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Entrei na cabine e esperei. Precisava de
muito tempo, um tempo infinito para conseguir entender. Cliquei em
milhares de anos atrás, especifiquei as coordenadas e sentei. Logo
tudo ficou confuso como acontece nos pedidos extraordinários. A
porta da cabine se abriu alguns segundos depois.
Estava no meio do nada. Para onde olhasse
só via estepes geladas que um vento fino fustigava. Mas não sentia
frio, é claro. Não há sensações corporais térmicas no Tempore.
Andei um pouco, perdida, olhando o céu
que era intensamente azul, de uma tonalidade que já não existia na
Terra há muitos anos. Era agradável estar ali, sozinha na planície
gelada, debaixo de um céu de cobalto.
Caminhei sem destino, recitando os
mantras. Parecia tudo sempre igual e, só por isto, podia ser
diferente dentro de mim.
O tigre apareceu de surpresa. Enorme, uma
criatura fabulosa, de músculos elásticos e fortes, esgueirando-se
sobre o chão gelado com uma graça lenta. Duas grandes presas alvas
sobressaiam dos lábios que uma língua vermelha e úmida lambia de
vez em quando. Aproximava-se de mim, mas eu não tinha medo.
Esperava.
O animal pareceu hesitar e eu sentei,
abrindo os braços e ainda recitando os mantras. Ele foi chegando
cada vez mais perto, lentamente, os olhos dourados fixos em mim,
hipnóticos.
Eu também o fitava, calma. Desta vez não
haveria desistências.
Repetia os mantras cada vez mais alto e a
força deles parecia impulsioná-lo para frente. Os olhos dourados já
estavam a uma distância de dois metros, avaliando, algo tensos,
famintos. A língua se tornara nervosa, mas o tigre se quedara, estático,
todo ele uma tensão absoluta, preparando o bote.
Com graça e agilidade felinas, ele
saltou sobre mim e eu caí, espalhando pedaços de gelo que se
estilhaçaram com o choque. O peso dele me tirou, por um momento, a
respiração. Fiquei ofegante, sentindo suas enormes patas no meu
peito, os olhos amarelos bem próximos do meu rosto.
Indagadores talvez? Não tive tempo de
descobrir. Ele abocanhou meu pescoço com as presas fortes, ouvi um
estalo, uma nuvem escura cobriu meu olhar. Ainda percebi, como num
sonho, o sangue se separando de mim e formando um rio vermelho que
tingia de cor a alvura uniforme da estepe gelada.
Quando regressei à cabine, uma estranha
paz me invadiu. Podia voltar ao meu verdadeiro tempo. Estava pronta
para enfrentar o que me esperava lá fora.
Abri a porta. Chovia como sempre. As
gotas se refletiam nas luzes dos altos edifícios de cristal.
Pessoas passavam por mim, indiferentes e eu a elas.
Só que agora eu tinha um tigre, tinha
uma morte, tinha uma experiência verdadeiramente minha.
Suicídios não são permitidos nesta época,
mas usar o tempo sim.
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