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No
seu apertado quarto de pensão, Fortunato está de
joelhos
no chão de madeira. Ao alcance de sua mão,
estão
dispostos os apetrechos que ele conseguiu juntar
para
esta noite. Um pequeno frasco contendo pó de asa
de
morcego; outro, cujo conteúdo parece sangue de
galinha;
três velas vermelhas; seis penas pretas; uma
navalha
bem afiada.
Primeiro,
Fortunato acende as velas. Observa suas
chamas
crescerem até que um brilho vermelho ilumina o
recinto.
Ele então pega o frasco com o líquido viscoso
e,
cuidadosamente, desenha com o sangue, um pentagrama
no
chão. Sempre cuidadoso, Fortunato coloca-se dentro
do
desenho.
Toma
então as penas e prende-as sobre as orelhas.
Também
as coloca entre o indicador e o dedo médio de
ambas
as mãos para, em seguida, fazer o mesmo com os
pés.
Com um aceno de satisfação, ele despeja, por fim,
o pó
de morcego ao redor de si.
Fortunato
não pode conter um sorriso que brota da sua
cara
suada agora. Enfim, ele está muito perto, perto
como
jamais esteve, de tudo aquilo que ele mais
deseja.
E para que enfim possa contemplar a face de
seu
Grande Mestre, ele só precisa usar a navalha...
A lâmina
brilhante é erguida sobre a altura de sua
cabeça.
Durante alguns segundos ele a contempla,
maravilhado
com seu fio perfeito.
Perto,
muito perto. Exu-Caveira jamais esteve tão
perto
como agora...
Fortunato
enterra a lâmina brilhante no pulso ainda
com
o sorriso no rosto.
A
imensa mão peluda se abaixa para, com insuspeita
delicadeza,
erguer-se trazendo algo envolto num lenço
branco.
Vê-se que se trata de uma pena de galinha.
-
Que diabo! Onde você encontrou esta desgraçada,
Juiz?
- indaga o mais jovem dos dois homens presentes
no
pequeno aposento à luz do meio-dia - Achei que já
havíamos
olhado tudo por aqui.
-
Estava atrás do armário de roupa. Deve ter voado na
confusão.
- responde o proprietário da grossa mão
peluda,
a quem seus companheiros de polícia se
acostumaram
a chamar Juiz, por sua correção no
exercício
do dever. É um homem não menos grosso, nem
menos
peludo. Apesar de forte, suas rugas indicam que
já
há muito deixou a idade do seu interlocutor. Este
está
retrucando com veemência:
-
Que confusão? Não houve confusão nenhuma aqui. - sua
voz
tem um tom fino, quase infantil - Eu vou lhe dizer
o
que aconteceu. Um sujeito maluco, um débil-mental,
aluga
este quifofo para fazer um ritual de feitiçaria
ou
coisa parecida. Ele acende as velas, desenha com
sangue
no chão, espalha esse pó fedorento em volta
dele.
Daí pega a navalha e faz a coisa mais idiota que
um
cidadão pode fazer: enfia ela nos pulsos.
-
Pode ser.
- É
o que houve.
- E
os móveis revirados? A cômoda foi arrastada,
garoto.
A cama também estava fora do lugar. Um pé da
cadeira
estava quebrado e a porta tinha marcas por
dentro,
possivelmente feitas com o pé da cadeira -
replica
o Juiz.
-
Você se esquece de que ele, este... - o rapaz
consulta
algumas notas num caderninho - ... este
Fortunato
estava trancado aqui sem as chaves. Quando
viu
aquele sangue todo jorrando, ficou ainda mais
louco
do que já estava. Começou a fazer um escarcéu
para
ver se chamava a atenção de alguém que lhe
ajudasse.
Mas não havia ninguém para ouvi-lo, a não
ser
a proprietária, que pelo que pudemos ver, é mais
surda
que esta porta trancada.
O
homem peludo tira do bolso um maço de cigarros. Saca
um e
oferece-o para o rapaz, que recusa. Diz, a voz
grave
cortando o ar:
- E
as chaves? Onde foram parar? Não estão aqui, você
garante?
- É
claro que não estão. Alguém pode tê-las levado, eu
sei...
porém eu tenho um palpite quanto a elas...
-
Qual?
O
rapaz abre um sorriso:
-
Acho que ele as engoliu.
-
Por que ele faria isso? - indaga o Juiz.
-
Por que? Por que era louco, porra Achou que se
ficassem
na porta ia acabar amarelando, dando o fora
quando
o que tivesse que aparecer, aparecesse. Não que
alguma
coisa fosse aparecer, está claro.
O
rapaz demonstra uma certa irritação agora. Diz, como
se
pedisse um habeas corpus:
- E
além do mais, é só um palpite.
- Não
é um mau palpite - responde o Juiz, com ar
impaciente.
- Mas agora é melhor sairmos daqui.
Lá
fora, o policial mais novo abre um sorriso:
-
Você não me parece muito bem. Quer uma carona?
- Não,
obrigado. Eu vou para casa a pé. - replica o
Juiz.
- Não
se preocupe muito não, meu velho. Eu lhe aviso
quando
sair o resultado da autópsia. Além do quê, é o
seu
último dia por aqui, não é? Amanhã vai estar
aposentado
e poderá usufruir de tudo que seus anos de
dedicação
à Lei lhe devem. Ou quase tudo. A
Previdência
garante. Ou seria melhor dizer a
Providência?
- Eu
não sei.
Antes
de dar a partida, o policial jovem ainda diz:
- E
quer saber? O sujeito é só um pobre diabo. Quem se
importa?
"Sim,
quem se importa com um pobre diabo", repete o
Juiz
para si quando se vê sozinho na rua. Então tira
do
bolso do paletó algo que conseguiu apanhar na
gaveta
da cômoda do morto sem ser visto pelo colega. É
um
cartão:
MADAME SATÃ
DEMONISMO, DIABOLISMO E OUTRAS PRÁTICAS AFINS
CURSOS E SUPRIMENTOS
Jogando
o cigarro na calçada, o Juiz decide não seguir
para
casa ainda.
Uma
voz de mulher ressoa detrás da porta:
-
Quem é?
- O
Juiz. - responde o próprio.
- Eu
não conheço nenhum juiz. - retruca a voz
feminina,
agora um pouco impaciente.
- É
Alaor.
Faz-se
um instante de silêncio. O Juiz ouve um som de
chave
girando na fechadura. A porta se abre,
lentamente.
Uma
mulher de meia idade está parada no batente. Seu
cabelo
louro está despenteado e ela está usando algum
creme
para a pele. Apesar de tudo isso e da idade, não
é
feia. De fato, quando nova, deve ter sido bem
atraente.
-
Deus, é você! Não sabia que tinha adquirido esse
apelido
ridículo.
- Eu
posso entrar, Elisa?
- Se
pode entrar? Depende. Não vai me prender, vai?
- Não
creio.
A
mulher se afasta para que o homem entre. Só então
ele
repara que ela está de robe. Observa também, ainda
que
contra a vontade, que, por baixo da seda vermelha,
seu
corpo não mudou muito, apesar do anos. A curva das
ancas,
que sempre foi seu maior atrativo, ainda está
lá.
-
Então, o que é que veio fazer aqui? Não acredito que
sejam
saudades. Não agora.
O
Juiz tira do bolso o pequeno retângulo de
papel-cartão
pardo. Estende-o para a mulher.
-
Ah. - ela se senta e abre um sorriso - É um dos meus
cartões.
Chique, não? Entrei para o show business,
afinal.
Isto é, mais para o "show" do que para o
"business",
se é que você me entende. O que não se faz
para
ganhar a vida, não é mesmo?
- Não
sei. - responde o Juiz - Porém o que me traz
aqui
é...
-
Mas por que você não se senta primeiro, querido? - a
mulher
o interrompe sorrindo - Aceita um chá?
- Não,
obrigado. - responde o Juiz indo sentar-se no
lado
oposto do sofá.
- E
como vai Marta?
-
Bem.
-
Ela... o perdoou, suponho?
-
Sim.
-
Que bom. Ela poderia cuidar melhor de você do que
eu.
E além do mais, eu não me perdoaria se não fosse
desse
jeito. Ou melhor, me perdoaria sim. A quem eu
quero
enganar? Apesar de tudo, aquilo foi bom, não
foi?
Eu quero dizer... nosso "affair"...
-
Elisa... - o Juiz se levanta.
-
Acalme-se, querido. - apesar das palavras, a mulher
de
robe conserva o mesmo tom leve, quase divertido -
Não
vamos mais falar disso, se isso te fere, está bem?
Faz
dez anos. É passado, como se diz. Mas mesmo o
passado
tem que ser exorcizado, às vezes. Isso nada
mais
é que a eterna luta que travamos com nossos
demônios.
Ao menos é assim que eu penso.
O
homem parece recuperar a calma. Sentando-se
novamente,
diz.
- É
curioso que você fale em demônios, porque o que eu
venho
tratar com você gira em parte sobre esse
assunto.
O homem que tinha esse cartão morreu a noite
passada.
- Eu
sinto muito.
- Não
é questão de sentir ou não. - retruca secamente
o
Juiz - Ele morreu por cortar os pulsos, não sem
antes
passar por um ritual estranho em que usou penas
e
sangue de aves, além de um pó esquisito. Acredito
que
você possa me dizer alguma coisa sobre isso.
-
Eu? - a mulher cruza as pernas sob a seda vermelha.
-
Mas se nem sei de quem se trata...
- O
nome dele era Fortunato.
A
mulher fecha os olhos e coloca uma das mãos cheias
de
anéis na cabeça, como se meditasse.
-
Fortunato... Fortunato... Sim, acho que me lembro.
Esteve
aqui há umas duas... não, três semanas atrás,
se não
me engano.
- E
o que ele queria? - inquiri o Juiz.
- É
difícil dizer... Ah, sim, lembro-me! Naturalmente,
lembro-me
muito bem. Tratava-se de um grandessíssimo
idiota,
um... como se diz mesmo...?
- Um
pobre diabo.
- A
palavra exata. Um pobre diabo é o que ele era.
Lembro-me,
exatamente por causa disso. É engraçado
como
às vezes temos mais facilidade em nos lembrar dos
imbecis
que dos grandes sujeitos, não é? - ela olha
significativamente
para o homem - Pois bem, esse
Fortunato
esteve aqui porque queria invocar um...
demônio.
Ela
faz uma pausa para observar a reação que a frase
possa
causar no Juiz. Ele, no entanto, mantém-se
impassível.
-
Pois bem - a mulher prossegue, cruzando novamente as
pernas
- Eu naturalmente lhe disse o quão perigoso é
entrar
num negócio desses, porque, sabe, às vezes
pode-se
sair bem, às vezes pode-se não sair. Ele disse
que
não tinha medo e que estava pronto. Eu então lhe
perguntei:
"O que você vai fazer depois que ele
aparecer?",
e ele me respondeu: "Está brincando, dona?
Eu
vou pedir o mundo! Tudo do bom e do melhor. E
ninguém
mais vai tirar sarro com a minha cara me
chamando
de idiota, porque eu serei como Deus".
- E
então?
- E
então que eu disse o que ele queria ouvir. É para
isso
que sou paga. - ela dá um suspiro - Não imaginei
que
ele chegaria a esse ponto.
A
voz do Juiz sai profunda de sua garganta quando
indaga:
-
Disse a ele para cortar os pulsos?
-
Ninguém faz nada obrigado. - replica a mulher
levantando-se
- Acho que já está na sua hora, meu
querido.
Ele
também se levanta. Está suando.
-
Antes me diga. Acha que ele conseguiu?
-
Quer saber se ele invocou Exu-Caveira? Foi este o
nome
do demônio que eu lhe disse que invocasse. Eu não
saberia
dizer. Exu-Caveira é muito... como é que se
fala...?
Imprevisível. Se quer saber, vai ter que
perguntar
a ele.
Apesar
de seus anos de experiência com os homens,
Elisa,
ou Madame Satã, surpreende-se com o olhar que
seu
antigo amante lhe lança agora.
-
Diga-me como. - diz ele.
-
Como? Não, meu querido. - ela meneia a cabeça
deixando
transparecer um sorriso - Você não poderia. É
muito
terreno.
-
Apenas me indique o caminho.
Madame
Satã hesita ainda, antes de tomar nas mãos o
caderninho
que o homem lhe estende. Escreve então nele
algumas
palavras e o devolve, dizendo:
-
Você estará entrando num universo que desconhece,
meu
amigo. As leis do seu mundo não estarão lá para
lhe
auxiliar. Exu-Caveira tem suas próprias leis e,
creia-me,
boa parte delas são mais justas que as suas,
porém
bem mais perigosas. E ele vai querer saber por
que
você o incomodou.
O
homem guarda o caderno. Sente a boca seca.
- Eu
preciso ir.
Ela
o acompanha até a porta.
- Só
me diga uma última coisa, meu querido. Por quê?
Ele
se vira. Está com os olhos baixos e uma gastura no
estômago.
Continua a ouvir a sua anfitriã indagar:
- Me
diga porque está fazendo tudo isso. Esse
Fortunato...
é só um pobre coitado. Se ele se matou,
ou
se foi Exu-Caveira o responsável por sua morte, que
importa?
Ele está morto. Sabe, você nem precisaria ter
vindo
aqui me ver, caso preferisse deixar essa
história
como está.
Ainda
com os olhos pregados no chão e a boca seca,
Alaor,
o Juiz, replica:
-
Hoje é meu último dia de serviço.
-
Ah. - ela faz um escarninho - E você quer terminar
bem,
é isso. Está certo!
Ele
a olha nos olhos. Murmura:
-
Merda, Elisa. Marta nunca me perdoou. Há dez anos eu
e
ela não vivemos como casal.
Faz-se
um curto silêncio.
-
Pobre homem. - diz a mulher afinal - Sim, pobre,
pobre
homem!
Ela
se curva sobre ele e lhe dá um beijo longo e
quente.
O
Juiz lambe os lábios. Sente uma imensa falta de ar
agora.
Diz, com a voz quase embargando:
-
Você me perguntou porque eu quero ir até o fundo,
não
é? Por que eu vim até aqui e por que quero saber o
que
aconteceu naquele quarto quando as luzes se
apagaram.
Eu vou lhe dizer. Assim como esse Fortunato,
eu
também tenho uns demônios para enfrentar.
Silenciosamente,
Alaor abre a porta de sua casa. O dia
foi
longo e cansativo, mas enfim ele está em casa.
Caminha
pela grande sala escura. Seu estilo antigo, os
móveis
pesados, as reproduções nas paredes de
clássicos
da pintura, tudo reflete muito a alma de seu
dono.
Enquanto
sobe as escadas que o levarão a seu quarto,
Alaor
ouve passos no andar de cima. É a mulher que
ainda
não dormiu. Ele então apressa a subida, e o mais
rápido
que pode, abre a porta de seu próprio quarto,
entra,
fecha-a e tranca-a. Ali, com os livros da
pequena
estante, a maioria clássicos gregos e
iluministas,
a cômoda de mogno e, sobretudo, a cama de
solteiro,
ele viveu por dez anos.
Ele
deposita uma pequena sacola de papel que trouxe
consigo
da rua na cômoda, cujo espelho está rachado.
Também
abre uma gaveta para lá depositar alguma coisa
fechando-a
em seguida. Então deixa-se cair na cama,
pesadamente.
Passa alguns minutos completamente
imóvel,
mas lembra-se que não pode dormir. Seu dia
ainda
não acabou.
Penosamente,
ele se levanta. Tira os sapatos, as
roupas,
e confirma se a porta está de fato trancada.
Então,
nu, caminha até a escrivaninha. Abre a sacola
de
papel que deixara sobre ela e tira, um a um, os
itens
que lhe consumiram o resto de sol do dia para
encontrar.
São,
na ordem em que ele os depositou no chão: um
frasco
com sangue de galinha, seis penas pretas, três
velas
vermelhas, um vidro com pó de asa de morcego,
uma
navalha.
Ajoelhado
no chão, Alaor, acende as velas até que o
brilho
vermelho traga luz ao ambiente. Iluminado pelas
velas,
o quarto ainda guarda muitas sombras. Ele então
desenha,
molhando o dedo no sangue, um pentagrama no
chão.
Arrasta-se, ainda de joelhos, e com cuidado para
não
desfazer o desenho, para dentro do símbolo mágico.
Em
seguida ele prende as penas nas orelhas e nos dedos
das
mãos e dos pés. Toma então o frasco com o pó
escuro
e o espalha ao redor de si.
A
navalha está ao alcance de sua mão. Ele a segura
pelo
cabo e faz, com destreza, dois cortes, sendo um
em
cada pulso.
Alaor,
conhecido na sua profissão como Juiz, devido ao
seu
senso de dever para com seu distintivo, aguarda
alguma
coisa que nem ele mesmo sabe o que é. Enquanto
isso,
o sangue de seus pulsos cortados pinga
abundantemente
no chão.
Ele
não tem que esperar muito. Uma voz grave,
semelhante
a sua, porém mais profunda, se faz ouvir
logo
depois que a terceira grande gota vermelha deixa
o
seu pulso e encontra o piso frio.
-
Então, você resolveu vir me encontrar.
Alaor
sente os joelhos lhe tremerem, mas se mantém
calado.
Quer saber de onde vem a voz. Esta, continua
no
mesmo tom baixo e profundo:
-
Muito que bem, muito que bem... Eu confesso que não
o
esperava. Você sempre tão céptico com essas coisas
de
sobrenatural, tão certo das suas verdades, o
trabalho,
a família... Parece que a morte do sujeito
na
noite passada mexeu mesmo com você.
Alaor,
o Juiz, ouve atentamente o que lhe diz a voz e
tenta
identificar de onde ela vem. Ele tem uma
desconfiança
de que já sabe.
-
Ha, ha. Isso tudo é bem engraçado. Eu falo isso
porque
tenho meus motivos. Sabe, eu estava com aquele
camarada,
esse tal Fortunato quando ele cortou os
pulsos
e fez aquela sujeira toda no quarto da pensão
daquela
velha a noite passada. Eu o vi e ouvi e,
palavra,
não me importaria muito com ele se fosse
você,
meu caro Juiz.
Vem
do canto onde está a cômoda, o Juiz sabe agora. A
voz,
que continua a falar ininterruptamente, vem de
lá.
-
Porque, sabe, ele era um grande idiota, se você quer
a
minha opinião franca. Fez, como você, esse
teatrinho,
só para me chamar, como se uma ou duas
penas
de galinha fossem as responsáveis por eu estar
aqui.
Fez aquilo com muita pompa, achando que eu iria
levá-lo
a sério. Imagine! Eu, levando aquele pobre
diabo
a sério.
"Onde
estará ele exatamente? Em pé em frente à cômoda
ou
ao lado dela?" Pergunta-se intimamente o Juiz. Ele
gostaria
de saber.
- Não,
meu caro, eu não o levaria, nem que ele fosse o
último
homem do mundo. O que eu fiz foi representar o
meu
papel, tal qual eu o faço agora com você. Ele
queria
se encontrar com "Seu Grande Mestre" para pedir
"Um
Favor" e eu agi assim para com ele.
"É
estranho. É como se ele falasse de dentro da
própria
cômoda. Não posso acreditar que ele está ao
lado
dela. E se estivesse à frente, as velas o
iluminariam"
pensa o Juiz.
-
Ele então me pediu aquelas velhas coisas que muitos
e
muitos homens já me pediram antes. "Quero ser Deus",
disse
ele, mas o que ele não sabia é que mesmo Deus
tem
suas responsabilidades e limitações. Eu mesmo, já
desisti
de querer ser Deus, dá um imenso trabalho.
Expliquei
isso para ele mas ele não quis me ouvir.
Queria
o mundo a seus pés, essas coisas. Eu então lhe
propus
um pacto: uma vez ultrapassada a porta do
quarto,
ele poderia ter o que quisesse do mundo,
bastando
estalar os dedos. E, adivinhe, ele aceitou.
Nesse
momento, ouve-se uma gargalhada estrondosa. O
Juiz
começa a sentir a cabeça girar. A voz se recupera
do
riso.
-
Ele havia engolido a chave! Veja você, engoliu com
medo
de que eu fosse embora sem o ajudar. O idiota não
percebeu
que estava cavando sua morte. Houve um
momento
então em que ele ficou meio grogue, tal e qual
você,
porque o sangue dos seus pulsos já havia ido
todo
parar no ralo, tal e qual o seu. Depois de ter
esmurrado
um bocado de coisas, ele caiu. Só espero não
ter
de vê-lo no inferno.
O
proprietário da voz tem outro acesso de riso. Alaor
sente
a cabeça girar mais forte. Dói-lhe horrivelmente
qualquer
movimento.
-
Mas você não vai cometer uma besteira dessas, não é?
-
indaga a voz, com um sarcasmo fino que o Juiz já não
pode
mais compreender. - Você tem a chave com você,
não
tem?
O
homem de joelhos aponta na direção da voz:
- Na
cômoda... - ele consegue balbuciar.
-
Aqui onde eu estou? Pois venha buscá-la.
Alaor
não consegue andar. Está tão fraco que suas
pernas
lhe dão a impressão de serem feitas de
gelatina.
Seus ossos, seus músculos, tudo gelatina.
-
Quem diria, hein? Duro como pedra... Sempre tão
aprumado...
Agora aí, no meio dessa merda toda, sem
conseguir
nem se levantar.
Apesar
das náuseas, Alaor se arrasta. Está cego agora,
e o
que o guia é somente a voz. Esta continua,
impiedosa:
-
Amanhã, dirão que você cortou os pulsos porque era
infeliz.
Mas não é de todo mentira, não é? De que é
que
está valendo viver, me diga. Sua mulher o odeia há
mais
de dez anos. Seu trabalho lhe transformou num
robozinho
perfeito, mas insensível. Olhe, o melhor que
você
faz é ouvir a sabedoria popular...
Alaor
está a alguns passos da cômoda agora. Ele se
ergue
com enorme dificuldade para abrir a gaveta e
tatear
a chave na escuridão da sua existência. Quando
a
encontra, olha para frente em busca de seu
adversário
e vê, tão somente, a sua fisionomia
refletida
no espelho do móvel. E não é outro senão ele
mesmo
quem lhe dirige as seguintes palavras:
-
Ah. Então você achou. Cuide-se a partir de agora.
Quando
ele abre a porta e cai no corredor gelado sua
voz
faz grandes ecos ao gritar:
-
Marta...! Marta...!
Ouve
então passos pesados, e sente que alguém se
aproxima.
Reconhece-lhe o cheiro, apesar do tempo. E
as mãos,
quando tocam o seu rosto, o horror que elas
pressentem
quando descobrem...
-
Querida, querida - ele balbucia - Estou morrendo. Me
perdoe.
- Não
- ele ouve uma voz feminina, uma voz conhecida e
cara
que ele não ouvia se dirigir a ele há dez anos -
Você
não vai morrer.
Mas
ele não sabe de mais nada. Há um barco no cais
preparado
para partir, e é ele quem está deitado
dentro
do barco. Por algum motivo querem que faça a
viagem
deitado e ele obedece. Está tudo muito escuro,
mas
ele então sente as luzes, luzes muito fortes, tão
fortes
que o cegam mais que a escuridão...
-
Aqui é o Céu...? - ele balbucia, abrindo
ligeiramente
os olhos.
- Não,
senhor. - responde uma voz absolutamente
desconhecida,
cujo dono é um homem negro todo vestido
de
branco, também absolutamente desconhecido -
Acabamos
de chegar ao hospital.
-
Então, como vai o velho soldado? - pergunta,
entrando
no quarto branco, o jovem policial,
completamente
à paisana.
Alaor,
o Juiz, não pode conter um sorriso.
-
Bem, bem.
-
Sua mulher me disse lá fora que você está com uma
saúde
melhor que há dez anos. E ela deve saber. -
comenta
o rapaz com um sorriso malicioso nos lábios.
O
jovem então se torna sério, adianta-se, puxa uma
cadeira,
e diz, a voz denotando toda uma preocupação
guardada
com dificuldade:
-
Mas que besteira foi essa de cortar os pulsos,
camarada?
Uma
vez que o homem deitado se mantém em silêncio, ele
prossegue:
- Eu
imagino o quão difícil deve ser deixar o serviço
depois
de tantos anos de dedicação. Porém, é
preciso...
- Não,
não. - interrompe-o o velho policial - Está
tudo
bem.
-
Realmente?
-
Pode apostar.
O
rapaz volta a abrir o sorriso. Diz:
- À
propósito, não sei se você se lembra daquela
história
do sujeito que se matou depois daquele ritual
de
magia negra... Pois bem, encontraram a chave da
porta
na barriga do infeliz, como eu lhe havia dito.
Foi
suicídio, está provado. Terminou.
O
velho policial sorri para si e pensa em como algumas
verdades
são engraçadas. Porque, em certos momentos, é
possível
ver melhor na penumbra do que à luz do dia
mais
claro. Ele cogita se deve dizer ao garoto sobre a
verdade
daquela história, isto é, aquilo que só ele
viu
na escuridão da noite, mas se resolve por não
falar
nada.
Limita-se
a observar sua juventude, e pensar que ele
ainda
terá muito tempo para lutar com seus demônios e
encontrar
sua própria chave.
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