O Poder Secreto do Mousse de Maracujá

 Ricardo Edgard Caceffo

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0138]
[Autor:
Ricardo Edgard Caceffo]
[Título: O Poder Secreto do Mousse de Maracujá]
[Gênero: Mistério]
[Número de Palavras: 570]


Nota do autor:
Proposta de redação do cursinho: " Faça uma redação que seja a
continuação do trecho dado abaixo, preservando e desenvolvendo os
elementos e características de suspense e mistério de um texto narrativo."
"Mandou parar o táxi um quarteirão antes, misturou-se com as pessoas que
seguiam na mesma direção, como que deixando-se levar por elas, anônima
e sem nenhuma culpa notória. Entrou no hotel com ar natural, atravessou o
vestíbulo para o bar. Chegara adiantada alguns minutos, portanto devia
esperar, a hora do encontro havia sido combinada com precisão. Pediu
um refresco, que tomou sossegadamente, sem pôr os olhos em ninguém."

(Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)

Cíntia aguardou pacientemente por mais trinta minutos. Manteve sua
face passiva, o semblante sem expressão, fixando quase que obsessivamente o copo de refresco
vazio que estava sobre a mesa.
 Foi tirada desse estado apenas quando o garçom voltou e recolheu o copo:
  - A senhora deseja mais alguma coisa?
  - Sim. Um mousse de maracujá.

Acordes começaram a soar, vindos de um mini palco no centro do bar onde um grupo de   adolescentes se preparava para tocar.A música era de uma antiga banda de rock inglesa, sutil  e ao mesmo tempo progressiva, psicodélica. Ela falava sobre a saudade, a dor da lembrança e  a separação.
Seu nome era "Wish you were here".

O garçom voltara, trazendo o mousse numa pequena bandeija. Cíntia olhou para o relógio. Tudo estava acontecendo conforme o planejado. O ritual iria se  repetir novamente, talvez pela última vez. Discretamente, retirou de sua bolsa um pequeno saco plástico que continha preciosas gramas de um pozinho branco e consistente. Disfarçou, olhou  para os lados para ver se ninguém a estava espionando, mas seus temores eram em vão,  afinal, quem iria se dar ao trabalho de espionar uma pacata senhora de cinquenta e seis anos?

     Despejou delicadamente o pó sobre o mousse e começou a comê-lo
lentamente,apreciando ao máximo cada instância de seu sabor, tentando
prolongar esse momento de sonho para sempre, pela eternidade.
Fechou os olhos e começou a viajar com a música, sentindo sua alma se
despreender do corpo, atingindo outros patamares, outras dimensões,
ultrapassando os limites do universo e indo ao encontro do paraíso
místico,o céu, o nirvana.
     Um repentino toque em seu ombro a retirou desse sonho e a jogou
na dura e fria realidade: finalmente Carlos chegara. Ele se sentou na
cadeira ao lado, sem dizer nada. Os olhos frios e calculistas de um médico com anos de experiência não foram suficientes para esconder a tensão e a dor que ele tinha dentro de si, afinal a situação era extremamente
crítica e delicada. Retirou da maleta um envelope com o logotipo do
hospital Paulo Afonso, e o entregou à Cíntia,que estremeceu e quase desmaiou.
    

- Minha querida Cíntia, eu sei que é difícil dizer isso, mas seu exame
deu positivo. E não há cura.

     Ela começou a chorar, primeiro lentamente, mas depois como uma
criança sozinha e desamparada,sem ninguém para se apoiar. Olhou com um ar
melancólico de despedida para o que restava do mousse.
Ele havia sido seu melhor amigo durante toda a vida, um companheiro
fiel e inseparável. O mousse de maracujá com cobertura de açúcar era a razão
de sua existência, tudo o que ela tinha, o que a fazia viver e acreditar num
mundo melhor, mais doce e promissor tanto para ela quanto para as gerações
futuras.
    Mas agora tudo estava acabado. Ela tinha um caso raro de diabetes,
e nunca mais poderia ficar junto de sua secreta paixão.

    Enxugou as lágrimas, pagou a conta e saiu do hotel. Antes de
chamar um táxi, passou numa lotérica e comprou uma Telesena. Talvez ainda haja esperança.

   

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