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Era para ser apenas mais uma noite
enfadonha na rotineira vida de Teodoro. Primeiro tomaria um banho,
depois iria fazer pipocas e ficaria até cerca de duas horas da manhã
vendo filmes na única tv preto e branco que possuía em seu pequeno
“quitinete”,onde morava desde que havia saído de casa e isso
fazia um bom tempo:doze anos, três meses, vinte e dois dias, sete
horas e vinte e oito minutos e meio( ele era uma pessoa que
apreciava a exatidão).
Caminhou até o banheiro, abriu a porta e
se deparou com aquilo, aquela coisa medonha, terrível, assustadora,
bizarra, anormal, que gelaria o sangue de qualquer pessoa normal,
porem Teodoro não era normal, pelo menos não na normalidade
exigida para que ele visse aquela monstruosidade sentada em sua
privada, naturalmente defecando e fazendo uma coisa bem comum para
alguns seres humanos: lendo um jornalzinho para aplacar a sensação
desconfortável de quando a merda deixa os intestinos rumo ao vaso
sanitário, depois ao esgoto e se tivesse sorte daria um mergulhinho
na praia.
Teodoro era quase cego! Usava óculos
somente no trabalho e quando religiosamente via seus programas
favoritos em sua bendita tv, no resto do tempo, quando estava em seu
lar que conhecia como a palma da mão, ficava sem óculos, afinal de
contas desde que havia vindo morar nesta quitinete nunca havia
trocado nada de lugar, pois além de obsessivo pelo tempo também o
era pela organização de suas poucas e amadas coisinhas e jamais
pensaria em ter alguma visita desejável -pois não tinha nenhum
amigo, nem mesmo um familiar vivo- e nada de valor para que alguém
pensasse em roubá-lo, e de maneira nenhuma pensaria em ter sua casa
invadida por aquela coisa que nem havia notado( além de fanático
por tempo e organização também era muito distraído).
Teodoro começou a se despir, a criatura
continuava seu trabalho de evacuação fazendo os ruídos necessários,
o dono da quitinete nada ouvia, pois além de distraído era duro de
ouvido.
Já completamente nu foi cumprir seu
ritual diário, sempre antes do banho dava uma aliviada em seu
intestino que funcionava sempre num mesmo horário, entre sete e
sete e meia da noite, nunca antes ou depois.
Dirigiu-se até a privada e então notou
um borrão verde e branco que tapava a visão-borrão da privada ,
estacou a um passo da privada forçando os olhos para tentar
enxergar o que tapava sua visão. Seu intestino começou a dar
sinais de que queria se livrar do que o enchia com uma sonora liberação
de gases, o borrão verde e branco moveu-se repentinamente.
Agora Teodoro sabia haver alguém junto
de si, dentro de seu banheiro, sentado em sua privada, defecando.
Tinha certeza disso, caminhou, sem fazer gestos bruscos (com medo
que o seu invasor se assustasse e o atacasse), até próximo da
porta e pegou a única vassoura que possuía, esta pendurada num
prego atrás da porta, então, já armado, falou, na realidade
gaguejou:
-Que...Que..Quem es...Esta aí? - e com a
voz mais segura: Identifique-se!
O borrão verde e branco soltou um
grunhido. O borrão branco caiu no chão, agora Teodoro só via o
borrão verde que parecia crescer, provavelmente levantando.
Teodoro brandiu sua vassoura e disse com
sua voz forçosamente disciplinadora como a de um sargento ao se
dirigir a um mero soldado raso:
- Não se mexa! Fique onde está!-o borrão
verde pareceu diminuir, provavelmente estivesse voltando a sentar na
privada. O “sargento” sentiu-se triunfante, pois o invasor havia
acatado sua ordem.
- Quem é você? O que faz aqui?-disse
Teodoro usando seu modo de falar que já havia dado resultado, porem
só teve um grunhido como resposta.
- Vamos! Responda a minha pergunta! Quem
é você?
- “Grunhido!”
- Não se faça de desentendido! Como
entrou aqui!
- “Grunhido!”
- Pare de resmungar e me responda!
-“Grunhido!”
- Pare de resmungar e me responda!
- “Grunhido!”
- Muito bem, seu engraçadinho! Vou lhe
dar dez segundos para se levantar e sair do meu banheiro, da minha
quitinete ou terei de tomar medidas drásticas!
Viu o borrão verde crescer, estava se
levantando, ouviu outro grunhido diferente dos anteriores, como se o
invasor estivesse... Sim! Estivesse bravo!
- Não tente nada, seu pilantra! Ou lhe
arrebento com esta vassoura!-falou com a voz enérgica, agora não
mais parecia um sargento e sim um general.
O borrão pareceu recuar em direção ao
Box a uns dois passos de distância e soltou um novo grunhido e esse
pareceu a Teodoro um de medo.
O invasor estava intimidado! A moral do
“general” ficou ainda maior sabendo meter medo em alguém (ou em
alguma coisa).
O “sucesso” subiu a cabeça de
Teodoro, fazendo com que desse um grito como de um guerreiro e
brandisse sua vassoura como a uma espada e ainda se aproximasse de
modo violento do borrão verde fazendo com que esse recuasse para
dentro do Box do banheiro.
O coração de Teodoro batia
violentamente, a adrenalina circulava em suas veia, pela primeira
vez em muitos anos ( talvez em sua vida inteira) sentia-se realmente
vivo, aquela coisa , aquele invasor, sendo ou não uma alucinação
fez com que a vida dele medíocre,chata e sem graça se tornasse um
pouco mais emocionante.
Ainda nu, tendo em mãos a vassoura,
caminhou até a sala em busca de seus óculos, pois se o invasor
retornasse seria possível vê-lo, embora achasse que tudo não
havia passado de mera alucinação.
Agora estava equipado com os óculos
fundo de garrafa, a vassoura e uma coragem inabalável e foi
lentamente até o banheiro sentindo aquela sensação de estar vivo.
Da porta, com cautela, olhou para dentro do banheiro, este parecia o
mesmo de sempre com a única exceção do jornal, reconhecido como o
ex-borrão branco, no Box nada havia, nem ninguém, seja branco,
preto, amarelo ou verde.
Entrou no Box, nada aconteceu. Começou a
rir aliviado, era bom sentir-se vivo, um pouco de medo não faz mal
a ninguém, mas o melhor era a sensação de alívio sentida nesse
momento, saber que as coisas incríveis acontecidas somente
existiram em sua imaginação.
Não houve nenhum invasor verde!Tudo fora
apenas imaginação, mero sonho acordado! Então ia se retirar do
banheiro quando de relance viu algo que tornava sua aventura real:
Merda! Sim, merda! Foi a exclamação e
também a visão de Teodoro. Tudo havia sido real, havia vestígios
ou melhor: merdígios.
Teodoro que fora ninguém, depois
soldado, depois sargento e por fim general, sentia uma excitação tão
grande que não poderia ser chamada de medo nem mesmo de coragem.
Era um sentimento novo, um sentimento vanguarda, um sentimento
poderoso e viciante.
Durante muito tempo ficou admirando as
grandes fezes do invasor que possuíam a cor entre branco e
levemente rosado. Num entusiasmo exacerbado levou as mãos à
privada e pegou as fezes da criatura verde, estas possuíam um
cheiro apetitoso e, sem saber de sua fome, agora enorme, começou a
devorar a merda que possuía um gosto exótico, delicioso, peculiar,
único.
Pouco depois a privada estava desprovida
de merda e Teodoro lambia os dedos, nunca havia comido tanto e sem
ficar com azia, peso no estômago nem má digestão, era a comida
dos reis, o néctar dos deuses, o maná dado ao povo escolhido.
Saciado, saiu do banheiro, olhou seus
velhos móveis e sua tv preto e branco, passou em frente ao espelho
viu seu corpo raquítico, olhou-se nos olhos e viu um brilho
diferente, o corpo era o mesmo, mas no olhar brilhava a vida.
Resolveu parar com sua rotina miserável
e agora sabia: sufocante, daquele dia em diante sua vida mudou.
Largou seu emprego de guarda-pega-crachás.
Exigiu um acordo com seu patrão e este
se assustou ao ver um Teodoro tão diferente: sem medo ou timidez,
até mesmo lhe ofereceu uma nova vaga, mas o convite foi recusado.
Teodoro tinha novos planos para sua vida.
Todos os dias ia correr num parque próximo a sua casa,
exercitava-se, enchia-se de saúde e também de merda, pois todos os
dias ao acordar encontrava a privada provida das deliciosas fezes da
criatura verde, esta ele nunca via.
Uma manhã, acordou-se com o som de alguém
no banheiro, em sua cabeça só podia ser a tal criatura, vestiu
apenas uma cueca e foi em direção ao banheiro para tentar se
comunicar com o ser que havia mudado sua vida para melhor. Passou em
frente a um dos muitos espelhos comprados para admirar seu corpo
antes raquítico, desprovido de carnes e agora perfeito. Fixou-se em
seus olhos, brilhantes de tão saudáveis, já não mais usava óculos
e sua visão tornara-se perfeita. Respirou fundo, girou a maçaneta,
deparou-se com três seres, dois grandes e um pequeno com ar jovial,
o último falou com um sotaque estrangeiro (estrangeiro de um outro
mundo-isso Teodoro via, pois tinham leve semelhança com um ser
humano):
- Como se sente meu jovem amigo?
- Nunca me senti melhor em toda a minha
vida!- respondeu entusiasmado e continuou: Devo tudo que sou hoje
graças a vocês e seu alimento precioso!
- Não é preciso agradecer! Não fiz
isso por você, fiz por mim!
Pela mente de Teodoro passou a seguinte
reflexão: “Apesar de suas estranhas aparências devem ser deuses,
como podem ser tão bondosos! Ajudar alguém como eu!”.
O ser pequeno, o de aparência jovial,
grunhiu algo para os outros dois, “A língua dos deuses” -pensou
o humano, então em meio a seus devaneios de estar recebendo a
visita de deuses, sentiu seus braços serem seguros por mãos
fortes.
O pequeno aproximou-se e apalpou o corpo
forte de Teodoro. O Box começou a brilhar, antes de entrar na luz
disse algo aos grandões em sua língua gutural. O humano apenas
fitava a luz com os olhos brilhando de excitação.
- Estou indo para o céu!-gritou Teodoro.
- Não céu!-disse um dos grandes e o
outro completou: Não céu, comemerdaapetitoso, não céu!
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