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Nota: A FC é um gênero vasto, permitindo obras em
basicamente todos
os estilos. O que
pode parecer, numa primeira visada, História
Alternativa, pode assumir
outra forma... Veja se fui bem-sucedido.
Uma Saga Desconhecida em mais de 500 anos de História
1
"É o octagésimo-sexto dia do ano de 1499 e o 13º de nosso
purgatório;
tarde; reparos mal-acabados após dias de tormenta e longas
horas
de calmaria, onde nem uma suave brisa arfava os remendos de
nosso
velame, fazendo-nos olhar para dentro de nossas almas e não
encontrar
qualquer covil onde a salvação pudesse ter se escondido.
Continuando
mais um par de dias assim e esta será outra nau das muitas
que
singram O Tenebroso a ser tripulada por fantasmas...
"A esperança cada vez mais tênue de ver algum torrão de
terra
no horizonte e a proximidade da Páscoa não nos faz a melhor das
tripulações
desses ditos mares-nunca-dantes-navegados; nem minha
caravela,
a heróica, hoje combalida, Santa Higina, a mais galharda da
frota.
Nossos ânimos, se ousar chamar a mistura de suor e maresia
dessa
forma, convergem para um destino não muito quisto, se bem que
tão
fatídico quanto o próprio oblí..."
- Capitaaaaaaaão!!!!
A velha e estridente voz, um tanto quanto fanha, atravessou
o
passadiço, interrompendo-me no registro informal de meu diário
onde
encontrava
algum paliativo para tirar-me de minha inutilidade pessoal.
Penas e o papel menos roto que conseguira voaram junto à
mesa
de tampo amachucado e manchado de sangue, cheirando bem mais que
somente
a água servida. Avançando, enquanto tentava saltar os corpos
curtidos
que, em compasso de vida esvaída, apodreciam a minha volta
com
o odor característico que deles exsudava. Normalmente seria bem
mais
fleumático, mesmo porque faltavam-me forças para tal desperdício
de
energia, mas algo no timbre do Timoneiro não prometia nada de bom,
logo,
apressei-me, aceitando o risco de partir muitas pernas no
caminho.
- Aliiiiiiii!! Ali!!! - gritava à sotavento: - Diabos no
céu!
- Cruz, se Deus governa tua alma, pobre diabo, faz-te claro,
gajo!
- retruquei de forma a poder ser ouvido em meio aos outros
berros
que, ufanados pelo timoneiro, se propagava a cada boca que a
monotonia
conseguia recrutar: - Não vede que não há nada no céu além
do
sol, sua besta!
- Mas, meu Capitão...
Se fosse em outra circunstância, ou estivesse eu em meu
melhor
juízo, domínio perfeito (ou quase), talvez não o tivesse
julgado
tão rudemente em meu rompante. Mesmo porque não havia rum a
bordo
que o levasse a delirar, mas a falta de água, provisões à
mingua,
me fazia simplesmente homem, falho como tal. Nem de longe a
sombra
do que já fui; o tal semideus imbuído pela Coroa como parte da
substancial
armada do Almirante Pedro Álvares Cabral, a frota mais
poderosa
que Portugal já fizera n'água para singrar o Tenebroso.
Menos de dois meses após zarparmos, disso me lembro
dolorosamente,
para desespero de todos, principalmente o nosso, a
Santa
Higgina perdeu contato com o restante das naus e caravelas...
Poderíamos dizer adeus às Índias e seus tesouros magníficos,
porém
preferi alimentar meu senso pragmático.
- Esperar e ver o andor da carruagem - teria dito meu pai, o
finado
D. Venceslau de San Remo, barão de Costa Grande.
Raios nos partam! Esperar e rezar para não virarmos comida
de
peixe, tenho dito ao longo desse caminho por essas terras onde o
nada
ditava as regras. Vítimas daquela tormenta sem par, lançados à
deriva
num oceano onde nem estrelas nem o horizonte eram visíveis. Um
verdadeiro
mar de ninguém.
"Se queres aprender a orar, faça-te ao mar", já dizia o
ditado
popular, entretanto todos nós só conseguíamos por em prática a
duvidosa
arte do praguejar e sempre. Quem poderia imaginar, depois dos
folguedos
da partida, o continente se afastando, que a 13a nau de D.
Manoel
teria seu destino selado...
Foi quando debrucei-me na murada de sotavento, um brilho me
fez
virar a cabeça a tempo de finalmente flagrar aquilo que o
tarimbado
subalterno acabara de chamar de demônios, mais pareciam
riscos
no pseudo-céu violáceo, com o 'sol' tocando a fímbria oca,
pelada
de nuvens.
- Capitão! - insistia.
Meus ouvidos doíam mas não fora só esse o motivo a levar-me
a
calar o autor da impertinência com um sonoro safanão, onde existia
nisso
muito mais coisas envolvidas que apenas maus bofes...
2
Estranhos pirilampos partiam de tão insólitas
materializações;
sons no mínimo aterrorizantes, e que sabia nunca
chegaram
a ouvidos humanos, me testavam o sangue-frio sem obter
qualquer
sucesso num controle sobre este corpo mais alquebrado que
nunca...
Sabia que estava sendo visado por todos. Esmorecer ali seria
o
mesmo que mergulhar na goela de qualquer barracuda por própria
volição.
- Chegamos à Helas - vaticinaram num murmúrio passado de
boca-em-boca.
De súbito, o mar mergulhado num azougue, um agourento
lago-de-fogo,
as incomuns estrelas que antes riscavam o firmamento
desapareceram
no contínuo crepúsculo e tive a exata impressão de um
estalar
na carcaça da embarcação.
Impressão?
Jesus, Maria e José!!! Era mais que isso: Uma brisa começara
a
bater no velame principal, até então encolhido como um velho
esquálido
morto de frio, largado num beco, rugindo agora com um
inesperado
ímpeto renascido, tirando-me do mar supersticioso que
ameaçava
de engolir-me.
- Zarpar!! - gritei, a voz embargada mas o sentido represado
da
felicidade saindo junto com um uivo de contentamento.
Movimento, afinal!
Pai Nosso Que Estais no Céu, Santificado Seja o Vosso
Nome...
3
O belo som das ondas arrulhando contra o costado em
movimento
pareceu quebrar a maldição e por toda parte homens redivivos
escoravam
seus corpos nos de outros carcomidos pela mesma maresia;
esquecidos
momentaneamente da dor, distraídos da lembrança da
longínqua
pátria lusa situada nalgum ponto do passado de uma terra de
fim
improvável, sem qualquer referencial ou estrelas que velhos
marujos
pudessem seguir. A única conclusão é que chegáramos mesmo ao
temido
'abismo do mundo' e, às vistas de seus demônios, continuávamos!
Era orgulho aquilo que sentia, me dando um aperto no
estômago,
ou seria fome mesmo? Quer o que fosse me lembrava que ainda
tinha
um corpo e, enquanto a vida existisse nele, devia usá-lo em
proveito
de meus quase iguais e, claro, de mim mesmo.
4
- Terraàvistaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa........aaaiiiiiiiiiii... -
berrou
Figueira, o homem-da-gávea, despencando lá do alto aos meus
pés,
já calado num silêncio algo funesto numa altura tão promissora.
Descansou, pensei.
- 18, 15, 12 braças... - contavam da proa quase ao mesmo
instante
em que eu fechava os olhos arregalados do infeliz lisboeta.
Que vira Figueira em seu momento de glória?
Não tardamos a descobrir...
5
Entrevistas num algodoado nevoeiro serpentiforme, no agora
declinante
sol crepuscular, vislumbravam-se construções direitas e
cegantes.
Aparições essas que nos estonteavam e - confesso -,
tentaram-me
a desviar o curso daquela terra de pesadelos. Todavia, se
aquilo
era mesmo o Inferno, e já não contava que fosse outra coisa,
que
diferença fazia aportar ali ou alhures, se o diabo em qualquer
parte
fedia da mesma forma nauseante e espetava seu tridente com igual
ferocidade??
Graças ao soberano dos mares, cuja morada estávamos
perigando
por conhecer, sentido prático nunca me faltou. Num arremedo
que
seria bem mas próprio a um cristão fervoroso, disposto a vender
caro
sua alma imortal e não este pedaço de carne apodrecida,
levaram-me
a gritar aquilo que provavelmente seria uma de minhas
últimas
falas. Em vista do momento, a mais digna de todas:
- Preparar a nave para o combate!
6
Parecia que fora ontem apenas quando nos afastáramos da
Península
Ibérica e vimos a ilha da Madeira despontar entre o atol à
oeste,
encontrando bom tempo para navegar e contar - e cantar - nossas
nem
sempre honestas bravatas, imaginárias ou não, uns aos outros.
Tempos
saudosos de ração farta, tachos imensos de rum forte e
abundante
e muita água potável.
Tempos que ficaram no passado.
7
Navegamos a noite toda à luz de uma lua em tudo igual a
tantas
outras, que traçava um rastro prateado em nossa esteira. Porém
cruzando
bizarras e elefantinas embarcações de pesadelo, nos forçando
a
mudar de curso incontáveis vezes.
Tínhamos ao largo a visão de uma ponte enorme, impossível de
desviar,
quase tão grande quanto nossa própria ignorância. O mar sob o
luar
era uma coisa escura e clara ao mesmo tempo, chocando-nos de
quando
em quando com inúmeros cilindros prateados que boiavam e
revelaram,
após a 'pesca exploratória' de alguns, a existência de
estranhos
e bretanhos rótulos, assim como detritos que disputavam o
fedor
conosco.
Com certeza aquelas águas poluídas tinham sido vomitadas do
âmago
da terra. Nossa provação ainda estava longe de acabar...
8
As âncoras em forma de garatéia prenderam nossa embarcação
de
70 toneladas com um estremecimento digno de nossos medos. Tudo
estalava,
até nossos esqueletos não eram exceção. Deslizamos perto de
oitenta
metros antes de nos imobilizar nas ondas, junto à entrada duma
enseada
de onde se descortinava um grande litoral que recebia os
primeiros
alvores do sol, onde também as areias brancas faziam de
nossos
pesados e imundos trajes de combate um inglorioso contraste.
Mas era terra. Um objetivo, afinal.
9
O único canhão que nos restara, do tipo bombarda, com 2,5m
de
comprimento, estava devidamente municiado de uma pólvora não muito
confiável,
apontava certeiro para aquelas figuras distantes que se
aproximavam
velozes, conduzindo barulhentos coches inverossímeis,
oriundos
daquele pedacinho de mundo.
Finalmente o ronco de fúria daqueles estranhos
cavalos-marinhos
metálicos nos alcançou, espumando ao redor da
embarcação
com nativos trepados em seus dorsos corcoveantes, como a
corte
do próprio Netuno: Se não duvido de minha sanidade é porque -
meus
homens e eu -, exímios contadores de lendas fantásticas, pouco
podíamos
influir num pesadelo em tão largas proporções...
Mas os ogres covardes foram embora, perante a explosão do
canhão
que precipitou-se nas águas juntamente com dois de sua
guarnição
de heróis mortos, uma chuva de madeiras e mais um rombo no
casco.
Estava perigando de comandar uma peneira.
Voltei-me e ordenei ao 1º Oficial que ficasse a bordo com um
grupo
desperto de marinheiros com mosquetões, enquanto reunia o que
podia
amealhar entre o restante da tripulação que conseguia se firmar
sobre
as pernas, mover os remos e ainda segurar uma arma com um mínimo
de
tremor nas mãos suadas; um luxo que logo descobri não poder
contar.
Destarte, fiz descer dois botes e, a despeito de todo medo
generalizado,
rumamos para a praia a cada minuto mais entupida de
nativos,
muitos dos quais, intensificando nossa angústia, apontavam em
nossa
direção.
10
- Será as Índias, Capitão? - cochichou ao meu lado o jovem
estafeta,
envelhecido prematuramente por toda aquela provação.
- Não sei, Dias. Não quero arriscar palpites quando nenhuma
Carta
fala da existência de um lugar tão louco quanto este...
- Talvez estejamos mortos, isso sim!!... - gritaram em um
arquejo
do outro bote.
Foi fácil identificar o autor. O gordo capelão, deixando de
lado
suas crenças em vida eterna, soando cada vez mais pessimista,
desde
que seu farto farnel minguou, até comer raros camundongos, assim
como
todos nós.
- Frei Manuel, se dizem que os mortos não se cansam, o que
dizer
de seu estado? - inquiri de volta, berrando, só para fazê-lo
calar,
caso a exaustão não o fizesse antes.
Ao olhar para a caravela, vi a agitação dos marinhas
debruçados
na amurada, apontando alto e insistentes sobre meus ombros.
Olhei
naquela direção, os remadores com os remos pendendo inertes
n'água,
enquanto asas voadoras, em tudo e por tudo diferentes à visão
da
tarde anterior, faziam malandrices no céu, roncando baixo sobre
nossas
cabeças. Só o pavor não traduzia isso, pois em suas garras
trapezoidais
haviam outros nativos que bradavam estranhas invocações,
antevendo
a morte certa que se seguiria ao seu cárcere nas unhas
daqueles
dédalos de rapina.
Mesmo desconhecendo tal e tão mal-vestido povo, impossível
não
solidarizar-me com seu sofrimento.
Broncos miseráveis, serão devorados..., pensei, antes de me
desequilibrar,
ereto como estava à proa do bote capitânia.
- Idiotas, isso lá é maneira de se remar!
Estavam todos revolvendo a água atabalhoadamente, em
desarmonia,
e com a 'fome' estampada em suas faces. Só percebi o
motivo
quando ouvi:
- Mu-mu-mulheres... - gaguejaram, indicando a praia próxima.
11
Corpos reluzentes de nativas com suas 'partes' mal-tapadas
por
sumários de cores diversificadas. O pouco tecido entrevisto feito
de
material desconhecido. Caminhavam como Circes a nossa volta, quando
encalhamos
na areia.
Índios, pensei, caindo num amontoado de coxas grossas, peles
morenas,
sentindo um cheiro meio-doce, exótico, e um gosto
particularmente
oleoso de encontro a uma dessas nativa; era um não
cessar
de tiras de tecido enfiado em seus regos sem que lhe causassem
sofrimento
aparente, realçando diabolicamente a espetacular beleza e
desprovimento
de vergonha comum aos silvícolas de genitália desnuda.
- Urucum, - falou-me a mulher no regaço da qual fora
encalhar.
Pensando ser uma saudação, apresentei-me, me endireitando
como
pude, trajado como estava - à caráter -, a espada pendendo inerte
e
pesada entre minhas pernas ensopadas, esticando as mãos num gesto
universal
de paz:
- Capitão-de-Mar Leandro Arcturo Fonseca Telles de Sá.
Urucum!!
Os risos que despertei provocaram minha ira, quase sacando
de
minha arma, mas, aos olhos negros daquela beldade índia, seu
sorriso
cativante, livre da nefasta malícia ou beligerância, tudo me
fizeram
ficar pregado onde estava, vendo minha equipa desertar com
suas
respectivas beldades locais; lobos-do-mar transformados em
cordeiros
e esquecidos de todo protocolo quando uma nova ilha era
descoberta
e tomada de posse para o regozijo de D. Manuel, o
Venturoso...
- Esse filme vai passar em breve? É nacional? Me dá um
autógrafo!
Gente, ele não parece um cruzamento de Tom Cruise e Antonio
Banderas?
- crivou-me ela de estranhas perguntas, com um mais estranho
ainda
conhecimento da Língua.
Trazia no bojo uma mistura de palavras que desconhecia, no
geral
algo muito simplificado, sem nenhum preciosismo, comum às
Colônias.
O que já em si era deveras enlouquecedor, ficou pior, pois
nunca
se falara num tal lugar assim antes.
Pá!
- Como?? Que estais a dizer??
- Cara, cê tá doente! - sorriu: - Essa roupa toda tá te
fazendo
maus pakas...
Deus, meu!, 'cara', 'maus', paka??? QUELUGARÉESSE...!
Antes que pudesse concatenar minhas idéias, vi-me rebocado
pela
nativa, enquanto os botes afastavam-se ao sabor das ondas,
disputados
por uma bicha de gente sem que nada pudesse fazer a não ser
lamentar
e seguir meu curso à deriva na loucura também.
12
De onde estava, de um pontal, luneta em punho, a Santa
Higina
era um disputado prêmio, cercada de veículos que produziam
esteiras
no mar, porém não se aproximavam, se limitando a
circunavegá-la.
Isso me tranqüilizou, mas como paliativo estava longe
de
me deixar totalmente livre de desconfiança.
- Larga esse troço, Cabral. - Puxou-me a mesma morena pelo
braço,
enquanto minha vergonha cedia definitivamente lugar à
curiosidade
e algo mais: - Que tal sair dessa lua, gajo? Uma cerva
gelada
e sua performance ficará melhor que a de Gerard Pardieu, podes
crê,
cumpadi.
Fiquei mais uma vez matutando o que ela queria dizer com uma
escrava
morta, o nome francês, e o tal do indecifrável 'cumpadi',
porém
outras coisas fantásticas dividiram minha atenção.
Retângulos de tecido se espalhavam pela areia sob a proteção
precária
de alguns toldos-gomos, tão multicoloridos como nunca vira,
na
forma de guarda-sombra imensos; gente seminua quase que copulavam
sob
o sol escaldante, esfregando óleos por cavidades, com putos
correndo
em toda volta, alguns construindo algo como criativos
castelos
de areia, provando algum tutano dentro daquelas cacholas;
pretos
bantos passeavam despudoradamente vestidos de ceroulas
berrantes
e carregando estranhos estandartes, enquanto apregoavam um
incerto
festival de miudezas, pelas quais não podia fazer escambo
algum,
devido a parvoíce que me fizera aportar em uma terra sem as
costumeiras
miçangas, espelhinhos e demais bugigangas que tanto ouro e
prata
tinham conseguido outrora...
Paciência. Era uma terra que, via, tinha muitos mais
mistérios
a oferecer.
13
Vi-me sozinho ao chegarmos junto a um quiosque abarrotado
dessa
malta dourada e de rara beleza, onde inexistia qualquer tipo
predominante.
Fiquei estatelado, largado sentado num precário
tamborete,
enquanto 'minha nativa' adentrara nas entranhas daquilo que
chamou
de bar, em busca de algo que não me foi dado a revelar,
fazendo-me
motivo de comentário pelos demais.
Algumas idéias vinham, outra iam.
Talvez ali estivessem os náufragos de expedições que
houvessem
tido um começo tão malogrado quanto o meu, e também ali,
prisioneiros
que eram, compartilhassem dum frenesi comum aos
indolentes
seres que por vezes eram chamados de inferiores. Tinha-me
filiado
agora a essa escumalha que mal-vestia-se e falava uma
corruptela
tão grande do idioma-mãe que difícil era entender qualquer
significado
naquela babel, ainda que me esforçasse, por mais que me
doesse
a telha.
- Beba - pediu ela, chegando sem que notasse, tirando-me de
meus
devaneios.
A tulipa de vidro quase escafedeu-se de minhas mãos ao
senti-la
fria como o gelo! Seu conteúdo era tão espumante quanto
várias
das bebidas que já sorvera, mas nem um pouco igual quanto ao
resto,
nem menos soberba, descendo redondo de um gole só!
Estava pronto a aceitar tudo e não indagar nada, por isso
não
me fiz de cristão ao vê-la sentar-se em meu colo, ameaçando de
jogar-me
ao chão. Seus gomos simétricos encaixando perfeitamente à
minha
anatomia de quarentena há muito, despindo-me o busto com alguma
dificuldade
devido ao acúmulo de botões e fivelas, enquanto um
estranho
calor me subia junto a outras coisas...
O mastro principal ansiava por algo que não tardou a vir.
- Por quê não hasteia seu pavilhão português nesse solo onde
se
plantando tudo dá, meu cheirosinho? - rouquejou, explorando um
ouvido
que de asséptico não tinha nada.
- Não percebo muita das cousas do que falas, minha
açucena...
- arfou a desgraça da Frota, estremecendo já com a mão
felina
dela rondando meu peito semi-desnudo, devassamente a procura de
um
mamilo.
- Já que sua interpretação é tão brilhante, agora é minha
vez
de mostrar a fauna e a flora de meu país. Talvez um pouco de
'aula'
lhe refresque a cuca... - o rebolado dela provou que no topo de
meu
mastro havia uma gávea promissora, mais ainda quando constatou: -
Vamos
começar por minha preferida. Anatomia...
Puxou-me mais uma vez com uma celerada urgência sob o
alarido
dos demais, ouvindo uns dizerem 'dá-lhe ferro!', outros
fazendo
coro aos primeiros.
Nesse ½ tempo já me encontrava dentro de um coche sem
cavalos,
sob a sombra duma enorme árvore distante, que ela disse-me
chamar,
modestamente, 'meu motel sobre rodas'. O que aconteceu lá, nem
às
paredes confesso!!!
Só direi que saí do coche horas depois, vestindo uma
saída-de-banho
por demais escandalosa, estampada, trazendo junto os
sussurros
incompreensíveis dessa diva cor de jambo ecoando em meus
ouvidos,
apresentando meu corpo molhado de suor, além de diversos
amachucados
deliciosos, para os quais nenhum idioma era preciso para
se
fazer traduzir o que houve de mais fabuloso em minha vida.
- Parabéns! Acabaste de descobrir o Brazil!!! - vinha o
ronronado
das entranhas do 'motel de rodas'.
Quer isso significasse, acabara mesmo, pois!
Olhei o seu, olhei o mar, olhei o 'mastro' que não cabia
mais
no lugar. Estava desaprendendo rápido. Eu era a própria imagem da
decadência.
E estava adorando tudo aquilo!
Não foi preciso uma 2a ronronada para que voltasse para os
braços
quentes e beijos molhados. Esqueci a Coroa. Esqueci os dias de
sofrimento
no mar.
Só não esqueci de uma coisa, embora fosse preciso muita
determinação
para me sujeitar a esse estranho ritual:
- Mas esse rapaz tá crescidinho, hein!! Tem certeza que não
é
sua luneta? Vamos tacar uma toquinha nele?
Assim descobri as Índias, cobri, descobri, cobri,
descobri.......
Qualquer dia conto como terminou essa história. Isto é, se
sobreviver
a ela...
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