O Homem Árvore

 João Ricardo Bittencourt

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0114]
[Autor:
João Ricardo Bittencourt]
[Título: O Homem Árvore]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 2.550]

 


[Nota do Autor: Um dia eu tinha que estrear na OE :^) Este é um texto
reflexivo, por favor, não entendam este texto como alguma forma de
discriminação ao credo. Agora chegou a vez de você darem as chibatadas
:^)]


Era um domingo de verão, bastante ensolarado. As cigarras faziam suas
malditas sinfonias abaixo das sombras das árvores. Malditos bichos
preguiçosos, Laerte pensou enquanto saia de seu Corcel marrom diante
de sua casa na periferia da cidade. Os filhos e sua esposa também
desceram. Todos de cabeça baixa.  Sem um ruído, sem nenhuma fala. Toda
a família de Laerte sempre foi ao culto aos domingos. Nunca chegaram
atrasados. Era ótimo se sentir com o dever cumprido em relação à
Igreja. As prestações da casa, comprada em um plano habitacional do
governo, nunca foram pagas, ao contrário do dízimo que estava sempre
em dia. As formigas caminhavam pelo chão em um longo trilho. Fizeram
um grande formigueiro na fundação da casa

Laerte mal entrou em casa liga o aparelho de televisão na cozinha.
Aparelho muito antigo, daqueles televisores da década de 70 com
seletor de canais. Que por sinal, poderia ter um único canal, pois
Laerte somente assistia as partidas futebolísticas no domingo à tarde.

A esposa de Laerte sabia seu dever. Fazer a comida para o marido e os
filhos. Para a coitada a boa esposa deve servi-los. Prefere falar
pouco e não olhar nos olhos do seu senhor. A pobre mulher divide as
suas mágoas com sua beleza. Às vezes chorava em silêncio, mas não se
atrevia em reagir, pois graças a Deus ela tinha onde morar e tinha um
marido para sustenta-la.

O casal de filhos, mais ou menos com a mesma idade, sentou-se na
cozinha. O rapaz, que era mais velho, começou ler a Bíblia e a fazer
algumas atividades dirigidas que recebera no curso bíblico. A menina
começou a fazer uma trança em seus longos cabelos negros. O barulho da
televisão contagiava toda a casa. Mas ninguém reclamava.

Antes do almoço sempre a oração. Agradeciam sempre o mesmo feijão,
arroz e um pedaço gordo de carne. A comida sempre era a mesma. Nada de
variedades. O almoço seguia em silêncio, exceto pelo barulho dos
talheres batendo no prato. Laerte havia desligado o aparelho
televisor, porque a hora das refeições era sagrada. O silêncio era
mantido, até o menino olhar para a televisão e fazer um comentário.
Comentário ingênuo de um menino que sonhava ser como os outros da sua
idade.

- Pai, por quê que o senhor não compra uma televisão nova? Estes dias
eu vi uma na vitrine de uma loja, lá perto da escola. Tinha um
aparelhinho junto que dava pra trocar o canal sem se levantar da
cadeira - explicava o menino com empolgação.

Mal o garoto terminou de falar e Laerte berrou, batendo com o punho
cerrado sob a mesa:

- Garoto vadio metido a rico! Vai falar uma bobagem desta no almoço de
domingo. Me diz pra quê que tu vai ao culto? Tu ainda não aprendeu que
tu deve agradecer a Deus pelas coisas que tu tem dentro de casa? Tu
não vê a casa que tu mora? Teu pai tem que trabalhar por mais de vinte
anos para tentar pagá-la e nunca consegue. Agora esta TV não serve
mais para o senhor mundano?

O garoto baixou a cabeça e não falou mais nada. Agora nem os pratos
quebravam o silêncio.

O resto do domingo foi silencioso. Ninguém trocou nenhuma palavra. As
crianças no quarto, a mulher limpando a casa e Laerte assistindo as
semifinais do campeonato italiano. As formigas sempre carregando as
folhas para o formigueiro. Sem se preocuparem com o tempo.

* * *

Segunda-feira sempre foi o melhor dia para Laerte. Acordava às cinco
horas da madrugada sempre cantarolando algum canto da Igreja. O
banheiro não era revestido por azulejos, era somente uma parede
cinzenta. Uma cortina de plástico azul separava o chuveiro do resto do
banheiro. Laerte sempre tomava banho frio para não gastar energia
elétrica. Depois de banhar-se fazia a barba usando uma navalha e um
pequeno espelho com moldura alaranjada.

Do banheiro era possível escutar os barulhos que a esposa de Laerte
fazia enquanto preparava o café. Sempre se acordou antes do marido.
Ele gostava de tomar café e comer feijão mexido com farinha antes de
sair para o serviço.

Laerte chega na cozinha, senta-se na cabeceira da mesa. Não fala
nenhuma palavra com a mulher.  Antes de tomar seu café retira uma
pequena formiga que caiu na xícara. Terminada a refeição, Laerte
levanta-se pega uma pequena sacola com o uniforme e vai para a parada
do ônibus pegar o transporte fretado pela Fábrica que Laerte trabalha,
com muito orgulho, a vinte e cinco anos. Sai sem dar um beijo, nem um
adeus para a esposa.

No ônibus, com destino a Fábrica, os operários vão rindo e contando
piadas eróticas, para não dizer pornográficas. Alguns dos funcionários
vão com a janela do ônibus aberta e com quase a metade do corpo para
fora para ficar observando as ninfetas na parada do ônibus. Laerte
conversa com seus amigos sobre as partidas de futebol que assistira
ontem à tarde.

Quando o ônibus finalmente chegou na Fábrica, Laerte saiu emocionado
para mais um dia de trabalho. Sinceramente todos os dias Laerte
contemplava a Fábrica e ficava imaginando quando Ela foi construída
sob o antigo campinho de futebol que ele jogava bola. Que alegria
quando a esperança de emprego chegou na cidade. Graças a Deus, Laerte
tinha um trabalho.

A Fábrica imponente, com suas paredes cinzentas iguais ao banheiro de
Laerte, expelia no ar uma densa fumaça negra. O cheiro de óleo e metal
fundido eram intensos. Muitos operários marchavam em direção ao
trabalho com passos preguiçosos e cansados. Ao contrário de Laerte que
marchava com orgulho. Sentia um imenso prazer de fazer parte da
Fábrica durante vinte e cinco anos. Nunca faltou um dia de serviço.
Nunca chegou um minuto atrasado.

O interior da Fábrica era bastante escuro. Laerte colocou seu macacão
cinza e começou a trabalhar no mesmo torno. Sempre o mesmo torno,
desde seu primeiro dia de trabalho. O chão era sujo de óleo, as
paredes eram escuras e as máquinas estavam em um estado decadente. Mas
era a Fábrica, a vida do funcionário. Nas salas da chefia o clima era
bastante alegre, sempre algum chefe seguindo a doutrina maquiavélica
da traição. Mas sempre existia a sedução entre um cafezinho e outro.
Já a Fábrica seria triste, se não fossem os belos seios de uma loira
seminua que exibia os dias do calendário com poses sensuais. A
propósito, o ano era 93, mas ninguém se incomoda com isto.

E assim era o cotidiano de Laerte. Um dia após o outro, sempre igual
ao anterior. As mesmas conversas, as mesmas piadas, os mesmos chefes,
as mesmas máquinas e o mesmo calendário. Tudo como uma peça em uma
grande engrenagem, tudo funcionando perfeitamente, um dia após o
outro. A cada dia, cada vez mais Laerte fazia parte da Fábrica.
Ninguém parava, Laerte nem tirar férias tirava. Preferia pegar o
dinheiro e ficar trabalhando. Nada de praia. Nada de férias, só
trabalho. Trabalhar, pois a Fábrica não podia parar. E a Fábrica
fazendo nuvens densas de fumaça, mas ninguém se importava com isto. Os
dias passavam, um após o outro e o calendário ainda era de 93.


* * *

Passou-se muito tempo. Era mais uma segunda-feira, o melhor dia para
Laerte. O relógio indicava cinco horas da manhã. Laerte cantarolava a
mesma melodia e sua esposa fazia os mesmos ruídos enquanto preparava o
café. O banho não estava tão gelado e pela primeira vez Laerte
sentiu-se cansado.

Laerte pegou sua navalha, arrumou o espelho da moldura alaranjada e
começou o seu ritual de barbear-se. Laerte contemplava seu rosto com a
barba mal aparada. Ele via seu rosto como via todos os dias. Mas na
verdade seu corpo estava mudando. A pele de Laerte estava
completamente coberta por uma fina casca marrom. Sua cabeça estava com
pequenas brotações. Com os movimentos suaves da navalha pequenas
lascas de madeira caiam na superfície da pia. Laerte estranhou que
estava difícil cortar sua barba, mas para os olhos dele, nada de
errado estava acontecendo.

Um pouco abatido, Laerte dirigiu-se até a cozinha sem comentar com a
mulher que estava um pouco indisposto. Sentou-se na cabeceira da mesa,
com a pele coberta de cascas marrons e com as brotações um pouco
maior. A esposa de Laerte olhou para ele, mas não percebeu nada de
diferente. Era o mesmo Laerte que ela sempre vira todas as manhãs.

O homem comeu todo seu feijão, mas sentiu-se mal. Foi correndo até o
banheiro e vomitou toda comida junto com um líquido espesso
esverdeado. Sua esposa ficou preocupada e ousou sugerir que faltasse
ao serviço, afinal ela nunca tinha visto seu senhor passar mal. Ela
sabia que a Fábrica ia entender. Quando a pobre mulher terminou de
falar pensou que seria espancada.  O homem limpou a boca, deixando um
rastro esverdeado sob a mão, pegou sua sacola e saiu mal dizendo a
mulher.

- Que idéia bem cretina!  Nunca faltei ao serviço e não vai ser hoje
que eu vou faltar. A Fábrica precisa do meu trabalho.

Laerte pegou o ônibus normalmente e ninguém percebeu que os primeiros
brotos que desabrochavam na cabeça de Laerte já se tornavam pequenos
galhos. Os mesmos operários continuavam observando as ninfetas, os
mesmos piadistas estavam contando as mesmas piadas e Laerte conversava
com os amigos sobre a semifinal do campeonato espanhol. E para todos
não existia nada de anormal.

Quando o homem chegou na Fábrica estava mais cansado, mas não deixou
de produzir. A chefia foi a única que percebeu Laerte, pois ele estava
diferente. Percebeu que o operário estava produzindo pouco, mas quanto
aos galhos e as cascas, nem se deu conta. O importante era que a
máquina não podia parar.


* * *

E assim os dias foram passando, um após o outro. Segunda-feira após
segunda. E Laerte tinha cada vez mais o seu corpo coberto por grossas
cascas marrons. De seus membros inferiores, mais especificamente de
seus pés, brotavam todos os tipos de raízes. De seus ombros e da
cabeça, surgiam a cada dia novas ramificações. As roupas não serviam
mais para Laerte. Mesmo com elas rasgadas, ninguém notava nenhuma
diferença. Inclusive Laerte.

Ele se sentia cada vez mais cansado, seu coração batia cada vez menos.
E as veias de seu corpo, se transformavam em pequenos sulcos que não
mais conduziam o vermelho sangue dos animais, mas sim a seiva
esverdeada das plantas. Falava pouco, não sentia fome. Sua mulher se
preocupava, mas aprendera que não devia nunca discordar de seu marido.
Também aprendera a não compartilhar seu leito com um amante. Laerte
deitava-se, virava para o outro lado e dormia. Algumas noites a pobre
mulher chegou a chorar quietinha junto com sua beleza, mas tentava
conformar-se que amanhã seria um outro dia e Deus iria ajudá-la.

Laerte deitava-se ao lado da mulher com dificuldades, mas logo se
ajeitava e dormia com tranqüilidade. Ao contrário dela, que rolava na
cama e sentia o ambiente sufocante. Passava todas as noites com
pesadelos e acordava com grande falta de ar. Laerte nem se mexia.

E assim as noites e os dias iam passando, um após o outro como a
marcha das formigas. Laerte nunca deixava de ir para o trabalho.

* * *

Passou-se muito tempo. O dia era segunda-feira e ainda era o dia
favorito de Laerte. Acordou cedo, mas sentiu que aquele dia seria seu
fim. O homem já era praticamente uma planta. Sua boca era uma profunda
cavidade de madeira, não conseguia emitir o mínimo ruído. Não falava
com a família e nem sentia falta disto. O que ele sentia era falta das
conversas no ônibus sobre os campeonatos de futebol.

Estava escutando pouquíssimo e sentia que seu coração estava muito
fraco. Com certeza ele ia morrer. Pensou rapidamente e notou que não
poderia ficar em casa, pois rapidamente seu corpo estaria acabado.
Pela primeira vez saiu de casa sem fazer a barba. Saiu sem despedir-se
de ninguém. Só lembrava em chegar na Fábrica. Deus tinha que lhe
ajudar.

Ainda era cedo para o ônibus, tentou pegar um táxi e informar para o
motorista o destino, mas o taxista não ouvia o que Laerte tentava
dizer. O homem não perdeu tempo, arrancou rapidamente o carro e
abandou Laerte. O motorista ainda saiu pensando - malditos bêbados.

Tentou um ônibus de linha qualquer, mas ninguém parava. O desespero
era tão grande que tomava conta de Laerte. Não poderia morrer ali na
parada do ônibus. Ele precisava ver pela última vez a Fábrica, de
sonhos, de amores, de sustento, de ilusões e de componentes
automotivos.

Desesperadamente saiu correndo pelas ruas. Com passos pesados. Corria
ao encontro de sua amante. A cada passo o corpo de Laerte ia
aumentando, ramificações começavam a crescer com mais rapidez. O
brilho do sol refletia nas folhas verdíssimas.

Sua visão estava turva, não percebia quase nada em sua volta. Será que
um dia percebeu?

Desesperadamente e quase sem forças Laerte finalmente consegue chegar
até o pátio da Fábrica cinzenta. No lugar de seus olhos escorria um
filete de seiva. Laerte nada mais enxergava. Somente sentia o mundo
entorno de si. Pensou que morrera e ficou feliz. Todos os operários
saíram da fábrica, inclusive a chefia, para contemplarem o belíssimo
cinamomo que surgira misteriosamente no pátio da Fábrica.
Evidentemente que uma rápida olhadela porquê a produção não podia
parar.


* * *

Assim Laerte ficou feliz por todos os dias da sua eternidade.
Sentia-se feliz porquê havia morrido no pátio da Fábrica cuja
trabalhou durante toda sua vida. Do outro lado, não existiam anjos,
somente as trevas. Mas podia sentir as pessoas, os operários em torno
de si. O pobre homem pensava que seu corpo havia falecido. Sua
família, a Fábrica e nem Deus sentiram falta de Laerte. Simplesmente
desapareceu, da mesma forma que surgira a árvore.
Não tinha consciência que havia se transformado em um grande cinamomo,
que seus galhos serviam de sombra para uma curta prosa entre os
operários no horário do almoço. Os homens cansados da jornada matutina
sentavam-se no chão, descascavam uma suculenta laranja e a saboreavam
enquanto riam um dos outros, das aventuras amorosas.

Uma árvore improdutiva, com um pequeno fruto esverdeado venenoso,
serve somente para a sombra. Sua madeira é muito macia, não serve para
criar belíssimos móveis. Laerte transformou-se em uma árvore que
somente servia de sombra para as pessoas descansarem.

E ali ficou durante os anos. Muitas segundas se passaram, muitas
formigas percorreram os galhos da árvore. Laerte em sua letargia
sentia a Fábrica ao longe. Mas os dias se escoam na ampulheta da vida
e muitas coisas deixam de existir. Até mesmo a Fábrica cinzenta.
Somente a inércia do cinamomo resistiu. O mesmo chão que um dia foi
símbolo de alegria na infância de Laerte, tornara-se novamente um
lugar de encontro entre as pessoas. A árvore imponente servia de
sombra para famílias e jovens que durante os finais de semana iam até
a praça se divertir.

Nos domingos ensolarados de verão as cigarras cantam nos galhos do
homem árvore.

   

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