Acerto de Contas

 Maurício Wojciekowski

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0157]
[Autor:
Maurício Wojciekowski]
[Título: Acerto de Contas]
[Gênero: Policial]
[Número de Palavras: 2.280]

 

Era uma tarde fria de outono, o céu estava cinza, o vento era frio e cortante, uma chuva fina e fria molhava os casacos dos passageiros da barca. Todos estavam com seus guarda-chuvas abertos, só Carlos não o tinha, na realidade o frio e a chuva pouco ou nada o incomodavam.

Estava absorto em sua leitura, a manchete do jornal, a data de uma semana antes, 20 de maio de 2009, dizia: “Fazedor de anjos era ex-padre”. A história era terrível: Um homem de sessenta anos, um velho padre insano, era o maior assassino e o mais pervertido desde Juca Picador, o psicopata que matava e fazia guisado de suas vítimas e depois fazia pastéis para vender na delegacia, no cartório, e na prefeitura; o padre que se chamava Leopoldo Nunes e fora conhecido como “o amigo dos órfãos” havia matado mais de cinqüenta crianças todas menores de cinco anos até ser pego pela policia após o assassinato dos gêmeos Fronté, filhos de um dos maiores banqueiros e industriários do paí e de sua mulher: Leonoura ex. misse, modelo e atriz da novela “Louca Paixão” que havia batido recordes de audiência há alguns anos. O casal, um dos mais badalados dos últimos anos, havia decidido ter um filho após cinco anos de casamento, em vez de um vieram dois; o mais incrível, dizia a reportagem, era a rápida recuperação de Leonoura que em poucos meses havia recuperado sua forma anterior a gravidez, as medidas perfeitas da eterna misse, modelo e atriz.

Carlos terminou de ler a reportagem e soltou o jornal encharcado no mar. Olhou o relógio, eram três horas. Olhou em volta e viu alguns outros passageiros, nenhum que lhe chamasse a atenção, ficou olhando a ilha que se aproximava e o presídio recém inaugurado. Pouco depois a barca ancorava no porto do “Presídio Modelo de Angra”, o mais moderno e o mais seguro do país. Todos os passageiros desceram. Carlos foi o último, ficou observando o exterior da faraônica construção, o prédio era branco, imaculado e com ares de decência, realmente parecia um presídio modelo. Carlos foi recebido pelo diretor que designou dois guardas para que o levassem até a cela de seu cliente. Nenhuma palavra foi proferida , apenas trocas cúmplices de olhares.

O corredor mais parecia um de hospital do que um corredor de presídio por causa da cor branca imaculada. As celas eram todas pequenas, limpas e individuais, a maior parte estava vazia, pois os presos de outros presídios ainda não haviam sido transferidos para lá.

Carlos caminhou durante alguns minutos, passando por várias alas até chegar ao bloco F onde ficavam os presos psicóticos, por enquanto só havia um: o cliente. O lugar possuía um silêncio sepulcral, as únicas coisas ouvidas eram os ecos dos passos . Finalmente chegaram até a sela 206 onde ficava o cliente de Carlos, a porta foi aberta pelos carcereiros. Carlos foi o único a entrar. A porta foi fechada. Durante alguns minutos observou o lugar: uma cama embutida na parede, uma latrina, uma mesa branca e uma cadeira da mesma cor, eram os únicos móveis da cela. A parede parecia ainda mais branca que a do corredor.

Entretido como estava, só notou a presença do cliente quando esse se moveu. Os dois homens se fitaram durante alguns segundos. Tirando a altura eram contrastes perfeitos.

Carlos era alto, 1.90m, 100kg de pura massa muscular, a pele negra, a boca grande e de dentes muito brancos, os olhos pretos que demonstravam frieza , usava um terno preto e sobre ele um garbadini da mesma cor, a cabeça era raspada , usava bigode e cavanhaques finos. O outro, “o padre fazedor de anjos”, era magro, branco pálido , doentio, cadavérico, o rosto um amontoado de rugas, os olhos eram de um azul profundo, na cabeça tufos de cabelos brancos, os dentes não tinha, usava chapa, vestia o uniforme branco de todos os presidiários.

Os dois homens se olharam durante alguns minutos sem nada dizer, talvez a única outra semelhança entre eles fosse a expressão de seus rostos: frios, de uma calma fria, como máscaras.

-Gostaria de se sentar?- perguntou o padre, a voz rouca e baixa , como a de alguém que tivesse resfriado.

Carlos sentou na cadeira bem próxima do velho. Agora se olhavam nos olhos, ficaram assim durante alguns minutos, sem desviarem o olhar, encarando-se como dois pugilistas que logo se enfrentariam.

- Presumo que o Senhor não é meu advogado. - afirmou o velho .

- Sim - respondeu Carlos , a voz grave e firme e continuou - Sabe por que estou aqui?

- Sim - respondeu o velho sem mudar o tom de voz, sem demonstrar medo -- Veio para me matar! Foram eles, não foram? O casal de ricos!

- Claro, cometeu o erro de matar filhos de ricos! Pobres e órfão ninguém se importaria, aliás antes de fazer o que vim fazer, gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

- Sobre os crimes? O porque de eu Ter matado aquelas crianças?

- Sim! Na verdade nunca fiz isso antes, nunca conversei com alguém antes de matar esse alguém!

- Para tudo há uma primeira vez!-- disse o padre, a voz mais animada -- Posso lhe responder o que quiser, considerarei isso como uma confissão! Principalmente feita por alguém que conheci um dia! Faça-as Carlinhos!

O assassino fitou o padre durante alguns segundos, seu rosto teve uma ligeira mudança.

- Acho que esta enganado padre! Nunca o vi antes!

- Não tente me enganar! Eu nunca esqueço uma fisionomia! Você pode ter crescido, mas ainda se parece com aquele garotinho órfão que conheci um dia! Pensei que seria um cientista ou um jornalista! Você era uma criança muito perguntadeira!

- Sim!--interrompeu Carlos -E agora sou um assassino de aluguel! E você? É um maníaco, um assassino de crianças!

O padre o fitou durante alguns segundos. Seu olhar era calmo, todo ele parecia envolvido numa aura de placidez. Iniciou uma fala firme e modulada, aperfeiçoada em seus anos de sermões.

-Não sou um assassino! Sou um instrumento de Deus! Sou o anjo da morte, da salvação e da redenção! Sabe, meu pobre Carlinhos, o mundo é um lugar terrível, pensava que fosse o purgatório! Agora sei que é o próprio inferno! Sabia Carlinhos que o orfanato foi fechado? Claro que não! Você é igual a todas as outras pessoas, vive somente para si! Sabe qual é o problema do mundo? Não há mais fraternidade, nem amizade, tampouco há esperança! Só solidão e vazio! Você sabe, tem idéia de quantas crianças sem teto, sem esperança de vida há por ai? Tem idéia do desespero que o mundo se tornou? Você sabe por que as pessoas têm filhos hoje em dia? Sabe? Eu lhe digo: Vaidade! Pura vaidade! As pessoas não têm tempo de cuidá-las e essas crianças crescem sem carinho, pobres de amor, serão futuros exploradores, predadores da própria espécie! O dinheiro é a nova religião! Tudo se faz para consegui-lo! Quem não foi amado nunca saberá o que é amar! Falo isso daqueles que tiveram ou têm pais, os órfãos como você se tornam ainda piores! Os filhos de ricos serão predadores e o dos pobres? Serão as vítimas! O homem é o lobo do homem! Você é um exemplo disso! Era um órfão, agora trabalha para os ricos, mata pessoas por dinheiro! É servo dos teus inimigos!

- E você, padre? O que é? É um assassino muito pior do que eu! Matar crianças! Isso é uma monstruosidade! Eu mato homens adultos! Jamais mataria uma criança! Você é um lunático! Suas idéias são absurdas, ridículas! Você não é nem sombra do que era! Eu me lembro de você padre: um homem bom que se interessava pelos outros, queria ajudar a todos, você me ajudou até onde pode! Agora está louco!

Os dois homens se olhavam novamente, olhos nos olhos. Carlos levantou-se, caminhou até a mesa onde havia deixado sua pasta, o padre continuou onde estava. De dentro da pasta o assassino tirou uma seringa de plástico, caminhou até o padre, arremangou o uniforme dele, a agulha penetrou no braço do padre.

-Faça seu trabalho Carlinhos, você esta sendo pago para isso! Eu te dou o meu perdão! Deus também te dará o dele!

O assassino o fitava, segurava a seringa mas não apertava a ampola.

-Termine o que começou-disse o velho -Mas saiba de uma coisa : Matei aquelas crianças, aqueles anjinhos, para que eles fossem se encontrar com Deus como seres puros e inocentes! Se isso te serve de consolo: eles não sofreram! Fui habilidoso ao matá-los! Sabe de uma coisa, Carlinhos? A inocência dura muito pouco, esse mundo é um inferno, o mal reina e sempre reinará! Acredito em Deus e acredito em céu, poupei essas crianças de uma vida de desilusões, sofrimento e desespero! Sabe aquele ditado "A esperança é a ultima que morre"? É uma grande mentira, a pior de todas , a esperança já está morta há muito tempo! Os próprios homens a mataram! Jesus morreu por nada! Sua mensagem não foi entendida! Não sou louco, Carlinhos! Só não acredito mais na vida nesse mundo! Vamos, meu querido, aperta essa seringa!

O rosto de Carlos demonstrava dúvida, a mão tremia sob a seringa.

Carlos soltou a seringa que ficou presa no braço do padre apenas pela agulha. Correu até a porta e, sem olhar para trás, começou a bater na porta.

-Guarda! Guarda!- a porta é aberta. Carlos passa correndo e derruba o vigia. Corre pelo corredor numa velocidade espantosa. Ao se aproximar da última ala ele para, ainda consegue ouvir os gritos do padre "Eu também quero ir para o céu", alguns carcereiros passam por ele. A porta para a rua esta aberta, consegue chegar até o lado de fora .

A barca esta saindo. Carlos tem que correr e dar um salto para conseguir subir a bordo. Consegue. Os outros passageiros o olham . Carlos caminha até um deles: um homem baixo que fuma um cigarro. O homem o fita assustado.

-Pode me conseguir um cigarro?-o homem nada responde apenas lhe dá o pedido e o fogo. Carlos vai até um canto isolado da barca, olha para o relógio, são quase quatro horas, os outros passageiros param de o observar.

É noite quando o assassino chega na casa dos patrões. Ele esta sentado num sofá de couro na sala de visitas. O lugar é grande com vários quadros, um Renoir está sobre a lareira , na outra parede um grande relógio cuco marca sete horas da noite, no chão vários vasos chineses com flores exóticas enfeitam o ambiente, há duas portas, por uma delas entram o casal e dois seguranças.

Leonoura vem vestida com um vestido preto de festa que realça os contornos de seu corpo, o mesmo corpo de seis anos atrás quando pousou nua para uma revista masculina. Os cabelos negros soltos até o meio das costas. Ela vem de braços dados com o marido: Manuel, bem mais baixo que ela e que deve sua boa aparência apenas as roupas e sapatos que veste, além do rolex de ouro.

Os seguranças vestem ternos pretos, um é um alemão com ar bonachão o outro é um moreno com aparência meio índia. Os dois estão armados. Carlos consegue ver o volume das armas por baixo dos paletós.

-Aceita uma bebida?—pergunta o empresário com voz um pouco trêmula.

-Não bebo em serviço—responde Carlos enfaticamente.

-Bem sei do serviço—diz a mulher visivelmente irritada—Não matou o velho! Sabemos disso! Depois de todo trabalho que tive! Nove meses inchada, gorda, horrorosa! Aqueles enjôos! Tudo isso para quê? Para que um lunático matasse meus filhos! Maldito louco!

-Você pode ter outros!—diz Carlos com ar provocador.

-E estragar meu corpinho? Uma gravidez já foi o suficiente!

-Você deveria ter feito seu trabalho! Isso irá prejudicar sua reputação! Eu não usarei mais os seus serviços e não o indicarei para mais ninguém!

-Isso não importa!—diz Carlos com ênfase—A partir de hoje estou mudando de profissão!—rapidamente puxa a arma com silenciador e dispara dois tiros certeiros, um no rosto do alemão bonachão e outro na testa do moreno com ar indiano.

Manuel fica paralisado no sofá. O copo treme em sua mão. Leonoura abre a boca para gritar. Carlos faz um sinal para que ela fique em silêncio, então aponta a arma para o coração do empresário que se encolhe apavorado soltando o copo de uísque que se derrama no colo. O líquido mistura-se com a urina que já molha o sofá de couro e o carpete persa.

-Ui!—geme o empresário, seu corpo tomba inerte sob o sofá.

Carlos levanta-se , caminha até a mulher que o fita de cima abaixo parando o olhar na arma .

-Por favor não me mate! Eu faço tudo que você quiser!— a voz assumindo um tom sedutor.

-Pelos velhos tempos. Lembra?-e começa a se despir.

-Belo corpo!—diz o assassino—Será ótimo repasto para os vermes!—aperta o gatilho até descarregar o que restou das balas.

Pouco depois Carlos retira-se da casa com um dos carros de Manuel. Ao ligá-lo o relógio do painel marca sete horas e vinte e três minutos. Além do carro leva o rolex de ouro e as carteiras dos mortos. Dentro do carro ele abre sua própria carteira e retira uma foto, na foto aparecem duas pessoas: um menino negro e de corpo esquelético e um homem grande e loiro vestindo uma batina.

Carlos olha para a foto, depois se olha no espelho retrovisor.

- Agora , meu velho, estamos novamente do mesmo lado!

   

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