O Livro

 Denis de Oliveira Pinho

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0105]
[Autor:
Denis de Oliveira Pinho]
[Título: O Livro]
[Gênero: Terror]
[Número de Palavras: 1.420]

Não sou parapsicólogo, não sou mago, não sou filósofo,
nem sou vidente, sou uma pessoa normal assim como vocês,
só tenho uma coisa que me diferencia, uma experiência
anormal, por isso me dei o direito de lhes dar um
conselho: Nunca brinque com algo que você não conhece ou
nunca estudou profundamente à respeito.

Meu nome é Denis, vou relatar esse acontecimento que
mudou minha forma de pensar, acredite quem quiser, só
estou fazendo minha parte em contar.

Sempre gostei muito de filmes e livros de terror, enfim,
tudo o que fosse relacionado à esse gênero, além disso
minha paixão sempre foi desenhar, e nem preciso
mencionar qual era o tema da maioria das minhas obras.

Entrei na Biblioteca Poe, num bairro vizinho ao meu,
edifício muito simples e atordoado pelos tempos, mas
sempre a frequentei, pela excelente quantidade e
qualidade de livros de terror e mistérios.

Lá estava o Sr. Draug, ou melhor Oãi Draug, todos o
chamavam pelo segundo nome, ninguém entendia que origem
tinha nome tão gozado, pois bem, estava lá ele em sua
velha escrivaninha, anotando os livros que iam e vinham
de seu humilde estabelecimento.

- Boa tarde, Sr. Draug.

Ele fitou-me com aqueles olhos desconfiados, que
mostravam ter tanta experiência e que já haviam visto
muita coisa durante a longa vida de aparentemente
setenta anos do velho Draug - Oi, Denis - disse ele
pegando meus livros que vinha devolver . Nunca me
impressionei com aquele ar sombrio em seu rosto, era
realmente um sujeito estranho, mas para muitos eu também
não era muito normal.

Fui dar uma olhada nas prateleiras, em busca de mais um
livro para passar minhas noites vagas, já havia lido a
maioria ali. Existia uma fileira, em que eu não
conhecera nenhum daqueles empoeirados seres, na parte
superior do armário tinha uma etiqueta escrito "NÃO
CIRCULANTE", significava que não podíamos levar para
casa, então porque estavam ali? Só para as pessoas
passarem vontade? Pensei. Nem comprá-los podíamos.
Fiquei curioso e resolvi averiguar o que tinha de tão
especial naqueles livros.

Peguei um de capa preta, sem título, pesado, todo
empoeirado, folheei, folhas corroídas, devia ser muito
antigo, sem muitas figuras, apenas alguns pentagramas.
Comecei a ler algumas partes, falava alguma coisa sobre
rituais, criaturas, magia...foi quando um parágrafo me
chamou mais atenção: "DIANTE DE LIVRO TÃO PODEROSO, TÃO
SÁBIO E POSSUIDOR DE  PALAVRAS SAGRADAS, TENS AGORA A
CAPACIDADE DE ANIMAR AS FANTASIAS CONTIDAS NO SEU
PENSAMENTO". Soltei um leve sorriso.

Me interessava por esses livros, mas não acreditava no
sobrenatural, no que meus olhos nunca tinham visto, hoje
reconheço que a nossa realidade é a verdadeira mentira,
e o que parece estar além da realidade é o que devemos
levar em conta.

Não dei crédito a essas palavras, entretanto fiquei
curioso em saber o que dizia nele. Levei-o ao Sr. Draug,
para anotar o nome do livro, meu nome e todo aquele
esquema de sempre. Quando o coloquei à frente do velho,
o cara arregalou os olhos, ficou meio que de pé, pôs a
mão sobre o tal, olhando-me, e de repente voltou à
posição que estava.

- Este livro não pode sair daqui, jovem - disse ele
agora muito calmo.

- Ah! Desculpa, eu esqueci... vou procurar outro.

Havia esquecido disso, mas não me conformava fácil,
graças à tarde gélida que predominava naquele dia de
inverno, eu estava muito bem agasalhado e ninguém
perceberia se eu colocasse alguma coisa sob minhas duas
blusas, foi o que fiz, peguei um outro só por disfarce e
me mandei daquela biblioteca.

Já em casa, esperei anoitecer, quando meu pai, minha
mãe, meu irmão e até meu inocente cão dormiram, peguei o
livro que estava entre outros e comecei a ler.

Tinha a mania de ler à noite, sozinho, no silêncio,
achava mais emocionante.

Procurei logo, a página que estava escrito aquela frase
e li o que dizia em frente - "VOCÊ, QUE POSSUI O DOM DA
ARTE, EM SUAS DIVERSAS FORMAS, PODERÁ DAR VIDA ÀS SUAS
CRIAÇÕES, UMA PINTURA, UMA ESCULTURA, QUALQUER QUE SEJA
SEU MÉTODO DE EXPRESSÃO, DA SEGUINTE MANEIRA: COLOQUE
SUA MÃO DIREITA SOBRE A OBRA E DIGA ESTAS PALAVRAS: ÃTA
SE DEMON ME..." - Não vou citar as últimas palavras para
não resultar em problemas, e até mesmo porque não
lembro. Continuei lendo - "A CRIATURA SÓ TERÁ VIDA NAS
TREVAS, ENQUANTO TODOS DORMEM..."Fechei o livro com
desprezo. Como podia ter tanta asneira em seu conteúdo?
Pensei. Gostava de livros inteligentes, cultos, não esse
disparate. Num momento de zombaria pus minha mão direita
sobre um desenho meu, este era um auto-retrato,
surrealista, minha figura estava transformando-se em um
ser monstruoso, repeti as palavras, e caí na risada.

Já era tarde da noite, me entreguei ao sono e fui dormir.

Senti meus ossos crescendo, nascendo pêlos por toda
parte do meu corpo, levantei da cama e me olhei no
espelho. Estava me transformando numa criatura horrenda,
era grande, peluda, tinha enormes dentes e garras,
possuía uma fileira de chifres, que iniciava no meio da
testa e concluía na nuca, tinha também dois galhos na
cabeça, babava feito um cão raivoso, meus olhos tinham a
cor do sangue, minha roupa toda se rasgou na mutação,
então, ouvi um barulho, desconfiei ser minha mãe, que
costumava levantar-se na madrugada e tomar um copo de
leite. - Denis, está acordado? - ouvi sua voz, ainda na
cozinha e... Neste momento perdi os sentidos.

Acordei, olhei ao redor, olhei para meu corpo nu embaixo
da coberta, lembrei  do horrível pesadelo que tive, tão
real e assustador, mas apenas um pesadelo, um terrível
pesadelo, vesti uma roupa, afinal eram dias frios
aqueles, naquele momento não entendi porque dormi sem
vestimentas, nunca fazia isso, saí do quarto, passei
pela estreita sala de visitas, quando cheguei à cozinha,
presenciei uma cena dolorosa, não me sinto bem só de
lembrar, mas havia sangue por todo o chão, espirrado nas
paredes, e no pé da pia estava o corpo da minha mãe
(reconheci pelas roupas), estraçalhado, ensanguentado,
sem o crânio, vomitei, não podia acreditar, aquilo não
podia ser possível, corri para o quarto de meus pais, e
lá estava o corpo do meu pai, nada diferente, também lhe
fora arrancado a cabeça, fui ao quarto do meu irmão, a
mesma situação, além dele, estar morto, meu cachorro
também estava, mas não lhe arrancaram nenhuma parte,
havia marcas de sangue na parede, como se o animal
tivesse sido jogado por uma coisa muito forte. Lembrei
que, em meu desenho, fizera vários crânios ao lado da
minha figura em transformação.

Então era verdade, pensei, não havia sonhado, era a
mais pura e apavorante realidade, chorei
desesperadamente, chorei com o coração, o que podia
fazer? Ninguém acreditaria em mim, iam me acusar, estava
enlouquecendo, a imagem da minha família morta, pelas
minhas mãos, não saiam da minha cabeça, e logo, ao
anoitecer, me transformaria de novo, cometeria novos
assassínios. Sem ter o que fazer, já à beira da loucura,
decidi que não tinha o direito de acabar com mais
nenhuma vida, ninguém iria morrer pela minha pessoa,
decidi cometer suicídio. Peguei um facão, afiado, na
cozinha, encostei-o no meu peito, pretendia correr em
direção à parede, o impacto provocaria a penetração no
meu corpo, quando...

-       Não faça isso! - gritou o Sr. Draug, entrando
pela porta, sem se impressionar com os cadáveres na
casa. - Não cometa esse erro! Eu vi o lugar do livro
preto vazio, e imaginei o que estava se passando, ainda
bem que cheguei à tempo...

- O que eu vou fazer, porra?! - interrompi gritando.

- Eu tenho a solução! Largue a faca, e me dê o livro.

Corri para busca-lo, e entreguei-o. O velho o folheava
com muita paciência.

- Ah! Está aqui! - disse.

- O quê?! O quê?!

Me deu o livro e mandou-me ler uma frase, ali escrita:
"SUE DE DEMON ME..."e alguma coisa mais, nesta momento
perdi os sentidos.

Estava entrando na biblioteca Poe, avistei o Sr. Draug,
ele sorriu para mim, me lembrei de tudo, olhei para a
prateleira dos livros não circulantes que estava vazia,
olhei para Oãi Draug, ele disse:

- Eu queimei todos os livros daí.

Saí correndo daquela livraria, em direção à minha casa,
cheguei e abracei, com os olhos lacrimejados, toda minha
família. Aquele livro de alguma maneira, me deu outra
chance, me voltou no tempo.

- Porque está tão sorridente, menino?

-      Nada  mãe, só tava pensando em como é bom, passar
o dia no lar, com minha família.

   

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