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Jeffrey estava suando
frio, o medo havia se apoderado de todo seu ser, em uma hora ou
menos o demônio viria cobrar sua dívida.
Jeffrey havia vendido
a alma ao diabo!
Belo negócio que
fizera, a sua alma imortal por apenas dez anos de riquezas, luxúria
e outros exageros.
É claro que ele havia
saboreado cada momento desses dez anos, poderia até tentar dizer
que o demônio o tinha enganado, mas isso seria uma grande mentira,
cada clausula do contrato assinado com seu próprio sangue havia
sido cumprida.
Jeffrey não adoeceu
ou precisou dormir durante esses dez anos, nada do que comeu lhe fez
mal, as bebidas o deixavam eufórico e as vezes até bêbado mas
jamais houve ressaca, teve todas as mulheres que desejou, embora seu
gosto por elas fosse um tanto quanto vulgar, não era preciso vender
a alma ao diabo para ter as que havia escolhido. Nunca teve
problemas com dinheiro que gastava aos montes, esbanjava sem dó nem
piedade provando que o que vinha fácil ia idem e depois, no caso
dele, vinha fácil novamente, uma fonte inesgotável de dinheiro ao
qual ele nunca questionou de onde vinha.
Agora estava
apavorado, morto de medo, á meia noite o demônio chegaria e viria
buscar sua pobre alma e não havia nenhuma maneira de se salvar. Se
pelo menos tivesse feito caridade, dado dinheiro aos pobres e as
criancinhas! Se pelo menos houvesse doado algum dinheiro para uma
igreja! Talvez assim alguém rezasse por sua alma condenada e o
livrasse do inferno, mas ele não havia feito nada disso, durante
esses dez longos anos (curtos para quem fazia festa todos os dias) não
havia pensado em ninguém, nem mesmo em sua velha mãe que morria a
mingua num asilo do governo, um lugar que se assemelhava ao inferno
para onde sua alma relapsa seria levada.
Jeffrey não ajudou a
ninguém e ninguém rezaria pela sua salvação e mesmo que rezassem
deus provavelmente ignoraria os apelos pela alma podre e egoísta
desse seu filho ambicioso e preguiçoso.
Dez anos de bonança
que custariam uma eternidade de sofrimentos haviam chegado ao fim!
Dez anos que passaram
para um Jeffrey em estado de letargia e esquecimento do contrato
celebrado. A lembrança havia vindo de supetão a menos de nove
minutos. Agora o tempo corria agonizante e o condenado suplicava por
salvação. Ajoelhado, as mãos presas uma a outra, a voz uma
cacofonia desesperada misturando várias rezas diferentes que ele
nunca conseguira decorar, quem o visse nesta posição provavelmente
caísse em gargalhadas histéricas e rolaria pelo chão.
Jeffrey era uma paródia
de sí mesmo, "o homem mais chique do ano” eleito dez vezes
consecutivo, "o amigo das estrelas", "o anfitrião
das festas mais badaladas de todos os tempos", agora não
passava de um homenzinho ridículo e assustado, estava ajoelhado com
seu terno amassado e vomitado por si mesmo, as cuecas cagadas e
mijadas, os pés cortados pelos cacos da garrafa de seu vinho de
safra raríssima e milionária, o ultimo que havia bebido antes das
lembranças do diabólico contrato aflorassem em sua mente e
trouxesse as náuseas e o descontrole de seus aparelhos escretor e
digestivo.
Jeffrey continuava
tentando rezar sem conseguir articular as palavras enquanto o tempo
passava e passava. Depois de tentar rezar o pai nosso misturado ao
salve rainha e ao infantil meu anjo da guarda olhou para o relógio
de pendulo e começou a vomitar de novo: eram cinco para a meia
noite.
Cinco minutos para o
fim de uma existência miserável durante os primeiros trinta anos
graças a sua preguiça doentia e tendência ao fracasso acentuada
por sua burrice patológica e aspecto podre de um homem que só
tomava banho quando já não mais agüentava seu próprio cheiro fétido.
Depois o pacto realizado em uma encruzilhada regado a sangue de
porco e iluminado à velas vermelhas que custaram muito barato.
Até hoje Jeffrey
nunca soube o porquê do demônio ter feito um pacto com alguém
como ele, dando tudo que havia desejado, mas o pior não era essa dúvida,
era até preferível nunca ser solucionada, o pior mesmo era saber
que a solução poderia vir dentro de míseros três minutos.
Não adiantava mais
rezar.
Era tarde demais.
O condenado se
levantou e ao mesmo tempo em que a merda mole descia pelas pernas
também escorregou no próprio viscoso vômito que continha
escargots, ostras e strogonoff (além do vinho de uma safra muita
rara e, por conseguinte: muito cara) fazendo com que caísse de cara
no chão e partisse seu protuberante narigão. Sangue, vômito,
fezes (merda) e urina (mijo) se misturavam como uma funesta aquarela
e as lágrimas vieram logo em seguida, torrencialmente, junto com
soluços e murmúrios. Quando faltava apenas um minuto para a meia
noite estes se tornaram uma reza desesperada e quase sincera.
Durante o ultimo
minuto, ainda dono de sua alma, falou em tom alto e sincero que,
caso fosse poupado do inferno e torturas eternas, iria doar tudo que
possuía para os pobres e dedicaria o resto de sua vida a rezar em
um monastério, promessas absurdas para um homem da sua laia, mas
naquele momento soavam verdadeiras.
Enfim o relógio começou
a badalar:
Badalada um: “Darei
tudo aos pobres, viúvas, órfãos e famintos”. Badalada dois:
“Tudo o que tenho, tudinho mesmo”. Badalada três: “Até o
ultimo centavo”. Badalada quatro: “Jamais retornarei aos
excessos”. Badalada cinco: “Nunca mais praticarei a luxúria”.
Badalada seis: “Darei um velhice decente para a minha pobre, viúva
e faminta mãezinha”. Badalada sete: “Entrarei para um monastério”.
Badalada oito: “Tornar-me-ei um novo homem”. Badalada nove:
“Serei o maior e o mais dedicado de todos os cristãos”.
Badalada 10: “Quando estiver preparado sairei para pregar a
palavra do Senhor”. Badalada 11: “Jamais pecarei novamente”.
Badalada 12: “Nunca mais terei qualquer outro contato com o
diabo”.
Quando o doze badalado
foi silenciado, um pobre e arrependido Jeffrey fechou os olhos,
esperando pelo demônio ou pela luz de Deus que o salvaria do
inferno.
Esperou durante um,
dois, cinco, dez minutos e nada, absolutamente nada aconteceu! Não
houve coro de anjos! Tampouco rufos de tambores infernais.
Em sua hedionda aparência,
Jeffrey começou a gargalhar de contentamento, para ele, agora, tudo
não havia passado de alucinação. Provavelmente causada pelas
drogas tomadas durante a festa que ainda estava acontecendo em sua
mansão, talvez a mistura com o álcool tivesse feito este terrível
efeito, ou o excesso de comida, ou os vários dias e noites sem
dormir durante a comemoração de seu quadragésimo aniversário,
explicações racionais eram o que não faltava, agora pacto com o
diabo? Coisa ridícula!
Riu do medo sentido e
riu ainda mais de suas promessas, ir para um monastério? Que piada!
Dar todos os seus bens para os pobres? Nem em seus piores pesadelos!
Jamais daria um único centavo àqueles míseros insignificantes
cuja única serventia era trabalhar para ele e encher ainda mais
seus bolsos de dinheiro. E aquela velha megera? Que apodrecesse no
asilo! Espalhar o evangelho? Coisa mais improvável iria até mesmo
queimar algumas bíblias para nunca mais ter sua memória afetada
por tamanhas bobagens sobre pecado, inferno e redenção!
Agora iria se limpar,
tomar um banho e voltar para sua festa de arromba que continuava nos
andares de baixo. Retornaria a luxúria, aos excessos, comeria como
um porco e beberia tudo que agüentasse para comemorar a sua volta a
razão depois daquela fantástica paranóia de inferno e de ter
vendido a alma ao diabo.
Tomou um banho
demorado tirando quase todo o fedor de seu corpo lambuzado de seus
próprios fluidos, o resto do mau cheiro sumiu após despejar quase
um vidro inteiro de uma água de colônia francesa que havia custado
uma pequena fortuna. Depois vestiu um de seus caríssimos trajes e
colocou seu rolex de ouro e seus sapatos italianos, além de um
terno de linho feito sob medida por um dos maiores costureiros do
mundo.
Já pronto saiu de seu
banheiro todo de mármore e com torneiras banhadas a ouro e chegou a
seu quarto já limpo por um de seus mordomos humilhados e mal pago.
Notou que o tapete estava manchado, resolveu que assim que a festa
acabasse trocaria todos os seus empregados e, olhando para o antigo
relógio de pêndulo, proferiu com raiva:
- Amanhã: fogo pra
ti!
O relógio mostrava a
hora exata de trinta segundos para a uma hora da manhã o que causou
divertimento a Jeffrey que disse em voz alta e em tom trocista:
- Depois do fogo, vou
pôr um de ouro em teu lugar! Seu relógio maldito!
O relógio, ainda em
silêncio, apenas trabalhava. Jeffrey caminhou até a porta, quando
ia girar a maçaneta o relógio lhe deu resposta às suas ameaças:
badalou uma única vez, a maçaneta girou, a porta se abriu, do
outro lado, com seu jeito de criança que vinha buscar seu presente
dado pelo próprio papai Noel, estava o diabo, com ar irônico disse
ao seu contratante:
- Esquecestes o horário
de verão?
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