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Nas trevas, as luzes dos prédios brilham, e os
sons da cidade ecoam, formando o cenário misterioso da vida. A
noite. Onde o espírito está mais visível, onde as pessoas
encontram-se com elas mesmas. As sombras escondem
a falsa realidade, e mostram a essência de tudo. E é nas sombras,
que tentam esconder-se, os sofrimentos.
Refletindo a forma arredondada e iluminada da
lua, tristes olhos escuros observavam a aconchegante noite. Sentado
na ápice da mais alta montanha da cidade, um homem de cabelos e
barba negros, relembrava o que ouviu aquele dia, que lhe seria uma
grande incógnita, ao decorrer de seus sofridos dias.
- Você só terá a verdadeira eternidade,
quando encontrar a mulher ideal.
"O velho sabia o que dizia, ele conhecia
outra verdade. Mas o que quis dizer com isso?... Verdadeira
eternidade." Pensa ele em seu avô. Poderoso e sábio vampiro.
Com quem viveu a primeira década de sua vida. Foi assassinado. Sim.
Queimado vivo, pela igreja católica. Que chegou devastando todas as
sociedades secretas. Todas as religiões. Com suas torturas,
fogueiras e perseguições, obrigaram várias organizações a
esconderem-se. Incluindo a raça da nossa personagem; Vampiros.
Faz parte de uma espécie em que não se pode
sair e nem entrar. É hereditário. Suas vítimas apenas
transformam-se em seres nojentos, rastejantes, até que os vermes
consumam suas carcassas.
Mas ele não. Se recusa à tirar a vida de
inocentes. Mesmo que para isso deva sacrificar a própria vida. Há
setecentos e nove anos suga o sangue de animais. Nunca provou o
famoso gosto de sangue humano. Seu avô lhe contava muitas histórias
de vampiros que se recusavam à atacar homens, e não passaram de
setecentos e tantos anos. Parece muito mas, para um vampiro esse
tempo é muito rápido, considerando que de vinte e quatro horas do
dia, só podem aproveitar a noite. Uma gota d'água lhe
interrompe o pensamento. A chuva. Companheira de infinitas noites.
Permanece sentado, sentindo seu corpo e roupas ensoparem. Tentando
esquecer que está só. Com a paisagem urbana. Antigamente os pingos
de chuva confundiriam-se com suas lágrimas, mas hoje em dia, isso não
acontece mais. Tenta, mas não consegue. Em pouco tempo deverá
retornar ao seu lar. Lar... Palavra vinda de bocas que se referem à
uma mansão, à uma grande casa, ou até mesmo uma modesta casa. Mas
ele chama de lar, um canto escuro e úmido. Abaixo dos seres,
apressados e preocupados, humanos. No esgoto. Mas o pior de tudo é
ter como companhia, os ratos. Não desvalorizando os bichinhos, até
que são simpáticos. Mas sente falta de uma família. Mãe, pai.
Que foram assassinados por caça vampiros logo que nasceu. Uma
mulher, que lhe entenda, que possa abraçar quando acorda dos
torturantes pesadelos. "Pare de sonhar homem". Pensou. Tem
que aceitar a realidade. Que irá voltar àquele lugar, dormir,
acordar, comer uns ratos... É, sente-se tão fraco que nem tem forças
para uma caçada. Há semanas que só se alimenta dos pequenos
roedores. Tornando assim, seu corpo mais vulnerável. E mais próximo,
o seu encontro com a morte. Tudo porque, não aceita a idéia de ser
um parasita. As vezes pergunta-se: "E se eu me entregasse aos
desejos e chupasse o sangue de homens?" Mas logo encontra uma
resposta: "Iria ficar nessa; Dorme, acorda, mata,
dorme..." Não tem esse sentimento de simplesmente curtir a
vida. Às custas de outras não. Já lhe passou pela cabeça morder
apenas gente ruim, mas acredita que todos mereçam outra chance, além
disso, seria pego, como seus antepassados. O jeito mesmo é esperar,
o nada, o não ser, lhe alcançar. Estranho é essa idéia de um dia
não existir, depois de tudo, simplesmente sumir, acabar, não faz
sentido. Mas sua vida também não. Então porque a morte seria
diferente? Perguntas sem respostas.
"É hora de ir embora", recomenda a
si. "Em pouco tempo, o lendário sol surgirá, e se eu
continuar aqui..." Todo vampiro sabe das conseqüências de
querer ver o sol. No passado muitos tentaram, e perderam sua
eternidade, para tornarem-se pó. "Mas afinal, não é
nisso que vou transformar-me em breve?" Pensa. Às vezes acha
que no fundo, no fundo, tem alguma esperança, algum porque de
viver, só não sabe qual é.
Desce a montanha, sentindo em cada passo, a
fragilidade de seu corpo.
Resolve fazer um caminho diferente para
"casa". Está a fim de andar um pouco. Mesmo sem energias.
Mas pelo menos, ingeriu bastante animaisinhos esta noite.
É uma cidade movimentada. À essa hora nem
tanto. Entra em uma rua deserta, com alguns condomínios. Uns
minutos depois o barulhento silêncio é cortado. Ouve uma cantoria
alegre, risos. Continua caminhando enquanto os sons aumentam. Avista
uma casa simples de decoração, mas grande. Vem de lá, aquelas
vozes infantis. Aproxima-se e olha pela janela para dentro do
ambiente. Há muitas crianças. Brincando, pulando, comendo, rindo,
e no meio de tudo isso, uma mulher vestida de branco as observa,
tranquila, feliz.
- Posso ajudar? - Atrás dele, uma menina bem
crescida revela-se.
- Hã... não. Só estava observando. - Fez-se
um minuto. - Aqui é uma escola?
- Não, não. É só a casa da tia. Somos...
todos meninos e meninas de rua. Ela nos acolheu. Nos dá comida,
teto, brinquedos, e muito mais. Ela só conta com a ajuda de alguns
vizinhos que de vez em quando, doam alimentos, e ajudam no que
podem. Porque o governo, ihhhh... Esse aí acho que nem sabe que
agente existe. Pois é, agente tá até vendendo uns artesanatos por
aí, que alguns bons amigos da tia nos ensinam. Mas o mais
importante que aprendemos aqui, é a dar valor à vida, descobrimos
que somos importantes.
Ouvindo a criança, seus olhos enchem-se de lágrimas,
e seu corpo arrepia-se. É como se sua alma penetrasse fundo no
brilho do olhar da criança. "Quanta força há nesta inocente
criatura. E quanta garra possui aquela generosa mulher". Pensa.
- Olá! Se quiser conhecer as crianças pode vir
quando quiser. Agora vem pra dentro, Bia. - Disse a moça de branco
que observava desconfiada na janela.
Voz doce e sincera. Responde com um sorriso.
Enfim no buraco. Dorme. Após horas pensando na
lição de vida da noite. Na bondade incomparável da mulher, que o
fez ter outra perspectiva de vida. Imaginou como seria maravilhoso
se houvessem crianças que dissessem dele o que a menina disse.
Pensou em como foi egoísta por todos esses séculos.
Criticava sempre os humanos, mas percebeu que era tão cego e inútil
quanto a maioria deles. Mas não adiantava arrepender-se agora.
Estava morrendo. A mulher grita e lhe assusta, mostrando dentes tão
afiados quanto os dele. Seus olhos, bonitos e selvagens, lhe
dominam. Mas ele não consegue mexer-se, não consegue fugir, ou não
quer. E ela com os braços abertos vai em direção à ele, que por
sua vez, se fixa nos perfeitos seios. Sente a paixão. Sente os
mamilos em seus lábios, e em movimentos circulares, passa a língua
no motivo de prazer da figura. Chega ao clímax. Gostoso.
Imensa alegria e satisfação. Está flutuando no Universo. Entre as
estrelas. O braço de uma, lhe atravessa o corpo. Dor. Entra dentro
dele, e ele dentro dela.
- Siga seu caminho! - Diz seu avô.
Em meio à escuridão do lugar, em que mesmo ao
dia não oferece muitas imagens nítidas, mas sim, o som eterno de
goteiras e pequenos animais, acorda percebendo que continua em seu
canto, todo encolhido. É nesses
momentos,
que a solidão lhe cutuca profundamente. Todas as noites enfrenta
loucos pesadelos. Ultimamente têm sido mais generosos.
Perto de si, há um roedor. Aguarda enquanto ele
aproxima-se e sem dar tempo para o animal sentir dor, arranca sua
cabeça com os fortes caninos. Suga o imundo corpo do animal, até não
restar-lhe mais líquido. Volta a dormir.
Na noite seguinte desperta com a imensa vontade
de voltar à casa. E assim o faz. Quer conhecer a mulher. Ela o
recebe muito bem. Nela, ele sente a presença da paz... e um
preenchimento no vácuo de seu ser. O convida para entrar. Conhece
cada uma das encantadoras crianças. Fica admirado. Conversa por
horas e horas com a mulher.
- Até agora só falamos de mim, dos meus
problemas para manter estas crianças. Quero saber um pouco de você.
- Diz a moça, armando um provocante sorriso.
- Já vi muitas coisas, mas não as vivi. Minha
vida é bem monótona, não tenho muito à dizer.
Percebe que, o que achava improvável depois de
tantos séculos, estava acontecendo. Estava apaixonando-se. Que
encontrou enfim, a mulher de quem seu avô falava. Sente que ela
também gostou dele. Após as crianças dormirem, ela o chama para
seu quarto, e beijam-se. Momentos depois, inesperadamente, sem
receio, começam a despir-se e fazem amor. Tão intenso, tão mágico,
como nunca fez antes. Sente a pura energia que aquele ato traz.
Sente-se unido com outro ser. Sente-se um Deus. Presenceia uma sensação
muito mais elevada de ser.
- Você não tem medo? - Pergunta ele.
- Do quê?
- Bem, nem conhece-me
direito.
- Eu não costumo temer ninguém. Sou uma bruxa.
Ele ri.
- O que foi?
- Sou um vampiro.
Enquanto mergulha seu espírito no prazer, em
seu peito, jorrando sangue para os lados, penetra uma grande estaca,
empunhada pela Deusa a quem se entregou.
- Porquê? - Pergunta
sentindo o distanciamento da vida.
- Um vampiro não evolui a alma. O que vocês
conhecem por vida eterna, é apenas um atraso. Todo ser é eterno.
Nada nasce e nada morre, apenas transforma-se. Todos têm outra
chance, e você também merece.
- Obrigado. - Diz a última
palavra, com muita dor e satisfação, porque na morte, descobriu um
sentido para a vida. E sabe que está à caminho da verdadeira
eternidade.
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