Toda Morte Tem Seu Preço

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0122]
[Autor:
Rogério Amaral de Vasconcellos]
[Título: Toda Morte Tem Seu Preço]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 2.260]

1

A intenção era Haknarok arder como uma pira funerária flamejante
exalando o doce odor de carne humana queimada. Há dias era ele, as
forças incultas da natureza e os abutres de sua própria espécie, sendo
os últimos a fonte de seu maior martírio, não pelo que faziam mas pelo
que representavam...

Salteando de sonho em fantasia, sem identificar ao certo os limites
de um perante a presença indistinguível da outra, ele, a despeito de
todo devaneio, permaneceu ali empalado na realidade pelas lanças
farpadas dos Imortais. No topo daquela ribanceira escaldante,
permanecia acocorado sobre um tapete de brasas vivas, cozinhado
lentamente como um grande leitão branco para o banquete ritual do
Rei-Sacerdote; diferentemente do time de búfalos que trouxera-o ali,
gretados e espalhando banha liqüefeita dos inúmeros cortes em seus
lombos, deflagrando o cheiro de carne tostada, chouriços expostos e
outras iguarias retalhadas que soerguiam murmúrios salivantes da
multidão esfomeada. Espectadores, que estavam próximos à romper o
vínculo do medo perante tamanho manjar que minava o chão de corpos de
nativos abatidos pelas flechas certeiras dos arqueiros reais, dentre
aqueles que tinham perdido toda noção do perigo.

Pelos 4 culhões da Virgem Santíssima!!, gemeu ele.

Nessas horas o sagrado era tão profano quanto o resto.

Sob o irritante voejar zumbidor de nuvens de mosca varejeira e
calantos, o gáudio da multidão atingiu seu ponto culminante,
reverberando nas pedras e invadindo seus ouvidos. Ecoando-lhe nos
tímpanos massacrados, aquilo irrompia como uma cacofonia de bisonhos
rugidos animalescos, quando só então ele obteve a certeza que o auge
de seu sofrimento encontrara uma fornalha de reaquecimento e nenhum
sinal de padecimento: estava ali por um irrevogável e dramático
decreto-lei do Sumo Sol, lançado às bestas que faziam algazarra e
torciam por um suplício maior do flagelado.

Quando o somatório de suas alucinações atingia o pináculo,
entrevendo cenas de um outro contexto histórico, abrindo-se 'brechas'
no tempo-espaço, ele quase podia afirmar que, se assim pudesse, visto
todo o sofrimento até ali submetido, a degradação de seus sentidos
tinha um quê de bálsamo.

Estava sendo julgado e executado por um crime de amor carnal e não -
o que era comum à época - um crime famélico; castigado exemplarmente
por um rei ciumento e, só na aparência, mancomunado com a virtude e os
bons pensamentos, quando na verdade um perverso criminoso que mantinha
um harém de 100 Imaculadas para um deleite pessoal que passava bem
longe de sua cama, terminando nas lâminas e no cadafalso do
carrasco-mor. Fora um desperdício como aquele que motivara-o em seu
ato impensável.

Antes de seu atual suplício, galgara os arrabaldes do principado de
Cuzco e, por doze dias (os 12 mágicos dígitos, base de toda aquela
cultura), vivera infiltrado entre as ninfas e bebera incólume naquelas
fendas invioladas, castas, úmidas, cheirando a gozo por derramar,
banhadas com leite e mel - antes de ser também com seu mel e leite -,
arrancando suspiros onde antes obtinha-se lamúrias e prantos
dissimulados, atraindo sobre si a ira do Sumo Sol Montezuma, que não
podia aceitar que outro qualquer usurpasse seu prazer fincado na dor,
semeando felicidade e gozo no calabouço profanado do Poço das Virgens.

Fora aquela falta imperdoável e mortal, cometida mais por impulso
que originada num ato de deliberado acometimento, que levara-o à
presença do profeta, a mercê de seu julgamento. Mas foi sua falta de
arrependimento que inflamou e insuflou o 'messias' de ódio extremado,
que não admitia falta de subserviência de quem quer que fosse; seria
tudo um anticlímax se unicamente encontrasse uma morte limpa,
encerrando uma puída cortina de palco sobre sua última atuação digna
do mitológico cancioneiro popular. Porém, quis o destino assim ou as
vontades de algum 'deus' mais endemoniado, que fosse imolado e
mantivesse o oblívio por dias à fio, forçando a multidão a ficar cada
vez maior e os guardas-sacerdotes a ficarem mais nervosos com isso.
Pois não havia qualquer controle sobre o afluxo constante de gente que
acometia à capital em romaria, vindos de todo o imenso reino de
Tengucigalpha em Tetraterra; de rincões tão ermos que nem os Arautos
Alados conseguiam chegar.

A Fantasia era a responsável maior por ainda não ter sido engolfado
pela Besta das Trevas, jogando-o em outras bizarras 'realidades' toda
vez que chegava próximo a tocar a face do demônio-unicórnio-mor;
apaziguando-o em lugares tão díspares quanto o Cairo (como guardião
romano acompanhado de belas sacerdotisas egípcias nas termas do
Alto-Nilo) ou Rio de Janeiro (como um feliz passista de uma Escola de
Samba, evoluindo em plena avenida), ou mesmo em terras onde animais e
plantas imperavam, vendo-se ali como um zoôplancton em sua enésima
jornada atávica rumo ao Horto de Ômega(...)

2

Na cidadela-fortaleza litorânea de Montezurcco vivera entre o berço
nobre de estirpe mais elevada e agora era a escória, na forma de
pequenos e cinzentos nativos cabeçudos, que vinham devorar suas
entranhas, entusiasmados com a oportunidade única de espezinhar
livremente com os opressores, ainda que só um deles, caído em
desgraça.

Estava parcialmente asfixiado nos vapores de sua própria urina em
contato com o carvão abrasado, atolado nas fezes profusas que seu
intestino evacuava em completa distensão, pela ingestão forçada de um
poderoso laxativo. Não era nem sombra daquilo que um dia fora, pois
perdera o brilho e o regalo; seu garbo não mais provocando suspiro e
olhares furtivos nas donzelas e mancebas, desta feita batendo longe
até o mais pestilento pedinte da cloaca mais imunda e desclassificada
do Baixo Meretrício de Tucunaré...

3

Regado à pétalas e fanfarra foi como sua bisamãe trouxera-o à
Cuzco-Mar pela longa alameda de flamboyants, num cortejo de quase 100
carruagens enfeitadas, e fora por essa mesma alameda milenar, porém
sentido inverso, quiseram as chuvas fazê-la enlameada, que os
sacerdotes, um dia seus aliados, baniram-no para longe do santuário
imaculado das 7 Cidadelas, a Meca do Ocidente. Fora arrastado
atrelado a doze búfalos deformes, ritualizando o apedrejamento por
todo longo caminho até o topo da Ribanceira do Carrasco, à entrada do
desfiladeiro que dava passagem ao promontório de Luciféria, também
chamado de Basílica dos Degenerados. Achava que seu destino se
encerraria ali, ao ser lançado num mergulho fatal de encontro às
pedras agudas, repletas de ossos encravados nos interstícios daqueles
caninos rochosos, que, ledo engano, não aconteceu.

Reconduziu sua loucura para dois parâmetros desesperados, contudo
tangíveis e fáceis de serem compreendidos: ou punha de parte sua
própria existência, aproveitando de um único descuido da guarda, ou
eliminava toda aquela multidão. Assim norteada, sua mente retornou
dos mil mundos onde antes pairara, tornando sempre ao seu martírio
inicial, lembrando-o que o sofrimento é eterno mas a vingança também o
é, de tal maneira que o gosto acre em sua boca já podia ser melhor
interpretado como o antegozo do prazer...

Matar ou morrer não são conceitos estranhos à humanidade. O que
difere é a ocasião quando um ou outro é solicitado ao homem. O
instante quando este é chamado para exercer o oblívio dele ou de
outrem. Quando o julgamento foge às rédeas é o instante quando nem os
deuses podiam prever do que sua criação seria capaz!!

A natureza é meu provedor e tudo me proverá (a frase que ficaria
célebre na tradição oral pouco precisa dos nativos), foi como invocou
de seu âmago a fúria mais abissal, fazendo as chagas de seus
ferimentos verterem novo fluxo de sangue e as solas de seus pés, ao
contato com o braseiro, serem consumidas até o osso.

Era o dia 8 de Hudnaih-el de um ano qualquer que o próprio
Calendário se esquecera, quando Haknarok, cria do 2º pai do 3º filho
do Grande Alpha, tombou de joelhos e rasgou o pulmão num grito de
agonia. Também ficou sendo o estigmatizado instante que os poucos
sobreviventes jamais baniriam de suas lembranças: o dia do terremoto
que engolira 120.000 corpos que antes riam da desgraça alheia,
varrendo os vestígios da degradação com ondas que submergiram parte do
promontório, transformando-o em ilha-morada de suas carcaças em
decomposição. Banquete servido aos pequenos e grandes predadores.

4

Ele, antes de sucumbir ao cataclismo, quiçá invocado por seus
desejos, viu que a satisfação não residia nos corpos sendo jogados
contra as pedras, partidos como gravetos retorcidos, crânios
espremidos ou ceifados como nozes vazadas e ocas, lambidos pelas
chamas, num último mergulho nas fendas fumegantes do território da
Rainha-Terra. A piedade se esvaíra junto com o medo, mas, por mais
que a vingança fosse um doce-amargo fruto, a contagem de corpos
carbonizados em queda livre era monótona e deprimente após o 3º
milhar: estivera em tantos lugares, vira tantas coisas que o prazer
era tão efêmero quanto a dor.

Enquanto labaredas lambiam os céus e corpos indiscriminados de
nativos e sacerdotes juncavam ao redor, unidos na democracia da morte,
Ele, a verdadeira essência que animava Haknarok - aquela involuntária
carcaça hospedeira que agitava-se na grelha, abduzida de sua alma
pseudo-original, destacava-se como um dentre muitos outros descartados
ao longo de sua evolução sustada -, se inquiria com questiúnculas
triviais pois tudo sabia, e era monótono igualmente saber tudo.

A principal razão por ter criado o homem, num momento de máximo
escárnio emocional prontamente confundido com inspiração, fora tal
qual suas outras similares criações: analisar o quanto poderia o
espécime sobreviver sem compartilhar do seu conhecimento global, sem
ser, sem estar, sem poder real e absoluto...

Tentara inúmeras vezes reproduzir o processo pelos universos que Ele
próprio moldara. Mas, entre todos, somente naquele planeta medíocre
(e suas múltiplas dimensões paralelas de estudo) que parte de sua
consciência trilhava um mesmo caminho, vindo sempre revisitar seus
habitantes-cobaias. Residia aí o por quê não esclarecido de tal fato
ocorrer ali e não em outro lugar, nem em maior ou menor escala? Por
quê fora arrebatado por tal mediocridade quando existiam cobaias bem
mais estruturadas e 'evoluídas'?? Será que o cerne de sua criação,
não obstante igual, tinha se misturado com qualquer fator aleatório
particularmente local, irrelevante, tão insignificante que não dera
por ele...

Em resumo, não conseguira, portanto, por tudo quanto tentara, por
cem milhões de bilhões de trilhões de vezes, reproduzir o mesmo molde
em qualquer outra parte dos mundos que movera e nas constelações que
provocara, igualando fatores macro e nanoinfinitesimais. Mas ali,
naquela insistente e depauperada porção de matéria chamada, de forma
exacerbada, de planeta, era onde a sabedoria sempre fora tão grande
quanto a ignorância; a loucura podia existir conjuntamente à
sanidade; a mesquinhez, a arrogância e a simplicidade eram irmãs de
uma mesma aberração: O Homem.

O porquê de não entender era atípico num ser-que-tudo-sabe-pode-tem,
para isso era 'Deus', patrão do universo, sendo sua única e - desde
breve data remissiva à gênese daquele povo - principal preocupação.
Eles diziam que tinham inventado Deus. Era uma forma estranha do
criador virar escravo de sua criatura. Portanto, a despeito de tudo
quanto criara e vivera era ali que tendia a retornar, pensando ter
decifrado o enigma quando estava na verdade mais enredado no mesmo,
desenvolvendo um ciúme que contrabalançava com o orgulho, observando
vícios nele próprio que só podiam serem atribuídos a uma deformação em
sua própria personalidade aquiescida. Reflexo, talvez, de um momento
de insensatez quando parira aquele universo feito de conceitos muito
deformados, usando partes de si próprio, seu corpo, seu âmago, após o
3º ciclo de contração universal (...)

Quando disse Fiat Lux, deveria ter completado de forma clara, tão
clara quanto a criação da luz, Mas livrai-me do homem... Do homem ao
homem. Decifre isso, Deus, deus, Zeus, Teus, Meus. Decifre, ou
morra!
Esfinge auto-imposta. Deus enjaulado. Construíra sua própria cela
e ficara preso nela. Terrafóbico. Homofóbico.

5

Já que a análise global falhara, Haknarok fora um instrumento para
melhor poder analisar o processo microscopicamente, in situ. Ainda
assim repetia-se o erro de seus predecessores, outros imolados e
criminosos antes dele, independentemente de qualquer momento em que
fosse desencarnado, redundando sempre em fracasso do experimento, como
o desencarne próximo que seu inútil e atual instrumento assim
constatou.

Mais uma vez.

Voltou à velha prancheta de trabalho. Um verdadeiro cartum, um
coiote tentando pegar, inutilmente, o papaléguas. Bip-bip!!

Em verdade, tinha de reconhecer, estava cansado de ser eterno;
sentia-se velho não como um conceito puramente temporal mas mais como
uma constatação de que a velhice era um processo de estagnação que
levava à morte, a ceifadora dessa mesma estagnação. Um engenho que
Ele não tinha o que reclamar desde sua invenção. Posto isso, contudo,
o porquê de algo que não se consegue identificar, sendo-se figura de
proa do universo, o Deus como o chamavam em várias línguas e culturas,
era, paradoxalmente, a chama que o mantinha aceso. Algo pelo que se
manter vivo no sentido inato do termo, vendo Haknarok a despir seu
manto de fortaleza empírica que Ele forjara para tal criatura,
jogando-o novamente para um não cessar de corpos descartados,
processos falidos, multidões repetitivas, fé renovada e a resposta
sempre inalterada: Por quê????

Plantou - com o Seu poder isso era uma ninharia - o dedo médio no cu
do universo e rasgou-o de baixo pra cima.

Foda-se cósmico!

Riu intima e publicamente. Nem mesmo o 'Todo-Poderoso' estava livre
de um gestual, além de praguejar, a cada milhão de anos, seu foda-se
ritual.

Quando chegava nesse ponto era sempre uma mesma decisão:

Tentar de novo! Rebobinar a fita.

Sim, todavia por quanto mais tempo?? Adiantaria continuar assim,
eternizando a dúvida??

Só Ele sabia a resposta. Só Ele já tinha o veredicto.

O papaléguas não escaparia da próxima vez!

   

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