Natal no Eridanus

 Waldy Pereira Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0109]
[Autor:
Waldy Pereira Filho]
[Título: Natal no Eridanus]
[Gênero: FC]
[Número de Palavras: 2.040]

 

   O cargueiro Eridanus, uma das maiores naves da companhia mineradora
entra em mais um sistema solar, seguindo silenciosamente em sua viagem
de retorno, após uma prolongada permanecia recolhendo o produto de
diversas minas espalhadas por planetas, satélites ou meteoros em
sistemas de toda galáxia. Uma tarefa a qual os nove integrantes da tripulação já estão bem adaptados, apesar do tempo em que permanecem em hibernação longe de casa. Na realidade suas casas são esta nave e aqui está sua família, ninguém os esperaria por tanto tempo. Lá fora o tempo passa, mas aqui ele fica congelado, quando retornam após quase dez anos no espaço, ainda tem a mesma aparência e perspectivas. Com o dinheiro que recebem no final de cada jornada, divertem-se e conhecem as novidades como se fossem turistas em seus próprios mundos, mas já não conseguem voltar a ter os pés no chão e uma vida normal.

   O computador inicia o processo de despertar do comandante, para
mais uma checagem e comunicação com a companhia, cumprindo parte da rotina onde o capitão e seu segundo em comando revezam-se. O casulo de hibernação abre-se e emerge de seu interior o capitão Hermes; emite alguns
grunhidos e faz as mais diversas caretas, o corpo reclama do longo sono e só se recuperara integralmente após algumas horas.

   Caminhar, correr e saltar pelos longos corredores da nave tentando
por a musculatura novamente em ordem, enfim, estar vivo e em paz consigo
mesmo. Sentir o silêncio do espaço e o tempo passar, o prazer de estar só,
mas só enquanto desejar. Tudo isto faz parte do ritual de despertar.

   Em sua cadeira na ponte de comando, um capitão já totalmente
refeito, observa nos monitores os dados sobre o estado geral da nave,
disposição da carga, condição dos tripulantes, tempo de viagem, consumo de combustível e tempo de chegada. Para um momento, checa novamente os dados e esbraveja algo incompreensível ...

- Não consigo compreender, mas aparentemente o despertador deste raio
de computador esta adiantado seis meses e ele insiste em afirmar que não
há nada errado... Coçando a cabeça, olhar perdido no espaço, continua a
pensar em voz alta:

- Já estou acordado mesmo e com exceção da terrível sensação do
despertar, estar acordado sempre é melhor que dormir de forma artificial por
meses. Se for um defeito e as demais datas de checagem e chegada estiverem incorretas, isto vai ser uma dor de cabeça. Terei que fazer toda a reprogramação nas datas de interrupção e checagem, testar os procedimentos para as novas datas e torcer para que o problema não se repita. Bem! Se não há outra solução, vou iniciar a avalanche de relatórios de controle de erro e solução.
Mas primeiro tentar identificar o que gerou esse problema... - Computador manual de critica B1298/001.

   Na tela surge a mensagem "carregando..." e alguns segundos depois o
manual
esta acessível. Hermes após algum tempo de pesquisa dá-se por
satisfeito.

- Computador preparar procedimentos de correção da programação de
procedimentos de checagem para missão Eridanus.010/3402.

   A mensagem "preparando procedimentos..." é exibida e após alguns
segundos uma nova mensagem surge. "Comunicação com a companhia é
necessária
para efetivação do inicio do processo de correção da programação".

- Muito bem! Muito bem! Gostaria de poder evitar isso, perderei mais
tempo
e com certeza eles farão com que eu preencha duas vezes mais
relatórios,
que realmente seria necessário... Computador estabeleça contato com a
companhia e ...

   Neste instante uma suave melodia toma conta de todo o ambiente
deixando
Hermes simplesmente sem reação e antes mesmo de se recuperar, uma
tênue luz
azul invade a nave e em todos monitores surge a imagem de um planeta
azul e
ao fundo uma estrela extremamente brilhante, provavelmente uma
supernova.

   Surpreso, mas também estranhamente calmo, Hermes sentia-se
totalmente
envolvido por aquela melodia e luz, tenta entender o que se passa
quando
é novamente surpreendido por uma voz harmoniosa que lhe faz
estremecer...

- Hermes!... Hermes!... Você é testemunha de um momento impar, pois
neste
instante inicia-se uma nova era neste planeta, na superfície ocorre o
nascimento de um ser que alterara a trajetória evolutiva deste
sistema...
Será uma lenta caminhada que culminara na integração dos mesmos a
comunidade
universal... Este é um momento de transição entre o ódio, a barbárie e
um mundo de amor e compreensão. Talvez agora você não possa
compreender todo
o significado deste fato, mas no futuro... siga em paz...

Tudo retorna ao normal, Hermes atônito observa ainda os monitores
quando o
computador informa que a anomalia gerada por sobre carga em um dos
bancos de
memória provocou o despertar prematuro, mas o problema já fora
solucionado e
equacionada nova data de checagem, sem que haja maior comprometimento
da rotina.
Verificações podem seguir conforme previsto...

Novamente em seu casulo de hibernação, um ultimo pensamento passa por
sua mente
antes que o sono lhe arrebate... Vou ter muito com que sonhar até o
fim desta
jornada ou teria tudo isto sido um sonho...

                 ----------///------------

...Muito tempo depois.
                    HERMES DESPERTA

Ultima parada do Eridanus, a atividade na nave é intensa com a
constante ida e
vinda das servo naves que transportam minérios da superfície do
planeta para o
cargueiro. Toda a tripulação está envolvida na tarefa de recepção e
controle de
tráfego das servo naves, do transporte de containers de minério para o
local de
estocagem dentro do cargueiro.

Na sala de comando o capitão Hermes e seu segundo, o jovem oficial
Nakano,
observam os monitores coordenando a operação em curso. Nakano no final
desta
viagem assumira o comando da nave, Hermes esta terminando sua jornada
como
capitão da frota da companhia e pretende descansar voltando a seu
planeta natal.

- Capitão Hermes, ultima servo nave transportadora retornou... informa
Nakano.

- Muito bem! Vamos as formalidades de liberação. Pode fazer as honras
Nakano.

- Aqui é o Cargueiro Estelar Eridanus, carga completa e ultima servo
nave
liberada, pedimos permissão para deixar orbita.

- Eridanus liberado para deixar nossa orbita, boa viagem de retorno e
capitão
Hermes boa sorte ao amigo que nos deixara, felicidades em sua nova
vida.

- Obrigado Tales, foi muito bom trabalhar com vocês. Eridanus desliga.

A comunicação com a mina no planeta abaixo é interrompida e os motores
são
acionados fazendo toda nave vibrar enquanto sai de orbita e ganha
velocidade
para iniciar a jornada de retorno. As atividades da tripulação com as
últimas
checagens de acomodação da carga ainda permanecem por algum tempo.
Hermes e
Nakano programam o retorno e os pontos de despertar para checagem.

- Este ponto de checagem esta fora do parâmetro, acontecera bem antes
do
previsto... Senhor. Observa Nakano ao capitão com expressão
interrogativa.

- Sim! Eu sei, mas é minha ultima viagem por este quadrante da galáxia
e
preciso rever um pequeno planeta azul. Não posso explicar, mas é algo
que
ainda quero fazer. Creio que posso me dar a esse luxo. Responde Hermes
com
o olhar perdido, observando no monitor principal o planeta de onde
acabaram
de partir e que tornara-se na distância uma pequena bola avermelhada.

Após a refeição, todos dominados pelo cansaço dirigem-se a seus
casulos e
iniciam sua hibernação. Hermes e Nakano também despedem-se, pois só
tornaram
a conversar no final da viagem, até lá despertaram em pontos de
checagem
alternados.

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O casulo de hibernação abre e Hermes emerge... emite os grunhidos
habituais,
inicia os exercícios de alongamento e uma refeição leve que fazem
parte de
seu ritual de despertar.

- É!... Nunca acostumei com isto... e essa solução de eletrólitos
torna-se
pior a cada vez. Resmunga observando o fundo do frasco em sua mão...
Mas vamos
ao trabalho!

Após realizar a rotina de checagem padrão, pede ao computador:

- Mostre-me o que temos ai fora... No visor principal surge a bela
imagem de
um cometa de cauda dupla, afastando-se do sol em seu mergulho para as
profundezas do universo. - Ai temos um verdadeiro cargueiro estelar,
deixando
sua carga em seu caminho para a estrela principal deste sistema e ao
reiniciar
sua viagem para os confins deste sistema, vai recolhendo a poeira
estelar,
fruto do trabalho de mineiros galácticos. Poderia chama-lo de Eridanus
e talvez
encontre em seu comando um capitão Hermes, que um dia se aposentara.
É! Esta
nave e aquele cometa tem vidas iguais...são iguais. Hermes deixa-se
afundar na
poltrona contemplando ao cometa, olhar perdido...

Muito tempo depois desperta do abatimento em que havia mergulhado e
ordena
ao computador.

- Vamos lá meu amigo! Mostre-me o planeta azul.
Na tela surge a imagem solicitada.

- Faca uma varredura, vejamos se existem sinais de evolução.
Os dados surgem na base da tela.

- Ora... Ora! Muitas fontes de energia, inclusive atômica, sinais de
transmissões eletromagnéticas, satélites em orbita. Parece que meus
amigos
realmente evoluíram e neste ritmo em breve farão parte da
confederação.

A sala se ilumina com uma luz suave e a voz já conhecida de Hermes se
faz ouvir.

- Saudações caro amigo, Hermes. Não se engane com os sinais de
evolução
tecnológica visíveis, lembre-se que a evolução a qual me referi não
pode
ser mensurada com aparelhos, por mais sofisticados que sejam. Você meu
amigo, vem de uma civilização tecnologicamente muito evoluída, mas
como a
que habita neste planeta, muito longe de encontrar a si própria. Você
mesmo,
a alguns momentos atrás, sentiu este isolamento que habita em muitos
corações e que não pode ser preenchido por conforto material. Muitos
sentimentos interagem nos povos deste planeta, alguns como a violência
e
ódios raciais que foram extirpados nos mundos da federação, convivem
com
sentimentos nobres que também desapareceram em tua civilização,
varridos pela
tecnologia. Hoje o que lhe coroe a alma é a ausência destes
sentimentos mais
nobres, que em última analise dão sentido a existência de todo ser
inteligente.

Hermes se da conta do vazio que existia em seu interior, algo visível
no
semblante de todos com quem se relacionara. Uma característica de sua
raça e
de outras com quem tivera contato, algo que só agora nesta fase de sua
vida
emerge. Sempre existira, mas a atividade febril a que todos se lançam,
impede sua manifestação. Talvez isto explique o porque de uma grande
maioria não superar
esta fase da vida e os que conseguem tornam-se parias na sociedade e
isolam-se
na busca de algo que nem eles próprios sabem o que é. Será que estaria
indo
neste caminho? Ouvindo vozes, vendo luzes.

- Não Hermes, você esta tomando consciência da existência de algo mais
alem
da máquina gerida por grandes companhias. De necessidades que não
podem ser
preenchidas através da compra de um produto ou serviço. Você é parte
de um grupo
que começa a despertar e terá a missão de alterar o rumo do pensamento
que guia as civilizações que compõem a Federação.

Hermes esta perplexo, nunca entendera a necessidade que sentira de
retornar a ver
este sistema e agora desejava estar em seu casulo, que tudo não
passa-se de um
sonho.

- Não pretendo ser um revolucionário. Balbuciou Hermes quase para si
mesmo.

- Não te preocupes Hermes, não serás um revolucionário e sim um
agricultor.
Plantarás sementes que produziram os frutos e estes frutos serão uma
nova forma
de sentir e viver. Procure ver a beleza e o lado positivo de tudo, não
olhe
para traz e procure viver intensamente, pois novas experiências
surgiram a todo
momento. Demonstre a todos sua vontade de viver e de ajudar sempre de
forma
construtiva.

Das paredes da sala jorram pequenos jatos de luz das mais diversas
cores e
melodias indescritíveis preenchem o ambiente, enquanto o corpo de
Hermes
flutua a alguns centímetros do chão. Sua mente é invadida por imagens
de
paisagens de beleza sem par e uma sensação de harmonia e paz lhe
enchem de
alegria o coração.

Hermes desperta, na tela as ultimas informações pedidas se mantém e o
planeta não é mais que um ponto a distância. A sala retornara a sua
normalidade e tudo permanecia como se nada tivesse ocorrido, um sorriso aflora nos lábios de Hermes, o primeiro de sua vida.

- Não foi um sonho, foi o renascer. É hora de começar a viver... Grita
sem conseguir se conter.
   

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