Porque Dar um Título a Esse Conto?

 Eduardo Boldrini

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0108]
[Autor:
Eduardo Boldrini]
[Título: Porque Dar um Título a esse Conto]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 2.000]

 

Já não conseguia pegar o primeiro cigarro que havia acendido naquela manhã, ainda no quarto. Gritei por Dalva, mas não a tempo de pedir-lhe que colocasse na minha boca. Ainda sentia o gosto amargo na língua e grosso nos dentes, enquanto via o fumo queimando, virando cinza e a fumaça se dissipando no ar inerte, causa da leve ardência que eu tinha nos olhos. A luz do dia já entrara pela janela, deixava os cantos da peça mais claros e a corda que amarrava meus pés e mãos ficara mais visível. Era felpuda, grossa, mas de forma contraditória causava uma sensação confortável. A textura não machucava e até fazia uma certa carícia na pele mesmo com o nó apertado. Se usasse a força, tinha os braços jovens e fortes, poderia romper as fibras que cerceavam meus movimentos. No máximo teria a pele dos pulsos machucada. Mas não, não tinha vontade nem motivos suficientes para tal, só o que começava a me incomodar, com o tempo lento, era o despertar da ansiedade de ficar ali parado, vendo, vendo, vendo o "ao redor" sem sair da cama. É como quando a gente fica numa platéia de teatro e não se acomoda bem na cadeira, e todo aquele silêncio, você tem vergonha de mexer a bunda porque não quer chamar a atenção dos outros (ou seria melhor dizer que você não quer irar a atenção que os outros têm no palco) com o rangido que a cadeira vai fazer e você sabe que vai.

                De onde estava (da minha cama, do meu quarto), conseguia enxergar tudo o que acontecia do outro lado da janela: as casas, a rua, as pessoas, as flores, o palco. Via tudo andando. A vida, que de um lado para o outro ia sem parar para olhar-me. Era eu, o espectador silencioso?

                Num breve momento apenas, cruzei meus olhos com os meus próprios, refletidos no vidro da janela enquanto ainda olhava para rua, há quanto tempo... nem sei bem há quanto tempo não me enxergava. Os traços do meu rosto ainda não mudaram, uma início de calvície, a expressão atenta, ligada, a testa franzindo, uma barba com personalidade. Diria que os anos não tinham tomado o meu rosto como fazem com a maioria das pessoas.

                De vez em quando, quase nunca na verdade, ouço as vozes chamarem pelo meu nome lá de fora, me convidam a participar? Talvez, mas as cordas me impedem. Grito então, grito sem pedir ajuda, apenas grito e respondo o que eles me perguntam, coisa de coadjuvante essa de só participar com a voz, não acha?. Em seguida vem o agradecimento e depois o silêncio, mas eles continuam aqui, do outro lado da porta ou mesmo no andar de baixo, talvez numa outra platéia ou palco. Disso eu tenho certeza, fisicamente, apenas paredes de concreto nos separavam. Mas é engraçado, assim, ficar ouvindo o silêncio como agora, ouvir o que não se ouve, é como ver o escuro, você vê o que não se vê, ou como ouvir um pensamento que faz barulho só dentro da sua cabeça, o som agitado e surdo dos neurônios quando fazem algum raciocínio num vai-vém ininterrupto, um silêncio de platéia. Está e não está. Existe e não existe. Engraçado, sempre me lembro de uma platéia quando penso no silêncio. Você já percebeu?

                O sol está mais alto, vejo pela janela, acho que já está na hora de acender outro cigarro. Mas a corda, o nó está apertando macio e nem machuca nem nada, só que eu tenho que ficar aqui e daqui não posso sair, mas até que tá bom, sabe, simplesmente ficar. Só sinto falta mesmo é do cigarro, de ver a fumaça desenhando no ar alguma coisa. Chegava a passar horas observando o que a fumaça branca do cigarro queria me dizer. Às vezes, dava a primeira tragada e o resto queimava por si só, pela natural combustão do oxigênio. Combustão? Tá certo, né, combustão. Combustão.

                O telefone toca. Toca de novo e de novo. Deve ser um parente ou amigo que não vejo faz tempo, convidando para tomar algum vinho numa das tavernas da cidade. Lembro da cara de uns, de poucos na verdade. Uma vez (muitas vezes), na descida da avenida Glória, sentávamos por lá, na época de estudante, eu, o Cerpa e o Oswaldinho (dele só lembro do bigode, não da cara) e bebíamos quentes debates sobre política, economia, filosofia. Hoje um é ministro e o outro dono de uma construtora no centro do país. Eu, esqueci de dizer, sou jornalista, também tentei ser diretor de teatro. Acho até que eles continuam amigos, mas não devem tomar vinho lá na taverna, aqueles precoces talentosos. O telefone ainda toca insistente, chega a me deixar um pouco mais aflito, aquele trim-trim bate na minha veia como de injetasse adrenalina, até que por fim se silencia. Silêncio. Aquele da platéia muda.

                Fico olhando cuidadosamente, como é que se diz mesmo... meia-cana, é assim que se chama aquela parte que faz a emenda da parede com o teto, meio-arredondado, meia-cana. Como são bem acabados os detalhes de gesso meio-descascados (meia-cana), mas é que
a casa é antiga, da época do meu avô. Talvez se pintassem. Não sei. Talvez um creme ou algo parecido, esse azul cor de céu limpo e desbotado já deixava meus sentidos meio-cansados (meia-cana tem hífen, meia-cana, meia cana, parece que sim). Os móveis também, a madeira já estava descascada, gretando, as cortinas desbotadas até demais. Mas o colchão estava bom, ainda não começavam a doer as nádegas nem as pernas, apenas leves formigamentos pertos dos pés, talvez por causa da corda que apertava mais na altura dos tornozelos.

                Lá fora, parece que umas nuvens chegaram e ameaçam trazer chuva, mas não são das pesadas, não se preocupe, já fechei a janela, ontem mesmo. Por algum lugar entra só um vento gelado. As flores na floreira do lado de lá da janela, começam a balangar de uma lado para o outro, numa coreografia conhecida e bela. Elas sim sentem o vento frio. As cores das flores até parecem se misturar quando balançam mais forte, riscam a minha vista e escurecem quando as nuvens cor de chumbo cobrem o céu, escondendo o azulado e o colorido das flores. As primeiras gotas dão um brilho no vidro opaco da janela e vão escorrendo fazendo caminhos entre a sujeira grudada, até que maiores gotas por ali também caem e todos os caminhos formados vão se confluindo. Procuro minha imagem refletida no vidro e meus olhos param nas pessoas correndo lá fora, enquanto outras continuam seu passo como se nada estivesse acontecendo. Como podem? Caminhar calmamente com essa chuvarada. Eu correria, e as flores só não correm porque estão amarradas na terra como eu aqui, talvez seja por isso que todas as suas cores ficaram cinzas. Sempre detestei ficar com a roupa molhada,os cabelos pingando no rosto, e também sempre odiei cores cinzas. Andem, depressa. Mas também, isso é só uma pancada de verão, com um ventinho gostoso que passa pela pequena fresta da janela que eu fechei
ontem.

                Pelo jeito, me parece, aproximadamente, a hora do almoço. É que aqui de dentro do quarto não dá para saber direito como é que o tempo está andando, nem como está a economia, nem o trânsito, nem as doenças, nem como estão e nem por onde andam os meus amigos, até os de Brasilia.

                Quando a chuva se vai, como nos dias comuns de verão, logo o sol toma o seu lugar entre as nuvens que vão de dispersando lentamente e as cores vivas voltam a dar o tom quente nas flores da janela que estavam molhadas de cinza. Só resta esperar que a água se vá e vire vapor com o vento, que mesmo lento (preguiçoso), vai daqui para outro onde.

                Me chamam lá de baixo ou lá de fora não sei ao certo, que chateação isso, respondo a pergunda pensando na guerra ou na violência, até com uma certa rispidez, não sei porquê, nem sei de onde vem aguela voz, afinal. E logo ninguém fala mais nada. Silêncio de platéia. Mas, voltando às nuvens que se vão, agora, enfim, o sol volta a aparecer e já começa a pensar em deitar sobre sua cama no horizonte e se cobrir com uma manta negra de pontos brancos. Vai cobrir todos nós juntos com ele. Mas enquanto ele continua ali, saindo de trás dos flocos pesados e espantando as cores mortas da sombra, vejo pela janela como as coisas se movimentam rápido no final do dia (os carros e tudo mais) e que logo-logo tudo vai ficar bem mais calmo.

            Acho que agora a pouco estava pensando em alguma coisa sem importância, tanto que já esqueci o que era, minha atenção despertou para o choro de uma criança que parecia vir do outro lado da porta ou mesmo lá de baixo, nunca tenho certeza de onde vem os sons, na verdade, acho que você já sabe disso, deve ser do palco. Perguntei quem chorava e me responderam alguma coisa que não entendi direito porque já estava prestando a atenção na corda dos meus pés que pareciam estar ficando mais frouxas e eu já podia sentir os pés mais livres e o sangue circulando melhor. Pareciam como se bichinhos, formigas ou besouros, corressem pelas minhas veias até os joelhos e voltassem. Aquela parte das pernas ficou até um pouco mais inchadas (ou era pura sensação minha). Mexi os pés, de novo e de novo até que os nós se desfizeram e deixei-os livres. As cordas ficaram sobre a cama. Fui até o telefone caminhando, até a porta, até a janela e ali fiquei olhando, em pé, só com as mão atadas, as crianças que chegavam nas suas casas com os pais, no final da tarde, carregando suas mochilas da escola e com seus uniformes encardidos daquela época em que tudo vale a pena e que o medo ainda não é ensinado na sala de aula. Inclusive uma está chegando aqui, com o pai dela e ficou me abanando lá de baixo durante um tempo e depois me acenou com a mão delicada e um olhar dividido. Foi um segundo, mas pude perceber seu olhar dividido. Que maravilhosa atriz seria ela, se estivesse sobre o palco, mas estava lá embaixo, na rua. Eu vi pela janela.

                Continuo olhando a rua, calado. Vejo as pessoas, anoite se aproximando. Primeiro vem o avisoamarelo-vermelho-roxo-azul-escuro, depois a chegada, propriamentedita, da noite, com os pontos brancos parados no mesmo lugar lá emcima. Numa época tentava contá-los, mas nenhuma vez consegui chegar nofinal porque ficava claro antes e os pontos se iam.

                É noite e as cordas das minhas mãos vão se soltando também, já não percebia que elas estavam ali, também não tinha precisado delas para nada mesmo. A corda macia vai se desamarrando como se, por forças próprias desistissem daquela função, deixando meus punhos livres. Na verdade nem sei se sinto livre ou preso, estava bom assim como estava. Agora com as mãos soltas, faço movimentos sem sentido, nem sei o que fazer, afinal faz tanto tempo, desde sei lá. Passo-as no rosto, a barba vai longa quase até a barriga e já é tão branca, (figurino?) e os cabelos na cabeça já não existem mais, nem o telefone toca, nem ouço vozes do outro lado da porta nem lá de baixo de onde pareciam vir. Que silêncio de platéia esse. Mexo os dedos, vejo a marca nos pulsos magros, estico o braço para acender a luz do abajour, a pele é enrugada e fina, só agora vejo-a assim. Procuro o cigarro. Acendo um. Chega, chega. Aqui. Preciso que alguém amarre minhas mãos de novo. Dalva. Você tem que amarrar mais forte. Dalva. Grito. Com os pés eu mesmo posso. Dalva. Rápido. Antes do aplauso da platéia.

   

Fale com o autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Webmaster: Marta Rolim

Hosted by www.Geocities.ws

1