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Éramos
alguns amigos de papo para o ar naquela hora em que todo mundo - ou
quase todo mundo - já foi dormir. Quatro amigos, para ser exato, e
ainda todos estudantes. Os quatro sentados à volta da única mesa
do quarto de pensão (ocupado por mim), a discutir abobrinhas na
hora neutra da madrugada.
A
abobrinha da hora era Deus. É bater e valer: sempre que chega a
madrugada, quem já bebeu um vinhozinho e está mais para lá do que
para cá, dá de falar em Deus. Bem ou mal, é Dele que falam. Eu,
que não tinha bebido nada, só ouvia.
— Deus - atacou o mais ateu do grupo, que ia ser sociólogo — é o ópio do mundo.
—
Apoiado! Apoiado! — berraram os outros dois, um da Medicina, outro
da Odontologia, ambos de branco, ambos muito risonhos.
—
E você? — virou-se para mim o quase-sociólogo — Como vê tudo
isso, futuro jornalista?
Ele
implicava comigo porque, no fundo, sempre desejou ser jornalista mas
três vezes tentou passar no vestibular para Comunicação Social e
não conseguiu. Na verdade, nunca ia saber que sortudo era por isso.
—
É! Diz aí, diz aí! — gritaram os dois sujeitos de branco, numas
vozes que me pareceram por demais estridentes para a hora.
Fuzilei
os três, o quase sociólogo e as duas hienas de branco, com o mesmo
olhar gelado.
-
Deus? - indaguei, meio violento - Por que só ficam falando em Deus?
Falam, falam, mas a verdade é que, quanto mais falam, se bem ou se
mal, mais forte Ele fica. Sabem, vou lhes dizer uma coisa. Eu tenho
simpatia mesmo é pelo Diabo.
Houve
um instante de silêncio. Os três, muito calados, olhavam-me como
se eu próprio, naquele momento, tivesse incorporado a figura demoníaca
de Belzebu.
- Há-há.
- riram, sem se conter, os sujeitos de branco, um riso nervoso. Mas
foi o estudante de Sociologia, com seu racionalismo científico,
quem me interpelou:
-
Então explique: por quê?
-
Por quê? - retruquei exasperando-me - E você ainda pergunta? Olhe
para o mundo a nossa volta! O que você vê? De toda nossa conversa
essa noite, o que salvamos? A constatação da beleza e da importância
das mulheres? Isso é muito pouco. O mundo, como hoje está
edificado, é uma droga, e às vezes eu tenho a impressão de que é
porque não demos uma chance para o Diabo. Já pensaram? Pior, pior
que está não ficaria!
Aí
é que o silêncio se intensificou. Durou alguns instantes, quando
então ouvi ruídos: eram cadeiras se arrastando. O futuro sociólogo
disse:
-
Bom, vou chegando. O papo está bom, mas por hoje chega. Amanhã tem
guerra.
- Nós
também vamos saindo. - disseram, em uníssono perfeito, o quase-médico
e o quase-odontólogo, que haviam perdido todo o riso.
Acompanhei
as hienas até a porta. Sobrou o estudante de Sociologia, que
esperara que os outros dois saíssem para me dizer:
-
Esse papo meu de que sou ateu, sabe, é mais papo que outra coisa.
Eu... recentemente andei freqüentando um desses grupinhos de oração,
achei um para os lados da praia, parece bom. Está aqui o endereço,
se você quiser aparecer... Aos sábados.
E
estendeu-me um papelzinho com telefone e endereço do grupo, cujo
nome esqueci no momento seguinte pois achei absolutamente idiota.
Nada disse, entretanto, e ele se foi batendo a porta. Ouvi ainda
seus passos meio inseguros na escada e pensei, muito impressionado,
que as pessoas eram mesmo um poço de surpresas, cujo conteúdo pode
variar incrivelmente de indivíduo para indivíduo, independente de
seu grau de escolaridade, cor, sexo ou outra variável qualquer.
Estava
tecendo esses comentários mentais verdadeiramente filosóficos
sobre a alma e seus mistérios quando ouvi passos de alguém subindo
as mesmas escadas pelas quais meus conhecidos haviam descido.
Imaginei que se tratasse de meu amigo ateu,
muito
recentemente convertido, que esquecera alguma coisa. Então, já um
pouco envergonhado das palavras que acabara de dizer, e sobretudo da
forma como falara, fui abrir a porta, tentando aparentar o maior bom
humor possível:
-
Esqueceu de me passar o horário da missa, foi?
Mas
não recebi resposta alguma. Só a escuridão do corredor, apagado
por ordem da senhoria para contenção de despesas com eletricidade.
Mais nada. Fechei a porta pensativo e, quando me virei, dei com ele.
Ele
já estava confortavelmente assentado à mesa em que há pouco, eu e
os outros rapazes sentáramos. Olhava-me muito sorridente e com uma
pitada de maldade, também, como se soubesse o que se passava na
minha alma.
Ele
então levantou-se e, tomando um guarda-chuva que trazia, passou a
fazer malabarismos, enquanto com a outra mão tirava seu chapéu.
Dois chifres enormes e ossudos apareceram na sua calva e ele disse:
-
Prazer, meu caro. Desculpe se te assustei. Não queria fazer nada
disso.
-
Meu Deus - eu exclamei enquanto dava dois grandes e sábios passos
para trás - Você é quem eu acho que é?
-
Sou eu mesmo. - respondeu-me o visitante voltando a sentar-se depois
do exercício, não sem alguma dificuldade. - Belzebu, ao vivo e a
cores.
Acho
que arregalei os dois olhos, e teria arregalado outros, se tivesse.
-
Então, por favor, desculpe-me! - apressei-me em dizer.
-
Por que deveria desculpá-lo? - indagou o visitante, curioso.
-
Por ter dito o nome de Deus na sua frente. - respondi.
-
Ah. - o Diabo deu um risinho - Não tem importância, não. Faz
tempo que não ligo mais para essas picuinhas. Relaxe...
Ele
então voltou a olhar-me daquele jeito anterior. Tentei desviar a
vista, mas Belzebu era como as moscas, e parecia ter olhos em cada
poro. Disse-me, depois de um tempo e apontando o guarda-chuva.
-
Você está tremendo.
- É
o frio. - respondi.
- É
o medo. - replicou ele - Mas não faz mal. Pode ter medo. Deve ter.
Afinal, eu sou o Diabo. Entretanto, foi você quem me chamou, quando
pronunciou o meu nome...
- Ah
- interrompi, contente por encontrar um assunto em comum entre nós
- Então é verdade o que os velhos dizem sobre sua figura? Que quem
pronuncia o seu nome, acaba chamando por você?
-
Folclore, tudo folclore, garoto. - esclareceu-me Belzebu abanando a
cabeça e sorrindo - Só fiz uso disso para ficar uma coisa mais
bonita, para te impressionar. Sei que você gosta desse negócio de
folclore, que a bem da verdade, não vale bulhufas. Na verdade, vim
aqui por um motivo muito mais prático.
-
Qual?
O
Diabo então rodou de novo o guarda-chuva. Achei que ia furar meu
olho, de tão perto que colocou na minha cara. Aí meteu-o novamente
entre as pernas e, apoiando-se nele como um velho se apoia numa
bengala, desabafou inesperadamente:
-
Estou a fim de me lançar novamente candidato.
Foi
mesmo um desabafo inesperado. Eu imaginaria tudo, menos uma frase
assim. Redargüi:
-
Como é?
- É
o que você ouviu. Quero voltar a ser candidato àquele lugar que é
meu e que me tomaram. - e com mais violência - Quero que Deus venha
para onde estou para ver o que é o Inferno.
Eu
estava cada vez mais assustado. Inversamente, cada vez entendia
menos.
- Não
estou te entendo. - confessei simplesmente.
-
Cacete! - bradou Belzebu - Você é um bocado lerdo mesmo. Isto é...
desculpe, desculpe... estou um pouco nervoso nesses últimos tempos.
Estresse, cansaço, já não sou mais o mesmo de antes. Olhe, por
que não se senta?
E
estendeu uma cadeira na minha direção, bem em frente da sua:
-
Quero te contratar para ser meu assessor de campanha. No duro. Nada
muito complicado. Já saquei que você não é muito dessa de
jornalismo, e pensei numa coisa mais light... uma biografia. Que
tal?
-
Biografia de quem? - eu indaguei.
-
Minha, do Papa é que não ia ser, porra! - berrou Belzebu. Depois,
controlando-se:
-
Claro, seria só o início. Então batalharíamos por um programa de
rádio. Vai ser difícil, com o preconceito que rola hoje em dia ao
meu respeito, mas talvez, com a biografia, os caminhos se abram...
- Não
vai dar, Bebu.
-
Como é? - ele se virou abrindo bem os olhos vermelhos, um pouco
amarelados.
- É
isso mesmo. - eu falei, dessa vez sem titubear. - Se você veio aqui
achando que eu tenho alguma simpatia especial por você, acho que
vai se decepcionar. Só falei aquilo com o pessoal hoje porque a
conversa já tinha enchido e eu queria dormir, como, aliás, ainda
quero. E também porque hoje foi um dia péssimo, tive uns problemas
com uma pessoa, a gente brigou, se desentendeu e eu estou com um
humor terrível. Por isso falei aquilo sobre você, porque queria
ser do contra com eles. E além do mais, ainda que eu quisesse
aceitar essa sua proposta, ainda que tivesse algumachance de dar
certo hoje em dia (e não tem), haveria a censura, não a oficial,
mas a outra, da sociedade. E também...
- Não,
não - interrompeu o Diabo impaciente - Não estou falando de nada
disso, não. Foi uma palavra que você falou, antes, que me
interessou. Como você me chamou? Bebu?
-
Ah. - eu dei uma risada, já mais descontraído - Foi uma história
que eu li, o narrador também tinha uma conversa com o Diabo e o
chamava afetuosamente assim, de Bebu.
- É
claro que eu conheço essa história. - fez Bebu abrindo um sorriso
que eu já conhecia e que parecia devassar a minha alma - É do
Rubem Braga, "Eu e Bebu na hora neutra da madrugada".
-
Essa mesmo! - eu exclamei. - Mas como você sabe? Foi você... você
inspirou o Rubem a escrever aquela história...? Caramba, Bebu, foi
você?
O
sorriso de Bebu se alargou. Ele disse, piscando um olho:
-
Estou entendendo o que você quer com essa pergunta... Já está me
olhando com outros olhos, não está? E também a você, certo?
"Bem", você deve estar pensando, "se o Bebu que está
aqui é o mesmo que andava com o Rubem Braga, isso quer dizer que
ele deve valer alguma coisa. Por esse raciocínio, se ele vale
alguma coisa e veio aqui me procurar, então é porque me dá um
valor equivalente àquele que dava ao Rubem. Assim, eu, por
conseguinte, devo ter, o mesmo talento literário que o velho
Braga". Não é assim?
-
Que é isso, Bebu, eu...
-
FALE A VERDADE, SEU RATO! - o Diabo esbravejou com violência.
-
Está bem. - confirmei assustado, desviando inutilmente a vista - É
isso mesmo. Confesso que não sou nada modesto. Confesso que não
tenho modéstia nenhuma, na verdade. Confesso que pensei isso mesmo
que você disse.
-
Ah. - Bebu levantou-se. Caminhando pelo cubículo, prosseguiu: - Eu
também tenho que te confessar uma coisa.
-
Sim? - indaguei, os olhos ainda levemente faiscantes de esperança -
Vai dizer que também tenho algum talento para escrever?
- Não,
não. Vou dizer que só te procurei porque estou absolutamente
falido. - respondeu-me Bebu, desta vez profundamente sério. - Sem
nada, um vintém, um trocado furado, uma merreca, nem esmola, recebo
hoje em dia. E logo eu, que já fui Rei, nos tempos em que a Cruz (a
maldita, infame Cruz!) ainda não havia povoado a Terra! Só por
isso te procurei: porque você foi o que me apareceu de menos pior
no quesito custo-benefício. Mas, sobretudo, porque não queria
andar muito. Sabe, estou cansado, e velho.
Só
então reparei, verdadeiramente, no meu visitante. Eu, que já o
tomava por uma figura ilustre, enfim vi que não poderia me enganar
tanto. Ali estava ele, lutando para manter uma certa postura, mas as
costas não deixavam de arquear. E o guarda-chuva, que devia servir
de bengala, estava mais escangalhado que sua espinha. Observei também
que o terno escuro de Belzebu, russo e cheio de carcomidos, (que
imaginei serem de traças) exalava um odor de naftalina. Era,
portanto, uma roupa velha, e surrada. Talvez tão surrada e tão
velha como a de qualquer mendigo de praça. Eu disse, com voz
compungida:
-
Sinto muito, Bebu.
-
Sente o seu caralho! - esbravejou ele coçando a barba malfeita,
cheia de fios já grisalhos, para depois meter o guarda-chuva na
minha cabeça - Está só aproveitando a oportunidade para se fazer
de superior, que eu sei. É muito fácil falar que sente muito, que
entende tudo, vivendo a vida que você vive, tão confortável,
cursando a "universidade". Você, no fundo, é igual aos
seus coleguinhas frívolos. Veja o Rubem, que você inveja tanto, é
outro papo. Não me tratou como um coitado, como você. Me fez seu
igual, tomou a média comigo, bebeu uma cerveja... Nem sei se você
bebe, é capaz de não, e ainda se faz de superior. Você não é um
pobre-diabo como nós...
Nunca
pensei que não ser um pobre-diabo doesse tanto. Em mim doeu, e eu
falei, apalpando um galo que havia surgido bem no alto do meu
cocuruto.
-
Tem razão, Bebu. Eu sou tudo isso mesmo, ou melhor, não sou nada
do que o Rubem e você são, mas e daí? Estou construindo meu próprio
caminho...
Ele
olhou-me então com aquele olhar que devassava a tudo e suspirou,
levantando-se:
- Faça
como quiser. Eu vou indo.
-
Como é? Já vai? - indaguei também me erguendo.
- É.
O que você queria? Nem uma cerveja você me ofereceu. Nem água! E
você está com sono. É melhor ir para a caminha, filhinho...
Não
sei se por causa do sono, se porquê fiquei realmente chateado com
todas aquelas verdades que o Diabo me jogava assim na cara, o fato
é que disse:
-
Boa noite, então. Vade retro, Satanás.
E
quando ele já estava no batente da porta:
-
Perdedor!
Bebu
então me olhou novamente com aquele sorriso,voltou, deu-me outra
guarda-chuvada, e foi-se, batendo a porta atrás de si.
Seus
passos ecoaram de dois em dois na escada, de três em três, na
verdade, pois havia o guarda-chuva. Ainda aguardei uns dois minutos
sentado onde estava, massageando a cabeça ferida, na expectativa de
que ele voltasse, mas foi em vão. Eu havia expulsado o Diabo de
casa sem a ajuda de um exorcista e devia estar satisfeito. Mas não
estava. Alguma coisa estava
cheirando
mal.
Olhei
para cima da mesa e vi o que estava causando aquele furdum todo. Era
o chapéu de Bebu, que ele acabara esquecendo ao sair tão de supetão.
Tomei-o nas mãos não sem nojo e reparei que, dentro, havia dois
buracos para ele meter o chifre. Pobre do Diabo! Tinha que andar
disfarçado entre os homens para que não o maltratassem. Só aí
atinei que, a essa hora, sem o chapéu, e a mercê dos homens, Bebu
podia estar morto. Saí apressado sem me preocupar com o fato
de que ia descalço e que a porta ficaria aberta. Saí sem pensar em
nada e ganhei a rua dessa forma. No frio da madrugada, olhei em
volta o quarteirão deserto e não vi viva alma. Gritei:
-
Bebu! Bebu! Ô, Bebuuuu!
Um
morcego voou rente, e depois se enganchou num galho de uma entre as
muitas árvores do bairro de classe média onde eu morava na
Capital. Estremeci com o morceguinho e então vi como era mesmo um
fraco, e um fraco burguês, o que era pior. Voltei a me lembrar de
Bebu com os chifres ao vento e gritei novamente:
-
Bebuuuuu!
Ouvi
então um som. Eram vozes, certamente, talvez um coro de vozes. Com
um mau pressentimento, recomecei a correr. Virando a esquina do
quarteirão, quase trombei com um grupo de pessoas que caminhavam
lentamente na direção oposta, segurando velas. Suas vozes,
tristes, tristes, ecoavam na noite, cantando em uníssono:
Jesus,
Jesus, na Cruz Seu Poder derrotou Satanás. Fincando-lhe a Espada de
Luz Mostrou o que Seu Poder faz!
Jesus,
Jesus...
Penetrei
na multidão de religiosos, trôpego, à procura de alguma coisa que
nem eu mesmo sabia o que era. Vi então que alguns homens traziam
algo suspenso sobre os ombros. De onde estava, pareceu-me um ataúde,
e eu murmurei, desesperado:
-
Está morto! Meu Deus, está Morto!
Percebi
então que uma velha me fitava naquele instante, do meio da multidão.
Aproximando-se, disse, numa voz mais potente que seu corpo magro
poderia
permitir
que imaginássemos:
-
Sim, meu filho, está morto. E a verdade é que nós O matamos...
Todos nós...
-
Todos aqui? - indaguei fitando detidamente a mulher, que cheirava
mais à naftalina que o terno de Bebu. - Até a senhora?
-
Como, eu? - ela pela primeira vez me encarou, os olhos fundos
arregalados de espanto com minhas palavras.
-
Tudo bem, a senhora pode nem ter feito nada, ou apenas olhado de
curiosa, o que já seria um crime. Mas os outros não! Os outros têm
culpa! - eu insisti com mais violência. - Somente me pergunto...
como conseguiram ser tão rápidos... e tão intolerantes! Matar ele
como fizeram é reascender a velha Fogueira...
-
Mas do que você está falando? - a mulher parecia cada vez entender
menos - Todos sabem que não teve fogueira nenhuma. Ele foi
crucificado!
-
Bebu, numa cruz?! - eu falei num fio de voz. - Então é pior do que
eu pensava!
-
Bebum? - a mulher já me olhava como se falasse com um lunático -
Que Bebum? Estou falando do Senhor Crucificado! Hoje é noite de
Corpus Christi, meu filho, Noite do Senhor Morto! É a imagem dEle
que nós levamos aí nesse ataúde. Valha-me Deus, que pouco
informada é essa geração!
E
prosseguiu, juntando sua voz rouca ao coro monótono, que se foi,
deixando a rua novamente deserta.
Eu
suspirei, aliviado com meu engano bobo, de confundir o Diabo com o
cadáver de Cristo. Só então observei que a rua não se encontrava
de todo vazia. Sentado no ponto de ônibus, do outro lado da rua,
estava Belzebu.
-
Bebu!
Ele
virou-se, mas fingiu não ver-me. Atravessei a rua e fui ter com ele
assim mesmo.
-
Bebu, parece milagre. Achei que aquele povo tinha matado você. Mas
era só Jesus.
-
Ah. - ele falou fingindo indiferença - E daí se tivessem? Já sou
um moribundo...
-
Deixe de teatro, Bebu. Trouxe aqui o seu chapéu, para que...
-
Que chapéu? - ele indagou, apertando a vista para observar melhor
minhas mãos vazias.
-
Ai, Bebu! - empalideci - Perdi seu chapéu no meio da multidão que
passava homenageando o Senhor Morto. Não fiz por mal. Sou um
desastrado. E agora? Como você vai disfarçar esses chifres?
-
Ah, por isso não. - fez ele voltando a aparentar indiferença -
Ninguém mais liga para o verdadeiro Diabo hoje em dia. Quer ver?
Passava
um homem do outro lado da rua, agora. Talvez viesse de algum bar,
pois andava cambaleando. Bebu gritou:
- Ei,
cidadão! Olhe para cá! Veja esses chifres. São legítimos! E eu
sou o verdadeiro Satã em pessoa!
O
homem, apesar de bêbado, não parecia simpático. Berrou:
- E
eu sou Calígula! Vá chatear o bode, vagabundo!
-
Viu? Nem bêbado acredita.- sorriu ele, piscando para mim com uma
tristeza agora mais sincera que teatral - Gostava do chapéu
apenas porque ainda estava em bom estado. E era elegante.
-
Quer saber, Bebu? - disse eu de supetão - Vou fazer sua biografia!
Palavra que vou, ou não sou mais quem sou!
Ele
mirou-me incrédulo:
- Sério?
-
Palavra.
Então,
pela primeira vez na noite, eu vi os olhos vermelhos do Diabo
mostrarem mais que um brilho amarelado. Naquela época, eu não
compreendi, mas ele não estava feliz apenas por ele, ou por mim,
mas por nós dois. Pelo começo de nossa amizade.
-
Agora tenho que te confessar uma coisa - falei - Não topei antes
escrever porque estava com muito medo de fracassar. Eu sempre tive
um medo enorme de fracassar. Não, não. Eu me expressei mal... Na
verdade, eu tenho medo mesmo é do sucesso.
Bebu
ficou silencioso. Era um momento de revelações. Eu continuei:
-
Quer saber por que meu dia foi tão ruim? Porque briguei com minha
garota. Pode? Briguei e acho que agora não tem volta. E por um
motivo besta, besta,
Belzebu.
-
Nenhum motivo é besta se faz alguém sofrer. - sentenciou ele com
seriedade. - É por isso que nem Deus é besta.
-
Mas o meu motivo é. - insisti - Ela não aceita que eu não diga,
sabe? Não aceita que eu não diga: "eu te amo".
- E
por que você não diz? - ele indagou olhando-me longamente nos
olhos. Você não a ama, é isso?
- Não,
não! - retruquei afobado - É que eu tenho vergonha, uma vergonha
enorme de admitir essas coisas, Bebu. Tenho vergonha de admitir que
sou humano.
-
Puxa! - fez Bebu dando um assobio - Seu caso é sério mesmo. Mas
tem cura.
-
Qual? - perguntei, também mirando-o nos olhos.
- Vá
lá agora. Imediatamente. Vá lá na casa dela e diga que a ama.
-
Agora? Agora, Bebu? Agora ela já deve estar dorm...
-
Vamos, vamos logo, seu rato - disse o Diabo levantando-se com ajuda
do guarda-chuva - Vamos que eu te acompanho. Eu vou só até a
porta, naturalmente, você entra. Fica longe, a casa dela?
-
Tem que pegar ônibus, mas a essa hora não deve passar mais
nenhum... - falei pensativo - Espera aí. Vamos de táxi, está bem?
-
Está. Vá buscar um, então. - ordenou-me altivamente Belzebu,
demonstrando um resquício da antiga nobreza.
Eu
fui, não sem antes passar em casa e botar uma roupa adequada, e
sapatos. Meti um perfume que sabia que ela gostava e também algum
dinheiro na carteira para o táxi e outras despesas eventuais.
Voltei até Bebu já motorizado e pedi que ele ocupasse o banco de
trás, enquanto guiava o motorista até nosso destino.
No
meio do caminho, Bebu pediu para parar. Saltou e foi em direção a
uma farmácia, aberta aquela hora da madrugada. Quando voltou, disse
daquele jeito dele:
-
Perdoem-me o atraso. Podemos ir.
Nosso
destino ficava perto do Jardim Público, um lugar muito bonito, mas
que aquela hora era sempre ocupado pelas prostitutas em seu trabalho
noturno. Ainda assim, ouvi Bebu murmurar para si, bastante
satisfeito:
-
Lembra-me um certo lugar, sim, se me lembra...
Eu
então lhe indaguei, logo depois de pagar o táxi, que chispou:
- E
aí, como estou?
-
Soberbo. Vais arrasar. - cutucou-me o Diabo com o cotovelo ossudo.
Baixei
a cabeça. Disse, os dentes batendo ligeiramente:
-
Estou com medo.
Bebu
colocou a mão sobre meu ombro:
-
Pense assim. Se não der certo, ao menos você tentou. Se der, nem
que seja só por uma noite, a vida já está ganha. Coragem!
Eu
acenei em assentimento.
-
Passo no máximo em meia hora por aqui para irmos embora. Não vá
se meter em encrencas.
- Ok.
Tome. Um presente. - disse-me ele, e estendeu-me um embrulhinho com
a marca das Farmácias Maruípe.
Tomei
o pacotinho e rumei para a casa da minha garota. Era tarde, é
verdade, mas talvez a mãe dela estivesse acordada, talvez todos
estivessem, e eu enfiaria os pés pelas mãos. Porém, ainda assim,
era preciso tentar. Coragem!
Era
preciso tentar, e tentei. E, devo dizer, sem falsas modéstias, que
as pazes foram feitas da melhor forma possível. Encontrei Bebu
dormindo num dos bancos do Jardim Público. Parecia um anjo.
- Ei,
Bebu, acorda. Desculpe a demora. Nossa. Já está quase amanhecendo.
O
Diabo espreguiçou gostoso e disse:
-
Você demorou à beça. Então? Como foi?
Eu
acho que corei. Falei, meio sem jeito.
-
Bom, acho que tudo bem... Eu tenho que te agradecer... o presente...
Mas... como você soube que eu iria esquecer... Que iria precisar...
-
Você é muito avoado, tem que andar mais prevenido. - fez Bebu
piscando o olho e começando a caminhar. - Mas então? Vai vê-la
mais tarde?
Eu
abanei a cabeça, tentando não parecer triste:
- Não,
mais tarde não, Bebu.
- E
amanhã? - ele insistiu.
-
Nem amanhã, nem depois. - eu forcei um sorriso, porém não foi um
sorriso feliz.
-
Mas por quê? - o Diabo indagou sem compreender.
-
Para te ser franco - disse eu sem conseguir olhá-lo - tem a ver com
a nossa amizade.
-
Como é? - Belzebu arregalou os olhos vermelhos, amarelados de
velhice.
- É,
Bebu. Ela não gosta de você, odeia só que falem o seu nome. E
agora que nós somos amigos...
-
Mas nós não precisamos ser - interrompeu o Diabo - Ora, o que você
acha? Quando amanhecer desapareço e você nunca mais vai me ver!
-
Ainda que isso acontecesse, - continuei - haveria a biografia. Não
poderia fazê-la sem umas entrevistas, teríamos que passar horas
juntos. Mas mesmo que eu conseguisse esconder isso dela, e quando saísse
o livro? Ela odiaria saber que despendi meu tempo com um assunto que
para ela é tão repugnante.
- É
tão repugnante assim?
-
Demais. Ela é Carismática. Adora todos aqueles padres cantores
e...
-
Sei, sei. - adiantou-se Bebu - Sei como é.
Houve
silêncio. Nesse momento, nós já estávamos parados no ponto de ônibus.
O dia começava a raiar, ao longe.
-
Esquece.
- O
que você disse, Belzebu?
-
Esquece a biografia. É isso. Esquece a minha proposta. Deixe tudo
para lá. Nada vale perder alguém que a gente ama, nada! Disso, eu
entendo. E sabe, essa
história
de que uma noite vale para uma vida inteira, é balela, conversa
mole. Bom mesmo é a vida inteira, garoto.
Eu
tinha a voz embargada por algum motivo. Falei, assim mesmo:
- E,
Bebu, e se eu ainda pudesse contribuir, se eu pudesse escrever uma
história sobre esta noite, valeria alguma coisa?
-
Depende. - fez ele, instantaneamente adquirindo um ar de negócios -
Onde você poderia publicar?
-
Ah. - eu abri mais os olhos, continuei: - Sabe, eu pertenço a uma
oficina de escritores. É um pessoal que se reúne pela internet
para conversar e produzir
histórias.
Já mandei alguma coisa para lá. Posso mandar esse conto, também,
caso você goste da idéia. É uma gente legal, Bebu, ainda que eu
tenha ficado com uma pulga atrás da orelha com o resultado do último
concurso. Mas deixa isso pra lá. E então?
-
Bom, se vai ter alguém para ler... - fez o Diabo nitidamente
contrafeito - Desculpe se pareço mal-agradecido, mas é que minha
proposta de campanha é boa, boa demais para um conto, sobretudo um
conto seu, que não tem a tarimba do Rubem.
-
Mas sou conterrâneo dele. - defendi-me - Somos ambos da mesma
terra. Não ajuda?
- Se
ajudasse, Hitler e Goethe seriam irmãos de idéias, e não é isso
o que acontece. Ainda assim, faça... faça... - respondeu Bebu,
imediatamente perdendo-se em seus pensamentos -.Mas sabe, quanto à
proposta, eu nem pude lhe falar direito sobre ela, porém é mesmo
muito boa. Na verdade, é como você disse aos seus amigos à noite.
Que nada pode ser pior do que este mundo governado por Deus. Que as
coisas poderiam ser diferentes, se não fosse Ele a dar as cartas,
umas cartas marcadas, garoto... Ainda assim, é Ele quem manda, e
daqui há pouco eu estou indo à igreja velar o Corpo Morto de
Jesus. Você não vem comigo?
- Não,
não. Eu vou para casa. Dormir.
-
Faz bem, faz bem. Ah, é o meu ônibus. Adeus.
Eu
estendi a mão ao Diabo, ele me deu um abraço forte e quente, como
deve ser.
-
Desculpe pelo chapéu, Bebu.
-
Tudo bem, garoto. Sabe, você não é um pobre-diabo, mas quem sabe
não chega lá. O Braga e muita gente boa já conseguiu. E por que não
pede desculpas aos seus amigos pelo modo como os tratou esta noite?
Eles têm tantos defeitos quanto eu ou você. Pare de querer ser
Deus, entendeu?
-
Vou tentar, Bebu.
Ele
já estava entrando no ônibus quando gritou:
- Não
tente muito Acho que o seu problema maior é esse: você tenta
demais. Isso cansa, às vezes, sabe? E veja se não leva esses
conselhos a sério demais também, caralho!
E
foi-se.
Eu
ainda fiquei esperando meu ônibus por um bom tempo. Somente quando
ele apontou na curva foi que me dei conta. Meti a mão no bolso de
trás da calça e soube. Talvez eu ainda demorasse um bocado para me
tornar um diabo, talvez jamais me tornasse, mas ficar pobre, isso eu
já conseguira, não sem a expressa ajuda de Bebu:
O
Diabo me havia afanado a carteira!
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