Realidade Paralela

 Maria Helena Bandeira

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0110]
[Autora:
Maria Helena Bandeira]
[Título: Realidade Paralela]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 760]

 

Nota da autora - Um pequeno conto de FC, escrito há algum tempo, cujo
tema continua atual



A estrada desce, vertiginosamente, em curvas, sobre a vegetação que
margeia o lago. Como se todo o mercado das flores do miserável New
Bexiga se espalhasse ao longo da água azul. E sem os vendedores, sem
os gritos, apenas o cheiro de gasolina e o ruído monótono do motor.

Acelerou ainda mais, o pé colado ao falso pedal.

A vida, às vezes, valia a pena.

Sentia o vento entrando através das frestas do casaco e, de certa
forma, sentia também os carros que cruzavam a Via Expressa do outro
lado.

Na outra realidade. Paralela. Com a qual cada vez menos tinha a ver.

Concentrou-se na paisagem dentro do visor do capacete. Gostava do
cheiro de combustível, do odor de couro e aço da moto. Mesmo assim,
desligou o que restava do ambiente real.

Maresia... o ar úmido dos campos ao amanhecer, saturado de perfumes.

O sol ainda estava baixo no horizonte, ligeiramente avermelhado.

Lá fora, as fábricas começavam a expelir seus gases negros. O perfil
de vidro dos edifícios, uma vasta muralha ao longo da Via Expressa. Os
primeiros ambulantes iam armando suas barracas na calçada, acordando
os mendigos com suas trouxas. Panelas eram acesas sobre fogareiros
improvisados. A fumaça que saia dos caldeirões sujos ia se juntar a do
escapamento dos carros que passavam, subindo em direção ao céu
cinzento.

Diminuiu um pouco a aceleração e atravessou, com um pequeno solavanco
a ponte rústica sobre o riacho.

Tinha vontade de parar junto à água que corria sobre as pedras,
formando pequenas cachoeiras cristalinas... descansar sob os pinheiros
que ondulavam ao vento, sombreando as margens do regato...

Era um desejo impossível.

Estava condenado a correr através da paisagem, incessantemente,
enquanto o mundo explodia lá fora.

Alguns pardais pousaram nos fios molhados pela chuva. Nas calçadas, os
primeiros transeuntes juntavam-se aos mendigos e ambulantes que
atravancavam a passagem, resmungando imprecações, enquanto a Via
Expressa ia se enchendo de carros e motos velozes, os vidros fechados,
o rosto fechado pelo medo. Da emboscada, do assalto, do seqüestro - o
encontro da classe privilegiada com a marginália que se espraiava ao
longo da cidade sitiada.

Ele subia a colina, agora mais lentamente, atravessando os campos
cultivados. No vale pastavam bois que pareciam de brinquedo. Feixes de
trigo brilhavam ao sol e a temperatura aumentou.

Debaixo do capacete, começou a suar e programou uma ligeira brisa.

A vista do alto era deslumbrante. Pequenos morros que iam se tornando
cada vez menores, até se confundir com o azulado do céu à distância. O
vento entrava pelos seus ouvidos nas frestas entre o pescoço e o
capacete.

Lá fora, a chuva aumentou de intensidade.

O assaltante encostou a submetralhadora na nuca do motorista do carro
azul metálico. Sua voz era ríspida. Ele comandava a barricada, na
descida, logo após a ponte verdadeira.

Pedágio clandestino, o terror das estradas. Quando avistavam os
caminhões atravessados, impedindo a passagem, alguns tentavam manobras
arriscadas, voltar pela contramão... era suicídio quase certo.

Melhor pagar.

Com o carro, os códigos dos cartões bancários... os minicomps...

A arma na nuca, os músculos endurecidos do pescoço... à espera do
impacto que, às vezes, vinha... Ninguém sabia do que os periféricos
eram capazes.

De tudo.

Para escapar, mesmo que por poucos momentos, do jugo da miséria. O
poder absoluto, ainda que só por algumas horas de tensão.

E ver todos aqueles executivos, nos seus blindados cavalos de aço,
estômagos contraídos e intestinos revoltados, sob a mira da
submetralhadora.

Mas ele estava em RV e apostava.

Começou a descer a colina.

Agora!!!!.....

Desligou o comando do computador e manteve a realidade virtual.

A moto fez um cavalo de pau e embicou para baixo. Os morros, as
flores, o céu, corriam vertiginosamente através do visor do capacete.

Na tela, as letra vermelhas piscavam:

"Piloto automático desligado... Piloto automático desligado...
Atenção..."

Por entre os cedros, os vales, o sol brilhante, ele descia cada vez
mais rápido.

Comandando a moto.

Comandando sua vida.

Na Via Expressa, molhada e escorregadia, as rodas deslizavam
perigosamente nas poças de chuva.

Através do visor, o caminho saltava e ondulava... os campos corriam,
sempre mais depressa, em direção aos morros azuis...

Até se espatifarem contra o caminhão atravessado.

Na paisagem estilhaçada do capacete, os edifícios surgiram entre a
fumaça e o céu nublado.

O sol oscilou... desapareceu...

e, finalmente, se fixou.

Para sempre. Na via azul e verde de sua moto encantada.

   

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