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[Nota
da autor - ADVERTÊNCIA - Esse conto é proibido para pessoas que
não tem discernimento entre a fantasia e a realidade. Possui
passagens impróprias e palavras de baixo calão.]
Fernando
fechou a porta do seu carro importado. Checou, minucioso, o automóvel.
Adorava o carro! Não havia nada mais importante no mundo do que o
carro. Mandou buscar no Japão.
Olhou,
através da janela, o corpo, sem vida, deixado no assento do
motorista. "Morto com o rosto marcado de dor!" "Pobre
coitado foi morrer assim, daquele jeito!"
Caminhou,
triste, até o elevador. Premiu o botão e esperou paciente.
Mudou-se
para aquele apart hotel, logo depois do suicídio da esposa, a cerca
de uma semana atrás. Não podia conviver com o fantasma da esposa
rondando a mansão de Laranjeiras. Ela parecia estar em todos os
lugares. A casa era a sua esposa, as plantas, as cortinas e os
estofados. Tudo era ela, até o ar que teimava em não mais
circular. Por fim a carta.
A
maldita carta teimava flutuar em sua cabeça, palavras por palavras.
Escrita antes do ato de loucura. Culpava-o por tudo, por toda
infelicidade. Não compreendia como uma pessoa não foi capaz de
suportar a traição. Ora, o mundo traia! Quem não traia?
"Seu
cafajeste, hoje vi você com a piranha da Rebeca, não tão mais
nova do que eu e nem tão bela, então por quê? "
-
Simples - explicou -, a Rebeca era muito boa de cama! - Disse de
chofre.
-
O pior de tudo é saber da sua outra preferência sexual. No princípio
não liguei não, não queria acreditar. Tão macho! Tão homem!
Hoje acredito que você gostava de ser espetado. Bicha! Bichona!...
Rolava na cama com o Mário... Que nojo!
Esperou
o elevador abrir a porta e entrou. Apertou o botão do décimo
andar.
-
Não sou bicha! - gritou para Mônica.
-
Homem que come homem é viado! Ou mudou de nome?
-
Porra! Puta que pariu! Não fale assim na frente das crianças!
-
Eles tem que saber a verdade sobre o pai, cafajeste e bicha! Gosta
de dar a bunda!
Mônica
levou um soco no olho e despencou no assoalho chorando. Um soco
certeiro. Gemeu com a dor.
-
Viado! Vi-a-do! - resmungou, baixinho.
Os
três meninos olharam apreensivo a briga. Não compreendiam ainda o
teor das discussão. Todos sofrendo e desejando que acabassem para
ir brincarem.
-
Nesse tom não há como conversar com você - repreendeu. - Vou
sair, volto quando estiver mais calma para conversar.
-
Talvez essa seja a sua última chance - gritou desesperada, socou o
chão como uma louca. - Eu te odeio! - Agarrou e puxou seu próprio
cabelo. - Eu te odeio!
O
elevador parou no térreo e entrou um casal. "Boa Noite!"
Os malditos cumprimentos de praxe, não tinha vontade nenhuma de
cumprimentar ninguém. Como poderia ser uma boa noite no dia de sua
morte?
A
mulher olhou para o Fernando e sorriu com o canto da boca. Fernando
olhou para o chão. Aquele sorriso parecia acusador. Piscou os
olhos, nervoso, ao notar um rabo peludo saindo do rapaz. O casal não
escolheu nenhum andar. Fitaram Fernando com expressão de ódio e
desafio.
Naquela
tarde, na casa da Rebeca e do Mário, depois de socar a esposa no
olho direito, transaram muito. O seu refugio era aquela casa, na
orgia e sacanagem. Mário e Rebeca eram casados. Sempre imaginou um
dia os quatros juntos Numa bela troca. Sua esposa poderia colocar os
preconceitos de lado e participar. Mário - Rebeca, Fernando -
Rebeca, Fernando- Mário, Rebeca - Fernando, Rebeca - Mário, talvez
um dia, Mônica - Mário, Mário - Mônica, Rebeca - Mônica, Mônica
- Rebeca...
Enquanto
isso, Mônica provocava uma tragédia na casa de Laranjeiras.
Sentiu
o gosto de sangue na boca, tinha mordido forte por entre as coxas de
Rebeca. Sangue, sangue...
Os
disparos eram ouvidos por todo quarteirão. Quatro tiros... Nunca
imaginou que Mônica usaria a colt 45 do avô do Fernando, o mesmo
que matou a avó.
O
elevador passou pelo décimo andar e continuou a subir. Fernando já
estava acostumado com aquilo, na primeira vez estranhou, mas agora não
ligava, sabia que o elevador pararia no 666. Ele sempre ia até o
666. Loucura? Era loucura, mas quem entenderia as coisas loucas?
-
Lembra-se do caso do despejo em Ramos? - Perguntou o rapaz, olhando
fixamente para Fernando. - 1978. Dez famílias sem teto, com frio e
fome! - sacudiu o rabo.
Fernando
não lembrou, nunca lembrava. Por mais que tudo se repetisse
continuamente, nunca lembrava.
-
E o desabamento do prédio na Abolição? 1980? Cem mortos... -
disse a moça, tocando de leve o pescoço de Fernando. Sorriu
mostrando os caninos avantajados.
O
prédio da Abolição, 1980, lembrou. Tinha mandado misturar areia
de praia no cimento para diminuir o custo da construção e aumentar
os lucros. Nunca imaginou que o prédio iria desabar em pouco tempo,
calculou cem anos, já estaria morto e ninguém para culpá-lo. Por
sorte o juiz interpretou que as responsabilidades era do engenheiro
e não dele. "Foda-se o engenheiro". Sorriu com o desdém.
-
O engenheiro se matou... Abriu o bico do gás, morreu ele, a esposa
e a filha - contou o rapaz mudando o rosto para o do engenheiro. Eu
era o engenheiro. Não agüentei em saber que iria para a cadeia,
ver meu nome jogado na lama...
Estava
vendo coisa, sua cabeça não estava funcionando bem.
-
Você era um otário! - respondeu Fernando ao rapaz. - Eu tinha que
me livrar do problema, você assinou o projeto substituindo a areia.
Imbecil! Não tenho culpa pela sua incompetência.
-
A ordem partiu de você... Covarde! Covarde!
-
Eu covarde? Covarde foi você que se suicidou... Ainda matou a família...
Uma filha inocente de cinco anos.
-
Se você soubesse como sofro por ter feito isso. - Sacudiu o rabo e
ameaçou chorar.
- Imagino! Otário! - Olhou para a moça e perguntou: - E você?
Qual a acusação?
A moça esboçou um sorriso triste.
-
Fui colocada na rua, quando da desapropriação do prédio em Ramos
- Um verme saia do nariz da moça, Fernando esticou a mão e sem
nojo tirou a larva e jogou no chão. Pisou.
-
Por que morreu? - perguntou Fernando.
-
Eu não sai do prédio... Era a única coisa que tinha... Explodiu
tudo, fiquei dentro...
-
Claro! Agora me lembro - sorriu, com o lampejo da lembrança. - Dei
ordem ao nosso amigo ai ao lado para explodir tudo, mesmo que
tivesse alguém dentro. Falei em metáfora, mas o filho da puta
levou ao pé da letra. Por sorte ninguém soube do caso. Somente uma
mulher veio falar comigo. Levantou a suspeita de você ter ficado
dentro do prédio. Ela me chantageou, queria dinheiro para ficar
calada e não revelar nada a imprensa.
-
Era a minha irmã caçula - respondeu a moça.
-
O que aconteceu com a mulher? - perguntou o engenheiro.
-
Mandei o João Branquelo dar um jeito.
-
O que João Branquelo fez com a minha irmã?
-
Pelos métodos que usa... - ficou em silêncio e depois continuou -
Barbaridades até jogar o corpo na Baia de Guanabara. É bem provável,
mas não sei de nada, não vi. Só dei a ordem de se livrar do
problema, mas não falei em estuprá-la, torturá-la e matá-la.
O elevador parou no décimo andar. Os três saltaram. O engenheiro
com um rabo peludo atravessou a parede e desapareceu. A moça
colocou a cabeça debaixo do braço e se desfez em pó.
Fernando
deu de ombro e parou em frente ao 1010. Colocou a chave na porta e
percebeu três figuras dentro do apartamento. Eram seus filhos.
Correram para abraçar o pai.
-
Papai - chamou o mais velho de 13 anos -, por que deixava o Mário
te espetar?
-
O Mário não me espetava, eu é que espetava ele, disse isso para a
sua mãe.
O
segundo filho, de dez anos, subindo pela janela perguntou:
-
O senhor não gostava da mamãe?
-
Eu a amava muito! Mas a vida nos permite amar mais de uma pessoa,
assim como amo vocês.
-
Então vai querer espetar nós? - perguntou o mais novo, com cinco
anos.
-
Claro que não! Vocês são inocentes e Jesus disse: Deixe vir a mim
as criancinhas. Quero que desapareçam! O lugar de vocês não é
aqui.
-
Só queríamos saber o motivo da mamãe ter atirado em mim, afogado
o Marquinho na banheira e decapitado o Marcelinho com a faca? -
perguntou o mais velho.
-
Ela não amava a gente? - gritou o caçula.
-
Para cometer essa barbaridade, claro que não amava! - respondeu
Fernando, vendo os filhos ganharem asas para desaparecerem na luz.
Foi
até o bar, colocou dois cubos de gelo no copo, mas não tinha
nenhuma bebida, todas as garrafas estavam vazia. Sentou no sofá
olhando para a porta. Só restava esperar... Os demônios entravam
pela porta, mas Mônica sempre o surpreendia:
-
Olá, filha da puta! Viado de merda! - Apareceu numa fumaça preta.
- Que fome! Que sede! O que daria por um bom prato de comida! -
Contorceu o rosto deformado pela dor.
-
O par de chifres e o rabo lhe cai bem! - respondeu com falsidade.
Mônica
colocou a mão na cabeça e alisou os chifres. Chorou...
-
Você não sabe o que estou passando, se eu soubesse que seria assim
nunca tinha tirado a minha vida. Minha alma anseia pela luz, mas ela
está sempre longe, corro para alcançá-la, mas ela está sempre
distante, todas as almas devem correr para luz, mas muitas não
conseguem encontrá-la. Eu queria tanto encontrar a luz e deixar as
minhas vontades do corpo.
-
Esses não foram eu que coloquei - riu com a ironia. - Como é a
vida no inferno?
-
Vida?! Seu merda... É só sofrimento... Vamos logo ao que
interessa... Tenho que voltar ao pai do escuro... Só tenho alívio
quando venho te visitar e atormentar. - Mônica colocou o membro,
que ganhou após a morte, para fora, alisou com satisfação e
prazer. Somente isso alivia a minha dor...
Fernando
colocou-se de quatro sobre o sofá e deixou-se penetrar. Não tinha
como escapar daquela sina, estava preso aos acontecimentos e por
mais que não desejasse não podia escapar. A dor era intensa e
apavorante. A Cada dia o membro de Mônica ficava maior. Invadia seu
corpo, o abdome se abria e fazia jorrar as triplas. Era uma dor
insuportável, queria morrer mas não podia. Gritava com a agonia.
Recebia dentadas dos demônios que o comiam vivo.
Centena
de demônios devoraram as tripas de Fernando espalhadas por todos os
cantos. Mônica saciada, num gozo lento, também participou do
banquete. Comiam até não haver mais corpo. Ele não tinha corpo, não
tinha vida, somente agonia de acordar e recomeçar. No carro
importado na garagem...
Estava
na casa da Rebeca e do Mário quando foi informado da tragédia. Um
policial o tinha localizado no dia seguinte. Culpou-se por ter
abandonado os filhos com uma mulher desequilibrada. Foi horrível. A
tragédia estava em todos os jornais e ainda publicaram a carta de
Rebeca colocando sua vida particular em evidência.
"Voltarei
do inferno para torturá-lo" Terminou ela, antes da assinatura
da carta. Essas últimas palavras escritas com sangue, era mais do
que uma promessa. Era uma ameaça de alguém com muita dor. Com
muito ódio.
Fernando
alugou o apart-hotel para se esconder. Sua vida estava publicada,
Rebeca e Mário arrasados por um jornal popular de baixo calão.
"Esposa de marido rico, descobre que ele dava o fiofó".
Estampado em letras garrafais, fotografias do corpo da esposa e das
crianças. Processaria o jornal que revelou seus nomes. Ligou para
seus advogados e deu início aos tramites do processo.
O
celular tocou quando estava dirigindo para o seu novo apartamento.
Era Rebeca dizendo que iria se mudar, falou de uma viagem, mas
Fernando não entendeu muito bem. Ouviu firme as últimas palavras
antes de desligar. "Não queremos mais vê-lo!" Prometeu
compensar com dinheiro, mas não aceitaram. Também não entendia a
loucura de mordê-la entre as coxas até sorver o sangue. Rebeca
nunca o perdoaria.
Entrou
na garagem subterrânea do prédio. Estava passando mal, muito
mal... Uma dor forte surgia em seu peito, subia pelo pescoço e
provocava falta de ar.
Estacionou
o carro na garagem do apart hotel. Esperou até a dor passar
segurando o volante. A dor foi diminuindo até sumir por completo.
Fernando
fechou a porta do seu carro importado. Checou, minucioso, o automóvel.
Adorava o carro! Não havia nada mais importante no mundo do
que o carro. Mandou buscar no Japão.
Olhou,
através da janela, o corpo, sem vida, deixado no assento do
motorista. "Morto com o rosto marcado de dor!" "Pobre
coitado foi morrer assim, daquele jeito!"
Caminhou,
triste, até o elevador. Premiu o botão e esperou paciente.
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