Uns Pobres Diabos

 Aimberê Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0120]
[Autor:
Aimberê Filho]
[Título: Uns Pobres Diabos]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 4.790]

 

Éramos alguns amigos de papo para o ar naquela hora em que todo mundo - ou quase todo mundo - já foi dormir. Quatro amigos, para ser exato, e ainda todos estudantes. Os quatro sentados à volta da única mesa do quarto de pensão (ocupado por mim), a discutir abobrinhas na hora neutra da madrugada.

A abobrinha da hora era Deus. É bater e valer: sempre que chega a madrugada, quem já bebeu um vinhozinho e está mais para lá do que para cá, dá de falar em Deus. Bem ou mal, é Dele que falam. Eu, que não tinha bebido nada, só ouvia.

Deus - atacou o mais ateu do grupo, que ia ser sociólogo é o ópio do mundo.

— Apoiado! Apoiado! — berraram os outros dois, um da Medicina, outro da Odontologia, ambos de branco, ambos muito risonhos.

— E você? — virou-se para mim o quase-sociólogo — Como vê tudo isso, futuro jornalista?

Ele implicava comigo porque, no fundo, sempre desejou ser jornalista mas três vezes tentou passar no vestibular para Comunicação Social e não conseguiu. Na verdade, nunca ia saber que sortudo era por isso.

— É! Diz aí, diz aí! — gritaram os dois sujeitos de branco, numas vozes que me pareceram por demais estridentes para a hora.

Fuzilei os três, o quase sociólogo e as duas hienas de branco, com o mesmo olhar gelado.

- Deus? - indaguei, meio violento - Por que só ficam falando em Deus? Falam, falam, mas a verdade é que, quanto mais falam, se bem ou se mal, mais forte Ele fica. Sabem, vou lhes dizer uma coisa. Eu tenho simpatia mesmo é pelo Diabo.

Houve um instante de silêncio. Os três, muito calados, olhavam-me como se eu próprio, naquele momento, tivesse incorporado a figura demoníaca de Belzebu.

- Há-há. - riram, sem se conter, os sujeitos de branco, um riso nervoso. Mas foi o estudante de Sociologia, com seu racionalismo científico, quem me interpelou:

- Então explique: por quê?

- Por quê? - retruquei exasperando-me - E você ainda pergunta? Olhe para o mundo a nossa volta! O que você vê? De toda nossa conversa essa noite, o que salvamos? A constatação da beleza e da importância das mulheres? Isso é muito pouco. O mundo, como hoje está edificado, é uma droga, e às vezes eu tenho a impressão de que é porque não demos uma chance para o Diabo. Já pensaram? Pior, pior que está não ficaria!

Aí é que o silêncio se intensificou. Durou alguns instantes, quando então ouvi ruídos: eram cadeiras se arrastando. O futuro sociólogo disse:

- Bom, vou chegando. O papo está bom, mas por hoje chega. Amanhã tem guerra.

- Nós também vamos saindo. - disseram, em uníssono perfeito, o quase-médico e o quase-odontólogo, que haviam perdido todo o riso.

Acompanhei as hienas até a porta. Sobrou o estudante de Sociologia, que esperara que os outros dois saíssem para me dizer:

- Esse papo meu de que sou ateu, sabe, é mais papo que outra coisa. Eu... recentemente andei freqüentando um desses grupinhos de oração, achei um para os lados da praia, parece bom. Está aqui o endereço, se você quiser aparecer... Aos sábados.

E estendeu-me um papelzinho com telefone e endereço do grupo, cujo nome esqueci no momento seguinte pois achei absolutamente idiota. Nada disse, entretanto, e ele se foi batendo a porta. Ouvi ainda seus passos meio inseguros na escada e pensei, muito impressionado, que as pessoas eram mesmo um poço de surpresas, cujo conteúdo pode variar incrivelmente de indivíduo para indivíduo, independente de seu grau de escolaridade, cor, sexo ou outra variável qualquer.

Estava tecendo esses comentários mentais verdadeiramente filosóficos sobre a alma e seus mistérios quando ouvi passos de alguém subindo as mesmas escadas pelas quais meus conhecidos haviam descido. Imaginei que se tratasse de meu amigo ateu,
muito recentemente convertido, que esquecera alguma coisa. Então, já um pouco envergonhado das palavras que acabara de dizer, e sobretudo da forma como falara, fui abrir a porta, tentando aparentar o maior bom humor possível:

- Esqueceu de me passar o horário da missa, foi?

Mas não recebi resposta alguma. Só a escuridão do corredor, apagado por ordem da senhoria para contenção de despesas com eletricidade. Mais nada. Fechei a porta pensativo e, quando me virei, dei com ele.



Ele já estava confortavelmente assentado à mesa em que há pouco, eu e os outros rapazes sentáramos. Olhava-me muito sorridente e com uma pitada de maldade, também, como se soubesse o que se passava na minha alma.

Ele então levantou-se e, tomando um guarda-chuva que trazia, passou a fazer malabarismos, enquanto com a outra mão tirava seu chapéu. Dois chifres enormes e ossudos apareceram na sua calva e ele disse:

- Prazer, meu caro. Desculpe se te assustei. Não queria fazer nada disso.

- Meu Deus - eu exclamei enquanto dava dois grandes e sábios passos para trás - Você é quem eu acho que é?

- Sou eu mesmo. - respondeu-me o visitante voltando a sentar-se depois do exercício, não sem alguma dificuldade. - Belzebu, ao vivo e a cores.

Acho que arregalei os dois olhos, e teria arregalado outros, se tivesse.

- Então, por favor, desculpe-me! - apressei-me em dizer.

- Por que deveria desculpá-lo? - indagou o visitante, curioso.

- Por ter dito o nome de Deus na sua frente. - respondi.

- Ah. - o Diabo deu um risinho - Não tem importância, não. Faz tempo que não ligo mais para essas picuinhas. Relaxe...

Ele então voltou a olhar-me daquele jeito anterior. Tentei desviar a vista, mas Belzebu era como as moscas, e parecia ter olhos em cada poro. Disse-me, depois de um tempo e apontando o guarda-chuva.

- Você está tremendo.

- É o frio. - respondi.

- É o medo. - replicou ele - Mas não faz mal. Pode ter medo. Deve ter. Afinal, eu sou o Diabo. Entretanto, foi você quem me chamou, quando pronunciou o meu nome...

- Ah - interrompi, contente por encontrar um assunto em comum entre nós - Então é verdade o que os velhos dizem sobre sua figura? Que quem pronuncia o seu nome, acaba chamando por você?

- Folclore, tudo folclore, garoto. - esclareceu-me Belzebu abanando a cabeça e sorrindo - Só fiz uso disso para ficar uma coisa mais bonita, para te impressionar. Sei que você gosta desse negócio de folclore, que a bem da verdade, não vale bulhufas. Na verdade, vim aqui por um motivo muito mais prático.

- Qual?

O Diabo então rodou de novo o guarda-chuva. Achei que ia furar meu olho, de tão perto que colocou na minha cara. Aí meteu-o novamente entre as pernas e, apoiando-se nele como um velho se apoia numa bengala, desabafou inesperadamente:

- Estou a fim de me lançar novamente candidato.

Foi mesmo um desabafo inesperado. Eu imaginaria tudo, menos uma frase assim. Redargüi:

- Como é?

- É o que você ouviu. Quero voltar a ser candidato àquele lugar que é meu e que me tomaram. - e com mais violência - Quero que Deus venha para onde estou para ver o que é o Inferno.

Eu estava cada vez mais assustado. Inversamente, cada vez entendia menos.

- Não estou te entendo. - confessei simplesmente.

- Cacete! - bradou Belzebu - Você é um bocado lerdo mesmo. Isto é... desculpe, desculpe... estou um pouco nervoso nesses últimos tempos. Estresse, cansaço, já não sou mais o mesmo de antes. Olhe, por que não se senta?

E estendeu uma cadeira na minha direção, bem em frente da sua:

- Quero te contratar para ser meu assessor de campanha. No duro. Nada muito complicado. Já saquei que você não é muito dessa de jornalismo, e pensei numa coisa mais light... uma biografia. Que tal?

- Biografia de quem? - eu indaguei.

- Minha, do Papa é que não ia ser, porra! - berrou Belzebu. Depois, controlando-se:
- Claro, seria só o início. Então batalharíamos por um programa de rádio. Vai ser difícil, com o preconceito que rola hoje em dia ao meu respeito, mas talvez, com a biografia, os caminhos se abram...

- Não vai dar, Bebu.

- Como é? - ele se virou abrindo bem os olhos vermelhos, um pouco amarelados.

- É isso mesmo. - eu falei, dessa vez sem titubear. - Se você veio aqui achando que eu tenho alguma simpatia especial por você, acho que vai se decepcionar. Só falei aquilo com o pessoal hoje porque a conversa já tinha enchido e eu queria dormir, como, aliás, ainda quero. E também porque hoje foi um dia péssimo, tive uns problemas com uma pessoa, a gente brigou, se desentendeu e eu estou com um humor terrível. Por isso falei aquilo sobre você, porque queria ser do contra com eles. E além do mais, ainda que eu quisesse aceitar essa sua proposta, ainda que tivesse algumachance de dar certo hoje em dia (e não tem), haveria a censura, não a oficial, mas a outra, da sociedade. E também...

- Não, não - interrompeu o Diabo impaciente - Não estou falando de nada disso, não. Foi uma palavra que você falou, antes, que me interessou. Como você me chamou? Bebu?

- Ah. - eu dei uma risada, já mais descontraído - Foi uma história que eu li, o narrador também tinha uma conversa com o Diabo e o chamava afetuosamente assim, de Bebu.

- É claro que eu conheço essa história. - fez Bebu abrindo um sorriso que eu já conhecia e que parecia devassar a minha alma - É do Rubem Braga, "Eu e Bebu na hora neutra da madrugada".

- Essa mesmo! - eu exclamei. - Mas como você sabe? Foi você... você inspirou o Rubem a escrever aquela história...? Caramba, Bebu, foi você?

O sorriso de Bebu se alargou. Ele disse, piscando um olho:

- Estou entendendo o que você quer com essa pergunta... Já está me olhando com outros olhos, não está? E também a você, certo? "Bem", você deve estar pensando, "se o Bebu que está aqui é o mesmo que andava com o Rubem Braga, isso quer dizer que ele deve valer alguma coisa. Por esse raciocínio, se ele vale alguma coisa e veio aqui me procurar, então é porque me dá um valor equivalente àquele que dava ao Rubem. Assim, eu, por conseguinte, devo ter, o mesmo talento literário que o velho Braga". Não é assim?

- Que é isso, Bebu, eu...

- FALE A VERDADE, SEU RATO! - o Diabo esbravejou com violência.

- Está bem. - confirmei assustado, desviando inutilmente a vista - É isso mesmo. Confesso que não sou nada modesto. Confesso que não tenho modéstia nenhuma, na verdade. Confesso que pensei isso mesmo que você disse.

- Ah. - Bebu levantou-se. Caminhando pelo cubículo, prosseguiu: - Eu também tenho que te confessar uma coisa.

- Sim? - indaguei, os olhos ainda levemente faiscantes de esperança - Vai dizer que também tenho algum talento para escrever?

- Não, não. Vou dizer que só te procurei porque estou absolutamente falido. - respondeu-me Bebu, desta vez profundamente sério. - Sem nada, um vintém, um trocado furado, uma merreca, nem esmola, recebo hoje em dia. E logo eu, que já fui Rei, nos tempos em que a Cruz (a maldita, infame Cruz!) ainda não havia povoado a Terra! Só por isso te procurei: porque você foi o que me apareceu de menos pior no quesito custo-benefício. Mas, sobretudo, porque não queria andar muito. Sabe, estou cansado, e velho.

Só então reparei, verdadeiramente, no meu visitante. Eu, que já o tomava por uma figura ilustre, enfim vi que não poderia me enganar tanto. Ali estava ele, lutando para manter uma certa postura, mas as costas não deixavam de arquear. E o guarda-chuva, que devia servir de bengala, estava mais escangalhado que sua espinha. Observei também que o terno escuro de Belzebu, russo e cheio de carcomidos, (que imaginei serem de traças) exalava um odor de naftalina. Era, portanto, uma roupa velha, e surrada. Talvez tão surrada e tão velha como a de qualquer mendigo de praça. Eu disse, com voz compungida:

- Sinto muito, Bebu.

- Sente o seu caralho! - esbravejou ele coçando a barba malfeita, cheia de fios já grisalhos, para depois meter o guarda-chuva na minha cabeça - Está só aproveitando a oportunidade para se fazer de superior, que eu sei. É muito fácil falar que sente muito, que entende tudo, vivendo a vida que você vive, tão confortável, cursando a "universidade". Você, no fundo, é igual aos seus coleguinhas frívolos. Veja o Rubem, que você inveja tanto, é outro papo. Não me tratou como um coitado, como você. Me fez seu igual, tomou a média comigo, bebeu uma cerveja... Nem sei se você bebe, é capaz de não, e ainda se faz de superior. Você não é um pobre-diabo como nós...

Nunca pensei que não ser um pobre-diabo doesse tanto. Em mim doeu, e eu falei, apalpando um galo que havia surgido bem no alto do meu cocuruto.

- Tem razão, Bebu. Eu sou tudo isso mesmo, ou melhor, não sou nada do que o Rubem e você são, mas e daí? Estou construindo meu próprio caminho...

Ele olhou-me então com aquele olhar que devassava a tudo e suspirou, levantando-se: 
- Faça como quiser. Eu vou indo.
- Como é? Já vai? - indaguei também me erguendo.
- É. O que você queria? Nem uma cerveja você me ofereceu. Nem água! E você está com sono. É melhor ir para a caminha, filhinho...

Não sei se por causa do sono, se porquê fiquei realmente chateado com todas aquelas verdades que o Diabo me jogava assim na cara, o fato é que disse:

- Boa noite, então. Vade retro, Satanás.

E quando ele já estava no batente da porta:

- Perdedor!

Bebu então me olhou novamente com aquele sorriso,voltou, deu-me outra guarda-chuvada, e foi-se, batendo a porta atrás de si.



Seus passos ecoaram de dois em dois na escada, de três em três, na verdade, pois havia o guarda-chuva. Ainda aguardei uns dois minutos sentado onde estava, massageando a cabeça ferida, na expectativa de que ele voltasse, mas foi em vão. Eu havia expulsado o Diabo de casa sem a ajuda de um exorcista e devia estar satisfeito. Mas não estava. Alguma coisa estava
cheirando mal.

Olhei para cima da mesa e vi o que estava causando aquele furdum todo. Era o chapéu de Bebu, que ele acabara esquecendo ao sair tão de supetão. Tomei-o nas mãos não sem nojo e reparei que, dentro, havia dois buracos para ele meter o chifre. Pobre do Diabo! Tinha que andar disfarçado entre os homens para que não o maltratassem. Só aí atinei que, a essa hora, sem o chapéu, e a mercê dos homens, Bebu podia estar morto.  Saí apressado sem me preocupar com o fato de que ia descalço e que a porta ficaria aberta. Saí sem pensar em nada e ganhei a rua dessa forma. No frio da madrugada, olhei em volta o quarteirão deserto e não vi viva alma. Gritei:

- Bebu! Bebu! Ô, Bebuuuu!

Um morcego voou rente, e depois se enganchou num galho de uma entre as muitas árvores do bairro de classe média onde eu morava na Capital. Estremeci com o morceguinho e então vi como era mesmo um fraco, e um fraco burguês, o que era pior. Voltei a me lembrar de Bebu com os chifres ao vento e gritei novamente:

- Bebuuuuu!

Ouvi então um som. Eram vozes, certamente, talvez um coro de vozes. Com um mau pressentimento, recomecei a correr. Virando a esquina do quarteirão, quase trombei com um grupo de pessoas que caminhavam lentamente na direção oposta, segurando velas. Suas vozes, tristes, tristes, ecoavam na noite, cantando em uníssono:

Jesus, Jesus, na Cruz Seu Poder derrotou Satanás. Fincando-lhe a Espada de Luz Mostrou o que Seu Poder faz!

Jesus, Jesus...

Penetrei na multidão de religiosos, trôpego, à procura de alguma coisa que nem eu mesmo sabia o que era. Vi então que alguns homens traziam algo suspenso sobre os ombros. De onde estava, pareceu-me um ataúde, e eu murmurei, desesperado:

- Está morto! Meu Deus, está Morto! 

Percebi então que uma velha me fitava naquele instante, do meio da multidão. Aproximando-se, disse, numa voz mais potente que seu corpo magro poderia
permitir que imaginássemos:

- Sim, meu filho, está morto. E a verdade é que nós O matamos... Todos nós...

- Todos aqui? - indaguei fitando detidamente a mulher, que cheirava mais à naftalina que o terno de Bebu. - Até a senhora?

- Como, eu? - ela pela primeira vez me encarou, os olhos fundos arregalados de espanto com minhas palavras.

- Tudo bem, a senhora pode nem ter feito nada, ou apenas olhado de curiosa, o que já seria um crime. Mas os outros não! Os outros têm culpa! - eu insisti com mais violência. - Somente me pergunto... como conseguiram ser tão rápidos... e tão intolerantes! Matar ele como fizeram é reascender a velha Fogueira...

- Mas do que você está falando? - a mulher parecia cada vez entender menos - Todos sabem que não teve fogueira nenhuma. Ele foi crucificado!

- Bebu, numa cruz?! - eu falei num fio de voz. - Então é pior do que eu pensava!

- Bebum? - a mulher já me olhava como se falasse com um lunático - Que Bebum? Estou falando do Senhor Crucificado! Hoje é noite de Corpus Christi, meu filho, Noite do Senhor Morto! É a imagem dEle que nós levamos aí nesse ataúde. Valha-me Deus, que pouco informada é essa geração!

E prosseguiu, juntando sua voz rouca ao coro monótono, que se foi, deixando a rua novamente deserta.

Eu suspirei, aliviado com meu engano bobo, de confundir o Diabo com o cadáver de Cristo. Só então observei que a rua não se encontrava de todo vazia. Sentado no ponto de ônibus, do outro lado da rua, estava Belzebu.

- Bebu!

Ele virou-se, mas fingiu não ver-me. Atravessei a rua e fui ter com ele assim mesmo.

- Bebu, parece milagre. Achei que aquele povo tinha matado você. Mas era só Jesus.

- Ah. - ele falou fingindo indiferença - E daí se tivessem? Já sou um moribundo...

- Deixe de teatro, Bebu. Trouxe aqui o seu chapéu, para que...

- Que chapéu? - ele indagou, apertando a vista para observar melhor minhas mãos vazias.

- Ai, Bebu! - empalideci - Perdi seu chapéu no meio da multidão que passava homenageando o Senhor Morto. Não fiz por mal. Sou um desastrado. E agora? Como você vai disfarçar esses chifres?

- Ah, por isso não. - fez ele voltando a aparentar indiferença - Ninguém mais liga para o verdadeiro Diabo hoje em dia. Quer ver?

Passava um homem do outro lado da rua, agora. Talvez viesse de algum bar, pois andava cambaleando. Bebu gritou:

- Ei, cidadão! Olhe para cá! Veja esses chifres. São legítimos! E eu sou o verdadeiro Satã em pessoa!

O homem, apesar de bêbado, não parecia simpático. Berrou:

- E eu sou Calígula! Vá chatear o bode, vagabundo!

- Viu? Nem bêbado acredita.- sorriu ele, piscando para mim com uma tristeza  agora mais sincera que teatral - Gostava do chapéu apenas porque ainda estava em bom estado. E era elegante.

- Quer saber, Bebu? - disse eu de supetão - Vou fazer sua biografia! Palavra que vou, ou não sou mais quem sou!

Ele mirou-me incrédulo:

- Sério?

- Palavra.

Então, pela primeira vez na noite, eu vi os olhos vermelhos do Diabo mostrarem mais que um brilho amarelado. Naquela época, eu não compreendi, mas ele não estava feliz apenas por ele, ou por mim, mas por nós dois. Pelo começo de nossa amizade.

- Agora tenho que te confessar uma coisa - falei - Não topei antes escrever porque estava com muito medo de fracassar. Eu sempre tive um medo enorme de fracassar. Não, não. Eu me expressei mal... Na verdade, eu tenho medo mesmo é do sucesso.

Bebu ficou silencioso. Era um momento de revelações. Eu continuei:

- Quer saber por que meu dia foi tão ruim? Porque briguei com minha garota. Pode? Briguei e acho que agora não tem volta. E por um motivo besta, besta,
Belzebu.

- Nenhum motivo é besta se faz alguém sofrer. - sentenciou ele com seriedade. - É por isso que nem Deus é besta.

- Mas o meu motivo é. - insisti - Ela não aceita que eu não diga, sabe? Não aceita que eu não diga: "eu te amo".

- E por que você não diz? - ele indagou olhando-me longamente nos olhos. Você não a ama, é isso?

- Não, não! - retruquei afobado - É que eu tenho vergonha, uma vergonha enorme de admitir essas coisas, Bebu. Tenho vergonha de admitir que sou humano.

- Puxa! - fez Bebu dando um assobio - Seu caso é sério mesmo. Mas tem cura.

- Qual? - perguntei, também mirando-o nos olhos.

- Vá lá agora. Imediatamente. Vá lá na casa dela e diga que a ama.

- Agora? Agora, Bebu? Agora ela já deve estar dorm...

- Vamos, vamos logo, seu rato - disse o Diabo levantando-se com ajuda do guarda-chuva - Vamos que eu te acompanho. Eu vou só até a porta, naturalmente, você entra. Fica longe, a casa dela?

- Tem que pegar ônibus, mas a essa hora não deve passar mais nenhum... - falei pensativo - Espera aí. Vamos de táxi, está bem?

- Está. Vá buscar um, então. - ordenou-me altivamente Belzebu, demonstrando um resquício da antiga nobreza.

Eu fui, não sem antes passar em casa e botar uma roupa adequada, e sapatos. Meti um perfume que sabia que ela gostava e também algum dinheiro na carteira para o táxi e outras despesas eventuais. Voltei até Bebu já motorizado e pedi que ele ocupasse o banco de trás, enquanto guiava o motorista até nosso destino.

No meio do caminho, Bebu pediu para parar. Saltou e foi em direção a uma farmácia, aberta aquela hora da madrugada. Quando voltou, disse daquele jeito dele:

- Perdoem-me o atraso. Podemos ir.

Nosso destino ficava perto do Jardim Público, um lugar muito bonito, mas que aquela hora era sempre ocupado pelas prostitutas em seu trabalho noturno. Ainda assim, ouvi Bebu murmurar para si, bastante satisfeito:

- Lembra-me um certo lugar, sim, se me lembra...

Eu então lhe indaguei, logo depois de pagar o táxi, que chispou:

- E aí, como estou?

- Soberbo. Vais arrasar. - cutucou-me o Diabo com o cotovelo ossudo.

Baixei a cabeça. Disse, os dentes batendo ligeiramente:

- Estou com medo.

Bebu colocou a mão sobre meu ombro:

- Pense assim. Se não der certo, ao menos você tentou. Se der, nem que seja só por uma noite, a vida já está ganha. Coragem!

Eu acenei em assentimento.

- Passo no máximo em meia hora por aqui para irmos embora. Não vá se meter em encrencas.

- Ok. Tome. Um presente. - disse-me ele, e estendeu-me um embrulhinho com a marca das Farmácias Maruípe.

Tomei o pacotinho e rumei para a casa da minha garota. Era tarde, é verdade, mas talvez a mãe dela estivesse acordada, talvez todos estivessem, e eu enfiaria os pés pelas mãos. Porém, ainda assim, era preciso tentar. Coragem!



Era preciso tentar, e tentei. E, devo dizer, sem falsas modéstias, que as pazes foram feitas da melhor forma possível. Encontrei Bebu dormindo num dos bancos do Jardim Público. Parecia um anjo.

- Ei, Bebu, acorda. Desculpe a demora. Nossa. Já está quase amanhecendo.

O Diabo espreguiçou gostoso e disse:

- Você demorou à beça. Então? Como foi?

Eu acho que corei. Falei, meio sem jeito.

- Bom, acho que tudo bem... Eu tenho que te agradecer... o presente... Mas... como você soube que eu iria esquecer... Que iria precisar...

- Você é muito avoado, tem que andar mais prevenido. - fez Bebu piscando o olho e começando a caminhar. - Mas então? Vai vê-la mais tarde?

Eu abanei a cabeça, tentando não parecer triste:

- Não, mais tarde não, Bebu.

- E amanhã? - ele insistiu.

- Nem amanhã, nem depois. - eu forcei um sorriso, porém não foi um sorriso feliz.

- Mas por quê? - o Diabo indagou sem compreender.

- Para te ser franco - disse eu sem conseguir olhá-lo - tem a ver com a nossa amizade.

- Como é? - Belzebu arregalou os olhos vermelhos, amarelados de velhice.

- É, Bebu. Ela não gosta de você, odeia só que falem o seu nome. E agora que nós somos amigos...

- Mas nós não precisamos ser - interrompeu o Diabo - Ora, o que você acha? Quando amanhecer desapareço e você nunca mais vai me ver!

- Ainda que isso acontecesse, - continuei - haveria a biografia. Não poderia fazê-la sem umas entrevistas, teríamos que passar horas juntos. Mas mesmo que eu conseguisse esconder isso dela, e quando saísse o livro? Ela odiaria saber que despendi meu tempo com um assunto que para ela é tão repugnante.

- É tão repugnante assim?

- Demais. Ela é Carismática. Adora todos aqueles padres cantores e...

- Sei, sei. - adiantou-se Bebu - Sei como é.

Houve silêncio. Nesse momento, nós já estávamos parados no ponto de ônibus. O dia começava a raiar, ao longe.

- Esquece.

- O que você disse, Belzebu?

- Esquece a biografia. É isso. Esquece a minha proposta. Deixe tudo para lá. Nada vale perder alguém que a gente ama, nada! Disso, eu entendo. E sabe, essa
história de que uma noite vale para uma vida inteira, é balela, conversa mole. Bom mesmo é a vida inteira, garoto.

Eu tinha a voz embargada por algum motivo. Falei, assim mesmo:

- E, Bebu, e se eu ainda pudesse contribuir, se eu pudesse escrever uma história sobre esta noite, valeria alguma coisa?

- Depende. - fez ele, instantaneamente adquirindo um ar de negócios - Onde você poderia publicar?

- Ah. - eu abri mais os olhos, continuei: - Sabe, eu pertenço a uma oficina de escritores. É um pessoal que se reúne pela internet para conversar e produzir
histórias. Já mandei alguma coisa para lá. Posso mandar esse conto, também, caso você goste da idéia. É uma gente legal, Bebu, ainda que eu tenha ficado com uma pulga atrás da orelha com o resultado do último concurso. Mas deixa isso pra lá. E então?

- Bom, se vai ter alguém para ler... - fez o Diabo nitidamente contrafeito - Desculpe se pareço mal-agradecido, mas é que minha proposta de campanha é boa, boa demais para um conto, sobretudo um conto seu, que não tem a tarimba do Rubem.

- Mas sou conterrâneo dele. - defendi-me - Somos ambos da mesma terra. Não ajuda?

- Se ajudasse, Hitler e Goethe seriam irmãos de idéias, e não é isso o que acontece. Ainda assim, faça... faça... - respondeu Bebu, imediatamente perdendo-se em seus pensamentos -.Mas sabe, quanto à proposta, eu nem pude lhe falar direito sobre ela, porém é mesmo muito boa. Na verdade, é como você disse aos seus amigos à noite. Que nada pode ser pior do que este mundo governado por Deus. Que as coisas poderiam ser diferentes, se não fosse Ele a dar as cartas, umas cartas marcadas, garoto... Ainda assim, é Ele quem manda, e daqui há pouco eu estou indo à igreja velar o Corpo Morto de Jesus. Você não vem comigo?

- Não, não. Eu vou para casa. Dormir.

- Faz bem, faz bem. Ah, é o meu ônibus. Adeus.

Eu estendi a mão ao Diabo, ele me deu um abraço forte e quente, como deve ser.

- Desculpe pelo chapéu, Bebu.

- Tudo bem, garoto. Sabe, você não é um pobre-diabo, mas quem sabe não chega lá. O Braga e muita gente boa já conseguiu. E por que não pede desculpas aos seus amigos pelo modo como os tratou esta noite? Eles têm tantos defeitos quanto eu ou você. Pare de querer ser Deus, entendeu?

- Vou tentar, Bebu.

Ele já estava entrando no ônibus quando gritou:

- Não tente muito Acho que o seu problema maior é esse: você tenta demais. Isso cansa, às vezes, sabe? E veja se não leva esses conselhos a sério demais também, caralho!

E foi-se.

Eu ainda fiquei esperando meu ônibus por um bom tempo. Somente quando ele apontou na curva foi que me dei conta. Meti a mão no bolso de trás da calça e soube. Talvez eu ainda demorasse um bocado para me tornar um diabo, talvez jamais me tornasse, mas ficar pobre, isso eu já conseguira, não sem a expressa ajuda de Bebu:

O Diabo me havia afanado a carteira!

 

Fale com o autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Webmaster: Marta Rolim

Hosted by www.Geocities.ws

1