|
[Processo criativo: Este conto é, como alguns devem ter notado, uma
seqüência
de: "Tempestade" e teve sua origem em uma lista de
escritores
de que participo em que tínhamos um desafio semanal para
escrevermos
um mini-conto de 300 palavras com uma pequena variação
para
mais um para menos e na semana em que criei este o tema era:
Loucura.]
Levantou
e saiu, caminhando, para a chuva torrencial. Pela primeira
vez
em dias, abandonava o abrigo que aquela arvore lhe proporcionava,
daquela
chuva sem trégua. Concentrava-se na areia molhada sob os pés e
relembrava
os tempos em que tudo era diferente. Os tempos em que as
coisas
não eram tão molhadas.
Seus
cabelos não tardaram em ficar encharcados e aquela opressão
causada
pelas gotas caindo sobre sua cabeça voltou rapidamente.
Começou
a correr, primeiro trotando procurando outro lugar para ficar,
um
lugar de onde pudesse chegar as montanhas em uma outra incursão, em
um
outro dia, depois mais rápido com certo desespero.
***
Estava
correndo, já nem sabia há quanto tempo. Seu fôlego dava sinais
de
estar enfraquecendo e nada. Resolveu então, em sua loucura úmida,
correr
até o topo do penhasco e com o que lhe restava de forças
começou
a escalada. O poncho nego completamente ensopado e es rajadas
de
vento aumentavam a sensação de frio, mas ele tinha que chegar ao
topo.
Na mente tempestuosa o pensamento no encontro com Deus. Ele
tinha
de chegar.
Pedras
rolaram em um ponto mais íngreme e ele caiu. Não se importou
com
o sangue escorrendo do joelho e continuou em sua corrida
desvairada
rumo ao topo, ao céu.
***
Chegou.
Caiu e ficou ali, deitado por alguns minutos, ofegante e cheio
de
esperança. Ele já sonhara e agora ficaria livre. Levantou-se e
olhou
a paisagem. Era como a do sonho, porém molhada. Abriu os braços
e
adquiriu a aparência de um imenso pássaro negro. Ele sabia o que
estava
por acontecer, já o sonhara. Respirou fundo e atirou-se para o
vôo.
Era
maravilhoso, era como no sonho só que o fim chegou muito mais
rápido.
Mais
um trovão se fez ouvir. Um vulto negro; morto, descansava ao pé
da
montanha.
|