Sem Saída

 Eduardo Boldrini

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0116]
[Autor:
Eduardo Boldrini]
[Título: Sem Saída]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: ]

 

O bar Central, na periferia da cidade, mais parecia um grande celeiro de fazenda. A luz mal entrava pelas janelas. Pelas frestas do telhado, os raios iluminavam de maneira desuniforme o local. Era ali o lugar combinado para receber as informações sobre seu próximo serviço.

            Sentado na mesa do fundo, sob a penumbra, aguardou durante vinte minutos até que um homem de chapéu veio em sua direção e ocupou a cadeira ao seu lado, trazendo aquele cheiro áspero de poeira. Lá fora, o dia era quente e seco. Inevitável, lembrou dos dias em que saia com seu pai e seu irmão pelo campo para laçar os terneiros. Naquelas lembranças quase apagadas, ele girava um laço sobre a cabeça,acompanhado pelos olhares atentos do pai e do irmão mais velho. Dias quentes. Poeira no ar.

        - Você está me ouvindo? - perguntou o homem, girando o chapéu pela aba. Seu pensamento voltou para o celeiro como se o seu espírito tivesse vagado e de repente retornado ao seu corpo.

         Entre dois copos de pinga, recebeu todas as instruções de como deveria agir e a metade do dinheiro pelo serviço: dez mil adiantados, a segunda parte viria depois da tarefa cumprida.

         - Nada de nomes - o homem falou em voz fraca como da morte. Depois passou para ele um bolo de dinheiro molhado de suor. Notas fora de série, velhas e rasgadas com o andar de mão-em-mão.

O homem com cheiro de poeira aproximou o rosto do seu e falou tudo o que precisava saber. Mostrou-lhe um papel amassado com rabiscos da área onde o assassinato ocorreria e na parte de baixo da folha, num traço mais forte, aparecia o horário: entre 8 e 8 e 15, quando o sol já tivesse se posto..

        - Amanhã você vai ficar sabendo a roupa que o desgraçado vai tá usando.

        Tudo já estava armado e aconteceria no dia seguinte: um tiro pelas costas,  sem piedade, sem precisar olhar para a cara do prometido no momento da execução. Era como laçar aquele pequeno terneiro nos dias quentes. Era só mais um serviço.

        Lugar maldito - falou consigo mesmo em meio a um sorriso sarcástico que foi brotando nos seus lábios, enquanto via o homem sair do bar em direção à poeira da rua. - Região de ninguém. - completou. Tinha nascido naquela terra onde corpos eram encontrados pelos urubus, já que ninguém falava nada.

        Num só gole esvaziou o copo de pinga. O líquido foi queimando sua garganta causando-lhe a sensação que tanto gostava. Bateu com o copo na mesa e seu rosto começou a esquentar.



        Da mesma maneira que o sujeito chegou, também se foi. Agora ele estava novamente sozinho. Da sua cadeira tinha a visão de todo o bar, era um profissional, só um amador sentaria num lugar onde não visse tudo o que acontecia ao seu redor. Sentiu-se forte, com o poder de dar e tirar o direito de alguém viver. Contou o dinheiro, conferiu o estado das notas, sujas como suas mãos. Guardou-as no bolso, levantou-se e foi embora.



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            Tirou a caixa de baixo do guarda-roupa acomodando-a sobre a cama. Retirou a arma com todo o cuidado e começou a lubrificação de cada parte, como havia aprendido, ainda pequeno, com a pai, quando preparavam-se para caçar. Um ritual. Hoje, um ritual do matador.

        Carregou-a. Era só puxar o gatilho, pensou, no momento em que ensaiava o movimento firme, como um golpe, apoiando-a no ombro, mirando em pontos aleatórios que via pela janela do seu quarto. Encostou a arma brilhante na porta do armário e deitou para descansar um pouco. Quando acordasse, um bilhete informando a roupa do prometido teria sido colocado por baixo da sua porta.



            Imagens distorcidas foram enchendo todo seu campo de visão. Não conseguia indentificar nada, tudo ainda estava sem foco, mas ele sabia que isso não iria demorar muito. Apenas tinha certeza do vermelho. Tinha muito vermelho por ali e ele estava caminhando sobre aquele...tapete? Hahahaha. Logo ele, caminhando sobre um tapete vermelho, só se fosse um tapete de sangue. Seus pés ficaram molhados. Ele estava mesmo caminhando sobre sangue. Uma grande poça de sangue. As imagens estavam mais claras, agora. Tinha alguém, não, era apenas um corpo deitado de bruços quase ao lado dele.  O sangue parecia sair do homem. Aquele desgraçado tinha mesmo muito sangue. Ele nunca tinha visto tanto. E o cheiro, pegajoso como dos matadouros, impregnante. Sentia muito calor, não tinha nem uma pequena corrente de vento. Logo sua camisa estava ensopada, o tecido estava colado na pele do peito e das costas. Começou a se afastar do corpo. Deu alguns passos e uma sensação de intranqüilidade, de perigo, tomou conta dele. O suor se intensificou. Agora sentia as gotas escorrendo por entre os dedos das mãos, pelas pernas também, elas foram ensopando seu sapato. Olhou para o chão. Não tinha sapatos. Seus pés estavam molhados, de sangue, não  porque caminhava sobre ele, mas o sangue escorria pelas suas pernas também. Olhou para o peito, também tinha sangue no peito. Passou as mãos nas costas, nos braços. Não tinha dúvida, caminhava sobre seu próprio sangue.



Ele despertou num susto com a batida seca na porta do seu quarto. Abriu os olhos e ainda teve tempo de ver um bilhete bem-dobrado sendo empurrado por debaixo da porta.

            Quando recobrou a consciência, seu corpo estava apenas molhado de suor, mas ainda podia sentir o cheiro de sangue.  Aquele sonho deveria ser algum tipo de sinal? Besteira. Já havia sonhado antes, e com coisas muito piores.

Ficou na cama ainda alguns minutos depois levantou para pegar o bilhete.

            Chegava a hora. O suor escorria pelo sua face de expressão desconfortável. Talvez fosse a camisa que usava, quente e apertada, mas a cor preta fazia dele um camaleão naquele cenário.

            Em passos silenciosos, caminhou pelo local, com o pequeno papel rabiscado nas mãos e ensaiou os passos para morte do prometido, marcado para não mais que meia hora dali. Poderia ter escolhido as moitas ou um lugar em meio às árvores, mas desta vez ficou apenas encostado na parede de um casebre de madeira bandonado, rodeado pelo mato alto e encoberto pela sombra do luar. Sua visão era perfeita e tinha espaço suficiente para atirar com precisão.

            Com a arma carregada, refazia os passos para que nada desse errado: o tiro e, caso precisasse, a fuga fácil. Era como girar o laço sobre a cabeça, só esperando o momento certo para laçar. O pequeno animal nunca fugia, nunca depois dele conhecer os seus movimentos.

           O maior adversário, agora, era o tempo, que insistia em não passar. Tentava ouvir o gemido da noite, o assobiar do vento, o olhar da lua. Ele não podia se dar ao luxo de qualquer lembrança ou sentimento. Ali, tudo era proibido. Como um cavalo, só via o caminho a percorrer. E o dele era reto e fatal.

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            Ouviu os primeiros passos vindos de longe, apagou o cigarro na terra e posicionou a arma para o disparo. Seria apenas um, pensou. A bala faria um furo pequeno nas costas, mas arrancaria seu coração quando saísse pela frente. Diziam que com um tiro certeiro daquela espingarda a vítima não sentia dor alguma, apenas 2 ou 3 segundo e já estaria morta. O tal homem sofreria menos que um terneiro quando era abatido. Era por isso que gostava daquela arma. Dava as suas vítimas a chance de morrer como homens e não como bicho de quatro patas.

            O vulto foi se aproximando, ouvia os passos, as pernas roçando no capim. O suor brotava na sua pele e escorria pela face. Era um animal feroz, em posição para o ataque: acocado, estático, com a arma calçada no ombro e olho acompanhando cada passo do desgraçado. Estava na posição. Silêncio. Já podia sentir o seu próximo movimento do coitado. Silêncio. A sua respiração. Silêncio. A brisa tocando seu rosto. Mais um passo, mais outro. O dedo pressiona o gatilho. Estouro. No ombro, o soco. Um risco no ar. Os pássaros voam e a noite se agita como num pesadelo de criança. Ele mesmo se assusta. Sensação estranha. Levantou-se e viu o corpo, estava lá, imóvel, estendido no chão, abatido.   Novamente só ouvia a noite, calma como um sono tranqüilo.

            De onde estava, viu o sangue da vítima espirrando. Trabalho cumprido, aquela velha sensação de relaxamento correu seu corpo de um lado ao outro. Começava no coro cabeludo, um arrepio, uma descarga de tensão que ia até seu quadril. Como um espírito que passava e beliscava sua alma, um espreguiçar no amanhecer. Era, simplesmente, mais um corpo que seria encontrado, já meio-comido pelos abutres.

            Devagar, caminhou sobre as folhas secas, aproximou-se do corpo caído de bruços e com o pé virou-o lentamente. O coração saltou-lhe pela boca, um fogo consumiu-o, uma sensação de suor seco que evaporava antes mesmo de molhá-lo, um desarranjo, um segundo, cólica, o terneiro  escapou, o Santo Antônio da sua mãe se despecaçou no chão da sala. Apavorado. Perdido no campo. Alto preço. Pegou a arma. Dois segundos, ainda pensou, e disparou novamente, desta vez contra sua própria cabeça. As partes se espalharam no ar, um jorro. O sangue deles já se misturava quando seu corpo caiu, morto, ao lado do corpo de seu pai.

 

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