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Era uma tarde fria de outono, o céu
estava cinza, o vento era frio e cortante, uma chuva fina e fria
molhava os casacos dos passageiros da barca. Todos estavam com seus
guarda-chuvas abertos, só Carlos não o tinha, na realidade o frio
e a chuva pouco ou nada o incomodavam.
Estava absorto em sua leitura, a manchete
do jornal, a data de uma semana antes, 20 de maio de 2009, dizia:
“Fazedor de anjos era ex-padre”. A história era terrível: Um
homem de sessenta anos, um velho padre insano, era o maior assassino
e o mais pervertido desde Juca Picador, o psicopata que matava e
fazia guisado de suas vítimas e depois fazia pastéis para vender
na delegacia, no cartório, e na prefeitura; o padre que se chamava
Leopoldo Nunes e fora conhecido como “o amigo dos órfãos”
havia matado mais de cinqüenta crianças todas menores de cinco
anos até ser pego pela policia após o assassinato dos gêmeos
Fronté, filhos de um dos maiores banqueiros e industriários do paí
e de sua mulher: Leonoura ex. misse, modelo e atriz da novela
“Louca Paixão” que havia batido recordes de audiência há
alguns anos. O casal, um dos mais badalados dos últimos anos, havia
decidido ter um filho após cinco anos de casamento, em vez de um
vieram dois; o mais incrível, dizia a reportagem, era a rápida
recuperação de Leonoura que em poucos meses havia recuperado sua
forma anterior a gravidez, as medidas perfeitas da eterna misse,
modelo e atriz.
Carlos terminou de ler a reportagem e
soltou o jornal encharcado no mar. Olhou o relógio, eram três
horas. Olhou em volta e viu alguns outros passageiros, nenhum que
lhe chamasse a atenção, ficou olhando a ilha que se aproximava e o
presídio recém inaugurado. Pouco depois a barca ancorava no porto
do “Presídio Modelo de Angra”, o mais moderno e o mais seguro
do país. Todos os passageiros desceram. Carlos foi o último, ficou
observando o exterior da faraônica construção, o prédio era
branco, imaculado e com ares de decência, realmente parecia um presídio
modelo. Carlos foi recebido pelo diretor que designou dois guardas
para que o levassem até a cela de seu cliente. Nenhuma palavra foi
proferida , apenas trocas cúmplices de olhares.
O corredor mais parecia um de hospital do
que um corredor de presídio por causa da cor branca imaculada. As
celas eram todas pequenas, limpas e individuais, a maior parte
estava vazia, pois os presos de outros presídios ainda não haviam
sido transferidos para lá.
Carlos caminhou durante alguns minutos,
passando por várias alas até chegar ao bloco F onde ficavam os
presos psicóticos, por enquanto só havia um: o cliente. O lugar
possuía um silêncio sepulcral, as únicas coisas ouvidas eram os
ecos dos passos . Finalmente chegaram até a sela 206 onde ficava o
cliente de Carlos, a porta foi aberta pelos carcereiros. Carlos foi
o único a entrar. A porta foi fechada. Durante alguns minutos
observou o lugar: uma cama embutida na parede, uma latrina, uma mesa
branca e uma cadeira da mesma cor, eram os únicos móveis da cela.
A parede parecia ainda mais branca que a do corredor.
Entretido como estava, só notou a presença
do cliente quando esse se moveu. Os dois homens se fitaram durante
alguns segundos. Tirando a altura eram contrastes perfeitos.
Carlos era alto, 1.90m, 100kg de pura
massa muscular, a pele negra, a boca grande e de dentes muito
brancos, os olhos pretos que demonstravam frieza , usava um terno
preto e sobre ele um garbadini da mesma cor, a cabeça era raspada ,
usava bigode e cavanhaques finos. O outro, “o padre fazedor de
anjos”, era magro, branco pálido , doentio, cadavérico, o rosto
um amontoado de rugas, os olhos eram de um azul profundo, na cabeça
tufos de cabelos brancos, os dentes não tinha, usava chapa, vestia
o uniforme branco de todos os presidiários.
Os dois homens se olharam durante alguns
minutos sem nada dizer, talvez a única outra semelhança entre eles
fosse a expressão de seus rostos: frios, de uma calma fria, como máscaras.
-Gostaria de se sentar?- perguntou o
padre, a voz rouca e baixa , como a de alguém que tivesse
resfriado.
Carlos sentou na cadeira bem próxima do
velho. Agora se olhavam nos olhos, ficaram assim durante alguns
minutos, sem desviarem o olhar, encarando-se como dois pugilistas
que logo se enfrentariam.
- Presumo que o Senhor não é meu
advogado. - afirmou o velho .
- Sim - respondeu Carlos , a voz grave e
firme e continuou - Sabe por que estou aqui?
- Sim - respondeu o velho sem mudar o tom
de voz, sem demonstrar medo -- Veio para me matar! Foram eles, não
foram? O casal de ricos!
- Claro, cometeu o erro de matar filhos
de ricos! Pobres e órfão ninguém se importaria, aliás antes de
fazer o que vim fazer, gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
- Sobre os crimes? O porque de eu Ter
matado aquelas crianças?
- Sim! Na verdade nunca fiz isso antes,
nunca conversei com alguém antes de matar esse alguém!
- Para tudo há uma primeira vez!-- disse
o padre, a voz mais animada -- Posso lhe responder o que quiser,
considerarei isso como uma confissão! Principalmente feita por alguém
que conheci um dia! Faça-as Carlinhos!
O assassino fitou o padre durante alguns
segundos, seu rosto teve uma ligeira mudança.
- Acho que esta enganado padre! Nunca o
vi antes!
- Não tente me enganar! Eu nunca esqueço
uma fisionomia! Você pode ter crescido, mas ainda se parece com
aquele garotinho órfão que conheci um dia! Pensei que seria um
cientista ou um jornalista! Você era uma criança muito
perguntadeira!
- Sim!--interrompeu Carlos -E agora sou
um assassino de aluguel! E você? É um maníaco, um assassino de
crianças!
O padre o fitou durante alguns segundos.
Seu olhar era calmo, todo ele parecia envolvido numa aura de
placidez. Iniciou uma fala firme e modulada, aperfeiçoada em seus
anos de sermões.
-Não sou um assassino! Sou um
instrumento de Deus! Sou o anjo da morte, da salvação e da redenção!
Sabe, meu pobre Carlinhos, o mundo é um lugar terrível, pensava
que fosse o purgatório! Agora sei que é o próprio inferno! Sabia
Carlinhos que o orfanato foi fechado? Claro que não! Você é igual
a todas as outras pessoas, vive somente para si! Sabe qual é o
problema do mundo? Não há mais fraternidade, nem amizade, tampouco
há esperança! Só solidão e vazio! Você sabe, tem idéia de
quantas crianças sem teto, sem esperança de vida há por ai? Tem
idéia do desespero que o mundo se tornou? Você sabe por que as
pessoas têm filhos hoje em dia? Sabe? Eu lhe digo: Vaidade! Pura
vaidade! As pessoas não têm tempo de cuidá-las e essas crianças
crescem sem carinho, pobres de amor, serão futuros exploradores,
predadores da própria espécie! O dinheiro é a nova religião!
Tudo se faz para consegui-lo! Quem não foi amado nunca saberá o
que é amar! Falo isso daqueles que tiveram ou têm pais, os órfãos
como você se tornam ainda piores! Os filhos de ricos serão
predadores e o dos pobres? Serão as vítimas! O homem é o lobo do
homem! Você é um exemplo disso! Era um órfão, agora trabalha
para os ricos, mata pessoas por dinheiro! É servo dos teus
inimigos!
- E você, padre? O que é? É um
assassino muito pior do que eu! Matar crianças! Isso é uma
monstruosidade! Eu mato homens adultos! Jamais mataria uma criança!
Você é um lunático! Suas idéias são absurdas, ridículas! Você
não é nem sombra do que era! Eu me lembro de você padre: um homem
bom que se interessava pelos outros, queria ajudar a todos, você me
ajudou até onde pode! Agora está louco!
Os dois homens se olhavam novamente,
olhos nos olhos. Carlos levantou-se, caminhou até a mesa onde havia
deixado sua pasta, o padre continuou onde estava. De dentro da pasta
o assassino tirou uma seringa de plástico, caminhou até o padre,
arremangou o uniforme dele, a agulha penetrou no braço do padre.
-Faça seu trabalho Carlinhos, você esta
sendo pago para isso! Eu te dou o meu perdão! Deus também te dará
o dele!
O assassino o fitava, segurava a seringa
mas não apertava a ampola.
-Termine o que começou-disse o velho
-Mas saiba de uma coisa : Matei aquelas crianças, aqueles anjinhos,
para que eles fossem se encontrar com Deus como seres puros e
inocentes! Se isso te serve de consolo: eles não sofreram! Fui
habilidoso ao matá-los! Sabe de uma coisa, Carlinhos? A inocência
dura muito pouco, esse mundo é um inferno, o mal reina e sempre
reinará! Acredito em Deus e acredito em céu, poupei essas crianças
de uma vida de desilusões, sofrimento e desespero! Sabe aquele
ditado "A esperança é a ultima que morre"? É uma grande
mentira, a pior de todas , a esperança já está morta há muito
tempo! Os próprios homens a mataram! Jesus morreu por nada! Sua
mensagem não foi entendida! Não sou louco, Carlinhos! Só não
acredito mais na vida nesse mundo! Vamos, meu querido, aperta essa
seringa!
O rosto de Carlos demonstrava dúvida, a
mão tremia sob a seringa.
Carlos soltou a seringa que ficou presa
no braço do padre apenas pela agulha. Correu até a porta e, sem
olhar para trás, começou a bater na porta.
-Guarda! Guarda!- a porta é aberta.
Carlos passa correndo e derruba o vigia. Corre pelo corredor numa
velocidade espantosa. Ao se aproximar da última ala ele para, ainda
consegue ouvir os gritos do padre "Eu também quero ir para o céu",
alguns carcereiros passam por ele. A porta para a rua esta aberta,
consegue chegar até o lado de fora .
A barca esta saindo. Carlos tem que
correr e dar um salto para conseguir subir a bordo. Consegue. Os
outros passageiros o olham . Carlos caminha até um deles: um homem
baixo que fuma um cigarro. O homem o fita assustado.
-Pode me conseguir um cigarro?-o homem
nada responde apenas lhe dá o pedido e o fogo. Carlos vai até um
canto isolado da barca, olha para o relógio, são quase quatro
horas, os outros passageiros param de o observar.
É noite quando o assassino chega na casa
dos patrões. Ele esta sentado num sofá de couro na sala de
visitas. O lugar é grande com vários quadros, um Renoir está
sobre a lareira , na outra parede um grande relógio cuco marca sete
horas da noite, no chão vários vasos chineses com flores exóticas
enfeitam o ambiente, há duas portas, por uma delas entram o casal e
dois seguranças.
Leonoura vem vestida com um vestido preto
de festa que realça os contornos de seu corpo, o mesmo corpo de
seis anos atrás quando pousou nua para uma revista masculina. Os
cabelos negros soltos até o meio das costas. Ela vem de braços
dados com o marido: Manuel, bem mais baixo que ela e que deve sua
boa aparência apenas as roupas e sapatos que veste, além do rolex
de ouro.
Os seguranças vestem ternos pretos, um
é um alemão com ar bonachão o outro é um moreno com aparência
meio índia. Os dois estão armados. Carlos consegue ver o volume
das armas por baixo dos paletós.
-Aceita uma bebida?—pergunta o empresário
com voz um pouco trêmula.
-Não bebo em serviço—responde Carlos
enfaticamente.
-Bem sei do serviço—diz a mulher
visivelmente irritada—Não matou o velho! Sabemos disso! Depois de
todo trabalho que tive! Nove meses inchada, gorda, horrorosa!
Aqueles enjôos! Tudo isso para quê? Para que um lunático matasse
meus filhos! Maldito louco!
-Você pode ter outros!—diz Carlos com
ar provocador.
-E estragar meu corpinho? Uma gravidez já
foi o suficiente!
-Você deveria ter feito seu trabalho!
Isso irá prejudicar sua reputação! Eu não usarei mais os seus
serviços e não o indicarei para mais ninguém!
-Isso não importa!—diz Carlos com ênfase—A
partir de hoje estou mudando de profissão!—rapidamente puxa a
arma com silenciador e dispara dois tiros certeiros, um no rosto do
alemão bonachão e outro na testa do moreno com ar indiano.
Manuel fica paralisado no sofá. O copo
treme em sua mão. Leonoura abre a boca para gritar. Carlos faz um
sinal para que ela fique em silêncio, então aponta a arma para o
coração do empresário que se encolhe apavorado soltando o copo de
uísque que se derrama no colo. O líquido mistura-se com a urina
que já molha o sofá de couro e o carpete persa.
-Ui!—geme o empresário, seu corpo
tomba inerte sob o sofá.
Carlos levanta-se , caminha até a mulher
que o fita de cima abaixo parando o olhar na arma .
-Por favor não me mate! Eu faço tudo
que você quiser!— a voz assumindo um tom sedutor.
-Pelos velhos tempos. Lembra?-e começa a
se despir.
-Belo corpo!—diz o assassino—Será ótimo
repasto para os vermes!—aperta o gatilho até descarregar o que
restou das balas.
Pouco depois Carlos retira-se da casa com
um dos carros de Manuel. Ao ligá-lo o relógio do painel marca sete
horas e vinte e três minutos. Além do carro leva o rolex de ouro e
as carteiras dos mortos. Dentro do carro ele abre sua própria
carteira e retira uma foto, na foto aparecem duas pessoas: um menino
negro e de corpo esquelético e um homem grande e loiro vestindo uma
batina.
Carlos olha para a foto, depois se olha
no espelho retrovisor.
- Agora , meu velho, estamos novamente do
mesmo lado!
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