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[Nota
do Autor: Um dia eu tinha que estrear na OE :^) Este é um texto
reflexivo,
por favor, não entendam este texto como alguma forma de
discriminação
ao credo. Agora chegou a vez de você darem as chibatadas
:^)]
Era
um domingo de verão, bastante ensolarado. As cigarras faziam suas
malditas
sinfonias abaixo das sombras das árvores. Malditos bichos
preguiçosos,
Laerte pensou enquanto saia de seu Corcel marrom diante
de
sua casa na periferia da cidade. Os filhos e sua esposa também
desceram.
Todos de cabeça baixa. Sem um ruído, sem nenhuma fala. Toda
a
família de Laerte sempre foi ao culto aos domingos. Nunca chegaram
atrasados.
Era ótimo se sentir com o dever cumprido em relação à
Igreja.
As prestações da casa, comprada em um plano habitacional do
governo,
nunca foram pagas, ao contrário do dízimo que estava sempre
em
dia. As formigas caminhavam pelo chão em um longo trilho. Fizeram
um
grande formigueiro na fundação da casa
Laerte
mal entrou em casa liga o aparelho de televisão na cozinha.
Aparelho
muito antigo, daqueles televisores da década de 70 com
seletor
de canais. Que por sinal, poderia ter um único canal, pois
Laerte
somente assistia as partidas futebolísticas no domingo à tarde.
A
esposa de Laerte sabia seu dever. Fazer a comida para o marido e os
filhos.
Para a coitada a boa esposa deve servi-los. Prefere falar
pouco
e não olhar nos olhos do seu senhor. A pobre mulher divide as
suas
mágoas com sua beleza. Às vezes chorava em silêncio, mas não se
atrevia
em reagir, pois graças a Deus ela tinha onde morar e tinha um
marido
para sustenta-la.
O
casal de filhos, mais ou menos com a mesma idade, sentou-se na
cozinha.
O rapaz, que era mais velho, começou ler a Bíblia e a fazer
algumas
atividades dirigidas que recebera no curso bíblico. A menina
começou
a fazer uma trança em seus longos cabelos negros. O barulho da
televisão
contagiava toda a casa. Mas ninguém reclamava.
Antes
do almoço sempre a oração. Agradeciam sempre o mesmo feijão,
arroz
e um pedaço gordo de carne. A comida sempre era a mesma. Nada de
variedades.
O almoço seguia em silêncio, exceto pelo barulho dos
talheres
batendo no prato. Laerte havia desligado o aparelho
televisor,
porque a hora das refeições era sagrada. O silêncio era
mantido,
até o menino olhar para a televisão e fazer um comentário.
Comentário
ingênuo de um menino que sonhava ser como os outros da sua
idade.
-
Pai, por quê que o senhor não compra uma televisão nova? Estes
dias
eu
vi uma na vitrine de uma loja, lá perto da escola. Tinha um
aparelhinho
junto que dava pra trocar o canal sem se levantar da
cadeira
- explicava o menino com empolgação.
Mal
o garoto terminou de falar e Laerte berrou, batendo com o punho
cerrado
sob a mesa:
-
Garoto vadio metido a rico! Vai falar uma bobagem desta no almoço
de
domingo.
Me diz pra quê que tu vai ao culto? Tu ainda não aprendeu que
tu
deve agradecer a Deus pelas coisas que tu tem dentro de casa? Tu
não
vê a casa que tu mora? Teu pai tem que trabalhar por mais de vinte
anos
para tentar pagá-la e nunca consegue. Agora esta TV não serve
mais
para o senhor mundano?
O
garoto baixou a cabeça e não falou mais nada. Agora nem os pratos
quebravam
o silêncio.
O
resto do domingo foi silencioso. Ninguém trocou nenhuma palavra. As
crianças
no quarto, a mulher limpando a casa e Laerte assistindo as
semifinais
do campeonato italiano. As formigas sempre carregando as
folhas
para o formigueiro. Sem se preocuparem com o tempo.
* *
*
Segunda-feira
sempre foi o melhor dia para Laerte. Acordava às cinco
horas
da madrugada sempre cantarolando algum canto da Igreja. O
banheiro
não era revestido por azulejos, era somente uma parede
cinzenta.
Uma cortina de plástico azul separava o chuveiro do resto do
banheiro.
Laerte sempre tomava banho frio para não gastar energia
elétrica.
Depois de banhar-se fazia a barba usando uma navalha e um
pequeno
espelho com moldura alaranjada.
Do
banheiro era possível escutar os barulhos que a esposa de Laerte
fazia
enquanto preparava o café. Sempre se acordou antes do marido.
Ele
gostava de tomar café e comer feijão mexido com farinha antes de
sair
para o serviço.
Laerte
chega na cozinha, senta-se na cabeceira da mesa. Não fala
nenhuma
palavra com a mulher. Antes de tomar seu café retira uma
pequena
formiga que caiu na xícara. Terminada a refeição, Laerte
levanta-se
pega uma pequena sacola com o uniforme e vai para a parada
do
ônibus pegar o transporte fretado pela Fábrica que Laerte
trabalha,
com
muito orgulho, a vinte e cinco anos. Sai sem dar um beijo, nem um
adeus
para a esposa.
No
ônibus, com destino a Fábrica, os operários vão rindo e contando
piadas
eróticas, para não dizer pornográficas. Alguns dos funcionários
vão
com a janela do ônibus aberta e com quase a metade do corpo para
fora
para ficar observando as ninfetas na parada do ônibus. Laerte
conversa
com seus amigos sobre as partidas de futebol que assistira
ontem
à tarde.
Quando
o ônibus finalmente chegou na Fábrica, Laerte saiu emocionado
para
mais um dia de trabalho. Sinceramente todos os dias Laerte
contemplava
a Fábrica e ficava imaginando quando Ela foi construída
sob
o antigo campinho de futebol que ele jogava bola. Que alegria
quando
a esperança de emprego chegou na cidade. Graças a Deus, Laerte
tinha
um trabalho.
A Fábrica
imponente, com suas paredes cinzentas iguais ao banheiro de
Laerte,
expelia no ar uma densa fumaça negra. O cheiro de óleo e metal
fundido
eram intensos. Muitos operários marchavam em direção ao
trabalho
com passos preguiçosos e cansados. Ao contrário de Laerte que
marchava
com orgulho. Sentia um imenso prazer de fazer parte da
Fábrica
durante vinte e cinco anos. Nunca faltou um dia de serviço.
Nunca
chegou um minuto atrasado.
O
interior da Fábrica era bastante escuro. Laerte colocou seu macacão
cinza
e começou a trabalhar no mesmo torno. Sempre o mesmo torno,
desde
seu primeiro dia de trabalho. O chão era sujo de óleo, as
paredes
eram escuras e as máquinas estavam em um estado decadente. Mas
era
a Fábrica, a vida do funcionário. Nas salas da chefia o clima era
bastante
alegre, sempre algum chefe seguindo a doutrina maquiavélica
da
traição. Mas sempre existia a sedução entre um cafezinho e
outro.
Já
a Fábrica seria triste, se não fossem os belos seios de uma loira
seminua
que exibia os dias do calendário com poses sensuais. A
propósito,
o ano era 93, mas ninguém se incomoda com isto.
E
assim era o cotidiano de Laerte. Um dia após o outro, sempre igual
ao
anterior. As mesmas conversas, as mesmas piadas, os mesmos chefes,
as
mesmas máquinas e o mesmo calendário. Tudo como uma peça em uma
grande
engrenagem, tudo funcionando perfeitamente, um dia após o
outro.
A cada dia, cada vez mais Laerte fazia parte da Fábrica.
Ninguém
parava, Laerte nem tirar férias tirava. Preferia pegar o
dinheiro
e ficar trabalhando. Nada de praia. Nada de férias, só
trabalho.
Trabalhar, pois a Fábrica não podia parar. E a Fábrica
fazendo
nuvens densas de fumaça, mas ninguém se importava com isto. Os
dias
passavam, um após o outro e o calendário ainda era de 93.
* *
*
Passou-se
muito tempo. Era mais uma segunda-feira, o melhor dia para
Laerte.
O relógio indicava cinco horas da manhã. Laerte cantarolava a
mesma
melodia e sua esposa fazia os mesmos ruídos enquanto preparava o
café.
O banho não estava tão gelado e pela primeira vez Laerte
sentiu-se
cansado.
Laerte
pegou sua navalha, arrumou o espelho da moldura alaranjada e
começou
o seu ritual de barbear-se. Laerte contemplava seu rosto com a
barba
mal aparada. Ele via seu rosto como via todos os dias. Mas na
verdade
seu corpo estava mudando. A pele de Laerte estava
completamente
coberta por uma fina casca marrom. Sua cabeça estava com
pequenas
brotações. Com os movimentos suaves da navalha pequenas
lascas
de madeira caiam na superfície da pia. Laerte estranhou que
estava
difícil cortar sua barba, mas para os olhos dele, nada de
errado
estava acontecendo.
Um
pouco abatido, Laerte dirigiu-se até a cozinha sem comentar com a
mulher
que estava um pouco indisposto. Sentou-se na cabeceira da mesa,
com
a pele coberta de cascas marrons e com as brotações um pouco
maior.
A esposa de Laerte olhou para ele, mas não percebeu nada de
diferente.
Era o mesmo Laerte que ela sempre vira todas as manhãs.
O
homem comeu todo seu feijão, mas sentiu-se mal. Foi correndo até o
banheiro
e vomitou toda comida junto com um líquido espesso
esverdeado.
Sua esposa ficou preocupada e ousou sugerir que faltasse
ao
serviço, afinal ela nunca tinha visto seu senhor passar mal. Ela
sabia
que a Fábrica ia entender. Quando a pobre mulher terminou de
falar
pensou que seria espancada. O homem limpou a boca, deixando um
rastro
esverdeado sob a mão, pegou sua sacola e saiu mal dizendo a
mulher.
-
Que idéia bem cretina! Nunca faltei ao serviço e não vai
ser hoje
que
eu vou faltar. A Fábrica precisa do meu trabalho.
Laerte
pegou o ônibus normalmente e ninguém percebeu que os primeiros
brotos
que desabrochavam na cabeça de Laerte já se tornavam pequenos
galhos.
Os mesmos operários continuavam observando as ninfetas, os
mesmos
piadistas estavam contando as mesmas piadas e Laerte conversava
com
os amigos sobre a semifinal do campeonato espanhol. E para todos
não
existia nada de anormal.
Quando
o homem chegou na Fábrica estava mais cansado, mas não deixou
de
produzir. A chefia foi a única que percebeu Laerte, pois ele estava
diferente.
Percebeu que o operário estava produzindo pouco, mas quanto
aos
galhos e as cascas, nem se deu conta. O importante era que a
máquina
não podia parar.
* *
*
E
assim os dias foram passando, um após o outro. Segunda-feira após
segunda.
E Laerte tinha cada vez mais o seu corpo coberto por grossas
cascas
marrons. De seus membros inferiores, mais especificamente de
seus
pés, brotavam todos os tipos de raízes. De seus ombros e da
cabeça,
surgiam a cada dia novas ramificações. As roupas não serviam
mais
para Laerte. Mesmo com elas rasgadas, ninguém notava nenhuma
diferença.
Inclusive Laerte.
Ele
se sentia cada vez mais cansado, seu coração batia cada vez menos.
E as
veias de seu corpo, se transformavam em pequenos sulcos que não
mais
conduziam o vermelho sangue dos animais, mas sim a seiva
esverdeada
das plantas. Falava pouco, não sentia fome. Sua mulher se
preocupava,
mas aprendera que não devia nunca discordar de seu marido.
Também
aprendera a não compartilhar seu leito com um amante. Laerte
deitava-se,
virava para o outro lado e dormia. Algumas noites a pobre
mulher
chegou a chorar quietinha junto com sua beleza, mas tentava
conformar-se
que amanhã seria um outro dia e Deus iria ajudá-la.
Laerte
deitava-se ao lado da mulher com dificuldades, mas logo se
ajeitava
e dormia com tranqüilidade. Ao contrário dela, que rolava na
cama
e sentia o ambiente sufocante. Passava todas as noites com
pesadelos
e acordava com grande falta de ar. Laerte nem se mexia.
E
assim as noites e os dias iam passando, um após o outro como a
marcha
das formigas. Laerte nunca deixava de ir para o trabalho.
* *
*
Passou-se
muito tempo. O dia era segunda-feira e ainda era o dia
favorito
de Laerte. Acordou cedo, mas sentiu que aquele dia seria seu
fim.
O homem já era praticamente uma planta. Sua boca era uma profunda
cavidade
de madeira, não conseguia emitir o mínimo ruído. Não falava
com
a família e nem sentia falta disto. O que ele sentia era falta das
conversas
no ônibus sobre os campeonatos de futebol.
Estava
escutando pouquíssimo e sentia que seu coração estava muito
fraco.
Com certeza ele ia morrer. Pensou rapidamente e notou que não
poderia
ficar em casa, pois rapidamente seu corpo estaria acabado.
Pela
primeira vez saiu de casa sem fazer a barba. Saiu sem despedir-se
de
ninguém. Só lembrava em chegar na Fábrica. Deus tinha que lhe
ajudar.
Ainda
era cedo para o ônibus, tentou pegar um táxi e informar para o
motorista
o destino, mas o taxista não ouvia o que Laerte tentava
dizer.
O homem não perdeu tempo, arrancou rapidamente o carro e
abandou
Laerte. O motorista ainda saiu pensando - malditos bêbados.
Tentou
um ônibus de linha qualquer, mas ninguém parava. O desespero
era
tão grande que tomava conta de Laerte. Não poderia morrer ali na
parada
do ônibus. Ele precisava ver pela última vez a Fábrica, de
sonhos,
de amores, de sustento, de ilusões e de componentes
automotivos.
Desesperadamente
saiu correndo pelas ruas. Com passos pesados. Corria
ao
encontro de sua amante. A cada passo o corpo de Laerte ia
aumentando,
ramificações começavam a crescer com mais rapidez. O
brilho
do sol refletia nas folhas verdíssimas.
Sua
visão estava turva, não percebia quase nada em sua volta. Será
que
um
dia percebeu?
Desesperadamente
e quase sem forças Laerte finalmente consegue chegar
até
o pátio da Fábrica cinzenta. No lugar de seus olhos escorria um
filete
de seiva. Laerte nada mais enxergava. Somente sentia o mundo
entorno
de si. Pensou que morrera e ficou feliz. Todos os operários
saíram
da fábrica, inclusive a chefia, para contemplarem o belíssimo
cinamomo
que surgira misteriosamente no pátio da Fábrica.
Evidentemente
que uma rápida olhadela porquê a produção não podia
parar.
* *
*
Assim
Laerte ficou feliz por todos os dias da sua eternidade.
Sentia-se
feliz porquê havia morrido no pátio da Fábrica cuja
trabalhou
durante toda sua vida. Do outro lado, não existiam anjos,
somente
as trevas. Mas podia sentir as pessoas, os operários em torno
de
si. O pobre homem pensava que seu corpo havia falecido. Sua
família,
a Fábrica e nem Deus sentiram falta de Laerte. Simplesmente
desapareceu,
da mesma forma que surgira a árvore.
Não
tinha consciência que havia se transformado em um grande cinamomo,
que
seus galhos serviam de sombra para uma curta prosa entre os
operários
no horário do almoço. Os homens cansados da jornada matutina
sentavam-se
no chão, descascavam uma suculenta laranja e a saboreavam
enquanto
riam um dos outros, das aventuras amorosas.
Uma
árvore improdutiva, com um pequeno fruto esverdeado venenoso,
serve
somente para a sombra. Sua madeira é muito macia, não serve para
criar
belíssimos móveis. Laerte transformou-se em uma árvore que
somente
servia de sombra para as pessoas descansarem.
E
ali ficou durante os anos. Muitas segundas se passaram, muitas
formigas
percorreram os galhos da árvore. Laerte em sua letargia
sentia
a Fábrica ao longe. Mas os dias se escoam na ampulheta da vida
e
muitas coisas deixam de existir. Até mesmo a Fábrica cinzenta.
Somente
a inércia do cinamomo resistiu. O mesmo chão que um dia foi
símbolo
de alegria na infância de Laerte, tornara-se novamente um
lugar
de encontro entre as pessoas. A árvore imponente servia de
sombra
para famílias e jovens que durante os finais de semana iam até
a
praça se divertir.
Nos
domingos ensolarados de verão as cigarras cantam nos galhos do
homem
árvore.
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