Pactos, Relógios e Vinhos

 Maurício Wojciekowski

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0150]
[Autor:
Maurício Wojciekowski]
[Título: Pactos, Relógios e Vinhos]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 1.490]

 

Jeffrey estava suando frio, o medo havia se apoderado de todo seu ser, em uma hora ou menos o demônio viria cobrar sua dívida.

Jeffrey havia vendido a alma ao diabo!

Belo negócio que fizera, a sua alma imortal por apenas dez anos de riquezas, luxúria e outros exageros.

É claro que ele havia saboreado cada momento desses dez anos, poderia até tentar dizer que o demônio o tinha enganado, mas isso seria uma grande mentira, cada clausula do contrato assinado com seu próprio sangue havia sido cumprida.

Jeffrey não adoeceu ou precisou dormir durante esses dez anos, nada do que comeu lhe fez mal, as bebidas o deixavam eufórico e as vezes até bêbado mas jamais houve ressaca, teve todas as mulheres que desejou, embora seu gosto por elas fosse um tanto quanto vulgar, não era preciso vender a alma ao diabo para ter as que havia escolhido. Nunca teve problemas com dinheiro que gastava aos montes, esbanjava sem dó nem piedade provando que o que vinha fácil ia idem e depois, no caso dele, vinha fácil novamente, uma fonte inesgotável de dinheiro ao qual ele nunca questionou de onde vinha.

Agora estava apavorado, morto de medo, á meia noite o demônio chegaria e viria buscar sua pobre alma e não havia nenhuma maneira de se salvar. Se pelo menos tivesse feito caridade, dado dinheiro aos pobres e as criancinhas! Se pelo menos houvesse doado algum dinheiro para uma igreja! Talvez assim alguém rezasse por sua alma condenada e o livrasse do inferno, mas ele não havia feito nada disso, durante esses dez longos anos (curtos para quem fazia festa todos os dias) não havia pensado em ninguém, nem mesmo em sua velha mãe que morria a mingua num asilo do governo, um lugar que se assemelhava ao inferno para onde sua alma relapsa seria levada.

Jeffrey não ajudou a ninguém e ninguém rezaria pela sua salvação e mesmo que rezassem deus provavelmente ignoraria os apelos pela alma podre e egoísta desse seu filho ambicioso e preguiçoso.

Dez anos de bonança que custariam uma eternidade de sofrimentos haviam chegado ao fim!

Dez anos que passaram para um Jeffrey em estado de letargia e esquecimento do contrato celebrado. A lembrança havia vindo de supetão a menos de nove minutos. Agora o tempo corria agonizante e o condenado suplicava por salvação. Ajoelhado, as mãos presas uma a outra, a voz uma cacofonia desesperada misturando várias rezas diferentes que ele nunca conseguira decorar, quem o visse nesta posição provavelmente caísse em gargalhadas histéricas e rolaria pelo chão.

Jeffrey era uma paródia de sí mesmo, "o homem mais chique do ano” eleito dez vezes consecutivo, "o amigo das estrelas", "o anfitrião das festas mais badaladas de todos os tempos", agora não passava de um homenzinho ridículo e assustado, estava ajoelhado com seu terno amassado e vomitado por si mesmo, as cuecas cagadas e mijadas, os pés cortados pelos cacos da garrafa de seu vinho de safra raríssima e milionária, o ultimo que havia bebido antes das lembranças do diabólico contrato aflorassem em sua mente e trouxesse as náuseas e o descontrole de seus aparelhos escretor e digestivo.

Jeffrey continuava tentando rezar sem conseguir articular as palavras enquanto o tempo passava e passava. Depois de tentar rezar o pai nosso misturado ao salve rainha e ao infantil meu anjo da guarda olhou para o relógio de pendulo e começou a vomitar de novo: eram cinco para a meia noite.

Cinco minutos para o fim de uma existência miserável durante os primeiros trinta anos graças a sua preguiça doentia e tendência ao fracasso acentuada por sua burrice patológica e aspecto podre de um homem que só tomava banho quando já não mais agüentava seu próprio cheiro fétido. Depois o pacto realizado em uma encruzilhada regado a sangue de porco e iluminado à velas vermelhas que custaram muito barato.

Até hoje Jeffrey nunca soube o porquê do demônio ter feito um pacto com alguém como ele, dando tudo que havia desejado, mas o pior não era essa dúvida, era até preferível nunca ser solucionada, o pior mesmo era saber que a solução poderia vir dentro de míseros três minutos.

Não adiantava mais rezar.

Era tarde demais.

O condenado se levantou e ao mesmo tempo em que a merda mole descia pelas pernas também escorregou no próprio viscoso vômito que continha escargots, ostras e strogonoff (além do vinho de uma safra muita rara e, por conseguinte: muito cara) fazendo com que caísse de cara no chão e partisse seu protuberante narigão. Sangue, vômito, fezes (merda) e urina (mijo) se misturavam como uma funesta aquarela e as lágrimas vieram logo em seguida, torrencialmente, junto com soluços e murmúrios. Quando faltava apenas um minuto para a meia noite estes se tornaram uma reza desesperada e quase sincera.

Durante o ultimo minuto, ainda dono de sua alma, falou em tom alto e sincero que, caso fosse poupado do inferno e torturas eternas, iria doar tudo que possuía para os pobres e dedicaria o resto de sua vida a rezar em um monastério, promessas absurdas para um homem da sua laia, mas naquele momento soavam verdadeiras.

Enfim o relógio começou a badalar:

Badalada um: “Darei tudo aos pobres, viúvas, órfãos e famintos”. Badalada dois: “Tudo o que tenho, tudinho mesmo”. Badalada três: “Até o ultimo centavo”. Badalada quatro: “Jamais retornarei aos excessos”. Badalada cinco: “Nunca mais praticarei a luxúria”. Badalada seis: “Darei um velhice decente para a minha pobre, viúva e faminta mãezinha”. Badalada sete: “Entrarei para um monastério”. Badalada oito: “Tornar-me-ei um novo homem”. Badalada nove: “Serei o maior e o mais dedicado de todos os cristãos”. Badalada 10: “Quando estiver preparado sairei para pregar a palavra do Senhor”. Badalada 11: “Jamais pecarei novamente”. Badalada 12: “Nunca mais terei qualquer outro contato com o diabo”.

Quando o doze badalado foi silenciado, um pobre e arrependido Jeffrey fechou os olhos, esperando pelo demônio ou pela luz de Deus que o salvaria do inferno.

Esperou durante um, dois, cinco, dez minutos e nada, absolutamente nada aconteceu! Não houve coro de anjos! Tampouco rufos de tambores infernais.

Em sua hedionda aparência, Jeffrey começou a gargalhar de contentamento, para ele, agora, tudo não havia passado de alucinação. Provavelmente causada pelas drogas tomadas durante a festa que ainda estava acontecendo em sua mansão, talvez a mistura com o álcool tivesse feito este terrível efeito, ou o excesso de comida, ou os vários dias e noites sem dormir durante a comemoração de seu quadragésimo aniversário, explicações racionais eram o que não faltava, agora pacto com o diabo? Coisa ridícula!

Riu do medo sentido e riu ainda mais de suas promessas, ir para um monastério? Que piada! Dar todos os seus bens para os pobres? Nem em seus piores pesadelos! Jamais daria um único centavo àqueles míseros insignificantes cuja única serventia era trabalhar para ele e encher ainda mais seus bolsos de dinheiro. E aquela velha megera? Que apodrecesse no asilo! Espalhar o evangelho? Coisa mais improvável iria até mesmo queimar algumas bíblias para nunca mais ter sua memória afetada por tamanhas bobagens sobre pecado, inferno e redenção!

Agora iria se limpar, tomar um banho e voltar para sua festa de arromba que continuava nos andares de baixo. Retornaria a luxúria, aos excessos, comeria como um porco e beberia tudo que agüentasse para comemorar a sua volta a razão depois daquela fantástica paranóia de inferno e de ter vendido a alma ao diabo.

Tomou um banho demorado tirando quase todo o fedor de seu corpo lambuzado de seus próprios fluidos, o resto do mau cheiro sumiu após despejar quase um vidro inteiro de uma água de colônia francesa que havia custado uma pequena fortuna. Depois vestiu um de seus caríssimos trajes e colocou seu rolex de ouro e seus sapatos italianos, além de um terno de linho feito sob medida por um dos maiores costureiros do mundo.

Já pronto saiu de seu banheiro todo de mármore e com torneiras banhadas a ouro e chegou a seu quarto já limpo por um de seus mordomos humilhados e mal pago. Notou que o tapete estava manchado, resolveu que assim que a festa acabasse trocaria todos os seus empregados e, olhando para o antigo relógio de pêndulo, proferiu com raiva:

- Amanhã: fogo pra ti!

O relógio mostrava a hora exata de trinta segundos para a uma hora da manhã o que causou divertimento a Jeffrey que disse em voz alta e em tom trocista:

- Depois do fogo, vou pôr um de ouro em teu lugar! Seu relógio maldito!

O relógio, ainda em silêncio, apenas trabalhava. Jeffrey caminhou até a porta, quando ia girar a maçaneta o relógio lhe deu resposta às suas ameaças: badalou uma única vez, a maçaneta girou, a porta se abriu, do outro lado, com seu jeito de criança que vinha buscar seu presente dado pelo próprio papai Noel, estava o diabo, com ar irônico disse ao seu contratante:

- Esquecestes o horário de verão?

   

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