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Não
sou parapsicólogo, não sou mago, não sou filósofo,
nem
sou vidente, sou uma pessoa normal assim como vocês,
só
tenho uma coisa que me diferencia, uma experiência
anormal,
por isso me dei o direito de lhes dar um
conselho:
Nunca brinque com algo que você não conhece ou
nunca
estudou profundamente à respeito.
Meu
nome é Denis, vou relatar esse acontecimento que
mudou
minha forma de pensar, acredite quem quiser, só
estou
fazendo minha parte em contar.
Sempre
gostei muito de filmes e livros de terror, enfim,
tudo
o que fosse relacionado à esse gênero, além disso
minha
paixão sempre foi desenhar, e nem preciso
mencionar
qual era o tema da maioria das minhas obras.
Entrei
na Biblioteca Poe, num bairro vizinho ao meu,
edifício
muito simples e atordoado pelos tempos, mas
sempre
a frequentei, pela excelente quantidade e
qualidade
de livros de terror e mistérios.
Lá
estava o Sr. Draug, ou melhor Oãi Draug, todos o
chamavam
pelo segundo nome, ninguém entendia que origem
tinha
nome tão gozado, pois bem, estava lá ele em sua
velha
escrivaninha, anotando os livros que iam e vinham
de
seu humilde estabelecimento.
-
Boa tarde, Sr. Draug.
Ele
fitou-me com aqueles olhos desconfiados, que
mostravam
ter tanta experiência e que já haviam visto
muita
coisa durante a longa vida de aparentemente
setenta
anos do velho Draug - Oi, Denis - disse ele
pegando
meus livros que vinha devolver . Nunca me
impressionei
com aquele ar sombrio em seu rosto, era
realmente
um sujeito estranho, mas para muitos eu também
não
era muito normal.
Fui
dar uma olhada nas prateleiras, em busca de mais um
livro
para passar minhas noites vagas, já havia lido a
maioria
ali. Existia uma fileira, em que eu não
conhecera
nenhum daqueles empoeirados seres, na parte
superior
do armário tinha uma etiqueta escrito "NÃO
CIRCULANTE",
significava que não podíamos levar para
casa,
então porque estavam ali? Só para as pessoas
passarem
vontade? Pensei. Nem comprá-los podíamos.
Fiquei
curioso e resolvi averiguar o que tinha de tão
especial
naqueles livros.
Peguei
um de capa preta, sem título, pesado, todo
empoeirado,
folheei, folhas corroídas, devia ser muito
antigo,
sem muitas figuras, apenas alguns pentagramas.
Comecei
a ler algumas partes, falava alguma coisa sobre
rituais,
criaturas, magia...foi quando um parágrafo me
chamou
mais atenção: "DIANTE DE LIVRO TÃO PODEROSO, TÃO
SÁBIO
E POSSUIDOR DE PALAVRAS SAGRADAS, TENS AGORA A
CAPACIDADE
DE ANIMAR AS FANTASIAS CONTIDAS NO SEU
PENSAMENTO".
Soltei um leve sorriso.
Me
interessava por esses livros, mas não acreditava no
sobrenatural,
no que meus olhos nunca tinham visto, hoje
reconheço
que a nossa realidade é a verdadeira mentira,
e o
que parece estar além da realidade é o que devemos
levar
em conta.
Não
dei crédito a essas palavras, entretanto fiquei
curioso
em saber o que dizia nele. Levei-o ao Sr. Draug,
para
anotar o nome do livro, meu nome e todo aquele
esquema
de sempre. Quando o coloquei à frente do velho,
o
cara arregalou os olhos, ficou meio que de pé, pôs a
mão
sobre o tal, olhando-me, e de repente voltou à
posição
que estava.
-
Este livro não pode sair daqui, jovem - disse ele
agora
muito calmo.
-
Ah! Desculpa, eu esqueci... vou procurar outro.
Havia
esquecido disso, mas não me conformava fácil,
graças
à tarde gélida que predominava naquele dia de
inverno,
eu estava muito bem agasalhado e ninguém
perceberia
se eu colocasse alguma coisa sob minhas duas
blusas,
foi o que fiz, peguei um outro só por disfarce e
me
mandei daquela biblioteca.
Já
em casa, esperei anoitecer, quando meu pai, minha
mãe,
meu irmão e até meu inocente cão dormiram, peguei o
livro
que estava entre outros e comecei a ler.
Tinha
a mania de ler à noite, sozinho, no silêncio,
achava
mais emocionante.
Procurei
logo, a página que estava escrito aquela frase
e li
o que dizia em frente - "VOCÊ, QUE POSSUI O DOM DA
ARTE,
EM SUAS DIVERSAS FORMAS, PODERÁ DAR VIDA ÀS SUAS
CRIAÇÕES,
UMA PINTURA, UMA ESCULTURA, QUALQUER QUE SEJA
SEU
MÉTODO DE EXPRESSÃO, DA SEGUINTE MANEIRA: COLOQUE
SUA
MÃO DIREITA SOBRE A OBRA E DIGA ESTAS PALAVRAS: ÃTA
SE
DEMON ME..." - Não vou citar as últimas palavras para
não
resultar em problemas, e até mesmo porque não
lembro.
Continuei lendo - "A CRIATURA SÓ TERÁ VIDA NAS
TREVAS,
ENQUANTO TODOS DORMEM..."Fechei o livro com
desprezo.
Como podia ter tanta asneira em seu conteúdo?
Pensei.
Gostava de livros inteligentes, cultos, não esse
disparate.
Num momento de zombaria pus minha mão direita
sobre
um desenho meu, este era um auto-retrato,
surrealista,
minha figura estava transformando-se em um
ser
monstruoso, repeti as palavras, e caí na risada.
Já
era tarde da noite, me entreguei ao sono e fui dormir.
Senti
meus ossos crescendo, nascendo pêlos por toda
parte
do meu corpo, levantei da cama e me olhei no
espelho.
Estava me transformando numa criatura horrenda,
era
grande, peluda, tinha enormes dentes e garras,
possuía
uma fileira de chifres, que iniciava no meio da
testa
e concluía na nuca, tinha também dois galhos na
cabeça,
babava feito um cão raivoso, meus olhos tinham a
cor
do sangue, minha roupa toda se rasgou na mutação,
então,
ouvi um barulho, desconfiei ser minha mãe, que
costumava
levantar-se na madrugada e tomar um copo de
leite.
- Denis, está acordado? - ouvi sua voz, ainda na
cozinha
e... Neste momento perdi os sentidos.
Acordei,
olhei ao redor, olhei para meu corpo nu embaixo
da
coberta, lembrei do horrível pesadelo que tive, tão
real
e assustador, mas apenas um pesadelo, um terrível
pesadelo,
vesti uma roupa, afinal eram dias frios
aqueles,
naquele momento não entendi porque dormi sem
vestimentas,
nunca fazia isso, saí do quarto, passei
pela
estreita sala de visitas, quando cheguei à cozinha,
presenciei
uma cena dolorosa, não me sinto bem só de
lembrar,
mas havia sangue por todo o chão, espirrado nas
paredes,
e no pé da pia estava o corpo da minha mãe
(reconheci
pelas roupas), estraçalhado, ensanguentado,
sem
o crânio, vomitei, não podia acreditar, aquilo não
podia
ser possível, corri para o quarto de meus pais, e
lá
estava o corpo do meu pai, nada diferente, também lhe
fora
arrancado a cabeça, fui ao quarto do meu irmão, a
mesma
situação, além dele, estar morto, meu cachorro
também
estava, mas não lhe arrancaram nenhuma parte,
havia
marcas de sangue na parede, como se o animal
tivesse
sido jogado por uma coisa muito forte. Lembrei
que,
em meu desenho, fizera vários crânios ao lado da
minha
figura em transformação.
Então
era verdade, pensei, não havia sonhado, era a
mais
pura e apavorante realidade, chorei
desesperadamente,
chorei com o coração, o que podia
fazer?
Ninguém acreditaria em mim, iam me acusar, estava
enlouquecendo,
a imagem da minha família morta, pelas
minhas
mãos, não saiam da minha cabeça, e logo, ao
anoitecer,
me transformaria de novo, cometeria novos
assassínios.
Sem ter o que fazer, já à beira da loucura,
decidi
que não tinha o direito de acabar com mais
nenhuma
vida, ninguém iria morrer pela minha pessoa,
decidi
cometer suicídio. Peguei um facão, afiado, na
cozinha,
encostei-o no meu peito, pretendia correr em
direção
à parede, o impacto provocaria a penetração no
meu
corpo, quando...
-
Não faça isso! - gritou o Sr. Draug, entrando
pela
porta, sem se impressionar com os cadáveres na
casa.
- Não cometa esse erro! Eu vi o lugar do livro
preto
vazio, e imaginei o que estava se passando, ainda
bem
que cheguei à tempo...
- O
que eu vou fazer, porra?! - interrompi gritando.
- Eu
tenho a solução! Largue a faca, e me dê o livro.
Corri
para busca-lo, e entreguei-o. O velho o folheava
com
muita paciência.
-
Ah! Está aqui! - disse.
- O
quê?! O quê?!
Me
deu o livro e mandou-me ler uma frase, ali escrita:
"SUE
DE DEMON ME..."e alguma coisa mais, nesta momento
perdi
os sentidos.
Estava
entrando na biblioteca Poe, avistei o Sr. Draug,
ele
sorriu para mim, me lembrei de tudo, olhei para a
prateleira
dos livros não circulantes que estava vazia,
olhei
para Oãi Draug, ele disse:
- Eu
queimei todos os livros daí.
Saí
correndo daquela livraria, em direção à minha casa,
cheguei
e abracei, com os olhos lacrimejados, toda minha
família.
Aquele livro de alguma maneira, me deu outra
chance,
me voltou no tempo.
-
Porque está tão sorridente, menino?
-
Nada mãe, só tava pensando em como é bom, passar
o
dia no lar, com minha família.
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