Pescaria

 Maria Helena Bandeira

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0118]
[Autora:
Maria Helena Bandeira]
[Título: Pescaria]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 800]

[Nota da autora: Este é o último conto de FC que eu escrevi. Uma volta ao ambiente opressivo e orgânico do Ovo ]

               Saiu do  ninho e auscultou o ambiente.

               O Eral estava raivoso, seu coração apaixonado batendo`ardente, podia sentir os rios de sangue correndo entre a carne esponjosa das rochas.

               Não era um dia bom para pescaria. Hesitou por alguns azuis imprecisos.

               Já era adulto bastante para deixar o choco e se aventurar na paisagem e ainda não sabia enfrentar o humor tempestuoso do Eral.

               Resolveu esperar um pouco. Deixar que os vermelhos incandescentes se tornassem violetas desmaiados.

               Isto sempre acontecia depois da Fúria.

               Sentou-se no ventre arredondado do Organomaster e esperou. Sentia o leve roçar dos pelos no seu corpo nu e isto o deixava nervoso. O Organomaster era ótimo para as cerimônias de fertilização, mas para quem precisava estar atento tinha pêlos excessivos.

               Levantou-se e andou pela fímbria do Eral, enquanto a capa escarlate ao redor dele ia se tornando ligeiramente azulada, já tendendo para o violeta.

               As grandes vagas de sangue a sua frente foram se aquietando, até que o enorme rio rubro parecia uma estrada de óleo sangrento.

                Agarrou-se aos tentáculos mais próximos e pulou, dando um impulso com o corpo, sentindo o vento quente e úmido entrar dentro dele ajudá-lo a ganhar altura.

               Pousou suavemente do outro lado do rio, sobre a carne macia do planalto.

               Procurou um lugar perto do feixe de nervos que saia do Grotão Gorgolejante. Sabia, desde sempre, que ali era um bom lugar para pescar, então se sentou e aguardou.

               Quando o Zot mostrou a cabeça, deixou a rede flexível abandonar seu corpo e os fios se entrelaçaram nos diversos flagelos do outro. Ele lutou, tentou mergulhar, procurou arrastá-lo para o fundo, mas a força do pobre não se comparava à sua, agarrado, unido aos feixes de nervos da Garganta.

               O Zot corcoveava, sua silenciosa luta enchendo o Eral de alguns vermelhos estridentes.

               Mas Ele estava determinado e, pouco a pouco, foi trazendo o outro para fora da massa sangrenta. Já podia ver seu corpo redondo, de uma brancura quase transparente, as veias aparecendo estufadas no esforço. Num último movimento de resistência, o Zot jogou seus tentáculos sugadores sobre o pescador, mas o outro se abaixou e eles ficaram presos no feixe de nervos, tornando mais fácil a operação de trazer para si o rebelde. Com cuidado, foi apertando a rede, até que todo movimento cessou dentro dela e a presa ficou olhando para ele com os grandes olhos azuis sem pupila e sem expressão.

               Tinha nojo de manipular aquelas criaturas, mas era preciso. Fazia parte da pescaria, tocar e apreciar o oponente, antes de digerí-lo.

               Comer um Zot não seria suficiente para torná-lo um membro do Conselho, mas lhe daria forças para pescarias mais audaciosas, estas sim, capazes de mudar a face do Eral.

               Havia muita gente no ninho que  nunca saía para enfrentar os humores do ambiente. Preferiam continuar julgando que as únicas paisagens eram as paredes seguras de sempre, a única verdade o canto das Sereias e que o Conselho detinha todos os segredos.

               Ele sabia, desde que se tornara um jovem adulto, que o Conselho só conhecia o ambiente estreito  do rio de sangue e do feixe de nervos sobre o Grotão Gotejante. Além daquilo, ninguém se aventurara a enfrentar.

               Comer Zots poderia lhe dar a coragem e a iluminação para percorrer os espaços fora dos limites do ninho e do rio sangrento.

                Comer Blongs lhe daria a sabedoria absoluta para fugir.

               Mas Blongs eram quase impossíveis de ser pescados. Ninguém nunca vira um Blong em sua geração e Ele se perguntava se eles

existiam realmente ou eram lendas propagadas pelos poucos rebeldes remanescentes no ninho.

               Apalpou o Zot com cuidado, as mãos sentindo a superfície morna e macia do outro. Ele se deixava acariciar, entregue, sabendo que sua sorte estava decidida e agora seria um participante do ninho como antes.

               Devagar, numa espécie de ritual, ele foi colocando o Zot na boca, sentindo a cócega que seus flagelos faziam na língua nua e, lentamente, o engoliu, vencendo a náusea que ameaçava tomá-lo.

               Na mesma hora, o rio de sangue avançou com estrondo sobre ele, avolumou-se como uma onda rubra e cintilante, a capa sangrenta e mole se abateu sobre seu corpo, o feixe de nervos o envolveu e asfixiou com força soberana e ele foi sugado pelo Grotão Gorgolejante  para as entranhas macias que se estreitavam cada vez mais.


           Em volta dele a casca dura e branca do Princípio. A iluminação do Ninho permitia ver as paredes estriadas de pequenas veias do Útero Primeiro.            O traiçoeiro Eral o enganara de novo.

             Sua viagem fôra de volta.

             Ele pescara seu recomeço

   

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