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Este
relato baseia-se nas 'memórias' de um combatente da chamada
milícia
terrestre. Fatos e impressões abordados aqui contidas nesta
composição
literária à moda terrestre, são de inteira interpretação
pessoal
e não expõe necessariamente nossa forma sistêmica de
predileção
atual, devendo ser acessada com reserva e desmotivamento.
É,
contudo, documento importante no contexto geral mítico, folclórico,
se,
somente se, contrabalançado com outros relatos menos informais e
centralizados;
calcados na realidade dos fatos puros, disponíveis no
amplo
acervo digital da humanidade, em nossa coleção.
Notas
explicativas, lugares de referência, modismo de tempo/linguajar
e
palavreado não acadêmico (popular), para aqueles entre nós em
começo
de
carreira: acessar registro de apoio.
Agbdal
Zer'ziomk
Servidor
Master - Período Cosmopolita
Zona
Estelar Raienek - súmula do planeta-estudo 'S3'
Status:
objeto de análise crítica em primeira pessoa de tratamento
Código
de Consulta d6d7d8d6d3d2d2d2d1
# #
#
PEÃO PARA O BISPO DA RAINHA
(Rogério
Amaral de Vasconcellos)
1
Sou
o coronel Antony Bianco, da 'milícia' rebelde de retaliação 3º
Milênio;
um D.O.E., C.E.D., U.D.O., e, dizem, S.O.B. em tempo
integral,
mas não ligo.
Sou
(no sentido de que ainda não creio terem constatado meu desvinculo
moral
e profissional, ou seja, minha deserção) agente do CIA, radicado
em
Tel Aviv, Zona do Armagedom.
Das
encharcadas e frias selvas da Patagônia para Bornéu, passando por
sem
número de campos guerrilheiros, alojamentos infectos na Nicarágua,
Ceilão
e cavernas radioativas no Afeganistão, era uma longa trilha de
corpos
e mosquitos achatados contra o paredão.
Bandeando-me
parcialmente para o lado 'rebelde', o desconhecido e
moralista
3º Milênio, nascido após as nefastas ondas de represálias ao
ataque
ao WTC, Washington e Londres, foi a primeira vez em minha vida
que
remei contra a maré. Talvez devesse acrescentar, a 1ª de muitas...
-
Yuhhu!!! - chamou o holo, materializado fantasmagoricamente em uma
das
plataformas-lente de meu comunicador universal, assustando-me.
Falando
em muriçocas!!
-
Tonniiii, meu maroto, você está aí?! Quer disponibilizar sua fase
do
See
You See Me?
Era
minha 'noiva'. Uma das tantas, que se reunidas numa espécie de
passeata
internacional, fariam de qualquer rua de New Orleans um
carnaval
fora de época.
Márcia,
meu principal contato no Pentágono, a já referida por alguns
mais
grosseiros como canhão de Washington, D.C., é tudo que não quero
ouvir
neste momento de reflexão. Porém, como amante dedicado,
preocupado
com alguma reviravolta nos meandros do poder pátrio, segui
o
Evangelho Segundo Eu Mesmo e respondi, adocicado como uma fruta
madura
(tão madura que estava estragada):
-
Fala, doçura! Meu aparelho de re-visualização está defeituoso,
portanto
ficarei devendo a exibição desta minha carcaça, mesmo porquê
estava
pensando exatamente em você e fiquei daquele jeito, entende?
Ela
entendia.
-
Seu safado insensível! Só fala isso pra me deixar com vontade... -
amuou.
Era
a hora do goupe de grace.
- O
tempo disponível que tenho aqui neste lugar recorro sempre aos
cinco
bartenderes que sacodem o único dry-martíni 'quente' que se têm
notícia
e faço-o pensando em queeeeemm?!
Ela
derreteu-se duplamente, pois sua onda-portadora multi-franja, no
pedestal-comunicador,
fez uma inclinação suspeita, quase desfocada,
identificada
como seu gozo contorcionista; seria um problema pra ela
se
estivesse em algum box semi-público, mas como disse, o problema e a
mancha
na antiquada calcinha de lycra rendada era todo dela. Quanto a
mim,
esgotara meus intróitos. Antes de um novo gozo advir, sacudindo
novamente
o holo, resolvi interferir:
-
Docinho, como conseguiu meu código personal?
A
mini-imagem olhou para os lados e novamente endireitou-se numa
paralaxe
uniforme, tomando tenência do local onde devia estar, ou
seja,
um hall aberto compartilhado por vários boxes individuais,
muitos
deles, acreditava, ocupados.
-
Procurei Albatroz e ele mandou-me a Cisne Negro, que...
-
Sei, amoreco. - Tentei não parecer impaciente, mas, confesso, a
missão
excedeu minhas forças. - Conheço toda cadeia secreta de nossos
'pombinhos
do amor', mas, como sabe, estou longe de você agora,
rolinha,
representando Bill Júnior. Não posso desapontar meu patrão
deixando
meu address por aí...
- Há,
iiiiiiii, óóóóó!!! - matraqueou ela.
Detestava
quando fazia aqueles sons desconexos. Por mais que venere as
mulheres,
aquela exigia de mim o mais paquidérmico dos sacos.
-
Foi realmente simples: Cheguei ao Grande Avestruz - aquele calvo e
simpático
homem de Hillary City - e contei-lhe que precisava entrar em
contato
ou revelaria 'o nosso segredinho' à Mr. Gate. Ele, a
propósito,
vêm amanhã conversar assuntos não-agendados com o Senador
Robert.
Sabendo-se padrinho de nosso breve enlace, querido, estou
certa
de que entenderia meus motivos. Convenceria-o a não despachar
tantas
vezes seu homem de confiança para essas implantações de
nanomachines
e Win 666B 2026!!
"Toni,
GA foi tão compassivo comigo que plugou pessoalmente sua home
neste
terminal. Acredita que fez questão de ficar lá fora, na neve,
para
levar-me de planador até Potomac Hill? Não é um amor?"
Quase
perdi o fôlego. Fora a gota d'água! Aquela mulher, de tão
tapada,
estava ficando perigosamente fora de controle.
Grande
Avestruz, vulgo Maurice Molineux, o basco, vulgo outros tantos
nomes
e nacionalidades, o único com diretórios suficientes para
descobrir
meu paradeiro, não estaria apenas dando uma de bom moço,
escoltando-a.
No 3º
Milênio, entre todo pessoal operacional, talvez o mais soft
fosse
eu, e o basco (paquistanês, esquimó,...) situava-se na outra
extremidade.
Sabia exatamente do que 'aquele calvo e simpático homem'
era
capaz! Já provara isso na Iugoslávia e na Bósnia Setentrional, na
mudança
'branca' de governo. Sendo um adepto dedicado da Gravata
Colombiana,
velhos hábitos não se perdiam com facilidade, mesmo no
decurso
dos anos; como os vinhos, hábitos tendiam a recrudescer,
tornando-se
mais arraigados, sofisticados no entender de enólogos,
todavia
fatal quando quem se propunha a praticá-lo vestia uma fé
religiosa
naquilo que fazia de melhor: matar. Um serviço perfeito
traduzia-se
numa morte sangrenta, onde não houvesse um único segundo
em
que a vítima não implorasse para ser tirada do reino dos
mortos-vivos.
O
fim de Márcia G. Perkins, secretária e sobrinha do Senador Robert,
nas
mãos do Garrote Infalível, estava mais do que claro. Era a cova em
pessoa,
um buraco no chão onde seus muitos pedaços poderiam ser
depositados
após o esquartejamento...
Por
isso ouvi estarrecido por alguns minutos o relato de uma defunta,
daquela
que breve bateria as botas de neve, cujo a hipótese
descortinava-se
como quase um fato consumado. Por outro lado, também
tentava
tirar partido da situação. Percebi na narrativa dela aquilo
que
a muito aguardava. Minha espera não fora em vão!
Além
da parte introdutória, repleta de juras de amor e confissão de
solidão,
ela discorria sobre algo denso e explosivo, apesar de
residualmente
suspeito para alguém não iniciado. Como entendedor
devidamente
instruído pelos mestres da espionagem, a revelação daquilo
deixou-me
de sobreaviso: O dia chegara. O atentado era iminente! Uma
bomba
seria lançada brevemente. E não seria só no sentido figurado.
A
mulher não era nada no grande propósito da vida, como na verdade
ninguém
o é, mas, sem ela e suas informações privilegiadas, estaria
longe
de mostrar ao mundo as reais e sujas (desculpem meu tom clichê,
mas
é inevitável algum 'contágio' com minha organização atual)
motivações
dos novos agentes do caos.
Disso
tudo sobrou uma consciência pesada. Não por Ter de detonar uma
ogiva
nuclear numa ilha no Pacífico Sul. Não por abater, de um só vez,
membros
da cúpula do 3o Milênio e seus financistas. Não por partir da
Terra,
deixando para trás um cogumelo que nunca poderia ter sido
melhor
cultivado. Pena que uma das raras reservas ambientais e todo
seu
ecossistema tivesse de sofrer por isso. Mas o planeta agradeceria
a
longo prazo. Ele sempre se recuperava. Não era sempre que os vermes
que
o infestavam recebiam golpes tão fulminantes. Senti também por
ela,
que passara a vida toda atrás de um amor e só podia encontrar
crápulas
como eu. Devia à Márcia ao menos uma chance.
-
Que tal brincarmos de Responda sem nada Perguntar? No velho estilo,
hein?!!
O
holo acenou e eu disparei, feliz por aquele truque ainda funcionar
com
ela; feliz por não ter de dar maiores explicações, já que me
teria
como
prêmio no final...
- Têm
algum dinheiro com você?
- Só
digital-cheques, bit-dollars, chips de viagem, cupons magnéticos
de
parking & market...
-
Algo cash... algum velho George Gordo por acaso?!
Saiu
de foco e quando voltou a estabilizar-se já trazia um sorriso
vitorioso
no micro-rosto sardento e, com um zoom, notei um par de
notas
de 50 na mão miniatura. Boa menina! Fora previdente como lhe
ensinara.
Papel-moeda sempre é útil, principalmente quando se quer
comprar
um bem espiritual e não deixar pistas.
Não
perdi tempo. Tinha minhas razões, e um cronograma apertado pela
frente.
GA
fizera aquilo que a maioria dos confiantes assassinos tendiam a
cometer
em algum momento, frente a um pacato alvo: decidira, com
aquela
conversa fiada de stratocop fretado para levá-la através do
Potomac,
liquidar Márcia em seguida, esperando tirar algum proveito na
agonia
de seu alvo muito mais que qualquer desnecessária informação.
Ele
era o executor, a cadeia alimentar se alimentando. Eu, segundo o
próprio
dissera certa ocasião, fazia o tipo gigolô latin lover bestão.
Pois
esse gigolô em particular tentaria interferir em seus planos.
Via-o
relaxado nalgum ponto próximo à saída, já dando como certa a
morte
dela. Deixando Márcia entrar em contato comigo (um aliado?) de
um
Holocenter movimentado, só podia estar tentando me mostrar que meu
refinamento
era supérfluo frente sua canalhice. Se houvesse algum
tempo
disponível, com certeza bolaria uma saída melhor. Mas não havia.
Improvisar
é sempre uma arte. E também uma porcaria. Com o cu na mão,
nunca
se tinha a certeza de nada. A não ser que o próximo passo
poderia
ser o último.
Ciente
que não havia hora pior pra divagações e dúvidas, deixei minha
boca
falar o que meu cérebro não conseguia pensar.
Instruí-a
passo-a-passo num new game que, nada sabia, envolvia risco
real
e imediato de morte, se por acaso falhasse em algum movimento.
Qualquer
detalhe contava.
Mas,
por mais que o amor tolhesse seu raciocínio lógico, amortizada
sua
desconfiança de Secretária Graduada do Ministério da Guerra, a
mulher
não era estúpida. O fato de achar-me e mobilizar Avestruz
creditavam
ao seu favor (infelizmente também debitavam, pois aquela
situação
só acontecera exclusivamente devido aquilo).
Cem
In God We Trust, uma ligação fervorosa para o Exército da Salvação
para
vir recolher o donativo tão estranhamente condicionado a um
uniforme-extra
para uma nova convertida, sorte na presteza do
atendimento
dos ávidos partidários de deus, e ela conseguiria fugir
travestida
e executar uma outra fase daquele suposto game. Caso
contrário,
lamentaria sua perda.
Meu
último presente para ela seria sua vida.
2
Perto
de cinco horas depois obtive a certeza. Várias certezas. Uma
onda-portadora
vinda de Toronto-Chelsea deu-me subsídio para minha
próxima
atuação. Salvara uma vida; deixara um transtornado careca
espumando
ódio e uma ogiva inteligente cruzava o vácuo por um caminho
insuspeito,
breve - questão de não mais de um par de horas -
atravessaria
nuvens, mergulhando em vôo rasante, furando ondas,
rompendo
defesas, daqueles que não podiam prever que outro tivesse
tomado
a frente de um atentado que eles próprios não conseguiam
perpetrar.
Que dia feliz!
Só
seria melhor se não tivesse topado com um imprevisto em meu
caminho.
Na verdade, sem que soubesse na ocasião, foi muita sorte
aquele
encontro acontecer. Só endossou minha decisão de seguir viagem,
deixando
pra trás algumas feridas bastante promissoras.
Feita
uma sondagem preliminar, entrei em contato com a infeliz estação
brasileira
Constituição e aguardei o redial chamar pela 4ª vez
consecutiva.
Por um momento achei que chegara tarde demais...
- Alô,
desconheci... aqu... bom falar... - repleto de interferências,
veio
aquele idioma que conhecera bem quando o CIA me investira na
função
de 'adido cultural' em Brasília.
Isso
fora antes da implantação defeituosa de um governo simpatizante e
depois
da invasão de suas fronteiras, em Arroio Chuí, por hordas de
supostos
sertanejos legalista (ambos fatos notórios de envolvimento
ilícito,
há três anos, penosamente cicatrizado com o paliativo
substancial
da migração de Tecnologia Gravitacional do USA to Brazil).
Tirei
os pés do painel da nave, cuspi a droga e varri o espaço até
encontrar
uma freqüência livre de chiados. O click da busca
bem-sucedida,
diferente da mescalina, conseguiu deixar-me eufórico:
-
Atenção, comandante da Constituição!
- Eu
que o diga, intruso. Sou o tenente-do-Ar Renan Maia Torquato, o
único
tripulante. Com quem estou falando? - a voz estranha vinha
inoportunamente
misturada com música de fundo.
Estaria
enganado, ou seria o remixado hit 'K.C. and the Sunshine Band'
?
-
Quem é você? - tornou a interpelar-me, impaciente e quase
inamistoso,
o que naquela circunstância, visto o estado da estação
espacial
brasileira, era deveras incompreensível.
-
Basta saber que sou um amigo. Nossa comunicação é instantânea e
não
estou
nas proximidades, no entanto tenho alguns recursos. Confie em
mim.
Ou... você sabe qual é a opção.
Antes
que o assustado e puto interlocutor tentasse argüir-me com
perguntas
difíceis de serem aplacadas, apressei-me a tomar a
iniciativa:
-
Qual a sua operacionalidade, tenente? Vejo algumas luzes de
navegação,
no mais está tudo um caos...
-
Desculpe a grosseria de antes. A tensão aqui está insuportável.
De
resto,
opero com força de baterias. Fomos abalroados; perdemos
praticamente
toda tripulação e o módulo central está em escombros.
Apesar
da IA achar que está literalmente 'sangrando' - seu ciclo
lógico
entrou em memopausa -, minha operacionalidade está melhor que
se
espera, amigo. Ao menos disponho de grandes reservas de oxigênio e
alimento
até uma Operação de Resgate...
-
Fale de-va-gar, Renan... - afaguei meu seletor de idiomas/verbetes
para
qualquer emergência de lingüística. - Slow motion, please. O
português
não é minha 1ª língua, apesar de parecer dominá-lo bem.
"Sei
que sua situação e um caminhão de guano são correlatas, pura
titica,
contudo tenho boas e péssimas notícias..."
A
voz no outro lado berrou algo como 'outra vez...', mas continuei,
achando
ter ouvido mal. Algo plenamente explicável dada aquela maldita
música
ressoando nos bastidores de nossa conversa. Por quê não abafava
a câmara
de ressonância daquele treco?
-
Serei tão breve quanto possível, pois dependerá de você uma ação
rápida
e livre de evasivas para garantir sua própria sobrevivência.
Detalhe:
Esta é a boa-notícia.
Cortei
a ligação momentaneamente, fingindor realinhamento da
parabólica,
não dando chance dele me xingar. Estava velho demais pra
pensar
em mudar meu hábito de interromper as pessoas, se bem que,
naquele
caso, a coisa viesse a calhar.
Aproveitei
para melhor enquadrar a Constituição em minha tela de alta
resolução,
em amplitude máxima. Nada podia escapar ao scanner
delineador.
Meu satélite espião, deslocado para lá, mostrou-me aquilo
que
acabara de ser pincelado. Como futura Estação de Atracamento e
Transbordo
Terra-Fobos, trampolim de partida para a aguardada missão
brasileira
à Sirius B, a base não mais existia, comprometida devido a
extensão
enorme dos danos estruturais. Porém como sucata tinha um
futuro
deveras promissor.
-
Escute com atenção - o silêncio creditou fé no garoto,
apressando-me,
pois acabara de interceptar uma mensagem da base
norte-americana
com a Colônia Lunar. - Ainda que o aspecto geral seja
de
difícil entendimento, a explicação para seu estado é simples.
Sem
essa
de casualidade. Vocês foram também sabotados, daí deduz-se que
essa
porrada espacial que levaram não foi fortuita, porém fruto duma
premeditada
'estilingada' de grosso calibre. Se fosse você não
confiava
100% em minhas reservas de víveres. O próprio ar engarrafado
pode
conter outro gás, letal a curto prazo. Falando em não confiar,
suas
baterias portáteis devem estar descarregadas... O modus operandi
clássico
da Corporação especializada em guerra camuflada.
"Sinto
particularmente em relação a meus compatriotas, pois há dedo
norte-americano
nisso. Muito mais dedos que você imagina. O CIA, órgão
executor
do governo, não vê com bons olhos essa arrancada espacial
brasileira.
Se podem chegar à Sírius, nada os impediria de dar ordem
de
despejo à Casa Branca. Sei que a picuinha é absurda, mas é assim
que
eles pensam.
"Daí,
a péssima notícia é que um shuttle com navais vêm vindo, lançado
da
Moonlight. Creio que não vá querer estar aí, ou ficar de braços
cruzados,
quando aportarem, não é mesmo?''
-
Porra nossa que está no céu. Amaldiçoado o nosso inimigo.
Deixai-nos
cair
em tentação e não nos livrai duma boa briga. À merda! - rezou,
adepto
do credo da vingança, bastante popular no ateísmo pós-3a Guerra
Mundial.
- Cacete, você sabe 'sacudir' alguém, meu!
-
Disponha! - Não pude conter um sorriso perante aquele 'meu' que,
óbvio,
ele não viu - Não desanime ainda...
-
Como não desanimar!!!? Toda essa joça caindo aos pedaços, seis
corpos
retalhados, meus parceiros boiando como peças de gado no vácuo,
e um
pelotão de fuzilamento à caminho?? Nada disso é uma perspectiva
agradável!
- e pareceu recobrar alguma postura militar, quando
retornou:
- Nem sei o que estou dizendo. Estamos em paz. Não acredito
num
ato declarado de guerra assim.
- O
rótulo é outro: Queima de Arquivo. Óbvio, não sabem de meu
bedelho
aqui
e estou longe o suficiente para, infelizmente, poder ajudá-lo
como
gostaria.
"Usando
um pouco mais de cor para sua imaginação despertar,
literalmente
pegarão você e farão com que ande na prancha. Conhece a
história.
Menos um!! Uma garrafa de rum!!, aí liquidam os vestígios da
sabotagem,
coisas mínimas que passaram 'desapercebidas' do pessoal de
manutenção
da sua Barreira do Inferno. Vão forjar uma justificativa
feita
sob medida, para o abalroamento. Já até trazem isso decorado na
ponta
da língua. Mesmo a IA, do jeitão que diz estar paranóica com a
perda
dos dados como se perdesse sangue, não ajudará em nada em
qualquer
inquérito."
- Em
suma, e perdoe-me a expressão se você for algum purista: alguém
cagou
no pau!
-
Exactly!
Uma
alma pura era algo muito longínquo de minha natureza. Por ter
resistido
à confrontação com o medo, apesar de não haver certeza
alguma
disso, resolvi contrabalançar injetando-lhe um pouco de ânimo.
Estava
ficando especialista em milagres. Desde Cuba, quando era um
menino
remelento chamado Antônio Barrios Ortega, que não pensava muito
nesse
meu passado temente a Deus. E como nãio pensava, continuei não
pensando,
quando completei:
-
Mas não esqueça do poder de barganha...
A
voz dele, arrastada, entremeada de suspiros, encontrou novo alento.
- É!!!
Você se dirigirá às Nações Unidas!!! - saiu-se com isso.
- Não
mesmo - tempo de choque, operação balde frio. - Não que não
queira,
veja bem. Não posso! Estou incógnito aqui e vou continuar
assim.
Minha missão é outra, muito mais ampla que qualquer coisa que
possa
imaginar. Encontrá-lo, foi obra do acaso. Ajudá-lo, nesse caso é
um
ato que precisa ser muito bem pensado. Senão nem eu ou você
escapamos
dessa. Quem chega a cometer esse tipo de atentado não é
sujeito
de meias medias. Entende?
-
Ave Destruição, cheia de farpas, agora e na hora de nossa morte...
-
ia
ensaiar outra ladainha, porém seu abatimento ficou patente quando
disse:
- Voltamos (eu voltei!) à mesma merda...
-
Acorde, cara! - Declararia de vez o que tinha em mente. - Não posso
interceder
mas você tem um puta de um comunicador aí. Algo que prova,
novamente,
que a tão difundida eficácia ianque em planejamento não é
lá
tão eficaz assim. Seu rádio é sua vida. Use-o.
-
Você é que não entende. Contatar por socorro foi minha 1a
providência,
todavia, com a interdição da IA, a base-terra acha que
estou
brincando! Tentei até colocar os bofes pra fora e perder toda
comunicação
por uma disfunção qualquer.
-
Tentou porra nenhuma. Tentou na direção errada, tenente. Ainda não
colocou
sua massa cinzenta, verde e amarela, pra funcionar? SUA
BASE-TERRA
ESTÁ COMPRADA. Infiltrada nos escalões que realmente
decidem
alguma coisa. Esperavam algum sobrevivente no acidente, sim!,
e
aguardariam pacientemente que o mesmo tivesse necessidade de comer,
beber,
enfim, expusesse-se a qualquer de suas armadilhas. Para só
então,
talvez amanhã cedo, o mais tardar à noitinha, antes do check-up
orbital,
confirmar o extermínio de todos à bordo com um shuttle de
especialistas,
movidos pelo dogma da caridade ao constatarem algo de
errado
com seus aliados brasileiros da Estação Orbital. Blá-blá-blá.
"Note
bem: Técnicos em lugar de Killers. A fachada costumeira."
- Não
pode sustentar isso! Meu corpo, contaminado por qualquer agente
patogênico,
após autopsiado acusari...
Sua
hesitação e interrompimento próprios deu-me a certeza que
finalmente
chegara à iluminação. Já era hora!
- Dá
pra ouvir daqui sua cachola funcionando. Deve lembrar-se o que
reza
o polêmico caput 34º do acordo firmado entre as nações
signatárias
das novas Leis Espaciais. Algo como "...qualquer corpo,
encontrado
morto, à deriva ou embarcado, deverá ser desintegrado antes
de
qualquer contato atmosférico, guardado todo ritual... Foi
maquiavélico
incluir isso no acórdão contra microorganismos oriundos
do
espaço, usando o incidente de 2008, na África e Oceania, como bode
expiatório.
Equipes de legistas são dispendiosas para executarem uma
minuciosa
autópsia em órbita. Mesmo com gravidade artificial...
Não
precisei prosseguir. Falara até o que era supérfluo. Ele entendera
bem
o recado. Poderia dar postumamente uma pista da causa mortis, mas,
como
átomos dissociados no vácuo, seu futuro era tão incerto quanto às
míticas
almas.
Dei-lhe
meu último presente. Depois do episódio com Márcia, sentia-me
quase
como a encarnação do bom velhinho...
-
Você tem cerca de quarenta minutos pela frente, se tanto. Seu
contato
por rádio com a base alertou-os prematuramente. Todavia posso
ajudá-lo
de outra forma, disponibilizando meu spy-fly, no
comprometimento
de suas antenas de médio e longo alcance. Cabe a você
escolher
se lança um aviso for all, tipo SOS coast-to-coast
(provocando
uma inevitável e grave crise diplomática), ou tenta uma
coisa
mais sutil e bem mais proveitosa em termo de barganha para seu
povo,
através de outros canais. Vocês sabem fazer isso melhor do que
ninguém.
Terá êxito de uma forma ou de outra, em qualquer de suas
opções.
Pode até acabar, se for do seu interesse, comandante da
expedição
à Sírius. Está em suas mãos o que fazer com isso...
Pude
ouvi-lo engolir em seco, antes dele responder, mostrando medo,
porém
também ambição:
-
Estou curioso, meu. O que têm em mente?
-
Greenwich.
Um
momento, um estalo. Ele percebera a profundidade de minha retórica,
fazendo
reverberar aquele tapa na testa que melhorou um bocado o ritmo
impróprio
de 'K.C....', quando o mais adequado seria talvez um yeh yeh
yeh
no-gospel do momento, o polêmico e satírico 'Everbory, Jesus Fuck
Me...'
- É
claro, como não pensei nisso? O velho truque do aviso à Central
Mundial
de Mudança de Data!! - exultou, parecendo um personagem cult,
um
Maxwell Smart do Terceiro Mundo ressurgido das cinzas.
***
Claro
que chequei. O presidente estadunidense estava lá em Greenwich
Bay,
junto com partes significativas de sua comitiva e várias patentes
e
dirigentes de estado (incluindo o Brasil), numa solenidade mundial,
com
a instituição do Horário Sideral Unificado, o 25º paralelo.
Senti-me
como uma Madre Calcutá de calças. Duas intervenções benignas
num
só dia. Mandariam meu nome para o Guiness Book?
-
Good Luck, Buena Suerte, Arivederci, Tchau,...,! - disse, a título
de
adeus poliglota, na eventualidade de alguém estar monitorando.
Com
o transdutor aquilo era um receio sem o menor risco de ocorrer,
mas
não resisti a ironia 'erudita' da situação.
Deixei
propositalmente de revelar que, após a decisão do brasileiro
(ainda
tinha vinte e cinco minutos para se decidir), a Terra ficaria
com
uma ilha a menos e uma dor de cabeça a mais, ao receber uma
mensagem
de áudio que estavam sendo atacados por predadores
alienígenas.
Eu até tinha a gravação pronta, cheia de sonoplastia, no
compartimento
que pulsava a minha frente. O novo H.G. Wells na Guerra
dos
Imundos. O que pensariam as gerações futuras daquela minha
encenação
para unificar a inumanidade?
3
A cúpula
da Milícia faria um sepuku em massa se soubesse que acabara
de
perder uma chance assim de lançar o mundo escadaria abaixo na
direção
do térreo de suas vaidades. O 3º Milênio, numa Economia de
Guerra,
pensava vicejar qual mosca varejeira na merda: voejariam de
fossa
em fossa, espalhando seus ovos, eclodindo suas 'verdades' nas
faces
criminosas da humanidade. Os recalcados militantes eram tão
pueris.
Mortalmente capazes das maiores atrocidades, porém ainda assim
infantis;
exemplo disso era sua total confiança em minha incondicional
rendição
aos seus dogmas.
Hipócritas,
todos nós somos.
Tinha
meus próprios métodos e objetivos. Apátrida finalmente!
Acabara
de mover um pequeno peão para uma posição estratégica junto ao
gigante
americano, perturbando-o, mas não ferindo-o de forma alguma
(só
seu orgulho saia lascado, o que pra mim bastava). Minha jogada não
fora
tão previsível quanto um ataque frontal ao Rei, mas um exercício
de
paciência no xadrez do universo.
Paciência
e Oportunismo.
Qual
o homem que não sonharia alisar o próprio dorso curvilíneo de
Afrodite
se tal oportunidade se lhe apresentasse, almejando aquela
fenda
úmida e cálida por dentro?
Que
as Fúrias e as Parcas venham. Tenho algo esperando por elas.
Dentro
da nave que capturei do Bill Gates Group, que pensavam usá-la
para
espalhar a supremacia americana na galáxia, estou determinado a
prosseguir,
satisfeito que o bispo da rainha, que simbolizava o
verdadeiro
poder, tenha recebido um novo revés.
Xeque!
Acionei
os propulsores de vácuo e segui pra nunca mais voltar.
(Nota
do Servidor Master: relato extraído de uma bóia sinalizadora,
capturada
à deriva nas coordenadas 12323762-00-#68)
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