Ouro de Tolo

 Diva Sepúlveda

 

 

 

 

 

 

 

 

[Conto para análise #0102]
[Autora:
Diva Sepúlveda]
[Título: Ouro de Tolo]
[Gênero: Fantasia]
[Número de Palavras: 2.000]

 

1

David sempre apreciou defender os interesses de pessoas boas. Ingressou na Ordem dos Cavaleiros da Bretanha, onde alcançou ainda jovem o posto de comandante, sendo enviado para uma pequena vila localizada na fronteira bárbara, para comandar as tropas locais. Depois de muitos anos servindo fiel e devotamente à ordem, David decidiu estabelecer-se naquela povoação que tanto ajudara a defender e tanto sangue vira derramar.

Pensando nisso, noutros tempos menos cruentos, embora ainda pródigo em aventura, construiu para si um pequeno forte em um outeiro próximo à vila.

Finalmente o bom guerreiro também investiu noutras coisas,conseqüência natural duma vida dedicada às causas nobres, passando a ver o seu lado, daí casou-se e abandonou a Ordem de St. John, apaixonando-se pela terra e o cultivo da mesma. Todos que o conheciam lamentaram seu afastamento abrupto, mas respeitaram sua decisão.


2

Numa noite sem luar, propensa a todo tipo de perigos, alguém batia de forma desesperada a aldrava da porta da residência dele, tirando-o de um sono povoado de sonhos. Ele e a esposa acordam assustados. Abriu a porta e deparou-se com um jovem soldado da cavalaria real clamando por socorro, o sangue fluindo de vários ferimentos provando que a urgência era necessária, senão vital.

David questionou o ocorrido enquanto armava-se de sua espada e escudo, retirando-os de sobre a lareira, onde sua idéia inicial era deixar que ficassem para sempre, tornando-se elementos da decoração do pequeno e aconchegante castelo.

Reconhecendo em David o valoroso combatente de anos atrás, o soldado ferido não temeu narrar o ocorrido, sendo convencido a aceitar um caneco fumegante de vinho.

- Capitão David Cruzade, a Caravana do jovem rei foi atacada por quadrilheiros, com o intuito de saqueá-lo ou coisa pior, impedindo assim que a Bretanha continue sua predestinada dinastia. Acredito que esses biltres tenham sido enviados pelo odioso ministro, interessado em tomar nossa amada Bretanha para si e seus seguidores, sendo lacaio dos espanhóis.

- E onde está o jovem William de Ville, soldado?! Conseguiram pegar o rei?

- Não, senhor! Consegui fugir com ele, enquanto os guardas lutavam com os malfeitores. Escondemo-nos em uma caverna, que descobri por acaso no meio da mata, mas na fuga nosso William feriu-se, não podendo mover a perna direita. Ficamos por muitas horas escondidos. Quando saí não vi sinal dos bandidos, apenas os soldados da cavalaria real, mas todos estão mortos, senhor. Todos!

- Vamos ao resgate! - rebelou, gritando David, fechando a porta as suas costas, não antes de recomendar a esposa que não abrisse a porta para mais ninguém.

Aproveitou para recomendar aos serviçais maior atenção e cuidado.


3

No pequeno forte no outeiro de Castle Rock, em Burmingham, David tinha acabado de retornar de sua tresloucada jornada. Estava esgotado, mas saíra vitorioso, trazendo com ele o rei, que ora repousava no melhor quarto.


Com a luz da lua derramando-se pelos vitrais, o ex-capitão, sua esposa e Íris, a filha adolescente do casal, conversam, enquanto o soldado insistia em montar guarda no andar de cima, a despeito do patrulhamento externo ter sido reforçado.

Íris, jovem loira de rara beleza, corria de um lado para outro na sala, contornando a mesa montada sobre cavaletes, implorando ao pai que lhe permitisse dar uma espiadela no monarca, tendo sempre um não como resposta.

Fingindo sono, a ardilosa adolescente tentou um novo estratagema, dizendo aos pais que voltaria a dormir, porém seu destino era outro totalmente diverso.

A ala da casa em que o hóspede estava acomodado era a mesma onde se situava seu quarto, por isso não foi difícil ludibriar os pais.

Íris, não contendo o impulso irresistível de conhecer alguém de sangue azul, logo o mais fidalgo de todos, resolutamente abriu a porta do aposento a ele destinado, acessando-o por uma quarto contíguo, burlando o guarda que bancava o cão de caça, vigilante, escorado à porta.

Lá estava ele, desperto, e por isso Íris não esperava. Foi impossível evitar que seus olhares se cruzasse e o impacto foi mútuo, apesar do fugaz momento. Logo, por força de sua educação, ela bateu em retirada, venho o jovem trigueiro em roubas de baixo; envergonhada, deixou a porta aberta atras de si. Seu coração parecia saltar-lhe do peito.


4

Subindo a grande escadaria que levava à torre do segundo piso, David também procurava a presença do herdeiro do trono bretão. Percebeu a correria da filha, passando corredor acima, mas não a interpelou. Tinha coisa mais importante para dizer ao hóspede que, apesar de ser chamado de Rei, ainda não fora devidamente coroado.

Pedindo autorização, adentrou nos aposentos que até ontem fora ocupado por ele, sem saber que sua filha tinha bancado a enxerida.

- Alteza, já enviei um mensageiro ao seu reino, para que uma tropa venha resgatá-lo - vendo que o rosto dele se alterava ligeiramente, como que lendo em suas feições a preocupação, completou: - Mão precisar temer, majestade. Enviei a mensagem diretamente a um velho amigo do comando; ele é de absoluta confiança. Prometo que nada acontecerá ao reino da Bretanha. Meu lord continuará sua dinastia!

Mas o jovem tinha um semblante desatento. Percebendo o que acontecia, David questionou, preocupado com sua saúde ou algum desconforto, talvez por suas instalações não terem nada da suntuosidade do tipo que estava acostumado.

Tendo a perna ligada, ainda em roupas de baixo, o futuro rei procurou desfazer qualquer desentendimento:

- Não, sir David. Estou bem, ou pelo menos acredito que esteja. Apenas aconteceu algo comigo que mudará parte de meus planos e meu destino. Como você demonstrou ser leal e de confiança, vou lhe fazer uma confidência: caso concorde, deixarei meu tesouro contigo, e no momento certo você o levará a mim.

David, orgulhoso, de ter sido escolhido como confidente e guardião do tesouro
do rei, seja lá aquilo que significasse, pois não tinha com ele nada além duma pequena arca, concordou imediatamente. Embora estivesse feliz com a vida que escolhera, sentia um pouco de saudade de seu posto e trabalho na Ordem. Era uma forma de reviver os velhos dias de bravatas e camaradagem.

E o tempo passou...

5

Corria em todas as bocas a notícia de que o novo Rei da Bretanha seria coroado em breve e que neste ato, aproveitando a presença do Bispo, ele também aproveitaria a ocasião solene para pronunciar-se em relação a um casamento, o que ajudava a consolidar sua posição e fazia a dinastia rejubilar-se. Por seu turno, David não entendia o fato   do rei não ter mais procurado por ele. Sendo discreto, ficou aguardando qualquer pronunciamento, mas no fundo achava que o rei havia esquecido do que fora proposto e confidenciado naquele longínquo dia. David, noentanto,cumprira a palavra empenhada. O tesouro continuava guardado, e ninguém, a não ser o rei, tomaria posse do mesmo!

Faltando apenas 11 dias para a coroação, o ex-capitão da Ordem recebeu um enviado do rei com a seguinte mensagem:

"Meu caro guardião, chegou o momento esperado. Traga-me o tesouro. Irei usá-lo em meu casamento. Não permita que nada impeça esta tarefa. Conto contigo para o sucesso de minha coroação. Se preciso for defenda meu tesouro com a própria vida!"

David saiu às pressas em busca de alguns serviçais que o acompanhariam até o reino. Deu ordens, embalou tudo que ia levar e precisar na jornada. A filha o acompanharia até o reino. Embora David achasse a viagem perigosa, entendia a importância que tinha para uma jovem um casamento real.


6

Depois de dois dias de cavalgada, David decidiu parar um pouco para dar descanso aos animais e a eles próprios. Percebia nuvens escuras e aquilo poderia retardá-lo. Por isso sabia que não poderia ficar parado por muito tempo; uma chuva atrasaria em muito sua missão. De repente ouviu um murmúrio e mal teve tempo de tocar o cabo de sua espada quando foi impedido por um homem forte, de feições determinadas, que o interpelou. Era uma gang de malfeitores, concluindo uma tocaia. O cheiro do líder e seus comparsas era nauseabundo:

- Vejo que está cansado, homem! Vou aliviar você e sua pequena comitiva de todo peso supérfluo.

Das palavras à ação, ordenou a seus homens que vasculhassem a carga em busca de qualquer coisa de valor, sem que encontrassem coisa alguma. Quando retirou da cintura de David a pequena burra onde ele carregava as poucas moedas destinadas ao seu sustento e dos seus, encontrou a carta do rei.

O saqueador riu ao ler a mensagem.

- Vejo que meu tempo não foi perdido em vão. Acha-me tolo? Onde está o tesouro, homem? E não tente enganar-me novamente ou sua vida não valerá nada!

- Mas, senhor... - David tentava dizer alguma coisa, porém foi interrompido.

- Rápido, se preza pela vida dos seus. Não posso esperar a vida toda!

Um trovão seguido de raios cortou o céu. Sentindo que o silêncio de David poderia ser mais longo que o esperando, o saqueador fingiu desistir, abandonando-os no meio do temporal que aproximava-se. Ordenou a um de seus homens que os vigiasse sem ser visto, e foi procurar um abrigo.

David não podia perder mais tempo. Vestiram todos pesadas capas protetoras e seguiram rumo ao castelo, sendo seguidos de perto pelo olheiro do malfeitor. E a chuva passou a desabar torrencialmente. Durante três longos e molhados dias a caravana seguiu sob o forte temporal, sem contudo interromper a jornada, parando apenas para breve descanso dos animais e para alimentarem-se.

No sexto dia, todos estavam exaustos e encharcados até a alma. Duas montanhas tiveram de ser sacrificadas. O desânimo era generalizado.

Nisso o sol surgiu tímido, refletindo nas águas do rio pelo qual precisavam atravessar. A ponte estava praticamente coberta pelas águas. Mesmo assim David arriscou-se e avançou. O cavalo da jovem Íris escorregou e ambos caíram na água. Ao longe, ouviu-se o barulho de uma queda d'água. Desesperado, David saltou atrás da filha. Conseguiu alcança-la, mas não encontrou nada em que pudesse agarrar-se. Nesse momento um de seus homens gritou para que ele segurasse a ponta de uma corda que acabara de lançar. A primeira tentativa resultou em nada. David e Íris começaram a ser arrastando pela correnteza. Na segunda tentativa, David conseguiu segurar a corda, que amarrada ao cavalo, começou a arrastá-lo para fora do rio.

Não muito longe, em posição privilegiada, o saqueador observava.

Teria intervido se precisasse, pois sua intuição lhe dizia que aquele homem lhe renderia alguns milhares de moedas de ouro. Refeitos e secos, seguiram seu caminho.


Já se foram 10 dias de caminhada... O destino estava próximo.

7

Cansado de esperar, e já vendo as muralhas do reino, o saqueador decidiu aprisionar e torturar David e seus homens, certo de que assim o homem revelaria finalmente onde escondera o tesouro, embora não entendesse onde pudesse estar escondido.

Neste momento David percebeu uma gigantesca ave de rapina voando em sua direção. Mas o alvo de ataque era a jovem Íris, que, surpreendida, gritava, enquanto garras afiadas esfarrapam seu vestido e tentavam feri-la mortalmente.

David saltou sobre a filha com a grossa capa que carregava, obrigando o falcão a picar na direção do céu, sumindo nas nuvens. Íris estava mais assustada do que ferida. O pai a enlaçou com carinho. O saqueador retardou sua decisão de atacar novamente a caravana de David, mas continuou à espreita.

- Calma, minha filha. Nossa jornada está chegando ao fim. Ao cair da noite já estaremos no reino da Bretanha e nada mais poderá feri-la.

E a noite caiu.

Faltando apenas pouco mais de um quilometro para atingirem os portões, a caravana foi novamente barrada pelo saqueador e seu bando.

Sendo um homem que gostava de desafios, o líder dos saqueadores ainda
tentando decifrar o mistério do tesouro do rei, fez a seguinte
proposta a David:

- Homem, você me diz onde leva o tesouro do rei, essa montanha de ouro que ele deixou com você, e o deixarei seguir em frente. Melhor ainda, o escoltarei até os portões do reino.

David sorriu.

- O tesouro? Tentei dizer antes, senhor. O tesouro é minha filha!

   

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