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Era uma dessas noites de lua cheia, céu
nublado e chuva intermitente. Em uma rua próxima ao centro, debaixo
de uma marquise, ele consultou as horas. Com a mão direita, enxugou
alguns respingos sobre o vidro do relógio: 21h 12min. Após erguer
a gola do paletó, posicionou-se melhor para se proteger da chuva
fina. Deu uma última tragada no cigarro e o lançou para o
meio-fio. Nesse mesmo instante, os faróis de um carro, que
transitava meio sem pressa, iluminaram o cruzamento entre as ruas
quase desertas. Apenas um facho de luz, e o ruído da borracha dos
pneus cortando o asfalto molhado. Nada além disso. Nenhum sinal
dela.
Não a conhecia, nem uma fotografia
digital que fosse, apenas contatos escritos pela rede de
computadores. Algumas mensagens iniciais mais comedidas, outras um
pouco mais ousadas. Nenhum contato por telefone, nenhuma voz, nada
que pudesse insinuar algo mais pessoal. Tentava criar na mente uma
imagem feminina, mas ela logo se esvaia. Era como se faltasse algum
elemento, um catalisador, para que a imagem dela se cristalizasse;
por mais que tentasse, não conseguia. Próximo a ele, um casal de
jovens saiu pela porta de um bar. O ruídos dos sinos mensageiros
misturaram-se com as risadas etílicas do casal que, com gestos
sensuais, dirigia-se ao carro — decerto em busca de algum local
mais confortável, ainda mais em uma noite chuvosa como aquela. Seus
olhos fitaram o casal por um momento, a luz néon do letreiro
emprestou uma cor azulada ao seu rosto. Estaria ela também disposta
a passar aquela noite chuvosa longe do murmurinho de um bar? Algum
motel aconchegante, por exemplo? Não, acreditava que não. Ela
mostrara-se comedida, algumas vezes deixou-se levar por alguma frase
mais apimentada. Um cartão virtual um pouco mais ousado, uma tira
de HQ sugerindo um intercurso sexual… “Quem sabe!”, raciocinou
como criando uma esperança. Eram adultos e ela dizia não ter
nenhum compromisso que a prendesse. Uma relação ocasional que
mantinha há um bom tempo, ele ocultara. Não havia necessidade de
contar tantas verdades… Ainda assim, tinha dúvidas. E era essa
inquietação que o preocupava. Retirou um papel amassado do bolso,
confirmou o local do encontro, o dia, a hora e a pessoa com quem
marcara (adotara essa prática mais por precaução; em vezes
anteriores, houvera se enganado). “Apenas um codinome”, pensou.
Duas palavras azuis escritas no papel branco; e seus lábios as
pronunciaram de forma lenta, grave, quase um murmúrio:
— Black Girl…
Olhou para o céu nublado. A luz frouxa
da velha iluminação pública cortava a umidade da noite formando
um indefinido facho; contracenando ao fundo com prédios antigos do
centro, compôs-se uma nostálgica imagem. Novamente, entre tantas
idas e vindas, a garoa estiara. Olhou mais uma vez o relógio de
pulso: 21h 25min. Há essa hora, aquela parte do centro da cidade,
estritamente comercial, já se apresentava deserta. Haviam marcado
de se encontrar um pouco antes das nove horas. Ela prometera ser
pontual. “A chuva, porém… quem sabe?”. Seus dedos buscaram de
maneira automática mais um cigarro; entretanto a visão de um
estranho vulto por sobre o edifício do outro lado da rua, logo mais
à esquina, os deixaram paralisados em pleno ar.
Avistara uma misteriosa imagem negra e
delgada. Por um curto espaço de tempo, a tranqüilidade reinante na
cobertura do edifício de três andares havia sido cortada. Ele
olhou para os lados como procurando alguém que pudesse confirmar
ser verdadeira ou falsa aquela visão. As pesadas sombras e o silêncio
da noite registraram seu domínio. A imagem retornou, agora próxima
ao parapeito. Sim, era real. E ela o fitava.
Como à procura de ajuda, seus dedos
nervosos retomaram a busca pelos cigarros, seu corpo necessitava uma
dose maciça de nicotina para acelerar ainda mais o bater do coração
atingido pela adrenalina. A chama do isqueiro iluminou as faces do
seu rosto e, ao bater da tampa de metal, uma baforada cinza apontou
na mesma direção que seus olhos. A imagem deslizou de forma
sorrateira para a parte de trás do edifício.
Dando mais uma tragada, atravessou a rua
apressado e, só por hábito, olhou para os lados antes de cruzá-la
— realmente, não se fazia necessário. Caminhou em direção à
esquina logo em frente, à sua esquerda, para que pudesse ter melhor
visão do lado oposto do edifício onde, aparentemente, a estranha
figura se dirigira.
Demonstrou receio ao se aproximar, pois a
esquina quebrava para dentro de uma estreita e mal iluminada viela,
com latas de lixo que exalavam um odor fétido e penetrante. Em
busca de proteção, logo à entrada, deu as costas à parede da
viela oposta ao edifício. Teve de erguer bem a cabeça para
observar, no alto, a beirada da cobertura. Apesar da pouca
luminosidade, sentiu-se um pouco mais aliviado, nada ou ninguém
parecia recortar aquela negritude. Deu uma última e forte tragada,
trouxe o lenço ao rosto enxugando um misto de suor e respingos de
garoa. Um estranho desejo o impelia a adentrar aquela suspeita
viela, uma certa excitação, como um desejo proibido que inibe o
bom-senso e nos lança aos prazeres mais bizarros. Caminhou lento;
excitado, mas temeroso. Dentre os restos de comida de uma lata de
lixo tombada, uma ratazana correu emitindo altos guinchados. Ele
gritou. O medo fez com que cobrisse momentaneamente o rosto com o
braço direito enquanto curvava o corpo em sinal de defesa. Após se
dar conta do que realmente acontecera, tentou recompor-se; não sem
antes se surpreender com a figura feminina que, de pé, no chão da
viela, a apenas cinco ou seis metros, o observava em perfeito silêncio.
Diante daquela estranha visão, seus olhos foram se estatelando, sua
respiração tornou-se ainda mais sôfrega como se buscasse um certo
ar ausente naquele estreito corredor.
A esguia figura apresentava-se à sua
frente. Era atraente, de pernas longas e formas bem definidas. Uma
roupa negra grudada ao corpo feminino mostrava suas sedutoras
curvas. O pouco de luz existente no local reluzia no tecido negro e
brilhante formando uma pálida faixa de cor prateada. No rosto, uma
máscara estreita que não se diferenciava do conjunto, apenas uma
abertura para os olhos, igualmente negros; logo abaixo dela, uma
boca sensual e carnuda. Aos poucos, o homem foi recuando até tocar
a parede com as costas e, desta vez, ir deslizando vagarosamente ao
chão — com o olhar fixo na estranha e sensual figura que
caminhava lento em sua direção. Junto aos seios fartos, pode
perceber uma figura geométrica, de forma oval e, no meio dela, as
letras “B” e “G”. Só quando as mãos negras, vestidas por
luvas, quase tocavam o seu corpo é que conseguiu pronunciar alguma
palavra:
— Você é… Black Girl!!!…
Ela deu uma risada estridente. Grudou-o
pela parte de trás da lapela do paletó arrastando-o como um cão
entre as latas de lixo, até o final da viela.
— Quem é você, Black Girl?! Quem é
você?! — perguntava de forma suplicante.
Ela o jogou de rosto contra a grade de
metal do portão que finalizava a viela, separando-a da saída de
serviço de algum restaurante de terceira categoria. O ruído
sibilante do metal ecoou pelo estreito e comprido corredor — um
gato pardo miou de espanto, enrijecendo os pêlos e espichando-se
todo, como se preparando para um possível ataque. O rosto machucado
virou-se de frente à sua oponente, um fio grosso de sangue escorria
do supercílio. Franziu a testa de dor e, talvez pelo momento tenso,
que lhe aguçava os sentidos, pôde sentir mais fortemente o odor
acre dos restos de comida. Com as mãos fortemente presas a cada
lado do paletó do seu pseudo-adversário, Black Girl trouxe aquele
rosto assustado para perto de si. Apesar de todo o temor, ele
sentiu-se excitado pela aproximação do corpo feminino; motivado,
talvez, pelos olhos penetrantes e pelo volume substancioso dos
seios. Não ousou emitir uma só palavra. Ela, porém, assim o fez:
— Você é normal?
Pela estranheza da pergunta, hesitou em
responder. Também pela dificuldade em compreender qual a real
profundidade da questão — devemos considerar o inusitado dos
acontecimentos.
— Você é ou não é normal? —os
sensuais lábios femininos retomaram a pergunta de forma
intimidante.
— Eu… creio que… sou! — respondeu
temeroso.
— E você é sincero?
A nova pergunta o tocara fundo na alma.
Sempre fora sincero, mas ele temia que a pergunta fosse quanto à
questão sexual e, por isso, hesitava em responder.
— Por que não consegue responder? Eu
perguntei se você é sincero?
— Sinceridade como? De que forma?
Perguntava mais como um recurso para
ganhar tempo e ver se conseguia se esquivar de tamanha investida.
Black Girl não se deixou impressionar pelo artifício. Por ainda
ter as mãos fortemente enganchadas sobre o paletó, o impulsionou
fortemente, por três vezes, com a parte de trás da cabeça, contra
a grade do portão.
— Não tente me enganar! Você é
sincero? Responda, é ou não é sincero?— esbravejou.
Ele sentia que nesse momento não se
tratava mais de defender apenas a sua honra, mas a de toda uma
categoria de homens que se comunicam pela rede mundial de
computadores. Nesses pouco mais de trinta anos de vida, nunca havia
se sentido tão indefeso em nenhuma outra situação como essa.
Seria melhor mentir; pois, por mais sincero que um homem pudesse
ser, nunca confessaria publicamente seus engraçamentos com outras
mulheres — assim como ele mantinha uma delas sempre de reserva,
para os momentos de maior precisão. O seu estepe, como costumava
dizer. Pelos motivos pensados, respondeu:
— Sou sincero, muito sincero. Em toda a
minha vida sempre fui sincero, como estou sendo agora.
Ela gargalhou alto, o som ecoou pelas
quinas da viela — desta vez o gato pardo miou baixo, olhando
espantado. Repentinamente, Black Girl emudeceu. Apesar de toda a
tensão do momento, a sua posição por cima das pernas dele, quase
sexual, o excitara e um começo de ereção se fazia presente. Olhou
lento para o meio das pernas daquele homem submisso à vontade dela;
sem dar maior importância ao fato, com um semblante impávido, ela
retomou o contato direto nos olhos.
— Você é equilibrado ou
desequilibrado?
— (…)
— Vamos, responda! — a sua voz, os
seus gestos denotavam um acentuado sinal de estresse.
— (…)
— Responda!
Essa pergunta, agora, o deixara mais atônito
do que as anteriores. Equilibrado ou desequilibrado em relação a
quê? O que pode ser considerado um padrão de equilíbrio, de
normalidade, em um mundo tão louco? Se os maiores criminosos de
toda a humanidade sempre encontraram motivos para justificar suas ações?
Em qual manicômio não encontraremos internos que se consideram
igualmente equilibrados? E os artistas, os pintores, os escultores,
podemos considerá-los como pessoas efetivamente normais e
equilibradas? Não estaria a originalidade plantada em terreno
estreito entre a lucidez e a loucura? Não conseguia encontrar um
padrão para que a pergunta se concluísse em resposta. Além do
mais, sempre considerara as pessoas normais extremamente chatas,
desinteressantes. Mas a principal questão era: qual resposta,
afinal, ela queria? Se respondesse ser equilibrado, ela poderia
estar em busca de um pouco de desequilíbrio. Se respondesse
desequilibrado, ela poderia considerá-lo efetivamente um anormal.
Sua cabeça girava como um cachorro correndo atrás do próprio
rabo, um moto-contínuo, o pensamento andando em círculos. Apesar
da estranheza da situação, queria impressionar na sua resposta,
pois ainda cogitava uma conquista.
— Desequilibrado, completamente
desequilibrado! — em um último alento, vociferou de forma
desesperada.
Um silêncio profundo invadiu o beco após
a resposta. Black Girl ergueu-se com as pernas entreabertas, uma
para cada lado daquele corpo submisso.
— Levante-se — ordenou enquanto o
puxava para cima, apoiando-o sobre o grade do portão.
Com seu jeito felino, roçou o corpo
dele; cheirou-o no cangote. Dobrou os joelhos, colocando apenas o
direito ao chão. Frente às partes baixas do corpo masculino
(eternamente dominado), soltou o cinto; o botão do cós da calça;
abaixou o zíper. Deu um olhar longo para cima, simulando uma feição
dócil e obediente. Tocou o membro que se fazia cada vez mais rígido
e quente. Envoltos pelo tecido da luva negra, seus dedos
precipitavam a glande para fora do prepúcio. De forma quase inevitável,
o membro foi se enrijecendo. E por estar possuído pelo desejo,
tentando impressioná-la, ousou repetir:
— Desequilibrado, completamente
desequilibrado!
Foi o bastante. Black Girl ergueu-se de
modo repentino dando uma potente joelhada nas partes baixas do seu
opositor. Ouviu-se um uivo profundo de dor, a cabeça e o tronco se
curvaram. Em seguida, um forte soco atingiu-lhe a face esquerda; um
pontapé, a boca do estômago. De cócoras, o corpo rapidamente
assumiu uma posição fetal. Black Girl pegou um pedaço de cano próximo
à parede, deu-lhe nas costelas, sem piedade: uma, duas vezes.
— Quero sinceridade, quero
objetividade, quero prazer… tenho vontade de viver, de viver!!!
Ele sentia dificuldade em emitir um
simples gemido, seus pulmões pareciam não ter mais fôlego nem
para gritar a dor que lhe cortava o corpo. Sentia que pelo menos uma
das costelas se quebrara e que algo, dentro de si, rompera-se.
Felizmente, a chuva fina voltava a cair, batia em seu rosto e isso,
de certo modo, o alegrou. Talvez por esse motivo, agrupou um resto
de força física para repetir de forma frouxa — agora apenas por
teimosia:
— Desequilibrado, completamente
desequilibrado…
A mulher negra observou aquele patético
Cavaleiro da Triste Figura caído ao chão da imunda viela: curvado
de dor, a região pubiana exposta sendo atingida pela insistente
garoa. Por um curto momento, olhou para o céu. Sentiu que, apesar
da máscara, os pingos também atingiam seu rosto. Fitou novamente a
patética figura e, não se sabe bem por quê, compadeceu-se dele.
Decidiu-se. Curvou-se e retomando aquele membro entre as mãos veio
a acariciá-lo com a boca. Um beijo, outro beijo… Apenas por puro
instinto masculino, o membro enrijeceu. Os gemidos de dor
misturaram-se com os de prazer, do mesmo modo como as gotas do
pranto haviam se misturado com as da chuva.
O movimento da boca tornou-se mais
sensual, frenético, engoliu o membro rígido até o fundo da
garganta, com um movimento ágil de mãos e gemidos avassaladores. A
dor de um órgão rompido, da costela quebrada, do músculo ferido,
não impediu que a sensação de prazer acontecesse, mas de um
estranho modo: crescente e contínuo, como se nunca fosse atingir um
clímax. E assim foi, crescendo e crescendo… por um tempo longo,
indeterminado…
— Ahhh!!!…
A ejaculação veio poderosa. Black Girl
afastou-se rápido. Ergueu-se e agora assistia a tudo, impassível.
Apenas observava aquele músculo ereto que ejaculava alto,
ejaculava… como uma artéria aorta dilacerada na garganta por uma
navalha. Ejaculava alto, ejaculava… tanto e tanto que parecia não
querer parar nunca mais. Ejaculava tanto que o corpo foi se
desidratando. A boca inicialmente entreaberta de prazer começava a
murchar, aparecendo os dentes, grudando aos ossos faciais do crânio.
Ejaculava alto, ejaculava… A meleca foi escorrendo pelo corpo
enfumaçado que ressecava, depois, pelo chão da viela… e aquele músculo
ereto, ejaculando! Os olhos agora nada mais eram do que duas bolas
soltas dentro da cavidade ocular. A meleca continuou escorrendo até
que o corpo se transmutou em um corpo ressequido, quase quebradiço,
como o de uma múmia envolta em química e muito alcatrão. Como um
vulcão que se apazigua, a erupção cessou; o membro, porém,
continuava ereto. Com o salto de sua bota, Black Girl pressionou de
um só arranque a região entre a base do membro e os esvaziados
testículos. Lançou-se, assim, um último suspiro — e o membro
afrouxou-se por completo.
A misteriosa figura negra aproximou-se do
ouvido daquele rescaldo humano; com seu hálito doce, respondeu:
— Eu sou o Senhor do seu destino.
De um só salto, foi
por sobre o portão, por entre janelas e paredes. Ela se movimentava
rápido como um lagarto, com uma destreza raramente vista. Do
telhado, seu vulto negro desapareceu sobre um pedaço da lua
prateada que insistia em romper as pesadas nuvens de chuva. Da única
janela do edifício entreaberta, e com luz acesa, viam-se esperançosas
mãos masculinas digitando em um teclado de computador, resposta a
um recado cibernético. Na tela do monitor, apenas um codinome:
BLACK GIRL.
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