Mare Nostrum

 Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0112]
[Autor:
Rogério Amaral de Vasconcellos]
[Título: Mare Nostrum]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 3.290]

 


  Nota: A FC é um gênero vasto, permitindo obras em basicamente todos
os estilos.  O que pode parecer, numa primeira visada, História
Alternativa, pode assumir outra forma...  Veja se fui bem-sucedido.




  Uma Saga Desconhecida em mais de 500 anos de História

   1

          "É o octagésimo-sexto dia do ano de 1499 e o 13º de nosso
purgatório; tarde; reparos mal-acabados após dias de tormenta e longas
horas de calmaria, onde nem uma suave brisa arfava os remendos de
nosso velame, fazendo-nos olhar para dentro de nossas almas e não
encontrar qualquer covil onde a salvação pudesse ter se escondido.
Continuando mais um par de dias assim e esta será outra nau das muitas
que singram O Tenebroso a ser tripulada por fantasmas...

          "A esperança cada vez mais tênue de ver algum torrão de
terra no horizonte e a proximidade da Páscoa não nos faz a melhor das
tripulações desses ditos mares-nunca-dantes-navegados; nem minha
caravela, a heróica, hoje combalida, Santa Higina, a mais galharda da
frota. Nossos ânimos, se ousar chamar a mistura de suor e maresia
dessa forma, convergem para um destino não muito quisto, se bem que
tão fatídico quanto o próprio oblí..."

          - Capitaaaaaaaão!!!!

          A velha e estridente voz, um tanto quanto fanha, atravessou
o passadiço, interrompendo-me no registro informal de meu diário onde
encontrava algum paliativo para tirar-me de minha inutilidade pessoal.

          Penas e o papel menos roto que conseguira voaram junto à
mesa de tampo amachucado e manchado de sangue, cheirando bem mais que
somente a água servida. Avançando, enquanto tentava saltar os corpos
curtidos que, em compasso de vida esvaída, apodreciam a minha volta
com o odor característico que deles exsudava. Normalmente seria bem
mais fleumático, mesmo porque faltavam-me forças para tal desperdício
de energia, mas algo no timbre do Timoneiro não prometia nada de bom,
logo, apressei-me, aceitando o risco de partir muitas pernas no
caminho.

          - Aliiiiiiii!! Ali!!! - gritava à sotavento: - Diabos no
céu!

          - Cruz, se Deus governa tua alma, pobre diabo, faz-te claro,
gajo! - retruquei de forma a poder ser ouvido em meio aos outros
berros que, ufanados pelo timoneiro, se propagava a cada boca que a
monotonia conseguia recrutar: - Não vede que não há nada no céu além
do sol, sua besta!

          - Mas, meu Capitão...

          Se fosse em outra circunstância, ou estivesse eu em meu
melhor juízo, domínio perfeito (ou quase), talvez não o tivesse
julgado tão rudemente em meu rompante. Mesmo porque não havia rum a
bordo que o levasse a delirar, mas a falta de água, provisões à
mingua, me fazia simplesmente homem, falho como tal. Nem de longe a
sombra do que já fui; o tal semideus imbuído pela Coroa como parte da
substancial armada do Almirante Pedro Álvares Cabral, a frota mais
poderosa que Portugal já fizera n'água para singrar o Tenebroso.

          Menos de dois meses após zarparmos, disso me lembro
dolorosamente, para desespero de todos, principalmente o nosso, a
Santa Higgina perdeu contato com o restante das naus e caravelas...

          Poderíamos dizer adeus às Índias e seus tesouros magníficos,
porém preferi alimentar meu senso pragmático.

          - Esperar e ver o andor da carruagem - teria dito meu pai, o
finado D. Venceslau de San Remo, barão de Costa Grande.

          Raios nos partam! Esperar e rezar para não virarmos comida
de peixe, tenho dito ao longo desse caminho por essas terras onde o
nada ditava as regras. Vítimas daquela tormenta sem par, lançados à
deriva num oceano onde nem estrelas nem o horizonte eram visíveis. Um
verdadeiro mar de ninguém.

          "Se queres aprender a orar, faça-te ao mar", já dizia o
ditado popular, entretanto todos nós só conseguíamos por em prática a
duvidosa arte do praguejar e sempre. Quem poderia imaginar, depois dos
folguedos da partida, o continente se afastando, que a 13a nau de D.
Manoel teria seu destino selado...

          Foi quando debrucei-me na murada de sotavento, um brilho me
fez virar a cabeça a tempo de finalmente flagrar aquilo que o
tarimbado subalterno acabara de chamar de demônios, mais pareciam
riscos no pseudo-céu violáceo, com o 'sol' tocando a fímbria oca,
pelada de nuvens.

          - Capitão! - insistia.

          Meus ouvidos doíam mas não fora só esse o motivo a levar-me
a calar o autor da impertinência com um sonoro safanão, onde existia
nisso muito mais coisas envolvidas que apenas maus bofes...

  2

          Estranhos pirilampos partiam de tão insólitas
materializações; sons no mínimo aterrorizantes, e que sabia nunca
chegaram a ouvidos humanos, me testavam o sangue-frio sem obter
qualquer sucesso num controle sobre este corpo mais alquebrado que
nunca... Sabia que estava sendo visado por todos. Esmorecer ali seria
o mesmo que mergulhar na goela de qualquer barracuda por própria
volição.

          - Chegamos à Helas - vaticinaram num murmúrio passado de
boca-em-boca.

          De súbito, o mar mergulhado num azougue, um agourento
lago-de-fogo, as incomuns estrelas que antes riscavam o firmamento
desapareceram no contínuo crepúsculo e tive a exata impressão de um
estalar na carcaça da embarcação.

          Impressão?

          Jesus, Maria e José!!! Era mais que isso: Uma brisa começara
a bater no velame principal, até então encolhido como um velho
esquálido morto de frio, largado num beco, rugindo agora com um
inesperado ímpeto renascido, tirando-me do mar supersticioso que
ameaçava de engolir-me.

          - Zarpar!! - gritei, a voz embargada mas o sentido represado
da felicidade saindo junto com um uivo de contentamento.

          Movimento, afinal!

          Pai Nosso Que Estais no Céu, Santificado Seja o Vosso
Nome...

  3

          O belo som das ondas arrulhando contra o costado em
movimento pareceu quebrar a maldição e por toda parte homens redivivos
escoravam seus corpos nos de outros carcomidos pela mesma maresia;
esquecidos momentaneamente da dor, distraídos da lembrança da
longínqua pátria lusa situada nalgum ponto do passado de uma terra de
fim improvável, sem qualquer referencial ou estrelas que velhos
marujos pudessem seguir. A única conclusão é que chegáramos mesmo ao
temido 'abismo do mundo' e, às vistas de seus demônios, continuávamos!

          Era orgulho aquilo que sentia, me dando um aperto no
estômago, ou seria fome mesmo? Quer o que fosse me lembrava que ainda
tinha um corpo e, enquanto a vida existisse nele, devia usá-lo em
proveito de meus quase iguais e, claro, de mim mesmo.

  4

          - Terraàvistaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa........aaaiiiiiiiiiii... -
berrou Figueira, o homem-da-gávea, despencando lá do alto aos meus
pés, já calado num silêncio algo funesto numa altura tão promissora.

          Descansou, pensei.

          - 18, 15, 12 braças... - contavam da proa quase ao mesmo
instante em que eu fechava os olhos arregalados do infeliz lisboeta.

          Que vira Figueira em seu momento de glória?

          Não tardamos a descobrir...

  5

          Entrevistas num algodoado nevoeiro serpentiforme, no agora
declinante sol crepuscular, vislumbravam-se construções direitas e
cegantes. Aparições essas que nos estonteavam e - confesso -,
tentaram-me a desviar o curso daquela terra de pesadelos. Todavia, se
aquilo era mesmo o Inferno, e já não contava que fosse outra coisa,
que diferença fazia aportar ali ou alhures, se o diabo em qualquer
parte fedia da mesma forma nauseante e espetava seu tridente com igual
ferocidade??

          Graças ao soberano dos mares, cuja morada estávamos
perigando por conhecer, sentido prático nunca me faltou. Num arremedo
que seria bem mas próprio a um cristão fervoroso, disposto a vender
caro sua alma imortal e não este pedaço de carne apodrecida,
levaram-me a gritar aquilo que provavelmente seria uma de minhas
últimas falas. Em vista do momento, a mais digna de todas:

          - Preparar a nave para o combate!

  6

          Parecia que fora ontem apenas quando nos afastáramos da
Península Ibérica e vimos a ilha da Madeira despontar entre o atol à
oeste, encontrando bom tempo para navegar e contar - e cantar - nossas
nem sempre honestas bravatas, imaginárias ou não, uns aos outros.
Tempos saudosos de ração farta, tachos imensos de rum forte e
abundante e muita água potável.

          Tempos que ficaram no passado.

  7

          Navegamos a noite toda à luz de uma lua em tudo igual a
tantas outras, que traçava um rastro prateado em nossa esteira. Porém
cruzando bizarras e elefantinas embarcações de pesadelo, nos forçando
a mudar de curso incontáveis vezes.

          Tínhamos ao largo a visão de uma ponte enorme, impossível de
desviar, quase tão grande quanto nossa própria ignorância. O mar sob o
luar era uma coisa escura e clara ao mesmo tempo, chocando-nos de
quando em quando com inúmeros cilindros prateados que boiavam e
revelaram, após a 'pesca exploratória' de alguns, a existência de
estranhos e bretanhos rótulos, assim como detritos que disputavam o
fedor conosco.

          Com certeza aquelas águas poluídas tinham sido vomitadas do
âmago da terra. Nossa provação ainda estava longe de acabar...

  8

          As âncoras em forma de garatéia prenderam nossa embarcação
de 70 toneladas com um estremecimento digno de nossos medos. Tudo
estalava, até nossos esqueletos não eram exceção. Deslizamos perto de
oitenta metros antes de nos imobilizar nas ondas, junto à entrada duma
enseada de onde se descortinava um grande litoral que recebia os
primeiros alvores do sol, onde também as areias brancas faziam de
nossos pesados e imundos trajes de combate um inglorioso contraste.

          Mas era terra. Um objetivo, afinal.

  9

          O único canhão que nos restara, do tipo bombarda, com 2,5m
de comprimento, estava devidamente municiado de uma pólvora não muito
confiável, apontava certeiro para aquelas figuras distantes que se
aproximavam velozes, conduzindo barulhentos coches inverossímeis,
oriundos daquele pedacinho de mundo.

          Finalmente o ronco de fúria daqueles estranhos
cavalos-marinhos metálicos nos alcançou, espumando ao redor da
embarcação com nativos trepados em seus dorsos corcoveantes, como a
corte do próprio Netuno: Se não duvido de minha sanidade é porque -
meus homens e eu -, exímios contadores de lendas fantásticas, pouco
podíamos influir num pesadelo em tão largas proporções...

          Mas os ogres covardes foram embora, perante a explosão do
canhão que precipitou-se nas águas juntamente com dois de sua
guarnição de heróis mortos, uma chuva de madeiras e mais um rombo no
casco. Estava perigando de comandar uma peneira.

          Voltei-me e ordenei ao 1º Oficial que ficasse a bordo com um
grupo desperto de marinheiros com mosquetões, enquanto reunia o que
podia amealhar entre o restante da tripulação que conseguia se firmar
sobre as pernas, mover os remos e ainda segurar uma arma com um mínimo
de tremor nas mãos suadas; um luxo que logo descobri não poder contar.

          Destarte, fiz descer dois botes e, a despeito de todo medo
generalizado, rumamos para a praia a cada minuto mais entupida de
nativos, muitos dos quais, intensificando nossa angústia, apontavam em
nossa direção.

  10

          - Será as Índias, Capitão? - cochichou ao meu lado o jovem
estafeta, envelhecido prematuramente por toda aquela provação.

          - Não sei, Dias. Não quero arriscar palpites quando nenhuma
Carta fala da existência de um lugar tão louco quanto este...

          - Talvez estejamos mortos, isso sim!!... - gritaram em um
arquejo do outro bote.

          Foi fácil identificar o autor. O gordo capelão, deixando de
lado suas crenças em vida eterna, soando cada vez mais pessimista,
desde que seu farto farnel minguou, até comer raros camundongos, assim
como todos nós.

          - Frei Manuel, se dizem que os mortos não se cansam, o que
dizer de seu estado? - inquiri de volta, berrando, só para fazê-lo
calar, caso a exaustão não o fizesse antes.

          Ao olhar para a caravela, vi a agitação dos marinhas
debruçados na amurada, apontando alto e insistentes sobre meus ombros.
Olhei naquela direção, os remadores com os remos pendendo inertes
n'água, enquanto asas voadoras, em tudo e por tudo diferentes à visão
da tarde anterior, faziam malandrices no céu, roncando baixo sobre
nossas cabeças. Só o pavor não traduzia isso, pois em suas garras
trapezoidais haviam outros nativos que bradavam estranhas invocações,
antevendo a morte certa que se seguiria ao seu cárcere nas unhas
daqueles dédalos de rapina.

          Mesmo desconhecendo tal e tão mal-vestido povo, impossível
não solidarizar-me com seu sofrimento.

          Broncos miseráveis, serão devorados..., pensei, antes de me
desequilibrar, ereto como estava à proa do bote capitânia.

          - Idiotas, isso lá é maneira de se remar!

          Estavam todos revolvendo a água atabalhoadamente, em
desarmonia, e com a 'fome' estampada em suas faces. Só percebi o
motivo quando ouvi:

          - Mu-mu-mulheres... - gaguejaram, indicando a praia próxima.

  11

          Corpos reluzentes de nativas com suas 'partes' mal-tapadas
por sumários de cores diversificadas. O pouco tecido entrevisto feito
de material desconhecido. Caminhavam como Circes a nossa volta, quando
encalhamos na areia.

          Índios, pensei, caindo num amontoado de coxas grossas, peles
morenas, sentindo um cheiro meio-doce, exótico, e um gosto
particularmente oleoso de encontro a uma dessas nativa; era um não
cessar de tiras de tecido enfiado em seus regos sem que lhe causassem
sofrimento aparente, realçando diabolicamente a espetacular beleza e
desprovimento de vergonha comum aos silvícolas de genitália desnuda.

          - Urucum, - falou-me a mulher no regaço da qual fora
encalhar.

          Pensando ser uma saudação, apresentei-me, me endireitando
como pude, trajado como estava - à caráter -, a espada pendendo inerte
e pesada entre minhas pernas ensopadas, esticando as mãos num gesto
universal de paz:

          - Capitão-de-Mar Leandro Arcturo Fonseca Telles de Sá.
Urucum!!

          Os risos que despertei provocaram minha ira, quase sacando
de minha arma, mas, aos olhos negros daquela beldade índia, seu
sorriso cativante, livre da nefasta malícia ou beligerância, tudo me
fizeram ficar pregado onde estava, vendo minha equipa desertar com
suas respectivas beldades locais; lobos-do-mar transformados em
cordeiros e esquecidos de todo protocolo quando uma nova ilha era
descoberta e tomada de posse para o regozijo de D. Manuel, o
Venturoso...

          - Esse filme vai passar em breve? É nacional? Me dá um
autógrafo! Gente, ele não parece um cruzamento de Tom Cruise e Antonio
Banderas? - crivou-me ela de estranhas perguntas, com um mais estranho
ainda conhecimento da Língua.

          Trazia no bojo uma mistura de palavras que desconhecia, no
geral algo muito simplificado, sem nenhum preciosismo, comum às
Colônias. O que já em si era deveras enlouquecedor, ficou pior, pois
nunca se falara num tal lugar assim antes.

          Pá!

          - Como?? Que estais a dizer??

          - Cara, cê tá doente! - sorriu: - Essa roupa toda tá te
fazendo maus pakas...

          Deus, meu!, 'cara', 'maus', paka??? QUELUGARÉESSE...!

          Antes que pudesse concatenar minhas idéias, vi-me rebocado
pela nativa, enquanto os botes afastavam-se ao sabor das ondas,
disputados por uma bicha de gente sem que nada pudesse fazer a não ser
lamentar e seguir meu curso à deriva na loucura também.

  12

          De onde estava, de um pontal, luneta em punho, a Santa
Higina era um disputado prêmio, cercada de veículos que produziam
esteiras no mar, porém não se aproximavam, se limitando a
circunavegá-la. Isso me tranqüilizou, mas como paliativo estava longe
de me deixar totalmente livre de desconfiança.

          - Larga esse troço, Cabral. - Puxou-me a mesma morena pelo
braço, enquanto minha vergonha cedia definitivamente lugar à
curiosidade e algo mais: - Que tal sair dessa lua, gajo? Uma cerva
gelada e sua performance ficará melhor que a de Gerard Pardieu, podes
crê, cumpadi.

          Fiquei mais uma vez matutando o que ela queria dizer com uma
escrava morta, o nome francês, e o tal do indecifrável 'cumpadi',
porém outras coisas fantásticas dividiram minha atenção.

          Retângulos de tecido se espalhavam pela areia sob a proteção
precária de alguns toldos-gomos, tão multicoloridos como nunca vira,
na forma de guarda-sombra imensos; gente seminua quase que copulavam
sob o sol escaldante, esfregando óleos por cavidades, com putos
correndo em toda volta, alguns construindo algo como criativos
castelos de areia, provando algum tutano dentro daquelas cacholas;
pretos bantos passeavam despudoradamente vestidos de ceroulas
berrantes e carregando estranhos estandartes, enquanto apregoavam um
incerto festival de miudezas, pelas quais não podia fazer escambo
algum, devido a parvoíce que me fizera aportar em uma terra sem as
costumeiras miçangas, espelhinhos e demais bugigangas que tanto ouro e
prata tinham conseguido outrora...

          Paciência. Era uma terra que, via, tinha muitos mais
mistérios a oferecer.

  13

          Vi-me sozinho ao chegarmos junto a um quiosque abarrotado
dessa malta dourada e de rara beleza, onde inexistia qualquer tipo
predominante. Fiquei estatelado, largado sentado num precário
tamborete, enquanto 'minha nativa' adentrara nas entranhas daquilo que
chamou de bar, em busca de algo que não me foi dado a revelar,
fazendo-me motivo de comentário pelos demais.

          Algumas idéias vinham, outra iam.

          Talvez ali estivessem os náufragos de expedições que
houvessem tido um começo tão malogrado quanto o meu, e também ali,
prisioneiros que eram, compartilhassem dum frenesi comum aos
indolentes seres que por vezes eram chamados de inferiores. Tinha-me
filiado agora a essa escumalha que mal-vestia-se e falava uma
corruptela tão grande do idioma-mãe que difícil era entender qualquer
significado naquela babel, ainda que me esforçasse, por mais que me
doesse a telha.

          - Beba - pediu ela, chegando sem que notasse, tirando-me de
meus devaneios.

          A tulipa de vidro quase escafedeu-se de minhas mãos ao
senti-la fria como o gelo! Seu conteúdo era tão espumante quanto
várias das bebidas que já sorvera, mas nem um pouco igual quanto ao
resto, nem menos soberba, descendo redondo de um gole só!

          Estava pronto a aceitar tudo e não indagar nada, por isso
não me fiz de cristão ao vê-la sentar-se em meu colo, ameaçando de
jogar-me ao chão. Seus gomos simétricos encaixando perfeitamente à
minha anatomia de quarentena há muito, despindo-me o busto com alguma
dificuldade devido ao acúmulo de botões e fivelas, enquanto um
estranho calor me subia junto a outras coisas...

          O mastro principal ansiava por algo que não tardou a vir.

          - Por quê não hasteia seu pavilhão português nesse solo onde
se plantando tudo dá, meu cheirosinho? - rouquejou, explorando um
ouvido que de asséptico não tinha nada.

          - Não percebo muita das cousas do que falas, minha
açucena... - arfou a desgraça da Frota, estremecendo já com a mão
felina dela rondando meu peito semi-desnudo, devassamente a procura de
um mamilo.

          - Já que sua interpretação é tão brilhante, agora é minha
vez de mostrar a fauna e a flora de meu país. Talvez um pouco de
'aula' lhe refresque a cuca... - o rebolado dela provou que no topo de
meu mastro havia uma gávea promissora, mais ainda quando constatou: -
Vamos começar por minha preferida. Anatomia...

          Puxou-me mais uma vez com uma celerada urgência sob o
alarido dos demais, ouvindo uns dizerem 'dá-lhe ferro!', outros
fazendo coro aos primeiros.

          Nesse ½ tempo já me encontrava dentro de um coche sem
cavalos, sob a sombra duma enorme árvore distante, que ela disse-me
chamar, modestamente, 'meu motel sobre rodas'. O que aconteceu lá, nem
às paredes confesso!!!

          Só direi que saí do coche horas depois, vestindo uma
saída-de-banho por demais escandalosa, estampada, trazendo junto os
sussurros incompreensíveis dessa diva cor de jambo ecoando em meus
ouvidos, apresentando meu corpo molhado de suor, além de diversos
amachucados deliciosos, para os quais nenhum idioma era preciso para
se fazer traduzir o que houve de mais fabuloso em minha vida.

          - Parabéns! Acabaste de descobrir o Brazil!!! - vinha o
ronronado das entranhas do 'motel de rodas'.

          Quer isso significasse, acabara mesmo, pois!

          Olhei o seu, olhei o mar, olhei o 'mastro' que não cabia
mais no lugar. Estava desaprendendo rápido. Eu era a própria imagem da
decadência. E estava adorando tudo aquilo!

          Não foi preciso uma 2a ronronada para que voltasse para os
braços quentes e beijos molhados. Esqueci a Coroa. Esqueci os dias de
sofrimento no mar.

          Só não esqueci de uma coisa, embora fosse preciso muita
determinação para me sujeitar a esse estranho ritual:

          - Mas esse rapaz tá crescidinho, hein!! Tem certeza que não
é sua luneta? Vamos tacar uma toquinha nele?

          Assim descobri as Índias, cobri, descobri, cobri,
descobri.......

          Qualquer dia conto como terminou essa história. Isto é, se
sobreviver a ela...

   

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