedida, algumas vezes deixou-se levar por alguma frase mais apimentada. Um cartão virtual um pouco mais ousado, uma tira de HQ sugerindo um intercurso sexual… “Quem sabe!”, raciocinou como criando uma esperança. Eram adultos e ela dizia não ter nenhum compromisso que a prendesse. Uma relação ocasional que mantinha há um bom tempo, ele ocultara. Não havia necessidade de contar tantas verdades… Ainda assim, tinha dúvidas. E era essa inquietação que o preocupava. Retirou um papel amassado do bolso, confirmou o local do encontro, o dia, a hora e a pessoa com quem marcara (adotara essa prática mais por precaução; em vezes anteriores, houvera se enganado). “Apenas um codinome”, pensou. Duas palavras azuis escritas no papel branco; e seus lábios as pronunciaram de forma lenta, grave, quase um murmúrio:

— Black Girl…

Olhou para o céu nublado. A luz frouxa da velha iluminação pública cortava a umidade da noite formando um indefinido facho; contracenando ao fundo com prédios antigos do centro, compôs-se uma nostálgica imagem. Novamente, entre tantas idas e vindas, a garoa estiara. Olhou mais uma vez o relógio de pulso: 21h 25min. Há essa hora, aquela parte do centro da cidade, estritamente comercial, já se apresentava deserta. Haviam marcado de se encontrar um pouco antes das nove horas. Ela prometera ser pontual. “A chuva, porém… quem sabe?”. Seus dedos buscaram de maneira automática mais um cigarro; entretanto a visão de um estranho vulto por sobre o edifício do outro lado da rua, logo mais à esquina, os deixaram paralisados em pleno ar.

Avistara uma misteriosa imagem negra e delgada. Por um curto espaço de tempo, a tranqüilidade reinante na cobertura do edifício de três andares havia sido cortada. Ele olhou para os lados como procurando alguém que pudesse confirmar ser verdadeira ou falsa aquela visão. As pesadas sombras e o silêncio da noite registraram seu domínio. A imagem retornou, agora próxima ao parapeito. Sim, era real. E ela o fitava.

Como à procura de ajuda, seus dedos nervosos retomaram a busca pelos cigarros, seu corpo necessitava uma dose maciça de nicotina para acelerar ainda mais o bater do coração atingido pela adrenalina. A chama do isqueiro iluminou as faces do seu rosto e, ao bater da tampa de metal, uma baforada cinza apontou na mesma direção que seus olhos. A imagem deslizou de forma sorrateira para a parte de trás do edifício.

Dando mais uma tragada, atravessou a rua apressado e, só por hábito, olhou para os lados antes de cruzá-la — realmente, não se fazia necessário. Caminhou em direção à esquina logo em frente, à sua esquerda, para que pudesse ter melhor visão do lado oposto do edifício onde, aparentemente, a estranha figura se dirigira.

Demonstrou receio ao se aproximar, pois a esquina quebrava para dentro de uma estreita e mal iluminada viela, com latas de lixo que exalavam um odor fétido e penetrante. Em busca de proteção, logo à entrada, deu as costas à parede da viela oposta ao edifício. Teve de erguer bem a cabeça para observar, no alto, a beirada da cobertura. Apesar da pouca luminosidade, sentiu-se um pouco mais aliviado, nada ou ninguém parecia recortar aquela negritude. Deu uma última e forte tragada, trouxe o lenço ao rosto enxugando um misto de suor e respingos de garoa. Um estranho desejo o impelia a adentrar aquela suspeita viela, uma certa excitação, como um desejo proibido que inibe o bom-senso e nos lança aos prazeres mais bizarros. Caminhou lento; excitado, mas temeroso. Dentre os restos de comida de uma lata de lixo tombada, uma ratazana correu emitindo altos guinchados. Ele gritou. O medo fez com que cobrisse momentaneamente o rosto com o braço direito enquanto curvava o corpo em sinal de defesa. Após se dar conta do que realmente acontecera, tentou recompor-se; não sem antes se surpreender com a figura feminina que, de pé, no chão da viela, a apenas cinco ou seis metros, o observava em perfeito silêncio. Diante daquela estranha visão, seus olhos foram se estatelando, sua respiração tornou-se ainda mais sôfrega como se buscasse um certo ar ausente naquele estreito corredor.

A esguia figura apresentava-se à sua frente. Era atraente, de pernas longas e formas bem definidas. Uma roupa negra grudada ao corpo feminino mostrava suas sedutoras curvas. O pouco de luz existente no local reluzia no tecido negro e brilhante formando uma pálida faixa de cor prateada. No rosto, uma máscara estreita que não se diferenciava do conjunto, apenas uma abertura para os olhos, igualmente negros; logo abaixo dela, uma boca sensual e carnuda. Aos poucos, o homem foi recuando até tocar a parede com as costas e, desta vez, ir deslizando vagarosamente ao chão — com o olhar fixo na estranha e sensual figura que caminhava lento em sua direção. Junto aos seios fartos, pode perceber uma figura geométrica, de forma oval e, no meio dela, as letras “B” e “G”. Só quando as mãos negras, vestidas por luvas, quase tocavam o seu corpo é que conseguiu pronunciar alguma palavra:

— Você é… Black Girl!!!…

Ela deu uma risada estridente. Grudou-o pela parte de trás da lapela do paletó arrastando-o como um cão entre as latas de lixo, até o final da viela.

— Quem é você, Black Girl?! Quem é você?! — perguntava de forma suplicante.

Ela o jogou de rosto contra a grade de metal do portão que finalizava a viela, separando-a da saída de serviço de algum restaurante de terceira categoria. O ruído sibilante do metal ecoou pelo estreito e comprido corredor — um gato pardo miou de espanto, enrijecendo os pêlos e espichando-se todo, como se preparando para um possível ataque. O rosto machucado virou-se de frente à sua oponente, um fio grosso de sangue escorria do supercílio. Franziu a testa de dor e, talvez pelo momento tenso, que lhe aguçava os sentidos, pôde sentir mais fortemente o odor acre dos restos de comida. Com as mãos fortemente presas a cada lado do paletó do seu pseudo-adversário, Black Girl trouxe aquele rosto assustado para perto de si. Apesar de todo o temor, ele sentiu-se excitado pela aproximação do corpo feminino; motivado, talvez, pelos olhos penetrantes e pelo volume substancioso dos seios. Não ousou emitir uma só palavra. Ela, porém, assim o fez:

— Você é normal?

Pela estranheza da pergunta, hesitou em responder. Também pela dificuldade em compreender qual a real profundidade da questão — devemos considerar o inusitado dos acontecimentos.

— Você é ou não é normal? —os sensuais lábios femininos retomaram a pergunta de forma intimidante.

— Eu… creio que… sou! — respondeu temeroso.

— E você é sincero?

A nova pergunta o tocara fundo na alma. Sempre fora sincero, mas ele temia que a pergunta fosse quanto à questão sexual e, por isso, hesitava em responder.

— Por que não consegue responder? Eu perguntei se você é sincero?

— Sinceridade como? De que forma?

Perguntava mais como um recurso para ganhar tempo e ver se conseguia se esquivar de tamanha investida. Black Girl não se deixou impressionar pelo artifício. Por ainda ter as mãos fortemente enganchadas sobre o paletó, o impulsionou fortemente, por três vezes, com a parte de trás da cabeça, contra a grade do portão.

— Não tente me enganar! Você é sincero? Responda, é ou não é sincero?— esbravejou.

Ele sentia que nesse momento não se tratava mais de defender apenas a sua honra, mas a de toda uma categoria de homens que se comunicam pela rede mundial de computadores. Nesses pouco mais de trinta anos de vida, nunca havia se sentido tão indefeso em nenhuma outra situação como essa. Seria melhor mentir; pois, por mais sincero que um homem pudesse ser, nunca confessaria publicamente seus engraçamentos com outras mulheres — assim como ele mantinha uma delas sempre de reserva, para os momentos de maior precisão. O seu estepe, como costumava dizer. Pelos motivos pensados, respondeu:

— Sou sincero, muito sincero. Em toda a minha vida sempre fui sincero, como estou sendo agora.

Ela gargalhou alto, o som ecoou pelas quinas da viela — desta vez o gato pardo miou baixo, olhando espantado. Repentinamente, Black Girl emudeceu. Apesar de toda a tensão do momento, a sua posição por cima das pernas dele, quase sexual, o excitara e um começo de ereção se fazia presente. Olhou lento para o meio das pernas daquele homem submisso à vontade dela; sem dar maior importância ao fato, com um semblante impávido, ela retomou o contato direto nos olhos.

— Você é equilibrado ou desequilibrado?

— (…)

— Vamos, responda! — a sua voz, os seus gestos denotavam um acentuado sinal de estresse.

— (…)

— Responda!

Essa pergunta, agora, o deixara mais atônito do que as anteriores. Equilibrado ou desequilibrado em relação a quê? O que pode ser considerado um padrão de equilíbrio, de normalidade, em um mundo tão louco? Se os maiores criminosos de toda a humanidade sempre encontraram motivos para justificar suas ações? Em qual manicômio não encontraremos internos que se consideram igualmente equilibrados? E os artistas, os pintores, os escultores, podemos considerá-los como pessoas efetivamente normais e equilibradas? Não estaria a originalidade plantada em terreno estreito entre a lucidez e a loucura? Não conseguia encontrar um padrão para que a pergunta se concluísse em resposta. Além do mais, sempre considerara as pessoas normais extremamente chatas, desinteressantes. Mas a principal questão era: qual resposta, afinal, ela queria? Se respondesse ser equilibrado, ela poderia estar em busca de um pouco de desequilíbrio. Se respondesse desequilibrado, ela poderia considerá-lo efetivamente um anormal. Sua cabeça girava como um cachorro correndo atrás do próprio rabo, um moto-contínuo, o pensamento andando em círculos. Apesar da estranheza da situação, queria impressionar na sua resposta, pois ainda cogitava uma conquista.

— Desequilibrado, completamente desequilibrado! — em um último alento, vociferou de forma desesperada.

Um silêncio profundo invadiu o beco após a resposta. Black Girl ergueu-se com as pernas entreabertas, uma para cada lado daquele corpo submisso.

— Levante-se — ordenou enquanto o puxava para cima, apoiando-o sobre o grade do portão.

Com seu jeito felino, roçou o corpo dele; cheirou-o no cangote. Dobrou os joelhos, colocando apenas o direito ao chão. Frente às partes baixas do corpo masculino (eternamente dominado), soltou o cinto; o botão do cós da calça; abaixou o zíper. Deu um olhar longo para cima, simulando uma feição dócil e obediente. Tocou o membro que se fazia cada vez mais rígido e quente. Envoltos pelo tecido da luva negra, seus dedos precipitavam a glande para fora do prepúcio. De forma quase inevitável, o membro foi se enrijecendo. E por estar possuído pelo desejo, tentando impressioná-la, ousou repetir:

— Desequilibrado, completamente desequilibrado!

Foi o bastante. Black Girl ergueu-se de modo repentino dando uma potente joelhada nas partes baixas do seu opositor. Ouviu-se um uivo profundo de dor, a cabeça e o tronco se curvaram. Em seguida, um forte soco atingiu-lhe a face esquerda; um pontapé, a boca do estômago. De cócoras, o corpo rapidamente assumiu uma posição fetal. Black Girl pegou um pedaço de cano próximo à parede, deu-lhe nas costelas, sem piedade: uma, duas vezes.

— Quero sinceridade, quero objetividade, quero prazer… tenho vontade de viver, de viver!!!

Ele sentia dificuldade em emitir um simples gemido, seus pulmões pareciam não ter mais fôlego nem para gritar a dor que lhe cortava o corpo. Sentia que pelo menos uma das costelas se quebrara e que algo, dentro de si, rompera-se. Felizmente, a chuva fina voltava a cair, batia em seu rosto e isso, de certo modo, o alegrou. Talvez por esse motivo, agrupou um resto de força física para repetir de forma frouxa — agora apenas por teimosia:

— Desequilibrado, completamente desequilibrado…

A mulher negra observou aquele patético Cavaleiro da Triste Figura caído ao chão da imunda viela: curvado de dor, a região pubiana exposta sendo atingida pela insistente garoa. Por um curto momento, olhou para o céu. Sentiu que, apesar da máscara, os pingos também atingiam seu rosto. Fitou novamente a patética figura e, não se sabe bem por quê, compadeceu-se dele. Decidiu-se. Curvou-se e retomando aquele membro entre as mãos veio a acariciá-lo com a boca. Um beijo, outro beijo… Apenas por puro instinto masculino, o membro enrijeceu. Os gemidos de dor misturaram-se com os de prazer, do mesmo modo como as gotas do pranto haviam se misturado com as da chuva.

O movimento da boca tornou-se mais sensual, frenético, engoliu o membro rígido até o fundo da garganta, com um movimento ágil de mãos e gemidos avassaladores. A dor de um órgão rompido, da costela quebrada, do músculo ferido, não impediu que a sensação de prazer acontecesse, mas de um estranho modo: crescente e contínuo, como se nunca fosse atingir um clímax. E assim foi, crescendo e crescendo… por um tempo longo, indeterminado…

— Ahhh!!!…

A ejaculação veio poderosa. Black Girl afastou-se rápido. Ergueu-se e agora assistia a tudo, impassível. Apenas observava aquele músculo ereto que ejaculava alto, ejaculava… como uma artéria aorta dilacerada na garganta por uma navalha. Ejaculava alto, ejaculava… tanto e tanto que parecia não querer parar nunca mais. Ejaculava tanto que o corpo foi se desidratando. A boca inicialmente entreaberta de prazer começava a murchar, aparecendo os dentes, grudando aos ossos faciais do crânio. Ejaculava alto, ejaculava… A meleca foi escorrendo pelo corpo enfumaçado que ressecava, depois, pelo chão da viela… e aquele músculo ereto, ejaculando! Os olhos agora nada mais eram do que duas bolas soltas dentro da cavidade ocular. A meleca continuou escorrendo até que o corpo se transmutou em um corpo ressequido, quase quebradiço, como o de uma múmia envolta em química e muito alcatrão. Como um vulcão que se apazigua, a erupção cessou; o membro, porém, continuava ereto. Com o salto de sua bota, Black Girl pressionou de um só arranque a região entre a base do membro e os esvaziados testículos. Lançou-se, assim, um último suspiro — e o membro afrouxou-se por completo.

A misteriosa figura negra aproximou-se do ouvido daquele rescaldo humano; com seu hálito doce, respondeu:

— Eu sou o Senhor do seu destino.

De um só salto, foi por sobre o portão, por entre janelas e paredes. Ela se movimentava rápido como um lagarto, com uma destreza raramente vista. Do telhado, seu vulto negro desapareceu sobre um pedaço da lua prateada que insistia em romper as pesadas nuvens de chuva. Da única janela do edifício entreaberta, e com luz acesa, viam-se esperançosas mãos masculinas digitando em um teclado de computador, resposta a um recado cibernético. Na tela do monitor, apenas um codinome: BLACK GIRL.

 

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