Em Busca da Eternidade

 Denis de Oliveira Pinho

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0117]
[Autor:
Denis de Oliveira Pinho]
[Título: Em Busca da Eternidade]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 1.640]

 

Nas trevas, as luzes dos prédios brilham, e os sons da cidade ecoam, formando o cenário misterioso da vida. A noite. Onde o espírito está mais visível, onde as pessoas encontram-se com elas mesmas. As sombras escondem a falsa realidade, e mostram a essência de tudo. E é nas sombras, que tentam esconder-se, os sofrimentos.

Refletindo a forma arredondada e iluminada da lua, tristes olhos escuros observavam a aconchegante noite. Sentado na ápice da mais alta montanha da cidade, um homem de cabelos e barba negros, relembrava o que ouviu aquele dia, que lhe seria uma grande incógnita, ao decorrer de seus sofridos dias.

- Você só terá a verdadeira eternidade, quando encontrar a mulher ideal.

"O velho sabia o que dizia, ele conhecia outra verdade. Mas o que quis dizer com isso?... Verdadeira eternidade." Pensa ele em seu avô. Poderoso e sábio vampiro. Com quem viveu a primeira década de sua vida. Foi assassinado. Sim. Queimado vivo, pela igreja católica. Que chegou devastando todas as sociedades secretas. Todas as religiões. Com suas torturas, fogueiras e perseguições, obrigaram várias organizações a esconderem-se. Incluindo a raça da nossa personagem; Vampiros.

Faz parte de uma espécie em que não se pode sair e nem entrar. É hereditário. Suas vítimas apenas transformam-se em seres nojentos, rastejantes, até que os vermes consumam suas carcassas.

Mas ele não. Se recusa à tirar a vida de inocentes. Mesmo que para isso deva sacrificar a própria vida. Há setecentos e nove anos suga o sangue de animais. Nunca provou o famoso gosto de sangue humano. Seu avô lhe contava muitas histórias de vampiros que se recusavam à atacar homens, e não passaram de setecentos e tantos anos. Parece muito mas, para um vampiro esse tempo é muito rápido, considerando que de vinte e quatro horas do dia, só podem aproveitar a noite.  Uma gota d'água lhe interrompe o pensamento. A chuva. Companheira de infinitas noites. Permanece sentado, sentindo seu corpo e roupas ensoparem. Tentando esquecer que está só. Com a paisagem urbana. Antigamente os pingos de chuva confundiriam-se com suas lágrimas, mas hoje em dia, isso não acontece mais. Tenta, mas não consegue. Em pouco tempo deverá retornar ao seu lar. Lar... Palavra vinda de bocas que se referem à uma mansão, à uma grande casa, ou até mesmo uma modesta casa. Mas ele chama de lar, um canto escuro e úmido. Abaixo dos seres, apressados e preocupados, humanos. No esgoto. Mas o pior de tudo é ter como companhia, os ratos. Não desvalorizando os bichinhos, até que são simpáticos. Mas sente falta de uma família. Mãe, pai. Que foram assassinados por caça vampiros logo que nasceu. Uma mulher, que lhe entenda, que possa abraçar quando acorda dos torturantes pesadelos. "Pare de sonhar homem". Pensou. Tem que aceitar a realidade. Que irá voltar àquele lugar, dormir, acordar, comer uns ratos... É, sente-se tão fraco que nem tem forças para uma caçada. Há semanas que só se alimenta dos pequenos roedores. Tornando assim, seu corpo mais vulnerável. E mais próximo, o seu encontro com a morte. Tudo porque, não aceita a idéia de ser um parasita. As vezes pergunta-se: "E se eu me entregasse aos desejos e chupasse o sangue de homens?" Mas logo encontra uma resposta: "Iria ficar nessa; Dorme, acorda, mata, dorme..." Não tem esse sentimento de simplesmente curtir a vida. Às custas de outras não. Já lhe passou pela cabeça morder apenas gente ruim, mas acredita que todos mereçam outra chance, além disso, seria pego, como seus antepassados. O jeito mesmo é esperar, o nada, o não ser, lhe alcançar. Estranho é essa idéia de um dia não existir, depois de tudo, simplesmente sumir, acabar, não faz sentido. Mas sua vida também não. Então porque a morte seria diferente? Perguntas sem respostas.

"É hora de ir embora", recomenda a si. "Em pouco tempo, o lendário sol surgirá, e se eu continuar aqui..." Todo vampiro sabe das conseqüências de querer ver o sol. No passado muitos tentaram, e perderam sua eternidade, para  tornarem-se pó. "Mas afinal, não é nisso que vou transformar-me em breve?" Pensa. Às vezes acha que no fundo, no fundo, tem alguma esperança, algum porque de viver, só não sabe qual é.

Desce a montanha, sentindo em cada passo, a fragilidade de seu corpo.

Resolve fazer um caminho diferente para "casa". Está a fim de andar um pouco. Mesmo sem energias. Mas pelo menos, ingeriu bastante animaisinhos esta noite.

É uma cidade movimentada. À essa hora nem tanto. Entra em uma rua deserta, com alguns condomínios. Uns minutos depois o barulhento silêncio é cortado. Ouve uma cantoria alegre, risos. Continua caminhando enquanto os sons aumentam. Avista uma casa simples de decoração, mas grande. Vem de lá, aquelas vozes infantis. Aproxima-se e olha pela janela para dentro do ambiente. Há muitas crianças. Brincando, pulando, comendo, rindo, e no meio de tudo isso, uma mulher vestida de branco as observa, tranquila, feliz.

- Posso ajudar? - Atrás dele, uma menina bem crescida revela-se.

- Hã... não. Só estava observando. - Fez-se um minuto. - Aqui é uma escola?

- Não, não. É só a casa da tia. Somos... todos meninos e meninas de rua. Ela nos acolheu. Nos dá comida, teto, brinquedos, e muito mais. Ela só conta com a ajuda de alguns vizinhos que de vez em quando, doam alimentos, e ajudam no que podem. Porque o governo, ihhhh... Esse aí acho que nem sabe que agente existe. Pois é, agente tá até vendendo uns artesanatos por aí, que alguns bons amigos da tia nos ensinam. Mas o mais importante que aprendemos aqui, é a dar valor à vida, descobrimos que somos importantes.

Ouvindo a criança, seus olhos enchem-se de lágrimas, e seu corpo arrepia-se. É como se sua alma penetrasse fundo no brilho do olhar da criança. "Quanta força há nesta inocente criatura. E quanta garra possui aquela generosa mulher". Pensa.

- Olá! Se quiser conhecer as crianças pode vir quando quiser. Agora vem pra dentro, Bia. - Disse a moça de branco que observava desconfiada na janela.

Voz doce e sincera. Responde com um sorriso.

Enfim no buraco. Dorme. Após horas pensando na lição de vida da noite. Na bondade incomparável da mulher, que o fez ter outra perspectiva de vida. Imaginou como seria maravilhoso se houvessem crianças que dissessem dele o que a menina disse.

Pensou em como foi egoísta por todos esses séculos. Criticava sempre os humanos, mas percebeu que era tão cego e inútil quanto a maioria deles. Mas não adiantava arrepender-se agora. Estava morrendo. A mulher grita e lhe assusta, mostrando dentes tão afiados quanto os dele. Seus olhos, bonitos e selvagens, lhe dominam. Mas ele não consegue mexer-se, não consegue fugir, ou não quer. E ela com os braços abertos vai em direção à ele, que por sua vez, se fixa nos perfeitos seios. Sente a paixão. Sente os mamilos em seus lábios, e em movimentos circulares, passa a língua no motivo de prazer da figura. Chega ao clímax. Gostoso.  Imensa alegria e satisfação. Está flutuando no Universo. Entre as estrelas. O braço de uma, lhe atravessa o corpo. Dor. Entra dentro dele, e ele dentro dela.

- Siga seu caminho! - Diz seu avô.

Em meio à escuridão do lugar, em que mesmo ao dia não oferece muitas imagens nítidas, mas sim, o som eterno de goteiras e pequenos animais, acorda percebendo que continua em seu canto, todo encolhido. É nesses
momentos, que a solidão lhe cutuca profundamente. Todas as noites enfrenta loucos pesadelos. Ultimamente têm sido mais generosos.

Perto de si, há um roedor. Aguarda enquanto ele aproxima-se e sem dar tempo para o animal sentir dor, arranca sua cabeça com os fortes caninos. Suga o imundo corpo do animal, até não restar-lhe mais líquido. Volta a dormir.

Na noite seguinte desperta com a imensa vontade de voltar à casa. E assim o faz. Quer conhecer a mulher. Ela o recebe muito bem. Nela, ele sente a presença da paz... e um preenchimento no vácuo de seu ser. O convida para entrar. Conhece cada uma das encantadoras crianças. Fica admirado. Conversa por horas e horas com a mulher.

- Até agora só falamos de mim, dos meus problemas para manter estas crianças. Quero saber um pouco de você. - Diz a moça, armando um provocante sorriso.

- Já vi muitas coisas, mas não as vivi. Minha vida é bem monótona, não tenho muito à dizer.

Percebe que, o que achava improvável depois de tantos séculos, estava acontecendo. Estava apaixonando-se. Que encontrou enfim, a mulher de quem seu avô falava. Sente que ela também gostou dele. Após as crianças dormirem, ela o chama para seu quarto, e beijam-se. Momentos depois, inesperadamente, sem receio, começam a despir-se e fazem amor. Tão intenso, tão mágico, como nunca fez antes. Sente a pura energia que aquele ato traz. Sente-se unido com outro ser. Sente-se um Deus. Presenceia uma sensação muito mais elevada de ser.

- Você não tem medo? - Pergunta ele.

- Do quê?

-     Bem, nem conhece-me direito.

- Eu não costumo temer ninguém. Sou uma bruxa.

Ele ri.

- O que foi?

-     Sou um vampiro.

Enquanto mergulha seu espírito no prazer, em seu peito, jorrando sangue para os lados, penetra uma grande estaca, empunhada pela Deusa a quem se entregou.

-     Porquê? - Pergunta sentindo o distanciamento da vida.

- Um vampiro não evolui a alma. O que vocês conhecem por vida eterna, é apenas um atraso. Todo ser é eterno. Nada nasce e nada morre, apenas transforma-se. Todos têm outra chance, e você também merece.

- Obrigado. - Diz a última palavra, com muita dor e satisfação, porque na morte, descobriu um sentido para a vida. E sabe que está à caminho da verdadeira eternidade.

   

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