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Teodoro
Bezerra estava deitado ao lado de sua Sinhá
Vitória
quando o relógio da sala bateu duas da
madrugada.
Aquela cena seria perfeitamente comum em
outras
circunstâncias. Explica-se: Teodoro Bezerra era
casado
com Sinhá Vitória para mais de trinta anos, e há
trinta
anos o relógio da sala batia sem atraso ou
adiantamento.
A
circunstância especial dessa noite, no entanto, é que
o
velho Teodoro estava com as butucas dos olhos muito
abertas
quando deu-se o badalo, e mais: por debaixo da
coberta,
no escondido dos lençóis, seus pés estavam
calçados
e bem calçados.
Teodoro,
de botas novas, ouvia o bléing-bléing do
relógio
e mantinha-se imóvel. Por dentro, estava
inquieto.
Nunca que devia ter prometido coisa alguma ao
desgovernado
daquele Feliciano. Nunca que devia ter
aceitado
uma maluquice daquelas. Levantar-se nas horas
frias
da madrugada e caminhar em direção ao rio... E
para
quê! Quanto mais pensava mais sentia um comichão de
ódio
brotar naquele seu peito duro, calejado da vida.
Porque
a vida lhe calejara, sim senhor. Fizera-lhe ver
que
nada brota de nada e que tudo se consegue com
trabalho
e espírito de conquista. Era devido àquele
espírito
que ele tinha agora aquela casa, que era o teto
para
sua velhice. Por causa desse seu feitio é que
fizera-se
respeitado no lugarejo. As gentes o
cumprimentavam
quando passava, de braço dado com a
Sinhá.
Não era rico, mas tinha lá seus dobrões...
Enquanto
que o infeliz do Feliciano... Um pobre diabo
que
nunca que teve sorte de ter qualquer coisinha que se
orgulhar.
Um naco de terra, um teto para chuva. Nem
mulher,
conseguira. Sempre de galho em galho. Se ainda o
galho
fosse dele, vá lá... O ponto é que eram sempre
galhos
alheios, e Teodoro achava que, na vida, cada um
devia
cuidar do seu pomar.
E
era justamente aquele homem que o fazia ficar assim
nas
horas tardias, de olho abotucado. O comichão então
aumentou,
fez-se forte, e ele teve ímpetos de tirar
bota,
roupa e cair enfim no sono que era seu e que lhe
estavam
roubando. Tinha muito isso de achar que roubavam
o
que era seu. Mas o fato é que o sono não viria, mesmo
que
fizesse o que tencionava. E além do quê, tinha medo,
receio
de acordar a Sinhá.
"Se
me pega agora, a velha me capa", disse muito para
consigo,
como se orasse.
Então,
pela primeira vez, sem saber que rumo tomar,
Teodoro
Bezerra deixou-se ficar ali, embaixo dos
lençóis,
aguardando a hora em que Feliciano viria buscá-
lo.
E nessa espera, remoeu a conversa que teve com o
infeliz
quando era ainda dia claro.
-
Salve o compadre Teodoro! Que Deus o tenha em sua
Santa
Graça!
-
Olhe bem o senhor que não tenho dinheiro aqui comigo...
-
Mas que dinheiro, qual nada, seo Bezerra - replicou
Feliciano
afogando o outro nos seus braços magros -
Dinheiro
é para quem não tem amor.
-
Pensei que fosse me pedir algum, tão prestimoso que
estava
- prosseguiu Teodoro, conseguindo desvencilhar-
se
- Mas não desfaça do dinheiro. Sem ele não comprava a
cachaça
que o senhor acaba de beber, que pelo hálito não
foi
pouca.
-
Ah, a bebida não posso negar, meu compadre. Bebi, é
certo.
Mas essa foi em comemoração ao dia de hoje... - e
piscou
o olho.
Teodoro
olhou o outro com ar que mistura dúvida e
desdém.
Ainda assim indagou:
-
E que dia é hoje, pode lá se saber? Algum santo?
-
Santo algum, seo Bezerra. Nem bem é certo dizer dia,
mas
noite. Madrugada, é ainda melhor.
-
Pois homem de respeito não passeia de madrugada -
sentenciou
Teodoro mostrando-lhe a sua pior carranca.
Feliciano
olhava-o sorrindo, e foi sorrindo que tocou-
lhe
o ombro:
-
Pois vou dizer a vossa senhoria que, nessa madrugada,
muito
homem de respeito andava, se soubesse o que eu sei.
-
E que sabe o senhor? - indagou Teodoro.
Feliciano
deu dois passos para frente, olhou em volta e,
como
quem fosse contar a data do final dos tempos,
murmurou:
-
É noite de lua cheia, compadre. - e como se explicasse
tudo:
- Madrugada de Quinta para Sexta...
Teodoro
mirou-o por um momento achando que ainda
estivesse
sob a ação do álcool.
-
O senhor não entende, não é? - Feliciano parecia
divertir-se
- Eu vou explicar. É que, para os lados do
Engenho
Velho, pertinho da nascente do riozinho, dá
sereia.
Nenhuma
resposta daquele pobre diabo poderia deixar o
velho
Bezerra tão desconcertado. Crê-se que aprumou o
corpo,
endireitou a gola e, como para desafoguear,
berrou:
-
E por que não pula o senhor nesse rio? Garanto que
saía
ligeirinho dessa carraspana! Valha-me Deus! Só diz
abobrinhas.
Dessa
vez Feliciano mirou-o seriamente. Falou, como se
falasse
a uma criança:
-
Mas o senhor é desenformado mesmo, ein, seo Bezerra?
Então
não estou dizendo que é assim que acontece. Pois
se
eu mesmo vi...
-
Ah, mas o senhor ver, eu até compreendo. Vive aí de
cair
pelos cantos. Uma vida sem prumo. Agora, querer que
eu
acredite numa história assim. Sereia! É bom!
-
Seo Bezerra não acredita em gente do outro mundo? -
Feliciano
indagou, como se sentisse o absurdo que falava
o
outro - Nunca que viu mulinha de padre? Nunca que
sentiu
o cheiro de ururau pelas estradas da vida?
Teodoro
Bezerra nunca havia visto ururau nem mulinha
nenhuma.
Enxugou a testa que estava molhada e
pronunciou,
com voz de doutor, ainda que nunca tivesse
sentado
em banco de escola:
-
Crendices, tudo crendices dessa gente sem estudo,
homem.
Só acredito no que vejo.
-
Ouvi dizer que também havia um desses como vossa
senhoria
quando Nosso Senhor esteve na Terra. - disse-
lhe
Feliciano calmamente.
-
E que tem? Você não há de misturar Nosso Senhor com...
-
Não misturo nada, seo Bezerra. Não sou homem de briga.
O
que eu disse está desdito, não é preciso apoquentar.
Mas
é pena. Vossa Senhoria gostava do que eu vi no rio.
Teodoro
pegou no braço ossudo de Feliciano. Perguntou
com
firmeza:
-
Escuta: tem uma sereia mesmo lá?
-
Uma não - fez Feliciano piscando de novo - Um monte
assim.
"Um
monte assim". Aquela frase não lhe saía da cabeça.
Foi
por causa dela que se deixara levar por aquele
desgovernado.
Foi por causa dela que aceitara que o
outro
passasse por sua varanda quando o relógio da sala
marcasse
duas e um quarto de madrugada, nem mais nem
menos.
-
Não vá se atrasar, veja lá.
-
E eu lá sou homem de faltar a compromisso? - fez
Feliciano
realmente sentido, e crente no que dizia.
Mas
o fato é que, pelas contas de Teodoro, as duas e um
quarto
já se haviam esgotado há muito nas areias do
tempo.
Pelas suas contas, já o ponteiro grande do
relógio
da sala devia estar perto do VI...
"Tratante.
Mascarado. Beberrão". Foram as palavras que
Teodoro
Bezerra conseguiu encontrar para descrever o que
sentia
por Feliciano, que não chegavam. E se não as
pronunciava
alto era por cuidado. Sabia lá o que Sinhá
Vitória
diria se descobrisse...
Estava
já dizendo para si que o melhor era aquele mesmo,
nada
de invencionices noturnas, nada de histórias de
sereias,
nada. E que tinha ele, um homem de sua idade, o
cabelo
agrisalhando-se, a barriga aquilatando-se, por
que
não dizer, ficando velho, sair na madrugada fria em
busca
de uma sandice sem tamanho daquelas.
Estava
já tentando se convencer de que era aquela mesmo
a
verdade, quando ouviu. Um pio de coruja, um pio muito
estranho,
é verdade, mas estava de acordo. Era o sinal
que
aguardava.
Sem
o menor ruído, deixou a cama quente. As botas
fizeram
o som seco de quando tocam o chão, mas depois
calaram-se.
Pé-ante-pé Teodoro Bezerra deixou sua Sinhá
e
suas outras posses entregues ao sono.
Lá
fora, encontrou a coruja sentada no degrau da varanda.
-
Demorou-se.
-
Que achou de minha imitação? - indagou Feliciano, os
olhos
muito vermelhos.
-
Não sabia que ave agourenta tinha bafo de cachaça -
falou-lhe
Teodoro mostrando-lhe uma carranca ainda pior
que
a da manhã.
-
Ah, foi para aquecer do frio, vossa senhoria
entenda...
Faz um frio dos diabos e eu só tenho este
casaco.
-
Bem surrado, por sinal. - fez Teodoro inspecionando-o
por
alto - Mas vamos, não quero ficar a madrugada toda
aqui
fora.
Feliciano
deu-lhe uma pequena cutucada com o cotovelo:
-
Valerá cada minuto, seo Bezerra.
-
Veremos.
Começaram
a caminhar em silêncio pela noite em fora.
Sobre
eles, uma lua enorme estava indecisa sobre se saía
ou
não.
Em
um trecho da caminhada, Teodoro indagou:
-
Que teve o senhor de chamar justo a mim para vir com o
senhor?
Feliciano
fitou-o longamente e disse:
-
É que achei que vossa senhoria haveria de ser a pessoa
certa
para me acompanhar...
-
Como é? - Teodoro parecia não compreender.
Feliciano
baixou então a cabeça e disse, a cara vermelha
e
ossuda dissimulada pela noite:
-
É o que lhe digo, seo Bezerra. Da última vez que fui
até
a nascente do Engenho Velho e vi as sereiazinhas
brincarem
no meio da bruma da outra margem... Meu Deus!
Que
vontade, que vontade que tive de correr até elas, de
me
aproximar, entrar naquela bruma e me perder por ali
para
nunca mais... O senhor entenda... não tenho família
que
me espere, minha gente ou morreu ou está distante.
Só
restou eu, e eu valho pouco nesse mundo... Talvez por
lá...
Na outra margem...
-
Pare com isso, homem - berrou Teodoro no meio da
madrugada
- Que tem que falar essas coisas. Logo se vê
que
não está sóbrio. Veja só... Entrar na água fria numa
hora
morta como essa... E ali o rio já se faz por demais
traiçoeiro.
-
É por causa disso - prosseguiu Feliciano sério - Que
conto
com o senhor. Valha-me Deus, não permita que me
levem.
Teodoro
manteve-se calado um momento. Depois falou em
tom
jocoso, como para amenizar o que o outro dissera:
-
Pois eu tenho cá idéia melhor. Levamos essas sereias,
essas
de que o senhor fala, para morar conosco em terra.
Damo-lhes
casa e comida, e ainda algum estudo... Que
acha?
Feliciano
deu foi um riso:
-
Seo Bezerra é homem de muito siso, mas pouco senso!
Então
não vê que a gente de lá não consegue viver por
cá?
Que não tem jeito de se adapetar a nossa vida? E
além
do mais, que poderia eu oferecer a elas, além de um
pilequezinho,
de quando em vez?
-
Mas eu tenho posses. - interrompeu-o Teodoro - Não
passariam
fome. Fome, não!
-
E Sinhá Vitória, que diria? - replicou Feliciano -
Diria
é não, e o senhor voltava com as pobres para o
rio,
com o rabo das pobres entre as suas pernas.
Teodoro
ia era retrucar pesado, quando se deu conta que
haviam
chegado. Logo depois daquele punhado de arbustos,
ficava
a nascente do Engenho Velho.
-
E agora? - o velho Bezerra indagou.
-
Agora seguimos em frente. - respondeu Feliciano.
-
Então vá.
-
O senhor me siga bem junto. E em silêncio
Entraram
os dois no matagal escuro e úmido. Teodoro
tinha
aquelas botas pesadas, estalando de novas, mas
Feliciano
andava sobre a sola dos pés.
Do
outro lado do matagal, ficava o rio. Estava escuro e
silencioso,
como devem ser as águas em hora tardia.
Somente
um leve rumorejo saía de sua garganta aquela
instante.
-
Que é aquilo? - indagou Teodoro Bezerra levantado a
cabeça
do mato.
-
É a bruma de que lhe falei. Dá uma neblina baixa por
aqui
que a gente nem consegue ver a outra margem. Mas
escuta!
Teodoro
prendeu a respiração para escutar. Deu mais um
passo,
ficou lado a lado com Feliciano.
-
Está ouvindo? - indagou-lhe este num murmúrio.
-
Nada. Que é?
-
São elas. Estão chegando.
Feliciano
deu mais três passos e seus pés ficaram a
outros
três da beirada da água.
-
O que estão fazendo? O que estão fazendo? - quis saber
Teodoro
puxando a manga do casaco de Feliciano, que se
rasgou.
-
Estão cantando, o senhor não ouve? E dançando, o
senhor
não vê? - respondeu Feliciano.
-
Eu não vejo nem escuto nada!
-
Precisamos nos aproximar mais.
Teodoro
Bezerra viu Feliciano avançando em direção a
água
com os pés nus e temeu o pior. Pensou em ir atrás
dele,
mas olhou suas botas e achou-as muito novas para
enfrentar
aquela beirada de rio. Gritou:
-
Venha para cá! Vamos embora daqui! Não tem sereia
nenhuma
neste lugar.
Mas
o pobre diabo já entrava fundo no rio, a ponto de
ser
impossível ver sua cintura.
-
Volte aqui! - gritou Teodoro, mas foi em vão.
Viu
ainda o resto do corpo de Feliciano envolto naquela
névoa
toda, e seu falar arrastado de bêbado quando
disse,
muito distante:
-
Não lhe disse, seo Bezerra? São lindas, e há tantas! É
uma
terra de fartura, seo Bezerra. Só de fartura.
Foram
também as últimas palavras que Teodoro ouviu do
infeliz.
Depois a névoa envolveu tudo e o silêncio
voltou
a pairar sobre a superfície das águas.
O
que se sabe do depois? Do depois sabe-se que Teodoro
Bezerra
voltou para casa, deixou as botinas secando para
o
lado de fora, entrou, deitou-se e dormiu. Então que, a
partir
daí, deu de ficar louco.
E
louco, louquinho de pedra. Falando abobrinhas pelos
lugares,
dizendo uma qualidade de coisas tão sem sentido
que
acabaram por achar que estava bebendo tal qual o
pobre
Feliciano, desaparecido desde há tempos.
Sim,
porque nunca que encontraram nada daquele infeliz.
Não
que houvesse muito que encontrar dele. Sumiu-se como
névoa
que se espalha.
Sobrou
Teodoro Bezerra, andando que nem pedinte na rua,
oferecendo
o que tinha na hora a quem passava. E não
havia
quem recusasse chapéu, cordão ou botina de Teodoro
Bezerra,
tudo da melhor qualidade.
Então
deu de falar umas coisas que ninguém entendia. Um
assunto
de rio, de bota, de sereia. E que tinha sereia
no
rio, sim senhor, que sereia dava no rio de madrugada
igual
peixe no quebranto da manhã, sim senhor.
-
Que tem, tem. - dizia ele - Eu é que sou meio cego
para
essa gente da outra margem, não é igual ao compadre
Feliciano...
E
todo mundo ficava espantado de ver Teodoro Bezerra
chamando
aquele infeliz, onde quer que estivesse, de
compadre.
Uma coisa que nunca se havia de pensar...
E
a sandice de Bezerra se completava com:
-
Aquele sabia viver.
O
fato é que, numa manhãzinha de Sexta, um pescador lá
dos
lados do Engenho Velho descobriu Teodoro, emborcado
de
bruços, na águas do riozinho. Então um rapazola, que
estava
por aqueles grotões em hora suspeita com moça
insuspeita,
confessou tê-lo visto caminhando na direção
do
rio. Quando interpelou-o do que queria por ali aquela
hora,
Teodoro disse:
-
Vou lá buscar uma sereia para mim. - e mostrou-lhe a
rede
que segurava firme na mão.
-
O senhor vai pescá-la? - o rapaz se espantou.
Mas
Teodoro não respondeu coisa alguma. Parece que
continuou
seu caminho, cegamente, sem jamais saber de
sereia
alguma.
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