O Inferno de Fernando

 Marco Bourguignon

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0119]
[Autor:
Marco Bourguignon]
[Título: O Inferno de Fernando]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 2.180]

[Nota da autor - ADVERTÊNCIA - Esse conto é proibido para pessoas que
não tem discernimento entre a fantasia e a realidade.  Possui
passagens impróprias e palavras de baixo calão.]

 

Fernando fechou a porta do seu carro importado. Checou, minucioso, o automóvel. Adorava o carro! Não havia nada mais importante no mundo do que o carro. Mandou buscar no Japão.

Olhou, através da janela, o corpo, sem vida, deixado no assento do motorista. "Morto com o rosto marcado de dor!" "Pobre coitado foi morrer assim, daquele jeito!"

Caminhou, triste, até o elevador. Premiu o botão e esperou paciente.

Mudou-se para aquele apart hotel, logo depois do suicídio da esposa, a cerca de uma semana atrás. Não podia conviver com o fantasma da esposa rondando a mansão de Laranjeiras. Ela parecia estar em todos os lugares. A casa era a sua esposa, as plantas, as cortinas e os estofados. Tudo era ela, até o ar que teimava em não mais circular. Por fim a carta.

A maldita carta teimava flutuar em sua cabeça, palavras por palavras. Escrita antes do ato de loucura. Culpava-o por tudo, por toda infelicidade. Não compreendia como uma pessoa não foi capaz de suportar a traição. Ora, o mundo traia! Quem não traia?

"Seu cafajeste, hoje vi você com a piranha da Rebeca, não tão mais nova do que eu e nem tão bela, então por quê? "

- Simples - explicou -, a Rebeca era muito boa de cama! - Disse de chofre.

- O pior de tudo é saber da sua outra preferência sexual. No princípio não liguei não, não queria acreditar. Tão macho! Tão homem! Hoje acredito que você gostava de ser espetado. Bicha! Bichona!... Rolava na cama com o Mário... Que nojo!

Esperou o elevador abrir a porta e entrou. Apertou o botão do décimo andar.

- Não sou bicha! - gritou para Mônica.

- Homem que come homem é viado! Ou mudou de nome?

- Porra! Puta que pariu! Não fale assim na frente das crianças!

- Eles tem que saber a verdade sobre o pai, cafajeste e bicha! Gosta de dar a bunda!

Mônica levou um soco no olho e despencou no assoalho chorando. Um soco certeiro. Gemeu com a dor.

- Viado! Vi-a-do! - resmungou, baixinho.

Os três meninos olharam apreensivo a briga. Não compreendiam ainda o teor das discussão. Todos sofrendo e desejando que acabassem para ir brincarem.

- Nesse tom não há como conversar com você - repreendeu. - Vou sair, volto quando estiver mais calma para conversar.

- Talvez essa seja a sua última chance - gritou desesperada, socou o chão como uma louca. - Eu te odeio! - Agarrou e puxou seu próprio cabelo. - Eu te odeio!

O elevador parou no térreo e entrou um casal. "Boa Noite!" Os malditos cumprimentos de praxe, não tinha vontade nenhuma de cumprimentar ninguém. Como poderia ser uma boa noite no dia de sua morte?

A mulher olhou para o Fernando e sorriu com o canto da boca. Fernando olhou para o chão. Aquele sorriso parecia acusador. Piscou os olhos, nervoso, ao notar um rabo peludo saindo do rapaz. O casal não escolheu nenhum andar. Fitaram Fernando com expressão de ódio e desafio.

Naquela tarde, na casa da Rebeca e do Mário, depois de socar a esposa no olho direito, transaram muito. O seu refugio era aquela casa, na orgia e sacanagem. Mário e Rebeca eram casados. Sempre imaginou um dia os quatros juntos Numa bela troca. Sua esposa poderia colocar os preconceitos de lado e participar. Mário - Rebeca, Fernando - Rebeca, Fernando- Mário, Rebeca - Fernando, Rebeca - Mário, talvez um dia, Mônica - Mário, Mário - Mônica, Rebeca - Mônica, Mônica - Rebeca...

Enquanto isso, Mônica provocava uma tragédia na casa de Laranjeiras.

Sentiu o gosto de sangue na boca, tinha mordido forte por entre as coxas de Rebeca. Sangue, sangue...

Os disparos eram ouvidos por todo quarteirão. Quatro tiros... Nunca imaginou que Mônica usaria a colt 45 do avô do Fernando, o mesmo que matou a avó.

O elevador passou pelo décimo andar e continuou a subir. Fernando já estava acostumado com aquilo, na primeira vez estranhou, mas agora não ligava, sabia que o elevador pararia no 666. Ele sempre ia até o 666. Loucura? Era loucura, mas quem entenderia as coisas loucas?

- Lembra-se do caso do despejo em Ramos? - Perguntou o rapaz, olhando fixamente para Fernando. - 1978. Dez famílias sem teto, com frio e fome! - sacudiu o rabo.

Fernando não lembrou, nunca lembrava. Por mais que tudo se repetisse continuamente, nunca lembrava.

- E o desabamento do prédio na Abolição? 1980? Cem mortos... - disse a moça, tocando de leve o pescoço de Fernando. Sorriu mostrando os caninos avantajados.

O prédio da Abolição, 1980, lembrou. Tinha mandado misturar areia de praia no cimento para diminuir o custo da construção e aumentar os lucros. Nunca imaginou que o prédio iria desabar em pouco tempo, calculou cem anos, já estaria morto e ninguém para culpá-lo. Por sorte o juiz interpretou que as responsabilidades era do engenheiro e não dele. "Foda-se o engenheiro". Sorriu com o desdém.

- O engenheiro se matou... Abriu o bico do gás, morreu ele, a esposa e a filha - contou o rapaz mudando o rosto para o do engenheiro. Eu era o engenheiro. Não agüentei em saber que iria para a cadeia, ver meu nome jogado na lama...

Estava vendo coisa, sua cabeça não estava funcionando bem.

- Você era um otário! - respondeu Fernando ao rapaz. - Eu tinha que me livrar do problema, você assinou o projeto substituindo a areia. Imbecil! Não tenho culpa pela sua incompetência.

- A ordem partiu de você... Covarde! Covarde!

- Eu covarde? Covarde foi você que se suicidou... Ainda matou a família... Uma filha inocente de cinco anos.

- Se você soubesse como sofro por ter feito isso. - Sacudiu o rabo e ameaçou chorar.
- Imagino! Otário! - Olhou para a moça e perguntou: - E você? Qual a acusação?
A moça esboçou um sorriso triste.

- Fui colocada na rua, quando da desapropriação do prédio em Ramos - Um verme saia do nariz da moça, Fernando esticou a mão e sem nojo tirou a larva e jogou no chão. Pisou.

- Por que morreu? - perguntou Fernando.

- Eu não sai do prédio... Era a única coisa que tinha... Explodiu tudo, fiquei dentro...

- Claro! Agora me lembro - sorriu, com o lampejo da lembrança. - Dei ordem ao nosso amigo ai ao lado para explodir tudo, mesmo que tivesse alguém dentro. Falei em metáfora, mas o filho da puta levou ao pé da letra. Por sorte ninguém soube do caso. Somente uma mulher veio falar comigo. Levantou a suspeita de você ter ficado dentro do prédio. Ela me chantageou, queria dinheiro para ficar calada e não revelar nada a imprensa.

- Era a minha irmã caçula - respondeu a moça.

- O que aconteceu com a mulher? - perguntou o engenheiro.

- Mandei o João Branquelo dar um jeito.

- O que João Branquelo fez com a minha irmã?

- Pelos métodos que usa... - ficou em silêncio e depois continuou - Barbaridades até jogar o corpo na Baia de Guanabara. É bem provável, mas não sei de nada, não vi. Só dei a ordem de se livrar do problema, mas não falei em estuprá-la, torturá-la e matá-la.


O elevador parou no décimo andar. Os três saltaram. O engenheiro com um rabo peludo atravessou a parede e desapareceu. A moça colocou a cabeça debaixo do braço e se desfez em pó.

Fernando deu de ombro e parou em frente ao 1010. Colocou a chave na porta e percebeu três figuras dentro do apartamento. Eram seus filhos. Correram para abraçar o pai.

- Papai - chamou o mais velho de 13 anos -, por que deixava o Mário te espetar?

- O Mário não me espetava, eu é que espetava ele, disse isso para a sua mãe.

O segundo filho, de dez anos, subindo pela janela perguntou:

- O senhor não gostava da mamãe?

- Eu a amava muito! Mas a vida nos permite amar mais de uma pessoa, assim como amo vocês.

- Então vai querer espetar nós? - perguntou o mais novo, com cinco anos.

- Claro que não! Vocês são inocentes e Jesus disse: Deixe vir a mim as criancinhas. Quero que desapareçam! O lugar de vocês não é aqui.

- Só queríamos saber o motivo da mamãe ter atirado em mim, afogado o Marquinho na banheira e decapitado o Marcelinho com a faca? - perguntou o mais velho.

- Ela não amava a gente? - gritou o caçula.

- Para cometer essa barbaridade, claro que não amava! - respondeu Fernando, vendo os filhos ganharem asas para desaparecerem na luz.

Foi até o bar, colocou dois cubos de gelo no copo, mas não tinha nenhuma bebida, todas as garrafas estavam vazia. Sentou no sofá olhando para a porta. Só restava esperar... Os demônios entravam pela porta, mas Mônica sempre o surpreendia:

- Olá, filha da puta! Viado de merda! - Apareceu numa fumaça preta. - Que fome! Que sede! O que daria por um bom prato de comida! - Contorceu o rosto deformado pela dor.

- O par de chifres e o rabo lhe cai bem! - respondeu com falsidade.

Mônica colocou a mão na cabeça e alisou os chifres. Chorou...

- Você não sabe o que estou passando, se eu soubesse que seria assim nunca tinha tirado a minha vida. Minha alma anseia pela luz, mas ela está sempre longe, corro para alcançá-la, mas ela está sempre distante, todas as almas devem correr para luz, mas muitas não conseguem encontrá-la. Eu queria tanto encontrar a luz e deixar as minhas vontades do corpo.

- Esses não foram eu que coloquei - riu com a ironia. - Como é a vida no inferno?

- Vida?! Seu merda... É só sofrimento... Vamos logo ao que interessa... Tenho que voltar ao pai do escuro... Só tenho alívio quando venho te visitar e atormentar. - Mônica colocou o membro, que ganhou após a morte, para fora, alisou com satisfação e prazer. Somente isso alivia a minha dor...

Fernando colocou-se de quatro sobre o sofá e deixou-se penetrar. Não tinha como escapar daquela sina, estava preso aos acontecimentos e por mais que não desejasse não podia escapar. A dor era intensa e apavorante. A Cada dia o membro de Mônica ficava maior. Invadia seu corpo, o abdome se abria e fazia jorrar as triplas. Era uma dor insuportável, queria morrer mas não podia. Gritava com a agonia. Recebia dentadas dos demônios que o comiam vivo.

Centena de demônios devoraram as tripas de Fernando espalhadas por todos os cantos. Mônica saciada, num gozo lento, também participou do banquete. Comiam até não haver mais corpo. Ele não tinha corpo, não tinha vida, somente agonia de acordar e recomeçar. No carro importado na garagem...

Estava na casa da Rebeca e do Mário quando foi informado da tragédia. Um policial o tinha localizado no dia seguinte. Culpou-se por ter abandonado os filhos com uma mulher desequilibrada. Foi horrível. A tragédia estava em todos os jornais e ainda publicaram a carta de Rebeca colocando sua vida particular em evidência.

"Voltarei do inferno para torturá-lo" Terminou ela, antes da assinatura da carta. Essas últimas palavras escritas com sangue, era mais do que uma promessa. Era uma ameaça de alguém com muita dor. Com muito ódio.

Fernando alugou o apart-hotel para se esconder. Sua vida estava publicada, Rebeca e Mário arrasados por um jornal popular de baixo calão. "Esposa de marido rico, descobre que ele dava o fiofó". Estampado em letras garrafais, fotografias do corpo da esposa e das crianças. Processaria o jornal que revelou seus nomes. Ligou para seus advogados e deu início aos tramites do processo.

O celular tocou quando estava dirigindo para o seu novo apartamento. Era Rebeca dizendo que iria se mudar, falou de uma viagem, mas Fernando não entendeu muito bem. Ouviu firme as últimas palavras antes de desligar. "Não queremos mais vê-lo!" Prometeu compensar com dinheiro, mas não aceitaram. Também não entendia a loucura de mordê-la entre as coxas até sorver o sangue. Rebeca nunca o perdoaria.

Entrou na garagem subterrânea do prédio. Estava passando mal, muito mal... Uma dor forte surgia em seu peito, subia pelo pescoço e provocava falta de ar.

Estacionou o carro na garagem do apart hotel. Esperou até a dor passar segurando o volante. A dor foi diminuindo até sumir por completo.

Fernando fechou a porta do seu carro importado. Checou, minucioso, o automóvel.  Adorava o carro! Não havia nada mais importante no mundo do que o carro. Mandou buscar no Japão.

Olhou, através da janela, o corpo, sem vida, deixado no assento do motorista. "Morto com o rosto marcado de dor!" "Pobre coitado foi morrer assim, daquele jeito!"

Caminhou, triste, até o elevador. Premiu o botão e esperou paciente.

   

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