Senador

 Miguel Pérez

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0115]
[Autor:
Miguel Pérez]
[Título: Senador]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 1.375]

 


[Processo criativo: Tive a idéia deste conto quando estava de passagem
por Brasília justamente logo após o caso ACM. Veio-me a vontade a
princípio de escrever um conto que tivesse início com uma jogada de
xadrez, depois de colocar o ACM, ou uma referência a ele no texto e
alguns meses depois quando um desafio em uma lista que freqüento nos
chamava a colocar num mesmo universo o mongol e Alexandre, bom dai foi um pulo.




        - Bispo para dama seis - anunciou o homem de bigode,
impassível, deslocando uma das peças do tabuleiro.

        O outro homem ajeitou os óculos de correção de sua cegueira
congênita e observou incrédulo à disposição das peças.

        - Você venceu novamente - comentou desanimado. - Não sei
porque ainda jogo com você.

        - Porque sabe que tem muito a aprender comigo!

        Ambos levantarem-se. O vencedor desligou o interruptor e a
holografia do seu adversário se desfez como se de fumaça.

        - Vitória! - pensou - que sensação familiar.

        O tabuleiro de xadrez era seu território. Lá, como na vida,
sempre conseguira derrotar os inimigos. A vida era, para ele, como uma
enorme e intrincada partida de xadrez e ele era um mestre. Sempre
tinha uma estratégia para cada situação. Sempre derrotava os inimigos.
Sim, todos eram seus inimigos. Um movimento em falso e os abutres
desceriam para comer a sua carne. Às vezes, entregar um peão ou até
mesmo um cavalo ou uma torre poderiam ser a chave para ganhar uma
partida. Dependendo das circunstâncias até mesmo entregar a dama
poderia ser a melhor saída. E esta era uma dessas ocasiões. Tudo para
defender o rei.

        Colocou o melhor traje, ajeitou o bigode e não pode deixar de
notar que não era mais o mesmo de semanas atrás. Estava mais magro e
com ar abatido. Já não tinha a imponência costumeira e ressentia-se de
não ter um amigo naquele momento. Amigo. Essa palavra deixava-o ainda
mais abatido. Tinha um amigo, mas não o conservaria por muito tempo
já. Preparava-se para enfrentar a comissão do senado e para salvar a
pele tinha de sacrificar sua dama. Seu maior aliado e único amigo.

        Caminhou lentamente até a mesa e deteve-se olhando para um
volumoso dossiê que mandara elaborar de maneira a encobrir sua
participação no caso das mineradoras de Calisto e jogar toda a culpa
em Paulo Farias, seu braço direito e amigo desde a infância passada na
lua de Alberon.

        Agora no senado, sediado na Terra por alguma tradição idiota,
ele estava novamente em seu território. Por vezes poderia parecer
inferiorizado e acuado, mas isso só serviria para baixar a guarda
inimiga e abrir caminho para o golpe. Oficiosamente era considerado o
homem mais poderoso da republica, da galáxia até, mas do alto dos sues
duzentos e vinte nove anos isso já não parecia ter a mesma importância
e por vezes, pela manhã, pensou em atirar ao fogo da lareira o dossiê
que tinha nas mãos agora, mas a serpente dentro dele acabou por falar
mais alto e ali estava. Pronto para soterrar o único amigo.



* * *



Dez dias antes:

- Incrível! Por mais que eu pense no assunto não posso deixar de me
surpreender com tudo isto. - comentou.

- Pois a situação é essa: A experiência fugiu ao controle e eles
dominaram a periferia da galáxia. Ninguém consegue supera-los.

- Fugiu ao controle de quem? Eu ainda estou no controle.

- Mas Será que não vê? A história está se repetindo. Entramos num
vortex de tempo e a história se repete em sua essência. Os fatos são
outros, o cenário é outro, mas estamos vivenciando as conquistas e
atrocidades que eles realizaram, cada qual em seu mundo, em seu tempo.
Estão tomando todos os territórios que estão ao seu alcance e breve se
encontrarão.  Isso pode ser catastrófico.

- Acalme-se, Farias, eu tenho tudo planejado.

- Planejado, planejado como, se nem mesmo os maiores estrategistas
militares da republica conseguiram dete-los?

Antonio Carlos, que fora o primeiro a ser clonado naquela experiência,
da qual se apossara anos mais tarde, olhou para o monitor que mostrava
o espaço profundo com um sorriso estranho nos lábios.

O outro ao perceber que a conversa terminara retirou-se contrariado,
sabendo que não tiraria mais nada do velho grisalho e de bigode, o que
lhe dava um ar anacrônico, muito justo alias, já que viera de milhares
de anos no passado para mudar os destinos da humanidade.



Isso está fora de controle - pensou Farias, de volta àquela estação
espacial clandestina nos confins da galáxia, que fora usada, sabe lá
deus por quem, para criar uma tripulação inteira de clones e depois
controlada por Magalhães, que criara por sua vez estes clones, que
agora assolavam a galáxia, vindos do nada e dominando os vice-reinos
um a um e agora aproximavam-se dramaticamente, um da capital do
império Gogan, Iuco, e o outro do centro da republica livre de
Solaria. Não sei qual será o plano de Antonio, mas devo denunciar o
projeto e dar as ferramentas para que os estrategistas possam
trabalhar.



Dias mais tarde, com Temudjin na periferia do sistema estelar da
capital republicana, uma nave foi interceptada.



- Tragam o tripulante até mim. - ordenou o bárbaro.

O mongol não era uma copia fiel do Genghis Khan das estepes. Este era
muito mais perigoso. De educação minuciosamente pensada e planejada
para torna-lo o que era e acima de tudo idolatrando o "pai", Antonio,
que secretamente fizera o mesmo trabalho com Alexandre, era uma
máquina de guerra e um estrategista ainda mais brilhante que seu
antecessor. Imbatível, pelo fato de ninguém fora da estação Freedom
saber que se tratava de um clone de um vulto lendário da velha Terra,
perdida na poeira do espaço, e um adversário cuidadosamente
equilibrado para Alexandre.

Ambos não tinham conhecimento de sua origem, acreditavam dever suas
vidas a Antonio Carlos e não sabiam um do outro, pelo menos não em
detalhes. Tiveram os traumas e vitórias de seus antecessores
cuidadosamente reproduzidos até o final da adolescência.

Temudjin, por exemplo teve o pai morto na infância e sofreu a miséria
da pobreza em uma colônia mineira com a mão e os irmãos até que o
velho Magalhães o resgata-se se tornando seu pai adotivo e salvador.



Minutos mais tarde Farias era atirado aos pés de Khan, que o
reconheceu de imediato.

Ora, ora. Vejam se não estamos diante de Paulo? Eu diria que é bom
velo, se já não soubesse que está a serviço de Alex.

- Eu? Eu não estou a serviço de ninguém, só da humanidade.

- A serviço da humanidade estou eu! Eu unificarei todos os povos sob
uma só bandeira.

- Mas vocês estão sendo...

- Cale-se. Eu sei muito bem o que vai dizer e sei que Antonio, está do
meu lado. Só ordenei sua presença por que Antonio queria vê-lo.

Uma imagem holográfica surgiu no meio da sala e um homem sentado com
aparência doente se fez ver, sentado numa cadeira com rodas.

- Amigo, por que esta traição? Não sabe que o que estamos fazendo é um
sacrifício em nome da humanidade? Alex deve ser detido. Temudjin é o
homem certo para governar a galáxia. O império Mongol deve florescer
novamente.

- Seu abutre! Temudjin, ele está manipulando vocês.

- Não fale assim com meu pai! - gritou o mongol enquanto atingia Paulo
Farias com o punhal. - Tirem este corpo daqui.

Enquanto isso, Antonio estava olhando-se no espelho em seu gabinete
no senado. Acabara de voltar de uma secção da comissão de justiça e
entregara o dossiê que o colocaria novamente no centro do palco. Logo
faria um tratado com Khan e Alexandre, trazendo a "Pax Antonina" ao
universo. Esperaria um pouco para provocar um confronto entre os dois,
longe dali é claro e depois exterminaria o vencedor com as forças da
Republica unidas em torno de seu nome e o que restaria? Um estado
unido e governado pro ele. Tudo estava feito. Agora só restava
aguardar o desenrolar dos fatos, porém algo o incomodava.

Vira o melhor amigo morrer diante de seus olhos, pelas mãos de
Temusjin e isso estava a doer em seu peito.

Estava só.

   

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