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[Nota da autora: Este é o último
conto de FC que eu escrevi. Uma volta ao ambiente opressivo e orgânico
do Ovo ]
Saiu do ninho e auscultou o ambiente.
O Eral estava raivoso, seu coração apaixonado batendo`ardente,
podia sentir os rios de sangue correndo entre a carne esponjosa das
rochas.
Não era um dia bom para pescaria. Hesitou por alguns azuis
imprecisos.
Já era adulto bastante para deixar o choco e se aventurar na
paisagem e ainda não sabia enfrentar o humor tempestuoso do Eral.
Resolveu esperar um pouco. Deixar que os vermelhos incandescentes se
tornassem violetas desmaiados.
Isto sempre acontecia depois da Fúria.
Sentou-se no ventre arredondado do Organomaster e esperou. Sentia o
leve roçar dos pelos no seu corpo nu e isto o deixava nervoso. O
Organomaster era ótimo para as cerimônias de fertilização, mas
para quem precisava estar atento tinha pêlos excessivos.
Levantou-se e andou pela fímbria do Eral, enquanto a capa escarlate
ao redor dele ia se tornando ligeiramente azulada, já tendendo para
o violeta.
As grandes vagas de sangue a sua frente foram se aquietando, até
que o enorme rio rubro parecia uma estrada de óleo sangrento.
Agarrou-se aos tentáculos mais próximos e pulou, dando um impulso
com o corpo, sentindo o vento quente e úmido entrar dentro dele
ajudá-lo a ganhar altura.
Pousou suavemente do outro lado do rio, sobre a carne macia do
planalto.
Procurou um lugar perto do feixe de nervos que saia do Grotão
Gorgolejante. Sabia, desde sempre, que ali era um bom lugar para
pescar, então se sentou e aguardou.
Quando o Zot mostrou a cabeça, deixou a rede flexível abandonar
seu corpo e os fios se entrelaçaram nos diversos flagelos do outro.
Ele lutou, tentou mergulhar, procurou arrastá-lo para o fundo, mas
a força do pobre não se comparava à sua, agarrado, unido aos
feixes de nervos da Garganta.
O Zot corcoveava, sua silenciosa luta enchendo o Eral de alguns
vermelhos estridentes.
Mas Ele estava determinado e, pouco a pouco, foi trazendo o outro
para fora da massa sangrenta. Já podia ver seu corpo redondo, de
uma brancura quase transparente, as veias aparecendo estufadas no
esforço. Num último movimento de resistência, o Zot jogou seus
tentáculos sugadores sobre o pescador, mas o outro se abaixou e
eles ficaram presos no feixe de nervos, tornando mais fácil a operação
de trazer para si o rebelde. Com cuidado, foi apertando a rede, até
que todo movimento cessou dentro dela e a presa ficou olhando para
ele com os grandes olhos azuis sem pupila e sem expressão.
Tinha nojo de manipular aquelas criaturas, mas era preciso. Fazia
parte da pescaria, tocar e apreciar o oponente, antes de digerí-lo.
Comer um Zot não seria suficiente para torná-lo um membro do
Conselho, mas lhe daria forças para pescarias mais audaciosas,
estas sim, capazes de mudar a face do Eral.
Havia muita gente no ninho que nunca saía para enfrentar os
humores do ambiente. Preferiam continuar julgando que as únicas
paisagens eram as paredes seguras de sempre, a única verdade o
canto das Sereias e que o Conselho detinha todos os segredos.
Ele sabia, desde que se tornara um jovem adulto, que o Conselho só
conhecia o ambiente estreito do rio de sangue e do feixe de
nervos sobre o Grotão Gotejante. Além daquilo, ninguém se
aventurara a enfrentar.
Comer Zots poderia lhe dar a coragem e a iluminação para percorrer
os espaços fora dos limites do ninho e do rio sangrento.
Comer Blongs lhe daria a sabedoria absoluta para fugir.
Mas Blongs eram quase impossíveis de ser pescados. Ninguém nunca
vira um Blong em sua geração e Ele se perguntava se eles
existiam realmente ou
eram lendas propagadas pelos poucos rebeldes remanescentes no ninho.
Apalpou o Zot com cuidado, as mãos sentindo a superfície morna e
macia do outro. Ele se deixava acariciar, entregue, sabendo que sua
sorte estava decidida e agora seria um participante do ninho como
antes.
Devagar, numa espécie de ritual, ele foi colocando o Zot na boca,
sentindo a cócega que seus flagelos faziam na língua nua e,
lentamente, o engoliu, vencendo a náusea que ameaçava tomá-lo.
Na mesma hora, o rio de sangue avançou com estrondo sobre ele,
avolumou-se como uma onda rubra e cintilante, a capa sangrenta e
mole se abateu sobre seu corpo, o feixe de nervos o envolveu e
asfixiou com força soberana e ele foi sugado pelo Grotão
Gorgolejante para as entranhas macias que se estreitavam cada
vez mais.
Em volta dele a casca dura e branca do Princípio. A iluminação do
Ninho permitia ver as paredes estriadas de pequenas veias do Útero
Primeiro.
O traiçoeiro Eral o enganara de novo.
Sua viagem fôra de volta.
Ele pescara seu recomeço
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