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[Processo criativo: Este conto surgiu na minha cabeça
pouco antes da
Copa em que o Brasil foi tetra, nos Estados Unidos.
Gosto muito de
futebol e queria homenagear a seleção e nosso maior
jogador, Pelé, com
uma visão humorística do que seria o futebol no
futuro. Esperava que o
Brasil mantivesse a ginga e a malícia que eram
características nossas
e que os jogadores não se tornassem os rôbos de hoje,
mais
preocupados com dólares do que com camisas. Estou
mandando este conto
porque é bem diferente dos outros que a OE conhece.]
Giusto driblou Cambère e continuou com a bola dominada
em direção ao
gol.
Valois correu da direita e, com um toque por trás do pé
esquerdo,
derrubou o italiano no chão.
A bola rolou para a linha de fundo, escorregando na
grama sintética.
Todo o público se levantou.
O juiz girou o deslizador e se aproximou do jogador caído.
Apitou o
pênalti e mostrou o cartão luminoso para Valois. O
vermelho se
acendeu. O francês abaixou a cabeça e saiu de campo.
O italiano já estava de pé. A unidade móvel de
socorro substituíra a
perna mecânica em apenas 40 segundos. A Itália batera
seu próprio
recorde de velocidade.
A torcida agitava os estandartes e bandeiras esperando
a batida da
penalidade máxima.
Diante do retângulo da rede, Langlos, um andróide
francês de dois
metros, aguardava. Seus reflexos eram superiores aos de
qualquer
similar humano. Porisso, os goleiros raramente eram
originais.
Nessa partida só havia humanóides.
Os países da União das Repúblicas Européias e de
Orient Amerikan não
usavam outro tipo de jogador. Eles eram permitidos até
a altura de
2.10 metros.
Só a Latináfrica ainda empregava humanos defendendo a
camisa de suas
seleções.
Mas nunca no gol.
O lateral Valdeto, escolhido para bater a penalidade,
esperou o apito
do juiz. Quando o sinal foi dado, chutou forte e
rasteiro. A rede
balançou com o impacto da bola. O goleiro ficou caído
do outro lado.
A torcida italiana foi ao delírio.
Do alto do estádio o enorme holograma se destacou,
saltando em várias
direções:
GOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!.......
GOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!.... DA ITÁLIA!!!...
Comemore com
CANÁBIA-COLA!!.....
Colorido e em três dimensões, cobria parcialmente,
por alguns
segundos, a visão do gramado.
Sentado no meio da torcida francesa, o técnico Benício
observava,
preocupado. A Itália seria a adversária do Brasil na
final.
Os três atacantes do seu time eram humanos. Bastante
altos e muito
habilidosos... mas contra esse goleirão Perti... só
mesmo de
pênalti!...
Franziu a testa.
Sofrer uma falta desses zagueiros de laboratório era,
no mínimo,
suicídio. É verdade que há regras protegendo os
jogadores originais e
as unidades de socorro são avançadíssimas. Mas não
existe perna humana
capaz de ser recolocada em segundos como a dos andróides.
Tenso, observava o desenrolar da partida.
O resto era o esquema de sempre, não mudava há cem
anos: defesas
fechadas, contra-ataques velozes. As mesmas bolas
cruzadas das
laterais para a cabeçada em gol. Jogadas ensaiadas
eram o forte dos
humanóides, mas faltava criatividade.
Nesse ponto os brasileiros eram imbatíveis.
Poristo estavam na final.
Mas furar a retranca cibernética da Itália!...Ele
tinha uma idéia que
dependia da confirmação de alguns boatos... seus espiões
estavam a
postos para informar com certeza....
Roeu um pouco o dedo grande da mão esquerda. Nesta
Copa já substituíra
duas unhas. Se continuasse assim ia ser o próprio
dedo. Queria ser um
robô como o técnico italiano ou um ciborgue
semi-humano como o
francês.
O juiz apitou o final da partida.
A torcida italiana, alegre e barulhenta, fazia a sua
festa.
Os jogadores desceram para o vestiário e a grama foi
sendo recolhida
através de movimentos giratórios, dando lugar à
superfície espelhada
da sala de concertos.
Benício se apressou. Seu ingresso dava direito apenas
à partida de
futebol e começaria a apitar em 10 minutos.
Os primeiros acordes do "Va piensero" já
invadiam o estádio quando ele
ultrapassou os portões e tomou a esteira rolante em
direção ao
aeróbus.
Os italianos entraram no vestiário, livraram-se dos
uniformes
descartáveis e foram para os chuveiros. A nuvem de
vapor embaçou o
vidro que protegia as cabines.
Décimo-terceiro AB, tratado carinhosamente de Detê,
um robô metalizado
de duas pernas e com aparência levemente humana
aguardava no saguão ao
lado.
A imprensa fôra impedida de entrar e esbravejava,
furiosa, lá fora,
contida pela luz azul do cinturão magnético.
Policiais, com cassetetes eletrônicos, apenas
observavam a confusão de
fios e luzes, sem se importar com os palavrões de
variadas
nacionalidades.
Todas as principais redes de estereovisão das mais
distantes partes do
mundo, desde a africana Taboo até a sofisticada
Transeuropean, tinham
mandado seus representantes que agora estavam ali, frenéticos,
aguardando uma palavra ou imagem dos jogadores.
Detê se aproximou do médico.
"Doutor Pietro, quero que examine os garotos antes
do pessoal entrar.
Vamos fazer uns reparos logo e deixar todos em forma
para dois dias de
descanso. Vai ser off total."
"Off total?... Não sei, não... pode atrapalhar o
condicionamento
deles... dois dias é muito tempo."
"Não tem perigo, doutor... já estão
completamente preparados. Vou
levá-los para uma fazenda de mutantes animais em Thor.
Eles gostam
muito de lá. E não quero nenhum jornalista
intrometido estragando a
nossa surpresa para o Brasil."
O Doutor Pietro riu, segurando carinhosamente o braço
metálico do
treinador:
"E que surpresa!... você é o primeiro robô
maquiavélico do mundo,
Detê... o feitiço contra o feiticeiro..."
Décimo-terceiro AB levantou os ombros e as luzes de
seus olhos se
tornaram mais intensas.
Ele não estava imune ao sentimento de auto-satisfação.
Tal era o desenvolvimento da robótica em 2070.
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O aeróbus pousou suavemente no terminal 3 da montanha.
A esteira
rolante levou Benício até o Hotel Alpino onde os
jogadores estavam
concentrados.
A maioria ainda não tinha abandonado a sala de recreação
e se reunia
diante da tela que cobria toda uma parede.
Eram todos humanos originais, exceto Táfel, o goleiro,
um andróide
negro de 2 metros, no momento ocupado em descascar uma
tanranja
fabricada nas hortas suspensas da área de cítricos da
Alimentação
Planejada. Com uma faca, à moda antiga, sem a ajuda do
descascador.
Ele fôra programado para tarefas específicas de
futebol, porisso sua
dificuldade era considerável. Para diversão de Júnior
e Zico que
adoravam brincar com o goleirão. Mas ele era de boa
paz e ria,
mostrando os dentes perfeitos.
O técnico entrou e desligou o estereovídeo.
"Pessoal, vamos trabalhar que agora o negócio é
papar a Itália. Depois
do almoço vou colocar os vídeo das seleções
brasileiras de 1958, 62 e
70, os primeiros campeonatos mundiais do Brasil pra
gente rever. Quero
todo mundo decorando aquelas jogadas."
"Pô, Beni, a gente já assistiu aquilo um milhão
de vezes. Dá até para
tocar de ouvido..."
Dadá resmungava, ajeitando as chuteiras.
O Brasil já fôra campeão muitas outras vezes, nesses
cem anos, mas
Benício tinha paixão por aquele time que levara, pela
primeira vez um
caneco, definitivamente, para casa.
"É isso aí, não basta tocar de ouvido, quero
ver vocês encarnando o
espírito daquele pessoal. Vamos dar essa alegria ao
povão no
centenário da conquista da Jules Rimet. Afinal, todo
mundo aqui é
brasileiro..."
"Tudo bem... mas, depois que a FIFA permitiu os
ciborgues nos jogos,
nunca mais nenhum time da Latináfrica levou o título."
"Porisso mesmo... agora é a nossa vez!... Se a
gente conseguir
reencarnar os tricampeões de 1970 vamos botar todos
eles na roda...
olé!..."
Rodopiou o corpo meio de lado, imitando os toureiros
antigos e os
dribles de Garrincha, o anjo de pernas tortas que
desnorteou os
zagueiros do século XX ao som do olé da arquibancada.
"Bola neles, Brasil!... Vamos em frente que atrás
vem gente!..."
Brincando e cheios de otimismo, os jogadores passaram
para o setor de
Condicionamento. Era lá que, com a ajuda de psicólogos,
computadores e
até pais-de-santo trazidos especialmente da Bahia ( as
tradições
religiosas eram muito arraigadas em alguns deles )
aqueles vinte e
dois atletas entravam na pele da maior seleção de
futebol de todos os
tempos.
Até os cacoetes e a maneira de falar tinham sido
cuidadosamente
copiados do "II Dicionário de Gírias e Expressões
Correntes do Século
XX" de Aurélio Buarque de Hollanda Neto.
Esta era a arma mortal dos brasileiros para enfrentar
os andróides da
poderosa Itália.
O preparador físico chamou Benício num canto:
"Estou preocupado, Beni. O nosso espião na
concentração italiana
trouxe uma notícia que... eu não sei não... fiquei
meio sem gás..."
"Que que é isso, Toledo?... Nunca vi você
desanimado..."
"Ele disse que os italianos colocaram uma nova
programação cerebral no
artilheiro Giusto."
"E daí, cara?... eles mudam de programa todos os
jogos... Contra nós
isso não adianta mais..."
Você quer saber de quem eles tiraram o novo
esquema?... Giusto está
com o cérebro de Pelé!...
"Pelé?!!... O nosso Pelé?!!!.... O maior jogador
de todos os
tempos?!... eu tinha ouvido uns boatos, mas não
acreditei..."
"É, mas é isso mesmo. O brasileiro que foi
considerado o atleta do
século XX. O maior artilheiro de todos os tempos, com
1000 gols. O
único até hoje a conseguir sozinho essa marca."
"Mas que absurdo!!!... A gente não pode permitir
uma coisa dessas... é
uma loucura!... um desrespeito!..."
"Estamos pensando em recorrer à FIFA. Eu falei até
com o Giullitte
Neto na CBF, mas ele acha que não vai adiantar nada. O
prestígio do
futebol da Latináfrica anda lá embaixo e a Itália é
a Itália... campeã
do mundo em 2062 e 66..."
Benício ficou pensativo.
"Sabe de uma coisa, Toledo, eu não vou recorrer
não. Tenho uma idéia
que talvez.... deixa eu amadurecer melhor, depois eu
explico..."
Durante uma hora, o técnico ficou trancado na sala de
recreação,
revendo velhos teipes. Quando saiu, estava sorridente.
Chamou os jogadores e a comissão técnica e explicou
seu plano.
Do lado de fora, o cozinheiro e o roupeiro robôs
ouviram, perplexos,
as gargalhadas que vinham do salão.
"O astral aqui na concentração é o melhor possível..."
Comentou o
XPV-4, enquanto dobrava, meticulosamente, os uniformes
e os colocava
no armário.
"Oxalá nos ajude!... Axé para todos nós..."
O XPV-17 se persignou e bateu na madeira três vezes.
Eles andavam íntimos de Pai Joaquim, o babalorixá
importado de
Salvador, na Bahia de Todos os Santos e mais alguns.
"Pois é, pessoal, estamos aqui com vocês para
mais um jogão de bola:
Brasil e Itália!... Final da Copa João Havelange de
Futebol... Quem
vencer leva a taça que tem o nome daquele que foi
durante mais tempo
presidente da FIFA... é!!!!... e era brasileiro!....
é isso aí,
gente!.... Vamos torcer pelo nosso Brasil!!!! Siiillll!!!
Siiiillll!!!..." o eco repetia a última sílaba
ampliada e os
torcedores brasileiros levantavam as bandeirolas
iluminadas...... "
estamos retransmitindo as imagens da Rede Transeuropean
de
Estereovisão, diretamente do Estádio Comunale, em
Asti, na Itália.
Aqui, conosco, os comentaristas da nossa Rede Universal
de
Transmissão, ligados diretamente à Central e passando
a vocês, no
vídeo opcional, as informações e imagens
complementares. Tudo para dar
aos nossos estereoespectadores o melhor desta Copa de
2070 , sempre
sob o patrocínio da sua cerveja Diet Line e de Canábia-Cola,
o
refrigerante que leva você direto para as estrelas.
A grama já foi colocada... Está aí a banda que
simula tocar os hinos
aguardando a entrada dos times, uma tradição bonita
que vem do século
passado. No vídeo opcional nosso companheiro Décio
Delamônica que vem
acompanhando a seleção desde a preparação em Nápoles...
Boa tarde
Décio..."
"Boa tarde, Gerson, essas bandas antigamente
tocavam ao vivo, imagine
só!... hoje quem toca é o computador do estádio,
aqui pertinho do
setor de imprensa..."
"Obrigado, Décio, mesmo assim o público aplaude
os atores-músicos...
agora sim a entrada dos jogadores... com exclusividade,
pela Rede
Universal você está assistindo a essa Copa da Itália,
sob o patrocínio
da cerveja Diet Line e de Canábia-Cola ... aí o time
da Itália... este
é o capitão Andreotti... Valdeto... agora Berti...
Maldone... o
zagueirão Giancarlo... Zanine... Giusto... Camberra...
Benine... Paolo
e o goleiro Perti. No banco, os reservas e o técnico-robô
Detê..."
"Gerson, esse Detê é cheio de mistérios... até
a hora da partida ele
dizia que o atacante Giusto não seria escalado, por
problemas com a
perna substituída na partida anterior... vocês estão
vendo o lance no
vídeo opcional..."
"É, Décio, mas o rapaz está aí, tá tudo bem
com ele e o time da Itália
vem com a força toda contra nós... E olha aí o time
do Brasil!... A
torcida italiana vaia, mas nós estamos na final... Júnior,
Zico, o
capitão Danilo, Andrade, Mozer e Leandro... Tita e
Branco... Rubens...
Dida e o goleiro Táfel, único andróide do grupo. Benício,
preocupado,
roendo as unhas como sempre... aí estão os
reservas... os dois times
já estão formados, vai começar o Hino Nacional do
Brasil... e olha aí
a nossa torcida!... pequena mas muito animada,
fazendo a festa aqui
no Estádio Comunale em Asti!... E agora o Hino
Italiano... a torcida
vai ao delírio!... é uma massa humana
impressionante... o estádio
chega a tremer...
E atenção!... o juiz chamou os dois capitães,
Andreotti e Danilo... O
Brasil vai ficar com o gol à sua esquerda...
Começa a partida!..."
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A bola rolou para fora do gramado.
O bandeirinha, no deslizador, a uns 50 cm do solo,
apontou lateral
para a Itália.
Giusto aguarda na linha lateral, avaliando a melhor
maneira de
recolocar a bola em jogo.
O placar holográfico salta em todas as direções:
"Brasil 0 x Itália 0 - COMEMORE COM CANÁBIA-COLA!
- 44 minutos e 10
segundos - Segundo Tempo "
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"Branco recebe a bola, manda para Dida, de lá
para Zico que engana
Andreotti, passando o balão de volta para
Branco...Branco enfia pela
esquerda, Tita com ele... O GOLEIRÃO SAIU!!!... QUE
QUE É ISSO ,
GAROTÃO!!!... Que chute esquisito!!!.... a bola vai
parar lá em Roma,
bem longe do travessão do goleiro Perti!!!... Assim não
dá!!... não
tem coração que agüente!!!... Décio..."
"É verdade, Gerson... Branco perdeu um gol incrível...
o goleirão
batido... foi uma pena!... o Brasil não pode continuar
a desperdiçar
as chances dessa maneira!... é Copa do Mundo,
gente!!..."
Perti já bateu o tiro de meta... o jogador que é
Valdeto mete a cabeça
nela... chega até o lateral que é Maldone... Andrade
em cima dele...
mas o juiz já está se encaminhando pro meio do
campo... apita o juiz
espanhol!!... é o fim do primeiro tempo... é isso aí...
Brasil 0...
Itália também 0... tudo igual até agora... daqui a
pouco a gente volta
com as emoções dessa final da Copa de 2070,
centenário da conquista
da Jules Rimet pelo Brasil, com o patrocínio da sua
cerveja Diet Line
e de Canábia-Cola, o refrigerante que leva você às
estrelas...
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Os dois times descem juntos a escada rolante que leva
aos vestiários.
Benício reúne os jogadores, enquanto o médico e o
massagista
distribuem cibertônicos e água e recondicionam os músculos
cansados ou
doloridos e as pernas feridas.
"E aí, Júnior, fez o que a gente combinou?"
"Tudo em cima, Beni, está acontecendo direitinho
como você previu..."
Então, pensamento positivo que vai dar tudo
certo..."
O XPV-17 trouxe onze patuás - saquinhos bem pequenos
de seda,
recheados com ervas especiais para cortar mau-olhado.
"Vocês vão colocar isso dentro das tornozeleiras,
por favor... é para
o gol sair agora, no segundo tempo... nada de prorrogação..."
Zico riu.
"Que coisa, gente!... Um robô macumbeiro!... só
no Brasil mesmo!...
sai pra lá com esse negócio que eu não acredito em
mandinga..."
O XPV-17 desapontou
"Pai Joaquim diz que o nível de eficiência é
total. Margem de erro -
zero. Por favor, devem usar!..."
"Tudo bem, Xispe. Zé Maria, ajuda a distribuir
isso entre os
jogadores. Não custa a gente se garantir em todas as
frentes..."
"Benício, suas decisões são sensatas. É um
homem sábio... e um grande
técnico..."
"Além de macumbeiro é puxa-saco... para virar
humano falta pouco..."
Todos riram e o XPV-17, orgulhoso, foi entregando seus
talismãs.
Ia começar o segundo tempo da partida.
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... no rebote a bola fica com Maldone que passa
rapidamente a Berti,
Andreotti vem pela direita, prefere Giusto... enfia
pelo meio-campo do
Brasil... OLHA O PERIGO, GENTE!... dribla o primeiro
que é branco,
Rubens vem atrás dele, não consegue nada...POSIÇÃO
LEGAL!...
AGARRRRRRRA TAFEL QUASE SEM ÂNGULO!!!.... que sufoco,
minha gente!...
esse Giusto está jogando uma barbaridade!... e lá vem
contra-ataque
brasileiro!... Branco rola pra Júnior, abertura pra
Zico...LANÇA PRA
TITA!... CARIIIIIMBA O TRAVESSÃO DA ITÁLIA!... A
torcida chegou a
ficar em pé aqui no Estádio Comunale... é muita emoção,
gente...
agüenta coração!...faltando 12 minutos para o final
do segundo tempo
continua tudo igual aqui em Asti: Brasil 0 e Itália
0... desse jeito
vamos pra prorrogação... e olha a Itália de novo...
Berti...
Maldone... GIUSTO... ele dribla o jogador que é
Andrade... dribla mais
um...é Mozer... a defesa brasileira não se entende...
passa por
Rubens... DRIBLA O GOLEIRO... JOGA O CORPO PARA A
DIREITA, A BOLA VAI
PRA ESQUERDA... TÁFEL FICA TONTO... VOLTA PRA APANHAR
A BOLA... GIUSTO
PASSA POR TRÁS DELE!... QUE JOGADA!!!.... OLHA O GOL
DA ITÁLIA!!!!...
A BOLA SAI PELA LINHA DE FUNDO....RASPAAAAANDO, TIRANDO
TIIIINTA DO
TRAVESSÃO DO BRASIL!!!!!.....incrível como esse gol não
saiu!... Deus
é brasileiro e é só tiro de meta para o Brasil, que
Táfel vai se
preparando pra cobrar... que sufoco, Décio!..."
"Ô, Gerson, esse drible que o Giusto deu no Táfel,
antigamente chamado
drible da vaca, o Pelé deu um, muito parecido, no
Mazurkiewski, grande
goleiro uruguaio, na Copa de 70... vocês estão
revendo o lance aí no
vídeo opcional... só que a bola também não entrou,
mas foi muito
bonita a jogada..."
"Pelé era demais!... obrigado, Décio... mas o
jogo continua... olha o
contra-ataque brasileiro... os italianos ainda estão
tontos com o gol
perdido... BRANCO DEU UMA ENFIADA PELA ESQUERDA... A
POSIÇÃO É
LEGAL... OLHA O GOL!!!!!..... É
GOL!!!....GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!
É DO
BRASIIIIIIIIIIIIIILLLLLLLLLLLLL!!!!!!....DIDA!!!!....CAMIIIIIISAAAA
NÚMERO 10...DIDA!... num magnifico passe de Leandro,
aproveitando a
bobeada da defesa italiana, enfiou entre as pernas do
goleirão
Perti!!!... A torcida brasileira vai ao delírio aqui
em Asti!... aos
38 minutos do segundo tempo... o placar holográfico
mostra: Brasil
1... Itália 0!... falta muito pouco para sermos
novamente campeões do
mundo!... Os brasileiros fazem um carnaval nas
arquibancadas... Branco
passa para Mozer... dali para Andrade... os italianos
estão tontos...
Danilo atrasa para Táfel... é isso aí!.... vamos
segurar a bola que o
jogo tá ganho... o Brasil vai ser campeão do mundo
cem anos depois da
histórica conquista do tricampeonato e da taça Jules
Rimet!... mas a
Itália não está morta não!..."
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A confusão é total no vestiário do Brasil.
Benício se livra de uns vinte estereoperadores e de
mais uns cinqüenta
repórteres agarrados nele e consegue entrar, fechando
a porta com
dificuldade,
Lá dentro estava silencioso e quase frio.
Meio esquecido entre as toalhas, o ZPV-17 arrumava
santinhos e patuás.
"Nós conseguimos, Xispe!!...
Conseguimos!!..."
"Graças aos Orixás!... Pai Joaquim falou: nada
de erros... tecnologia
baiana... muito boa!..."
"Tecnologia baiana coisa nenhuma!... Massa
cinzenta!... Jeitinho
Brasileiro!... Já ouviu falar?"
"Jeitinho Brasileiro?... Nunca... é candomblé
também?"
"Não, Xispe, é malandragem... Eles queriam nos
passar pra trás.
Puseram no Giusto o cérebro do Pelé."
"Do Pelé?... Aquele dos vídeos?... o dos mil
gols?"
"Ele mesmo. Pode?... nosso maior jogador contra
nós?... é muita
sujeira!... mas eles não esperavam o que eu armei
para a Itália...
Sabe o que aconteceu, Xispe?... Você viu o gol que o
Giusto perdeu
pouco antes do nosso?"
"Vi, uma beleza!... ainda bem que não
entrou!..."
"Pois é, o mesmo gol, igualzinho, o Pelé perdeu
contra o Uruguai no
século passado..."
"É... o Décio mostrou durante o jogo... no
vídeo opcional."
"Então... nós fizemos o seguinte... repetimos o
máximo possível as
jogadas daquela partida para fixar na mente
pré-condicionada do
Pelé-Giusto... além disso, o Júnior deu uma
ajudazinha... chegou perto
dele e falou: lembra daquele golaço que o Pelé perdeu
contra o
Uruguai?... e descreveu o lance... pena que não
entrou!... Isso é o
jeitinho brasileiro, Xispe..."
"Não entendi nada."
"Nem podia, filho, você ainda não é
totalmente um de nós. Mas, eu vou
tentar explicar: Pelé, como todo o gênio, era
vaidoso... então,
Giusto, com o cérebro dele, com certeza ia tentar
outra vez a mesma
jogada... e errar de novo... na confusão que se
seguiu, com todo
mundo, até os jogadores italianos tontos com o lance
do gol que não
entrou... a gente aproveitou pra fazer um
contra-ataque... e ganhamos
o jogo!... tudo como a gente previu!... elementar, meu
caro Xispe...
jeitinho brasileiro... pegamos eles no
assombro!..."
"Eu acho que entendi mais ou menos seu plano, Beni...
mas, meus
circuitos ainda não apreenderam totalmente a
situação. Vejo alto risco
nesse seu esquema. Pelé-Giusto é grande jogador... e
se a bola
entrasse?..."
"Aí, não quero nem pensar... a vida é um jogo,
Xispe. E, além do mais,
seria o gol mais lindo da história do futebol... e do
nosso maior
jogador... dava Brasil na cabeça do mesmo jeito... é
ou não é?..."
Xispe coçou a testa reluzente de metal.
Candomblé, tudo bem. Mas jeitinho
brasileiro!...era demais para o seu
pobre cérebro psicotrônico de nova geração.
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