O Tempo do Cristal

 Maria Helena Bandeira

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0154]
[Autora: Maria Helena Bandeira]
[Título: O Tempo do Cristal]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 3.480]

 

Olhou para o alto.

 

As escadas entrelaçavam-se num desenho infinito que se perdia nas profundezas acima dela. As vezes pensava sobre o que haveria além dos outros estágios. Mas era uma questão fútil. Não havia como descobrir. Não para ela ou seus iguais.

 

Voltou a atenção para Logod. Também admirava o brilho metálico das escadas e sorria.

 

Ficaram assim, mudos, durante um momento, até que a sirene soou.

 

Ele se desprendeu dos seus braços.

 

"Temos que ir. É o sinal." Safir concordou, desapontada. Debruçou-se ainda alguns minutos, olhando seu reflexo na íris azul.

 

Depois, rapidamente, tomou a escada mais próxima em direção ao abismo lá em baixo.

 

Descia distraída, o olhar perdido, através dos sucessivos patamares, os degraus diminuindo gradativamente, até sumir do ângulo da visão.

 

Quando chegou ao seu setor, pulou agilmente da escada rolante e seguiu pelo Ramal Violeta.

 

* * *

 

Logod subiu até o 734.

 

Saltou e foi deslizando pela esteira, distribuída como uma ponte sobre o abismo entre as escadas.

 

Nas pirâmides sextavadas abandonou a esteira e apoiou o dedo sobre o painel. As portas se abriram e ele entrou.

 

Um enorme cansaço o envolvia.

 

Mas o tempo era curto para ele.

 

Sentou-se diante do cristal refletor e com o agudo Letteri de ponta brilhante fez um corte diagonal no rosto, da órbita do olho esquerdo até o pescoço.

 

Com um gesto seco, retirou a pele daquele lado.

 

Depois, repetiu a operação na face direita.

 

Colocou os globos oculares dentro do recipiente de cristal e guardou-os, assim como os dentes e os cabelos.

 

Os pedaços de pele foram se juntando no reprocessador.

 

Era pena estragar um corpo tão perfeito, mas não havia outra maneira. A carne não se conservava bem por muito tempo.

 

Quando terminou a operação, contemplou sua verdadeira imagem sem nenhum sentimento especial.

 

Caminhou até o meio do aposento.

 

Ao seu toque, o chão se abriu, revelando um nicho, pouco maior do que um homem adulto, onde se deitou. Então, apagou as luzes.

 

As portas do alçapão deslizaram suavemente sobre ele.

 

Tudo ficou outra vez vazio e silencioso.

 

* * *

 

Safir continuou pelo Ramal Violeta.

 

Estava sempre preocupada com o que havia além das plataformas conhecidas. Há muitos anos atrás, ninguém sabia bem quando, o mecanismo que regulava os rolantes, acima dos 3005 positivos e abaixo dos 1643 negativos, se quebrou. Expedições foram organizadas, durante épocas sucessivas, mas os exploradores nada conseguiram além de subir ou descer intermináveis degraus. Outros nunca mais voltaram dessa jornada ao desconhecido.

 

Então, todos desistiram.

 

Admirou a luz violeta que se refletia nas estruturas metálicas através da descida vertiginosa abaixo dela, até ficar ligeiramente tonta. Precisou se apoiar no corrimão da plataforma. Mas não havia perigo. Seus sapatos magnéticos ficavam firmemente colados na prancha, no momento em que pressionava os trechos imantados. Quando a esteira parava, a polaridade se rompia automaticamente e ela podia caminhar livremente outra vez.

 

Ao chegar aos Edifícios, enormes construções de metal e vidro que atingiam vários estágios, a esteira parou e Safir saltou, agilmente. Passou pelas hortas hidropônicas, dispostas simetricamente como jardins suspensos e, mais adiante, pelos próprios jardins que formavam quadros fauvistas sobre o abismo.

 

As luzes começavam a se apagar.

 

Desde que os ersatzs surgiram, nos estágios inferiores, o portão principal era mantido trancado.

 

Ela não temia esses seres desconhecidos, embora seu corpo jovem e bonito fosse uma mercadoria bastante apreciada entre eles.

 

Diziam que tinham muitos disfarces e era difícil identificá-los quando assumiam corpos de pessoas comuns ou mesmo nos seus corpos reprocessados.

 

Mas Safir não acreditava nisto. Confiava no seu instinto para reconhecer uma carne habitada quando cruzasse com ela.

 

Abriu a porta de casa e começou a perceber a tensão no corpo, que a presença de Logod disfarçara. Jogou-se sobre o espreguiçador que vibrava suavemente, relaxando os músculos doloridos.

 

Logod!... Ele tinha tudo que sempre sonhara num homem e mais alguma coisa. Sentiu a pulsação se acelerando, o sangue correndo quase perceptivelmente dentro das veias.

 

Logod!...

 

Um calor agradável, que ajudava a adormecer, com a ondulação suave do espreguiçador...

 

* * *

 

"... já perdi a conta dos corpos que habitei. Tantos sonhos, amores, medo e desilusão tomados de empréstimo. Vivi mil vidas e morri mil mortes. Gostaria de parar enfim, mergulhar minhas raízes num fundo poço sem fim... mas preciso ir embora por causa de Safir, porque, se eu não for, ele estará perdida... meu vício é alimentado por anos de compulsão!... se você soubesse, meu amor!... houve um tempo em que ser apenas consciência parecia a única saída para nossa inexorável degeneração. A mente pura. O racional brilhando acima de tudo. Os ersatzs aboliram a emoção junto com a carne. No início, guardávamos as mentes no cristal, nas esperança sincera de, um dia, devolver os corpos aos seus donos... mas isso jamais aconteceu... depois que você começa é uma volúpia tal que nada pode extinguir. Fui caindo, caindo e me encharcando em entranhas desconhecidas, sentindo o prazer das vísceras alheias, de fibras, músculos e sentidos... incomparavelmente sempre mais!... e mais!... vou partir por você, Safir, pela emoção que despertou nesse corpo reprocessado, contaminando a minha mente. Como explicar o inexprimível?... Sua carne é jovem e íntegra, conhecerá um outro corpo seu igual para viver essa pequena vida transitória que hoje invejo tanto!... a vertigem da fragilidade!... o supremo prazer da finitude!... Nada disto é para mim, meu amor inesquecível e mais querido."

 

A mente ainda pulsava na memória das emoções do último reprocessado. Em algum tempo, elas iriam sumir no infinito linear do racional absoluto.

 

Isso tornava o prazer mais agudo, embora a dor mais funda.

 

* * *

 

O homem com o hábito tomou a escada rolante iluminada pelo brilho azulado que se refletia nos degraus, transformados numa esteira de luz àquela hora da madrugada.

 

Em volta, tudo era silêncio.

 

Não havia ninguém no complexo de plataformas que se entrelaçavam acima e abaixo dele.

 

Numa precaução inútil, aconchegou mais o capuz contra o rosto mascarado, onde as lentes escuras dos óculos refletiam e estilhaçavam os milhares de pontos dos feixes de iluminação. Suas mãos enluvadas seguravam com força o corrimão metálico, traindo uma tensão crescente à medida que descia, abandonando a segurança do setor azul e penetrando no violeta dos Seiscentos.

 

Abaixou a cabeça e se envolveu mais ainda na veste escura.

 

Ela estava lá.

 

Sempre soubera disso. Através de todos os séculos de luz e trevas, sabia que estaria esperando no momento exato da impossibilidade.

 

Aspirou o ar com dificuldade, os dedos se enterrando no metal frio, como se a sua vontade pudesse parar a escada que descia, interrompendo o fluxo dos minutos que o levavam para aquele encontro.

 

"Logod!..."

 

O homem com o hábito se virou devagar, enquanto a escada parava na plataforma.

 

Ela o aguardava, sozinha, os cabelos luzindo na escuridão.

 

Abandonou todos os pensamentos para se concentrar na intensidade daquele manto de fogo. Eles eram tão profundamente!...

 

Ela se aproximou, inquieta, observando o vulto embuçado, escondido atrás das lentes invioláveis.

 

"Logod!... é você, não é? Porque você sumiu?... Procurei em todos os estágios conhecidos..." sua voz quebrou.

 

Queria dizer alguma coisa. Negar. Como ela poderia ter certeza? Logod era uma determinada qualidade de pele, cor, volume e sentimentos...

 

Mas sabia que era inútil.

 

De alguma forma misteriosa, ela o reconhecera. Aquela porção indisfarçável que restara dele.

 

Por um momento ficaram frente a frente.

 

Safir, clara e luminosa contra o fundo escuro da plataforma.

 

O homem com o hábito prendeu, delicadamente, suas mãos entre os dedos enluvados. Depois, sem uma palavra, saltou para os degraus que corriam abaixo dele.Ela o viu ficar cada vez menor em meio à penumbra violácea do abismo, até sumir completamente da visão.

 

A verdade surgiu como uma lâmpada estourando num flash doloroso.

 

Logod era um ersatz.

 

Curvou-se sobre o próprio corpo com um gemido e foi desabando devagar no frio chão metálico da plataforma.

 

* * *

 

Escovou os cabelos até ficarem quase lisos, depois torcendo vigorosamente, enrolou-os atrás da cabeça e prendeu com uma travessa forte.

 

No cristal refletor, seu rosto, severizado pelo penteado austero, estava pálido. Olheiras apareciam sob a pele fina e os ossos pareciam querer rasgar a epiderme delicada das faces.

 

Emagrecera muito. Sua recuperação fôra difícil e longa. Mas, durante todas aquelas semanas de repouso e alimentação especial, um único propósito a mantivera firme e por ele readquirira a saúde e a vontade de viver.

 

Com passos decididos, ultrapassou o portão, abandonou as pirâmides e tomou a esteira em direção à plataforma do Setor Violeta.

 

Estava quase deserta àquela hora.

 

Cambaleou ligeiramente diante da esteira luminosa dos degraus que corriam sem parar.

 

Prendendo a respiração, começou a descer, distraindo-se com os diversos estágios que, como num filme muito rápido, passavam através das estruturas:

 

Edifícios de vidro ou metal, brilhando com reflexos que se tornaram rosados ao chegar aos Quatrocentos.

 

Pirâmides, cilindros, esferas, prismas facetados em seis, oito lados iguais, cujas estruturas se afundavam nas profundezas.

 

Continuou a descer e ultrapassou o verde dos Trezentos.

 

Seu coração falhou algumas batidas e sentiu as pernas trêmulas quando viu surgirem as luzes azuladas dos Duzentos.

 

Era o último estágio que já visitara. A maioria das pessoas de sua condição desconhecias os setores que se aproximavam do zero, geralmente povoados por figuras estranhas, comerciantes que perambulavam entre os vários andares, aventureiros e prostitutas.

 

Esses estágios passaram quase desapercebidos tal a sua agitação mental e o cansaço pela descida vertiginosa.

 

Foi com alívio que percebeu o brilho esbranquiçado da Plataforma Zero.

 

Lá havia bastante gente e as escadas que subiam e desciam estavam repletas. O ambiente era enfumaçado e Safir sentiu uma ligeira falta de ar, agravada pelo perfume excessivo que emanava daquela fauna desconhecida.

 

Figuras embuçadas como Logod, mulheres com penteados que pareciam chapéus coloridos assentados sobre faces pálidas, maquiadas com todos os tons do espectro. Homens altos e musculosos, completamente tatuados até o crânio liso de onde saiam enfeites de ferro e aço, outros metidos em casacos de couro ou pele, os olhos sem expressão.

 

Felizmente, ninguém parecia se preocupar com ela, apesar de sua aparência deslocada.

 

Um casal, unido por correntes tacheadas com pontas, tropeçou em direção à plataforma, as roupas cobertas com luzes coloridas de néon. As mesmas luzes faiscavam em cabelos, colares, pulseiras brincos e botas da maioria dos transeuntes, refletindo-se no chão metálico em milhares de pontos luminosos que atordoavam em contraste com a escuridão do resto do Setor.

 

Tinha a impressão que a maioria estava drogada ou louca.

 

Mas não importava.

 

Saltou na plataforma de desembarque, tomou a esteira rolante e procurou um dos hotéis desse lugar cuja principal função era a hospedagem e o trânsito.

 

Abaixo dele, começavam os negativos.

 

* * *

 

Safir nunca teve uma lembrança muito clara da descida através dos estágios inferiores. A febre que começara no Setor Zero e o extremo cansaço físico e mental transformaram a experiência numa pasta confusa de brilhos que explodiam entre as diferentes plataformas, numa sucessão de degraus que escoavam, interminavelmente, para baixo, cada vez mais para baixo, dentro daquele abismo de sombras.

 

Quando soava a sirene que anunciava o fim da Hora Peregrina e o apagar das luzes, era como um autômato, treinado através de anos de hábito, que procurava um estágio onde se abrigar, um hotel qualquer no nevoeiro luminoso para descansar os membros doloridos.

 

Mas continuava a descer.

 

O passado... O pai morto na pira incandescente... Logod... Tudo era uma lembrança só, uma ferida viva e aberta.

 

O leve sacolejar da escada entrando na plataforma despertou sua mente entorpecida.

 

Percebeu a escuridão que a envolvia, acalmando seus olhos febris.

 

Já havia ultrapassado os últimos estágios luminosos, mas o mecanismo dos rolantes ainda funcionava e, abaixo dela, corriam os degraus mergulhando na treva absoluta.

 

No desembarque, o negrume era cortado por tochas que clareavam as paredes descascadas.

 

Ela cambaleou em direção à luz e foi amparada por uma figura envolta num hábito.

 

Outras surgiram, num movimento ordenado e silencioso. Carregaram seu corpo ardendo de febre para a escuridão desconhecida.

 

Antes de perder completamente a consciência, ainda pôde avistar os degraus rolando no vazio abaixo dela.

 

* * *

 

Ele era belo.

 

O cabelo caia liso até os ombros, como já tinha sido moda nos Seiscentos.

 

Quem seria o verdadeiro dono desse corpo?

 

Safir pensava, confusamente, enquanto caminhavam pelos corredores que desembocavam em pontes sobre o abismo e se transformavam em túneis de metal esculpido.

 

Um jovem comum, que gostava de música e Dancetrips nos fins de semana. Talvez tenha deixado uma namorada em algum lugar...

 

Sentiu uma raiva intensa crescer dentro dela contra o ersatz que seguia, entre a penumbra, com passos elásticos de bailarino.

 

Quando chegaram a uma grande edificação sem janelas, ele parou.

 

O portal tinha um tímpano com figuras trabalhadas em bronze e era cercado por colunas também esculpidas onde corpos musculosos se entrelaçavam numa espécie de dança-luta obscena e feroz. Todos os detalhes anatômicos tinham sido registrados com uma nitidez furiosa de amor à forma humana.

 

O efeito era magnífico e terrível.

 

Safir parou, entre o susto e a emoção, mas o rapaz, delicada e firmemente, levou-a para o interior.

 

Outra visão inacreditável.

 

Ainda mais sinistra e estranha que a do portal de entrada:

 

Uma vitrine de vidro translúcido protegia uma coleção de corpos jovens e estáticos como bonecos de cera, os olhos abertos sem expressão, brancos como mármore, envoltos numa névoa fina de gelo.

 

Homens e mulheres nus, de altura e compleição variadas, expostos como manequins numa loja.

 

Sem ligar para sua reação, o ersatz abriu uma espécie de caixão acolchoado, pouco maior que o seu tamanho e fez um gesto indicando que deveria deitar-se nele.

 

Safir tentou fugir, mas ele foi mais rápido e a segurou pelo braço, fazendo com que girasse violentamente, caindo de encontro ao seu corpo forte.

 

"Logod!..." ela murmurou aterrorizada.

 

O ersatz sorriu:

 

"Não se preocupe... você vai para o Cristal... e ele deve ficar com o seu corpo. Foi escolha dele e sua descoberta. É justo."

 

Ela se debateu, dentro do abraço de ferro.

 

"Não!... Logod me ama!... Eu sei, eu sinto que ele me ama de verdade!...".

 

"É claro..." a voz do ersatz era fria "os corpos, mesmo os reprocessados, têm sentimentos como qualquer humano. Eu sinto tanto quanto você, embora não tão intensamente... é uma mulher muito bonita... é natural que Logod...

 

Com um movimento brusco, Safir conseguiu se arrancar dos braços dele:

 

"Eu conheço as relações doentias dos ersatzs, mas não é disso que estou falando!... é de amor!..."

 

Parou, desanimada. Não havia como fazê-lo entender. Era apenas uma forma de adiar o inevitável....

 

Novamente seu gesto foi cortado pelo jovem ersatz que a recolheu no colo. Ela lutou e se debateu, cega de ódio e terror. Mordeu e unhou aquela carne roubada.

 

Foi como como lutar contra um rochedo.

 

Calmamente, ele a colocou no caixão, prendeu os braços e pernas e, com um fino cilindro de metal, injetou no seu sangue uma substância que a deixou a principio absolutamente calma, depois distante, até perder o domínio de si.

 

* * *

 

Logod arrumou as pressas a pele do rosto, sem se preocupar com a perfeição do trabalho. Colocava olhos, cabelos, apenas maquinalmente, para manter uma aparência razoável.

 

Precisava agir rápido, antes que a mente de Safir aderisse ao Cristal.

 

* * *

 

"... posso perceber as coisas nitidamente, embora sem ver no sentido estrito da palavra. O sentimento de medo, o amor a Logod estão em mim, com a memória de tudo o que sempre fui, mas não tenho nenhuma sensação. Só o pensamento latejando. Uma forma de vida própria... ritmicamente... sob um impulso desconhecido... esta corrente de energia que vem do que sempre foi para o que sempre será... um presente contínuo, um não acabar fechado sobre si mesmo... pulsando como um coração de oceano... abissal... profundo e inevitavelmente simples. Nada é mais perfeito do que a simetria das linhas unindo-se em ângulos até fechar a questão do Universo... Eu sei, afinal!..."

 

* * *

 

Na vitrine de vidro polido, o corpo de Safir se destacava pela luminosidade dos cabelos. A névoa de gelo que envolvia as figuras dava um aspecto de sonho àquela falsa câmara mortuária.

 

Logod parou diante dela com as veias latejando. Tentava manter uma tranqüilidade que não tinha. Sua carne não agüentaria muito tempo o frio do ambiente e o acúmulo de emoções. Os corpos reprocessados, usados provisoriamente durante as trocas, eram feitos de sobras de homens e mulheres inutilizados por doenças e ferimentos. Tinham uma resistência maior porque passavam por técnicas de conservação que os íntegros não agüentariam. Em compensação, duravam menos tempo e a pele precisava ser substituída periodicamente.

 

Como portador de um reprocessado, tinha direito de escolher um novo corpo. Estava de acordo com as regras. Mas, dentro dele, o coração do outro batia como se fosse a primeira vez.

 

Entrou na câmara, sentindo o frio paralisar o sangue dentro das veias. Milhões de agulhas percorriam seu corpo enquanto se concentrava para penetrar a carne de Safir.

 

Colocou suas mãos sobre as palmas geladas e rígidas. Pouco a pouco foi sentindo o calor se espalhar por elas. As mãos delicadas se abriram e ele flexionou dedos e braços. Debilmente, sentiu o coração batendo dentro dele e o sangue se espalhando como uma corrente de energia, cada vez mais rápido, por entre artérias e veias endurecidas.

 

Uma emoção indescritível!... sentir-se num novo corpo que desperta!... Mas agora a emoção era mil vezes maior... O corpo de Safir!... Enquanto ondas agitavam as células renovadas, percorria com as mãos as linhas da cintura, o busto firme, os ombros delicados. Depois, desceu pelos quadris, as pernas, o sexo que latejava na descoberta.

 

Ele nunca possuíra Safir tão completamente como agora. Sabia cada centímetro de sua pele e de seus nervos e via por seus olhos.

 

Mas ia devolvê-los a ela. Dar àquela que amava o dom da finitude.

 

Quando sentiu que a temperatura atingira o nível humano, saltou do pedestal dentro da vitrine, carregando com dificuldade o corpo reprocessado que já não poderia servir a mais ninguém.

 

Do lado de fora, havia dois nichos para o despejo dos corpos abandonados - REUTILIZÁVEIS e INÚTEIS.

 

Abriu a tampa do último, empurrou o reprocessado delicadamente pelo túnel escuro. Ela voltou a se fechar com um ruído seco.

 

Tinha pressa de salvar a mente de Safir.

 

Os humanos aderiam rapidamente ao Cristal. Uma coisa que Logod nunca entendera. Os ersatz consideravam a estada nele apenas uma passagem, um ponto de apoio, nunca um fim em si.

 

Atravessou os corredores sobre o vazio, os passos ecoando entre o complexo de pilastras e escadas metálicas que o cercavam. Com os olhos de Safir via mal na escuridão. Mas, seguia, o mais rápido possível, estranhando as pernas macias, os pés pequenos. Pouco a pouco ia se acostumando ao ritmo do novo corpo.

 

Então, viu.

 

Emergia do poço escuro, uma pirâmide fina, como um esplêndido falo brilhante e facetado, a base perdendo-se nas trevas desconhecidas abaixo dele.

 

Logod se aproximou apenas o suficiente para que a luminosidade intensa não o cegasse. Apertando os olhos, concentrou-se na mente de Safir.

 

Não houve resposta.

 

"Safir... Sou eu... Logod!... Sou Logod, Safir!...".

 

De muito longe, dos confins de sua consciência absolutamente concentrada, sentiu seu murmúrio:

 

"Safir... não quero ser...".

 

Logod insistiu, nervosamente, as mãos começando a suar, o coração galopando dentro do peito:

 

"Safir, por favor!... você é Safir!... eu sou Logod... volte pra mim!... eu trouxe seu corpo intacto...".

 

"Logod... não tem importância... fique com ele... nada importa aqui no Cristal. Tudo é perfeito e precioso... não quero essa carne que se estragará em pequenas emoções inúteis. O Cristal é belo... totalmente. É e para sempre será... para sempre sou."

 

"É uma ilusão!... eu sei, melhor do que ninguém... a imortalidade é uma dor funda e inacabada... Ah, meu amor, você não sabe... não pode saber..."

 

Logod chorava, as lágrimas molhando o rosto delicado que fôra dela, o peito sacudido por soluços. Sofria horrivelmente. Mas qualquer coisa era melhor que a frieza da pedra. Era sua escolha.

 

Amorosamente, deitado ao lado do abismo iluminado pelo brilho frio do cristal, começou a acariciar o corpo de Safir, seu corpo, com as mãos ávidas e sequiosas, até atingir um orgasmo desesperado. Cópula estéril com o objeto que nunca poderia, realmente, possuir. Deveria suportar essa paixão de cinzas, condenado a carregar o corpo que amava.

 

E assim, Logod continuou perambulando entre os estágios. Eventualmente, fazia amor com homens e mulheres, na esperança de, satisfazendo aos instintos da carne, ligar-se outra vez emocionalmente a alguém. Mas era uma esperança maquinal, feita mais de hábito que de sentimento. Gastando os dias, como todo mundo nos corpos habitados, até o final de sua existência pessoal.

 

Então permaneceria, enfim liberto de Safir, mas preso, inexoravelmente, à miséria de Ser.

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