Merkavah

 Miguel Angel Pérez Corrêa

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0137]
[Autor:
Miguel Angel Pérez Corrêa]
[Título: Merkavah]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 300]

 

[Processo criativo: Este também foi para um desafio dessa outra lista de que participo porem o limite de palavras era mior. O tema desafio era o I Ching. Fui eu quem sugeriu o tema e depois quase desisti por falta de inspiração. Depois de alguma pesquisa em uma enciclopédia a inspiração veio e eu escrevi o conto que agora submeto a vossa análise. Espero que se divirtam.]

 

Merkavah.   16:30 do centésimo dia.  

-          Então?  

-          Espere.  

-          Fale homem!  

O silêncio do velho foi a resposta. Com olhar severo indicou que não o molestassem.   O imperador retirou-se engolindo seu ressentimento diante do olhar do bruxo.      

 

***      

-          Aqui estou majestade! - apresenta-se Duk, o velho bruxo.  

-          Espero que me traga boas novas ou pelo menos uma boa saida para as adversidades que possa encontrar nesta campanha - comentou o imperador enfadado pela demora.  

-          Majestade, o oráculo foi benevolente contigo - falou com voz compassada friamente calculada.  

-          Então?  

-          Bem, as varetas me disseram que as mutações estão ocorrendo ao teu favor meu mestre. Nas atuais circunstancias poderias derrotar um exercito com paus e pedras de tanto que brilhas - disse o velho sabedor do caminho mais fácil para o coração do imperador. Bajulação! Percebia com tristeza o quanto havia se acostumado rapidamente a ela.  

-          Pensas assim? - inquiriu o governante, já em tom mais suave, com um sorriso que não pode esconder.   Jovem estúpido, pensou o bruxo, em nada assemelha-se ao pai, velho amigo.   Uma certa amargura tomou-o diante da lembrança de Felipe, "o arrebanhador".   Nos tempos do velho reinado tudo era guerra, até que o arrebanhador chegou ao trono levado pelas circunstâncias que o colocaram em evidência na batalha, exatamente no momento em que o reino ficava sem governante. Aclamado com herói e sendo ele a única esperança dos aristocratas de se manterem na aristocracia evitando um levante popular, chegou ao trono aos trinta anos e governou com justiça e sabedoria até sua misteriosa morte aos noventa e três.   Primeiro seu pai, agora você, mas seu pai foi muito mais difícil e doloroso, pensou o velho olhando de soslaio para o jovem e arrogante imperador.  

-          Claro, majestade é evidente para qualquer um que sois um grande estadista. - respondeu ao perceber que deixara seu mestre esperando.   O imperador pareceu compenetrado por alguns instantes.  

-          Muito bem. Vamos empreender mais esta campanha de conquistas para nosso grandioso império. Mesmo que para alguns pareça uma batalha perdida eu vencerei, não vencerei? - perguntou ao bruxo precisando de mais um empurrãozinho para o abismo.  

-          Vencerá, mestre. Vencerá! - o velho Duk, não pode deixar de sentir uma certa tristeza ao fazer aquilo, mas era o que devia ser feito.      

 

***       09:18 do centésimo primeiro dia.  

 

- Então?   Desta vez Duk não falou, limitando-se a olhar para o jovem Felipe II.   Novamente o rapaz foi aguardar as notícias na sala do trono.   Alguns minutos depois o velho chega a sala do trono e interrompe um beijo que o garoto dava em uma das muitas criadas que lhe faziam favores.  

-          Droga! Já te pedi que não entres assim. - reclamou.  

-          Perdoe-me mestre, mas tenho coisas importantes a lhe falar. - interrompeu-se esperando que o imperador/rei/general ficasse no ponto.  

-          Desembuche!   - Bem, fiz a consulta desta vez usando cascos de tartaruga e a resposta foi contundente. Deves empreender o ataque ainda dentro deste decênio e serás vitorioso. Deves atacar pelo norte, pois teu inimigo tem dificuldades nesse setor.  

-          É! Eu pretendia acabar com eles pelo setor norte. Mais alguma coisa?  

-          Sim. O Livro da Mutações recomenda que o forte use de toda sua astucia e genialidade nesse empreendimento e diz que ao final o lago será do homem que cruzar o deserto. - tudo balela sabia o velho.   Palavras cuidadosamente escolhidas e estava feito. O ponto do impasse era uma vasta região sem estrelas e poderia ser comparada analogicamente a um abismo e o objeto da cobiça do jovem era um planeta azul que poderia facilmente ser comparado a um lago. Duk sabia que Felipe ligaria os pontos como desejado.   - Então devo liderar eu mesmo esse ataque e garantir nossa chegada triunfal a Terra. Eles vão aprender a nos respeitar. O Império das Pleiades chegará finalmente a sede do governo da Confederação do Sol e instalará seu trono em plena ilha da páscoa.   - Certamente.  

 

-          Agora deixe-me, velho. Preciso tomar muitas providências.   O velho bruxo retirou-se. Mais uma vez, ele tivera que agir.      

 

***       09:48 do último dia de campanha.   Tudo aconteceu como previsto.   O I Ching estava certo, mais uma vez.   O Jovem foi massacrado pelo velho. O fraco teve sua chance e o lago está seguro além do abismo.   Duk lamentava pelo rapaz. Gostava dele apesar de sua arrogância e falta de inteligência, mas a única forma de evitar séculos de barbárie por toda a galáxia era salvar a confederação e deixar o Império das Pleiades cair em desgraça.   Lágrimas correram dos olhos de Duk. O segundo Felipe morto por suas ações, mas tinha de ser assim, pois assim estava escrito no maasseh merkavah.

    

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