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O
bar Central, na periferia da cidade, mais parecia um grande celeiro
de fazenda. A luz mal entrava pelas janelas. Pelas frestas do
telhado, os raios iluminavam de maneira desuniforme o local. Era ali
o lugar combinado para receber as informações sobre seu próximo
serviço.
Sentado na mesa do fundo, sob a penumbra, aguardou durante vinte
minutos até que um homem de chapéu veio em sua direção e ocupou
a cadeira ao seu lado, trazendo aquele cheiro áspero de poeira. Lá
fora, o dia era quente e seco. Inevitável, lembrou dos dias em que
saia com seu pai e seu irmão pelo campo para laçar os terneiros.
Naquelas lembranças quase apagadas, ele girava um laço sobre a
cabeça,acompanhado pelos olhares atentos do pai e do irmão mais
velho. Dias quentes. Poeira no ar.
- Você
está me ouvindo? - perguntou o homem, girando o chapéu pela aba.
Seu pensamento voltou para o celeiro como se o seu espírito tivesse
vagado e de repente retornado ao seu corpo.
Entre dois copos de pinga, recebeu todas as instruções de como
deveria agir e a metade do dinheiro pelo serviço: dez mil
adiantados, a segunda parte viria depois da tarefa cumprida.
- Nada de nomes - o homem falou em voz fraca como da morte. Depois
passou para ele um bolo de dinheiro molhado de suor. Notas fora de série,
velhas e rasgadas com o andar de mão-em-mão.
O homem com cheiro de poeira aproximou o rosto
do seu e falou tudo o que precisava saber. Mostrou-lhe um papel
amassado com rabiscos da área onde o assassinato ocorreria e na
parte de baixo da folha, num traço mais forte, aparecia o horário:
entre 8 e 8 e 15, quando o sol já tivesse se posto..
-
Amanhã você vai ficar sabendo a roupa que o desgraçado vai tá
usando.
Tudo
já estava armado e aconteceria no dia seguinte: um tiro pelas
costas, sem piedade, sem precisar olhar para a cara do
prometido no momento da execução. Era como laçar aquele pequeno
terneiro nos dias quentes. Era só mais um serviço.
Lugar
maldito - falou consigo mesmo em meio a um sorriso sarcástico que
foi brotando nos seus lábios, enquanto via o homem sair do bar em
direção à poeira da rua. - Região de ninguém. - completou.
Tinha nascido naquela terra onde corpos eram encontrados pelos
urubus, já que ninguém falava nada.
Num só
gole esvaziou o copo de pinga. O líquido foi queimando sua garganta
causando-lhe a sensação que tanto gostava. Bateu com o copo na
mesa e seu rosto começou a esquentar.
Da mesma maneira que o sujeito chegou, também se foi. Agora ele
estava novamente sozinho. Da sua cadeira tinha a visão de todo o
bar, era um profissional, só um amador sentaria num lugar onde não
visse tudo o que acontecia ao seu redor. Sentiu-se forte, com o
poder de dar e tirar o direito de alguém viver. Contou o dinheiro,
conferiu o estado das notas, sujas como suas mãos. Guardou-as no
bolso, levantou-se e foi embora.
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Tirou a caixa de baixo do guarda-roupa acomodando-a sobre a cama.
Retirou a arma com todo o cuidado e começou a lubrificação de
cada parte, como havia aprendido, ainda pequeno, com a pai, quando
preparavam-se para caçar. Um ritual. Hoje, um ritual do matador.
Carregou-a. Era só puxar o gatilho, pensou, no momento em que
ensaiava o movimento firme, como um golpe, apoiando-a no ombro,
mirando em pontos aleatórios que via pela janela do seu quarto.
Encostou a arma brilhante na porta do armário e deitou para
descansar um pouco. Quando acordasse, um bilhete informando a roupa
do prometido teria sido colocado por baixo da sua porta.
Imagens distorcidas foram enchendo todo seu campo de visão. Não
conseguia indentificar nada, tudo ainda estava sem foco, mas ele
sabia que isso não iria demorar muito. Apenas tinha certeza do
vermelho. Tinha muito vermelho por ali e ele estava caminhando sobre
aquele...tapete? Hahahaha. Logo ele, caminhando sobre um tapete
vermelho, só se fosse um tapete de sangue. Seus pés ficaram
molhados. Ele estava mesmo caminhando sobre sangue. Uma grande poça
de sangue. As imagens estavam mais claras, agora. Tinha alguém, não,
era apenas um corpo deitado de bruços quase ao lado dele. O
sangue parecia sair do homem. Aquele desgraçado tinha mesmo muito
sangue. Ele nunca tinha visto tanto. E o cheiro, pegajoso como dos
matadouros, impregnante. Sentia muito calor, não tinha nem uma
pequena corrente de vento. Logo sua camisa estava ensopada, o tecido
estava colado na pele do peito e das costas. Começou a se afastar
do corpo. Deu alguns passos e uma sensação de intranqüilidade, de
perigo, tomou conta dele. O suor se intensificou. Agora sentia as
gotas escorrendo por entre os dedos das mãos, pelas pernas também,
elas foram ensopando seu sapato. Olhou para o chão. Não tinha
sapatos. Seus pés estavam molhados, de sangue, não porque
caminhava sobre ele, mas o sangue escorria pelas suas pernas também.
Olhou para o peito, também tinha sangue no peito. Passou as mãos
nas costas, nos braços. Não tinha dúvida, caminhava sobre seu próprio
sangue.
Ele
despertou num susto com a batida seca na porta do seu quarto. Abriu
os olhos e ainda teve tempo de ver um bilhete bem-dobrado sendo
empurrado por debaixo da porta.
Quando recobrou a consciência, seu corpo estava apenas molhado de
suor, mas ainda podia sentir o cheiro de sangue. Aquele sonho
deveria ser algum tipo de sinal? Besteira. Já havia sonhado antes,
e com coisas muito piores.
Ficou na cama ainda alguns minutos depois
levantou para pegar o bilhete.
Chegava a hora. O suor escorria pelo sua face de expressão
desconfortável. Talvez fosse a camisa que usava, quente e apertada,
mas a cor preta fazia dele um camaleão naquele cenário.
Em passos silenciosos, caminhou pelo local, com o pequeno papel
rabiscado nas mãos e ensaiou os passos para morte do prometido,
marcado para não mais que meia hora dali. Poderia ter escolhido as
moitas ou um lugar em meio às árvores, mas desta vez ficou apenas
encostado na parede de um casebre de madeira bandonado, rodeado pelo
mato alto e encoberto pela sombra do luar. Sua visão era perfeita e
tinha espaço suficiente para atirar com precisão.
Com a arma carregada, refazia os passos para que nada desse errado:
o tiro e, caso precisasse, a fuga fácil. Era como girar o laço
sobre a cabeça, só esperando o momento certo para laçar. O
pequeno animal nunca fugia, nunca depois dele conhecer os seus
movimentos.
O maior adversário, agora, era o tempo, que insistia em não
passar. Tentava ouvir o gemido da noite, o assobiar do vento, o
olhar da lua. Ele não podia se dar ao luxo de qualquer lembrança
ou sentimento. Ali, tudo era proibido. Como um cavalo, só via o
caminho a percorrer. E o dele era reto e fatal.
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Ouviu os primeiros passos vindos de longe, apagou o cigarro na terra
e posicionou a arma para o disparo. Seria apenas um, pensou. A bala
faria um furo pequeno nas costas, mas arrancaria seu coração
quando saísse pela frente. Diziam que com um tiro certeiro daquela
espingarda a vítima não sentia dor alguma, apenas 2 ou 3 segundo e
já estaria morta. O tal homem sofreria menos que um terneiro quando
era abatido. Era por isso que gostava daquela arma. Dava as suas vítimas
a chance de morrer como homens e não como bicho de quatro patas.
O vulto foi se aproximando, ouvia os passos, as pernas roçando no
capim. O suor brotava na sua pele e escorria pela face. Era um
animal feroz, em posição para o ataque: acocado, estático, com a
arma calçada no ombro e olho acompanhando cada passo do desgraçado.
Estava na posição. Silêncio. Já podia sentir o seu próximo
movimento do coitado. Silêncio. A sua respiração. Silêncio. A
brisa tocando seu rosto. Mais um passo, mais outro. O dedo pressiona
o gatilho. Estouro. No ombro, o soco. Um risco no ar. Os pássaros
voam e a noite se agita como num pesadelo de criança. Ele mesmo se
assusta. Sensação estranha. Levantou-se e viu o corpo, estava lá,
imóvel, estendido no chão, abatido. Novamente só
ouvia a noite, calma como um sono tranqüilo.
De onde estava, viu o sangue da vítima espirrando. Trabalho
cumprido, aquela velha sensação de relaxamento correu seu corpo de
um lado ao outro. Começava no coro cabeludo, um arrepio, uma
descarga de tensão que ia até seu quadril. Como um espírito que
passava e beliscava sua alma, um espreguiçar no amanhecer. Era,
simplesmente, mais um corpo que seria encontrado, já meio-comido
pelos abutres.
Devagar, caminhou sobre as folhas secas, aproximou-se do corpo caído
de bruços e com o pé virou-o lentamente. O coração saltou-lhe
pela boca, um fogo consumiu-o, uma sensação de suor seco que
evaporava antes mesmo de molhá-lo, um desarranjo, um segundo, cólica,
o terneiro escapou, o Santo Antônio da sua mãe se despecaçou
no chão da sala. Apavorado. Perdido no campo. Alto preço. Pegou a
arma. Dois segundos, ainda pensou, e disparou novamente, desta vez
contra sua própria cabeça. As partes se espalharam no ar, um
jorro. O sangue deles já se misturava quando seu corpo caiu, morto,
ao lado do corpo de seu pai.
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